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O amor se constrói ou é construído?

 Rafael Vendetta

Parecia-nos que nosso momento já tinha passado. E por mais que nos esforçássemos para tentar repetir aquele momento mágico de quando nos conhecemos e de quando nossos olhos brilhavam, parecia impossível viver e sentir a mesma coisa. Fazia anos que não nos encontrávamos. Já estávamos demasiadamente duros, como um casco de navio cheio de cracas emocionais, mas cujo capitão, ainda crê que o navio é novo e as águas são tranquilas. Mas vivíamos numa tormenta, apesar de aparentar tranquilidade. O mundo tinha pisado em cima de nós.

A vontade era reviver um tempo que já passou, mas nada voltava do mesmo modo e nenhum de nós podia dizer que havia o mesmo jeito de amar, chorar, viver.

Eu chorei quando ela disse que sempre se lembraria de mim, porque percebi numa análise rápida de discurso que ela falava no pretérito. Eu já tinha passado. E eu a entendia. Pois quando a coisa passa, vamos arquitetando internamente as nossas respostas do porquê não ter dado certo. Vamos tecendo fio por fio, até formarmos algo que cubra aquele abismo aberto de mais uma decepção. É um mecanismo de proteção. Mas tal proteção é frágil. É um vestido que tem a concretude de uma obstinação, mas obstinações vem e vão e podem se romper quando a gente encontra a vontade vermelha assim, num domingo, num sábado, numa sexta, ou num dia de semana por acaso. E aí o vestido vai se rompendo, vai ficando frágil, enferruja ou apodrece. E os abismos passam a ser cobertos com band-aids. E passa a doer a beça. Dói demais.

É aí que uma parte de você, uma parte verde, pensa em recomeçar. Em acreditar de novo e de novo.

Ela continuava a falar, minha parte verde resistia e quando subitamente deixei meu outono sair, as lágrimas rolaram até encontrá-la em meus braços. Depois o que se deu foi como um mecanismo interno de negação do absurdo: tiramos parte da roupa – como se estivéssemos de férias na praia (do nosso passado) – ficamos abraçados dançando, tomando cerveja e beijando um ao outro como se aquele passado tão bonito pudesse voltar. Ela disse que eu a atraía. Eu disse que ela estava linda.

Esquecemos tudo. Éramos apenas duas pessoas.

Liguei o abajour vermelho e ela tocou minhas costas com a ponta dos dedos ; eu fazia uma confusão dos diabos e esperava um sinal da vida dizendo: “fique tranquilo que sua hora chegou”. Mas nada chegava, pois as coisas tinham nome mas não davam ordens, apenas chegavam e chegavam sem pedir licença ao mundo e sem ao menos dizer com que propósito vieram. Alguns achavam que tudo podia vir depois de algum mecanismo desconhecido. Imaginavam que o amor chegava depois de sete ou oito fracassos (algumas pessoas contavam em números pares, outras em números ímpares, primos, cada um tinha sua regra). Existiam aquelas que acreditavam que seria uma viagem, ou o fim de um ciclo que resolveria tudo, mas para pessoas como nós, estrangeiros emocionais, os ciclos eram sempre repetitivos, nunca acabavam: esse era nosso tormento. O que dizer daquela gente que pensava que a sua vez tinha chegado por que as coincidências coincidiam e buscavam nas revistas, na música, nos rodapés das conversas ou na forma de fazer alguma coisa, um sentido que dissesse: essa é a pessoa certa? E havia? Uns pensavam de modo mais caótico: era um sentido que parecia não ter sentido, mas tinha. “Amanhã eu me formarei: terei meu amor? Hoje fiz 29 anos: terei meu amor? Mudei de alimentação, religião, de hábito ou de vida: terei meu amor? Hoje acordei desse modo, sonhei desse jeito, pensei daquela forma: terei meu amor?”.

Mas para as estrangeiras e os estrangeiros o sentido não era dado de antemão. E eu não fazia ideia de como iria organizar aquilo tudo, jogado, como um quebra-cabeças emocional sobre a mesa. Invejava quem via sentido em tudo. Quem pegava o sentido já construído, como se pega uma fruta no pé e dizia: agarro isso com toda a minha vontade, esse é meu destino afetivo. No meu caso não. Achava sempre que o sentido era construído, como um jogo de armar ou um lego emocional. O problema é que as peças raramente se encaixavam e eu não sabia geralmente, nem onde tinha guardado as peças. Não conseguia construir nenhum amor e ficava sofrendo o atrito entre construir um ou esperar ser construído por ele.

E mesmo assim, dormímos abraçados e esquecemos parte do mundo. Isso não impedia a vida de passar. As perguntas ficavam sem respostas. E no outro dia, assim, quando ela se fora, eu vivia os dias como um pedaço cinza oscilando entre o verde o vermelho. Esperava alguma coisa decidir por mim. Mas nada nem ninguém decidia. Sempre fora assim. Eu tinha todas as contradições do mundo. E ao fim do dia eu não pensava, mas um pedaço de mim dizia, como ferrugem corroendo meus dentes: O amor se constrói ou é construído?

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Quando ele achou que conheceu a ruiva

Rafael Vendetta

Eu saí sem rumo, andei a esmo, e finalmente encontrei um bar.

Mas não qualquer bar. Eu sentia que aquelas paredes de tijolos cinzas iriam me fazer esquecer o chute que eu tinha tomado em Alcabar. Aquilo não fazia mais sentido. Eu já tinha tomado outros chutes. Sabia reagir. Mas tem uma hora que a gente baixa a guarda e foi assim que eu fui golpeado sem perceber. Ela me apresentou a família e me olhava de um jeito que parecia que iria me amar no futuro; mas eu errei. Era apenas o jeito de alguém. E o jeito de alguém não se decifra, se aceita.

Eu entrei e você estava lá. Você tinha maquiagem no rosto. Estava mais velha. Mas eu não me lembrava de você mais nova e isso foi maravilhoso. Você usava um batom vermelho e tinha um bloco de papel na mão. Você parecia não se importar com aquela noite, apesar dela ser a noite mais importante dos meus últimos dias. Você aparentava desprezo e foi esse ar de descarte que me fez entrar.

Eu perguntei se o bar estava fechando. Meu francês era ruim e você ficou irritada com aquela pergunta, porque parecia óbvio, mas não era óbvio, para mim, um estrangeiro, que mal conhecia o ordinário, quiçá o supreendente. Eu sentei perto do balcão e tomei cerveja rubia. Estava vazio e eu achei que iria me deprimir com aqueles vinis velhos.

Eu cansei daquilo tudo rapidamente. Por um momento achei que iria me vencer, abrir a porta e sumir, deprimido, mas eu mudei de ideia e me aproximei de você. Eu puxei assunto sobre como ser um estrangeiro era difícil naquela cidade de luzes coloridas. Era papo furado, mas você aceitou e sorriu com o canto da boca.

Aquele sorriso iluminou minha noite cinza.

Você me pediu para eu esperar, porque você tinha de servir a outra mesa. E eu tirei dos bolsos um papel com uma poesia que eu tinha anotado no final da noite retrasada, mas quando você chegou eu guardei, porque não queria mostrar fraqueza.

A gente trocou olhares e eu esqueci todo aquele mundo maluco, onde a gente viaja sem saber bem porque ou por qual motivo e ao mesmo tempo recebe uns golpes do destino que pegam a gente no contra-pé da esquina. Como os golpes que eu recebi na semana passada e ainda assim fazia como o kung fu, ou fingia que não doeu ou revidava, que era o que eu sabia fazer (muito mal).

Você andou de um lado para o outro e o bar foi formigando, com gente saindo e entrando, até que às 03h tudo foi ficando devagar. Você disse para eu esperar e sumiu. Eu acreditei que você voltaria e fiquei com medo de tudo dar errado, pois era comum eu pensar que as coisas davam errado na minha vida. E um cara que trabalhava no balcão deve ter percebido isso, pois ele voltou e me disse que iria fechar. E eu achei aquele cara, o rosto do mensageiro da morte. Não sei porque pensei nisso. Mas eu pensei: porra esse cara vai fuder meu dia. Mas depois me bateu a sensação de que na verdade ele estava no ritmo da vida ordinária e haveria um dia pra ele, bem especial, que ele estaria no meu lugar.

Ele continuou a me empurrar pra fora e eu resolvi sair, mas decidi esperar lá, ainda com minhas paranóias guardadas no bolso, até que tu saiu, com teu casaco vermelho e tudo acabou. Eu percebi que o cara não era o mensageiro da morte, era só um cara, querendo descansar e dizendo pra mim que amanhã teria The Smiths e que eu deveria voltar pra minha espelunca de quarto, escrever, tomar vinho e dormir.

– Vamos sair?

 -Pra onde, perguntei.

Talvez para lá, tu apontou.

Andamos com cheiro de sabão-maduro e paramos num bar, perto de um lugar que eu lembro o nome mas não quero dizer. Chegamos lá e entramos. Era uma espelunca, com mesas de madeira com toalhas vermelhas mas tinha vinho barato, E aí tomamos aquele vinho barato e eu pensei em te beijar, mas falamos de tudo antes de eu pensar em te beijar de verdade: de psicoterapia, de júlio verne, de como o Chile era diferente, de como a vida de garçonete era difícil, da crise econômica e dos cornópios de Cortázar. Depois saímos e estava muito frio (para mim). E de repente comecei a pensar que talvez tudo aquilo fosse acabar e não daria certo (eu sempre pensava isso).

Você foi andando e ainda tínhamos a garrafa de vinho nas mãos. Estava muito frio, tu me aquecia, mas eu não pensei em nenhum momento em agir, pois eu queria que agíssemos juntos. Andamos e tu ria do meu frio. Falava: – Respira mais fundo, respira. E ali eu achei que ia te beijar, porque eu tinha a imaginação de poeta. Mas não aconteceu.

De repente paramos numa banca de jornal e olhamos para aquele monumento iluminado. Eu voltei a colocar as mãos nos bolsos. E me lembrei do anjo da morte mais uma vez. Aí tu falou que iria embora. Eu disse que tudo bem. Mas aí tu voltou e me beijou.

Tu me perguntou se eu queria ir pra tua casa. Eu disse que seria ótimo, mas que eu tinha tomado um chute recentemente e que eu não me sentiria na obrigação de nada. Foi difícil dizer isso, pois além da minha hesitação, o idioma não ajudou. E tu começou a me esgrimar e eu caí no teu jogo de armar. E tu me esgrimou tanto, que eu, com meu francês precário, não conseguia explicar o porquê de um chute de alguém que eu conheci por três dias, fazia tanta importância a ponto de não conseguir lhe amar. Mas de fato era assim.

Aí tu riu e pediu um táxi (isso foi cruel).

Eu não saiba o que fazer. Achei que o melhor era ir embora. Tu abriu a porta do táxi. – Entra seu bobo.

Eu entrei. E ainda não acreditava, porque o anjo da morte tava ali, sentado ali do meu lado, dizendo que não era verdade. Tu mandou o taxista me deixar na minha espelunca e na tua casa. Eu achei que tinha terminado, aí conversamos durante cinco minutos quem iria para onde. E o taxista não riu, mas eu achei que ele riria, porque onde eu morava era assim que os taxistas se comportavam. Até que tu me beijou e eu entendi tudo. Tu mordeu meu lábio e ali tudo se apagou, o anjo sumiu e eu parei na tua casa. E esqueci tudo, o chute, o idioma e nossas línguas se entrelaçaram. E tu disse que achou bonitinho eu dizer que estava com medo, mas eu não planejei nada, eu apenas estava com medo mesmo (eu não sabia que isso era bonitinho).

Eu te amei ali naquele dia e nos deitamos nus, naquele frio, num quarto de madeira, com teu sapatos vermelhos e os meus azuis no chão, um par ao lado do outro. E nós, nos aquecendo (10 graus) sob uma janela estreita que dava para um lugar cheio de galpões. Tinha gente passando de um lado para o outro às 5h da manhã. Eu acendi um cigarro, te abracei e nos beijamos com força.

E do nosso encontro sobrou tudo. Ficou uma memória linda de uma noite ruiva. E estranhamente eu não esperei mais nada do outro dia, apesar de ter vivido aquilo com tanta intensidade, que me perguntei se aquilo tinha realmente acontecido. 

Fizemos isso durante 4 dias, num lindo eterno-retorno, até o dia que eu fui obrigado a sair. Eu não olhei pra trás. Não prometi nada. Tampouco disse que iria retornar. Peguei minha mala vermelha e segui. E de repente, todo o peso do passado se dissipou. E eu só conseguia olhar para frente.

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Quando acordamos

Rafael Vendetta

Acordamos e tocamos os nossos lábios. Depois passei a mão nos teus cabelos castanhos (sim, estavam castanhos) e você espreguiçou, deixando minha boca percorrer teu pescoço, enquanto os raios de sol entravam pela cortina.

A vizinha cantava ao lado e eu perguntei se era assim todos os dias. – Só quando ela está feliz. É isso ou o canário belga. Nos abraçamos por debaixo das cobertas e o tempo tinha parado. Eu não me importava com nenhum tipo de compromisso, meu compromisso era aquele abraço. Nossos olhos tinham se encontrado; tu com aqueles teus lindos olhos grandes e que me espreitavam até enxergando meus sonhos e que conseguiam me despir assim, de uma só vez e eu ali, costurando corações de papel imaginariamente. Recortando você devagar, enquanto encolhíamos nossos pés para dentro da coberta.

Tudo aquilo foi efêmero, mas preencheu de significado meus meses durante tempo o suficiente para eu saber que não era o budismo de banca de jornal, os combates de rua, a política internacional ou a teoria dos fractais que me davam sentido por aqueles dias, mas sim ruiva, te tocar, com a ponta dos meus dedos dançando pelas tuas costas, enquanto eu beijava teu corpo e segurava teus quadris com força. Tu colocava o café e eu esperava deitado, olhando para o teto, me escondendo do frio, mas pensando falsamente nas coisas que eu teria de fazer no dia. Era mentira. Eu fazia isso para acreditar que aquilo lá, aquele pedaço de mundo vermelho não era tão importante quanto eu achava, quando na verdade eu sabia que isso organizava muita coisa ao meu redor. Como uma núcleo de afeto que vai organizando as partidas de futebol, a ida na padaria, os sonhos, a vontade de sair e panfletar, os poemas escritos em algum banheiro ou aquela viagem no final do mês. Até o modo de fazer a mala, onde eu carregava como um estrangeiro meus afetos perdidos, voltava naquele dia.

Tu me perguntou se eu queria chá. Eu, embaixo do chuveiro, disse que não, só se fosse de hortelã. Tu voltava com a chícara nas mãos. Conversávamos sobre sobreviver, sobre qual era o melhor lugar para comprar hortelã, ríamos sobre alguma piada da noite anterior ou simplesmente fazíamos isso tudo ao mesmo tempo (embaralhados) enquanto eu mordiscava teu pescoço. Tu passava a mão na minha cabeça. Acordávamos para o mundo.

Era preciso golpear o cotidiano e a rotina cinza sem piedade. E fazíamos isso, exatamente quando esquecíamos da rotina e nos concentrávamos em nós. Era um segredo vermelho só nosso, que não era fácil de fazer, pois exigia dois espíritos livres. Isso era diferente de ter de acordar sozinho. Onde eu fazia café e só podia olhar para a chaleira, fumegando meus sonhos do dia anterior. Era aí que pensava na psicanálise. Que se dane a psicanálise.

Se eu tivesse um núcleo vermelho de afeto, não estaria ali, com dificuldades para decidir se tomava café ou hortelã, porque saberia de imediato que tu iria me perguntar isso e decidiríamos juntos.

Quando eu ia embora e era sempre no fim da manhã, eu fingia que as minhas urgências eram mais importantes que aquilo tudo: o toque das mãos, os beijos, os arranhões que deixavam pistas ou mesmo, aquele bilhete lindo, que escrevi para você e larguei em cima da cômoda: “o hortelã tem gosto dos teus beijos”. Mas não. Era preciso mudar tudo. Eu olhava aquele sofá cinza, minha velha estante de mogno e a sexta-feira dizia: hoje tem psicanálise. Os panfletos e textos deveriam cobrir os abismos, mas eles só grudavam na pele, enquanto o que eu desejava, era aquela rotina, cuidadosa, vermelha, precisa. Solta, efêmera, casual, mas linda nos detalhes.

Não era fácil acordar. Há um sonho vermelho que não me deixa dormir.

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Um Sonho Terrível

Rafael Vendetta

Que sonho terrível.

Eu andava por uma estrada cinza. Era outono. As folhas caíam. Folhas de várias cores, mas a cor que evidenciava meu coração era o amarelo. Eu andava pela estrada. A estrada estava vazia. Nenhum carro. Aquele asfalto negro, úmido e um vento frio (não tanto). Nada. O som: apenas dos pássaros, ao fundo, nada que me tirasse a concentração de andar.

Cheguei a ver um ou dois roedores. Lagartas, pedras com limo e um pardal, comendo alguma coisa, antes de perceber que eu estava ali, e então desapareceu. Foi então que eu percebi quanta energia eu apostei naquilo tudo. Em você ruiva, antes de você sumir. E mesmo assim, eu estava ali, querendo tomar café e sentar numa mesa de madeira confortável, esperando você entrar de repente naquele restaurante agradável de beira de estrada. Mas não.

Mentira. Alucinações e imaginação sempre acompanham a caminhada. Não era nada. Aquilo era só um desejo que virou pintura, que virou a descrição do que eu queria fazer, não do que era. Isso é uma tendência. O pardal só estava lá para comer e voar. 

Mas eu, eu, cheio de débitos com o futuro, já imaginava que o pássaro me mandou um recado. É assim ruiva. É assim que funciona. A gente quer encontrar sinais onde só há vida. E a vida é uma mó, é um moinho que esmaga o que passar adiante. A vida não manda recados. A vida é natureza. E a natureza não brinca de oráculo. Ela só se move, como um granito. Como eu, caminhando ali, naquela estrada, sem cigarros. 

Sentei pra descansar num banco de madeira velho, com algum mofo branco em um dos pés. Era um banco sem sentido, cheio de folhas mortas ao seu redor e que ficava perto de uma ponte. Quem iria querer sentar perto de uma ponte? Quem foi que construiu aquilo ruiva?

Eu sentei ali, estava úmido e eu não me importei. A mochila pesava, mas não tanto como você. Você pesava mais. Suas viagens, seus sorrisos, seu sumiço. Sim, isso pesava muito mais. Teu desprezo pesava mais do que a minha mochila e acredite, acredite, minha mochila pesa bastante. Foi nesse momento, de abrir e fechar a mochila, como se dali, fosse sair algo que me dissesse: “continue, acredite, você vai chegar lá”, que eu reivindiquei a minha dor do mundo. Eu reivindiquei toda dor e não adiantou muita coisa, para ninguém, pois não tinha ninguém ali. E só eu sei, só eu, ruiva, que aquilo fez todo sentido e eu tive de sentar e olhar para o céu. Eu larguei a mochila, catei uns pedaços de madeira (velhos), me agachei e não sei por que diabos, voltei, fechei a mochila e continuei a andar. No banco haviam nomes. Corações. Iniciais. Riscadas a canivete.

Que violência.

Eu me pus a andar. Segui, atravessei a ponte, como um granito. E andei, andei, andei. Andei demais, sem saber onde começava o ponto final. E no meio do caminho eu tropecei e caí. Foi uma queda feia. Eu ralei as mãos, os cotovelos e bati o joelho com força. Isso tudo por que tentei descer e encher meu cantil numa fonte. Fui pelo lugar errado.

Não tinha mais forças. Parei e desisti. Pensei em morrer ali, esquecido. Mas meu ferimento não era tão grave. 

Eu queria ficar ali. E os pássaros gritavam com mais força, mas pássaros não gritam. Eu estava deitado. Depois de uns 20 minutos (talvez mais, eu não sei bem), um som na estada. Era um carro. Eu escutei algo parar. Escutei som das portas. E eu lá, deitado, olhando para o céu. Que lindo céu. Escutei e levantei. Meus joelhos doíam. Escutei o carro acelerar novamente. Eu corri, mas não vi nada.

Continuei a seguir pela estrada. Foi ali que comecei a chorar. Amarrei meus cadarços. Peguei um pedaço de madeira e me apoiei. Os joelhos doíam. Eu segui. Caminhei sem olhar para cima.

Um carro deu ré. Eu parei. Era um carro azul, velho, mas inteiro. O carro atravessou a pista de ré. A porta do carona se abriu. Era você. Você disse: entra aqui. vem logo.

Palavras carinhosas. Era você. Eu te achava linda, mas ali só tive tempo para sentir dor no joelho e te achar pálida. Teu cabelo estava mais liso e foi assim, que eu caminhei até ti.

Você falou mais alguma coisa. Disse que eu teria de seguir. Disse que eu teria de seguir sozinho. Eu disse que entendi, mas era mentira. Eu dizia aquilo, pois não queria que você perdesse tempo comigo.

Nos despedimos e eu continuei a andar. E achei que ia chorar.

Mas meus joelhos não doíam mais. Eu segui, como a natureza, como um granito, um mó, rumo ao destino. Eu me pus a andar.

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naohaestrada

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Teu jeito de lidar com o mundo

Rafael Vendetta

Você foi uma idiota, eu fui um idiota. Mas somos idiotas diferentes e com motivos distintos. Eu devia ter te falado que te amava, mas nunca disse. Sempre insinuei é verdade. Traduzi meu amor com meu corpo, minhas cartas (sim eu ainda enviava cartas), meus beijos e minha ilusão. Achei que você se comunicava da mesma forma que eu, mas eu estava errado.

Você tinha seu jeito próprio de lidar com a coisa. Eu me movia e pensei em comprar os livros do Neruda. Eu te dei os livros do Neruda. Confesso que não soou espontâneo, mas eu nunca fui tão espontâneo. Na hora me pareceu a melhor coisa a fazer . Achei bonitinho (e o fiz de novo, em menor grau, achando que funcionaria). Eu sempre reagia assim, falando o pouco, o necessário. Nunca fui tão longe. Mas minha ansiedade te amava. Você não percebeu? Eu te liguei tantas vezes. Eram tantos emails. Quando você ia tomar café longe de mim, eu me controlava e fingia-me liberto, mas eu estava lá, esperando você chegar. Dê-me um desconto. Eu não te vi mais. E na época nem falei tanto assim. Não sou do time dos obsessivos, pois você transpirava a tranquilidade dos amores justos.

Pense bem. Eu precisava fazer daquele jeito. Você não me viu mais. Não me ligou. Não me explicou. Não mandou nenhuma carta. Você também não tentou, diga a verdade.

E no meio de tudo, alguém passou de bicicleta, uma bicicleta cinza; eu não tinha cigarros no bolso, mas pensei em fumar. O café estava frio e eu segui, segui com os paralelepípedos emoldurando os corações inscritos no granito. Mas eu só tinha areia nas mãos e uma tarefa imprescindível a cumprir: mudar o mundo.

Então, o que eu tinha, o que eu tive? Eu tive um ou dois momentos de amar e eu joguei as fichas lá (não me julgue). Você tinha a certeza de si mesma. Tuas dúvidas não eram como as minhas. Minhas dúvidas eram profundas; eu tinha uma raiz que ligava meu coração com o compasso da vida.

E depois? O que aconteceu? Eu não sabia o que fazer com o que sobrou. Nunca fui bom em lidar com cacos. Meu problema é com o que sobrou. Não sei fazer mosaicos. Sei que não dá mais para existir ou voltar com a mandala, os livros do Neruda, com aquele encontro casual na fila do jantar. Sei que tudo passou e desmoronou. Desmoronou a ponto de sim, e aí tenho certeza, de que mesmo dando certo, algo terrível aconteceria (mentira, podíamos ter tentado, de verdade). Você se enjoaria. Talvez eu (duvido). Um de nós ia desistir (ia ser você, como sempre). Alguém ia viajar (ia ser você). Alguém ia falar que não daria certo pelo telefone ou pessoalmente (foi você). E no final você encontraria alguém, alguém para lhe suprir e eu viraria memória. Uma justa memória. Bonitinha e na embalagem mas inútil. Não serviria mais. Não serve mais. Mas foi bom para ti. Estou aí, nesse pedaço de mundo. Mesmo sem querer.

E como eu faria?

Eu buscaria outra coisa, mas não, eu só tive uma oportunidade. Desperdicei, desperdiçamos.

Eu fui um idiota. Não tentei tanto, mas esse era o meu jeito. Se eu tentasse demais ia dizer aos quatro ventos que tudo terminou por conta da minha insistência. Como eu não tentei, digo agora, que poderia ter tentado mais. É um paradoxo. No fundo, acho que tudo deu errado, pois era você, era você que tinha de decidir. E você, no momento decisivo fraquejou. Você tinha seu jeito de lidar com o mundo.

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Amar é como um fusível queimado

Rafael Vendetta

Não se morre duas vezes, mas eu duvido que possa se amar mais de uma ou duas.

Há um mecanismo, como um fusível queimado que não te deixa amar mais de uma ou duas vezes. Essa é a meta. Gaste bem seu amor, pois é assim que será. E minha experiência é que não, não sabemos como gastar, gastamos em princípio, logo com uma ou duas pessoas erradas e quando a realidade cai, não se pode mais retornar ao que era antes. E quando a gente quer trocar o fusível, descobre que já saiu de linha.

Não adianta procurar naquele conjunto de lojas simpáticas de eletro-eletrônicos, tampouco pedir para a fábrica enviar, pois as portas e as oportunidades já se fecharam. Você perdeu sua chance.

A solução é perambular pelos sebos, lojas de antiguidade, antiquários e lugares velhos. E foi assim que conheci minha supernova, andando de tiara nos fundos da Praça XV, com aquelas mesinhas desmontáveis e uma coleção de vinis velhos, esperando amor. Ela me perguntou se eu tinha um fusível reserva. Eu disse que já tinha perdido minhas fichas e ela me ensinou a fazer uma ligação direta do coração com o mundo.

– Pode doer na primeira vez. Mas depois que funciona, você não tem mais problema com isso.

– Tem algum efeito colateral, perguntei?

– Comigo apenas um, parei de pisar nas linhas das calçadas.

No primeiro dia eu não acreditei, segui como um rádio antigo, com a supernova nos olhos, tocando Johnny Cash no meu coração até que li um anúncio no jornal, que indicava que havia um fusível vermelho e verde à venda entre o Catete e o Largo do Machado.

Corri pra lá e fui atendido no balcão. Perguntei pelo fusível, disse que era urgente, pois precisava amar de novo. Ele disse que acabou de vender.

– Mas era o último da linha, protestei!

– Eu sei disso, devia ter chegado mais cedo, retrucou.

– O meu ônibus atrasou, dei azar.

– Todo mundo diz isso. O amor também precisa de sorte.

– E quem comprou?

– Uma menina com uma tiara verde na cabeça.

Saí pelo Catete sem rumo. Era um dia nublado e ameaçava chover. Resolvi cortar caminho pelo parque até o horizonte da praia e meu telefone tocou.

– Seu fusível está comigo. Era ela.

– E funciona, questionei?

– Quem sabe?

Desligou.

Fui embora com o peso no coração, mas não era um peso, era um vazio. E quando a chuva caiu eu recomecei a minha procura, mas sabendo – em determinado momento – que procurar era inútil, quando se sabia que um coração que amou uma ou duas vezes era um coração com um fusível queimado.

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Minha última sexta-feira no Catete

Rafael Vendetta

Acordei e fiz o que sempre fazia, lavar o rosto, escovar os dentes e depois colocar a água do café. Dormi mal, mas acordei bem. Porque o contrário sempre acontecia e eu estava feliz de ver algo mudando. A água do prédio tinha acabado e na noite anterior eu tinha jurado que ia sair de casa pelo menos uma vez, mas ia sair sem compromisso.

Depois de muitas semanas alguma coisa me aconteceu. Eu conseguia acordar e consegui dormir quatro horas. Na semana passada eu não acordei. Então fui até o Catete, aleatoriamente.

No caminho uma mulher entrou no ônibus (atrasado) e sentou do meu lado. Reclamou do atraso do ônibus. Eu não respondi, mas concordei com o olhar. Aí ela me perguntou se teve algum acidente. Eu disse que não, Ela respondeu que isso era um absurdo e que ela ia chegar na hora do almoço. Eu entendi, mas não disse nada, só apertei os lábios, fingindo empatia, levantei uns 10 minutos depois e desci.

Não sei porque, mas achei que o fato de estar de bermuda foi o que influenciou algumas pessoas a olharem pra mim. Isso aconteceu metade pela minha paranóia, metade porque o ônibus parou no semáforo e eu atravessei.

Quando eu cheguei no palácio do catete eu atravessei a rua e vi um cara tocando flauta. Achei uma merda, mas pensei que fazia parte do meu dia e também dos clichês.

Entrei na feira do livro, Fui sistematizando os estandes. Fui e voltei. Fui e voltei. Aí comprei o que queria. Em alguns estandes as pessoas não botavam fé em mim então eu desistia. Num outro estande o vendedor foi muito atencioso, então fui embora. Quando enchi o saco resolvi passear pelo parque. Passei rápido. Grávidas e um velho reclamando que entrou no banco e o segurança pediu pra ele levantar a camisa. Concordei mentalmente que aquilo devia ser desagradável. Pensei se eu ficaria assim como ele, reclamando do mundo com 70 anos de idade.

Dois universitários entregavam flores de papel pra todo mundo, mas não entregaram pra mim. Achei que era metade machismo deles, metade machismo meu.

Aí fui embora e entrei numa aporia filosófica. Comer no Catete era caro demais. Subi numa escada e  num prédio errado e reclamei sozinho da placa em frente a um boteco muito sujo. Acabei no Largo do Machado comendo uma esfiha e um kibe no Árabe. No caminho encontrei uma velha com uma bola azul na cabeça, no meio da praça. Na volta vi um cara com um terno preto, com um dread grande e meio embolado segurando uma guitarra. Não tinha ninguém escutando. Umas madames comprando cânfora e o cara esperava pra subir no palco improvisado.

Quando eu passei pelo palco vi uma barraca da Assembléia de Deus e uma galera com um sorriso na cara. Passei direto e confesso que fiquei com raiva. Mas lembrei do cara do dread e alguém passou por mim dizendo alguma coisa que eu não consigo lembrar.

Voltei pelo outro lado da rua. Voltei e comprei uns dois livros. Numa barraca a vendedora me perguntou se eu era professor. Eu respondi que sim, mas não sabia se ela ia exigir algum documento, mas já tinha decidido mentir. Quando eu voltei pro parque  do Palácio do Catete cheguei perto de uma fonte e um café que tinha sido reformado. Lembrei de uma conversa sobre a França e Paris e como aquilo tudo não me pertencia. Lembrei de ter ficado sentado no banco de madeira verde e lembrei de quando eu acreditei e joguei fichas e moedas nas fontes e na esperança vermelha, com as grávidas e as crianças passando.

Peguei o metrô e entrei na galeria mais próxima. Sentei e fiquei lendo – mentira – acabei sozinho, olhando pra quem passava e o que acontecia. A hora não chegava e eu resolvi comprar café. Na volta um sujeito que tinha uns 40 anos pediu café pra mim, pois não tinha almoçado e provavelmente nem vendido bala nenhuma. Eu dei metade do café pro cara e andei  me sentindo o pequeno-burguês mas burguês da tijuca, indo falar que tinha problemas que existiam mas não existiam. Me senti mais merda, quando lembrei que não almocei porque não quis pagar cinco reais a mais, enquanto o tio das balas não almoçou porque não tinha cinco reais.

Fiquei na galeria observando o mundo, mas quase não passou ninguém. Chegou um cara de jaleco branco e eu julguei que ele era médico. Depois veio um cara de blaser e roupa de médico e eu julguei que ele era médico. A galeria tava vazia e eu julguei que era a tal galeria fantasma que todo mundo da Tijuca comentava. O cemitério das lojas.

Aí vi que só frequentavam a galeria gente que tava doente. O único restaurante tava falido e fechado. Só me restou falar muito e ir embora. Fui andando pra casa (economizei uma passagem). E não, nem a terapia, nem o Catete, nem os livros, nem ficar sem almoçar adiantou muito. Eu eu só me lembrava da bola azul na cabeça daquela mulher e acho que foi isso que fez eu ter pensado sobre a loucura que é tentar ser você mesmo pelo menos uma sexta-feira da vida. E acho que foi, exatamente isso, que me fez brigar com o mundo todo naquele dia e ser mais eu de vez em quando, mesmo assim, desmembrado e fragmentado pelas ruas sujas e pequeno-burguesas das minhas artérias e do Catete.

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Proletárias/os do amor e da culpa

Rafael Vendetta

Vou tirar algo do estômago e você não vai gostar.

Eu vou te falar a verdade.

Eu finjo a maior parte do tempo. Se chocou? Então vou falar sua parte da história. Você também meu bem…Acha que meu cinza cai bem com seu marrom e verde por que diabos?

Fingimos juntos porque adoramos o cinza dos nossos corações. A-do-ra-mos.

Tratamos e trabalhamos a massinha de modelar da sociedade no nosso peito. Somos  proletários da culpa.

No meu apartamento há uma rede em todas as janelas. Quando as pessoas entram, eu digo que a rede é para os gatos, mas é mentira, é pra mim. E pra você, pra você não se jogar. Quando você entra, eu escondo as cartelas de rivotril no fundo do armário e os cascos de cerveja na área, onde ninguém pode ver, aquela parte do mundo, aquele esgoto.

Pensa nisso amor. Meu amor. Minha paixão. Enquanto você foge gastando milhas da Eurásia até o Butão, eu estou aqui, jogando War e morrendo. Mas a gente morre todo dia. E no final é igual.

Alguém lê jornal, alguém morre. Enquanto a minha campainha toca, alguém (você) viaja pra França; e eu aqui, olhando tudo com desgosto, e rindo da sua tentativa de trazer sentido para algo que eu juro, nunca teve nenhum sentido.  Pode correr, pode fugir, pode até sorrir e fingir que tudo está bem, que era isso que você queria, mas convenhamos. Convenhamos, na pausa entra a fé e o ceticismo: o castelo de cartas desabou. Nada mudou.

E você aí correndo e fingindo…  Que sempre desejou essa mudança permanente na sua vida. E o sol nasce amanhã, só com lençóis e cheiros diferentes. E eu estou aqui, comprando pão e pensando no imperialismo na Albânia.

Tenho sorte por ter te conhecido. Mas depois, paguei um terapeuta, que ficou quarenta sessões tentando tirar você de dentro de mim. Mas não adiantou. Quando eu achei que você tinha morrido, vi que você estava por sob os escombros. Eu fui colocando camadas por cima de você: Joana, Clarice,  a política, Isabel, o cheiro do mar, minhas traduções, a semiótica e Luana…

E aí depois veio a fase do não saber mais o nome das camadas, camadas de final de semana. E sempre que estas camadas acabavam eu me distraía com álcool ou cigarros.

Passou, e eu fui costurando outros amores, mas eles desmanchavam sempre que a chuva caía.

E sempre que ela caía, eu olhava teus olhos lacrimejarem afago e tristeza; e era neste ponto que eu fazia minha dor encontrar a dor do mundo, apenas por conveniência e sossego de saber que havia mais gente sofrendo muito mais do que eu. Eu andava à esmo pelo centro da cidade. Eu adorava ver os paralelepípedos molhados. Acabou aí a arrogância. Acabava tudo.

Eu comecei a viver de lembranças. E não era  muito justo. Aquele cinema; nunca me esquecerei. Aquela viagem. Aquele passeio. Ainda me lembro de toda aquela rua sabe; com todos os detalhes, com você procurando alguma música numa loja triste, que hoje nem deve mais existir; lembro daqueles livros que eu procurei e não achei, pois eu não procurava nada, eu esperava você. Era tudo teatro. Nunca vi um filme tão chato num cinema tão bom. Tão bom quando você me olhou no meio da sessão e me tocou para saber se eu era parte do filme, ou se algum de nós dormia acordado. Você tocou aquele pedaço de fantasia. Você viveu aquilo, e eu vi, senti, e correspondi. Superficial.

E todos meus amigos me alertaram que era loucura. Eles estavam certos, e por isso erraram todos. Eles não sentiram como eu senti; os pés na areia e aquele teu cheiro invencível. Eles não sentiram aquele som, aquele beijo, aquele encontro casual que parecia infinito como a cerveja no bar que acaba, que desenha o fim.

Eles não sentiram. Teu beijo, teu perfume, tua pproletariat-loveele, tua língua lasciva, e nem te viram acordar tão linda com os olhos que abriam a manhã. Era você no nosso apartamento, só nosso, como quem briga, morre, e nasce no amanhã. Era você que matou todas as outras. Você matou todas as outras e fez nascer um amor em mim que não cabe na mesa.

Na manhã esperava te acordar; se envergonhava.

Doparam-no diziam. Outro disse que era amor. Mas corrigiram-no: amor se planta. Isso é paixão, é paixão de chuva, que dá e some. Acabará rápido, outro comentou.

Tolo, jamais acabou. Jamais acabou, pois seguia de amor em amor, de ilusão em ilusão, de viagem em viagem. E quem ficou viajando perdeu. Perdeu pois só se ganha fingindo e você foi ser sincera, e ser sincera é fingir, e pra fingir precisamo estar certos e você por não estar certa, fugiu, fingiu demais e ficou viajando até morrer, farta de si própria. Você nunca acordou.

Por isso que eu fiz. Por isso que eu fiz e te larguei para o resto da vida e fui viver minha vida nesse meu apartamento, falando as coisas que você não gostava. Foi por isso que cansei de fingir e fui viver com vocês, pois, paixão é chuva que se dá, se planta e se come, e você certa demais de tudo isso, viajou até morrer, farta de si própria, fugiu. Você nunca acordou.

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O amor é classista

A maior ilusão do mundo é colar seus sonhos e desejos na roupa das pessoas. A gente faz isso o tempo todo e é um exercício bom e prazeiroso, que alivia o futuro como analgésico, mas num momento específico, os sonhos e desejos das pessoas colam na gente ou não seguem o roteiro previsto. E aí parceiro/a, fudeu.

Eu evito pensar em pesadelos. Mas eles também chegam. Às vezes, aquela estrada de paralelepípedos amarelos acaba no lugar errado ou toma um caminho que não é bem o que o coração do lado esquerdo quer tomar.

temakiA única coisa que eu aprendi, e demorei 30 anos para aprender, foi que a gente sempre acorda no dia seguinte. Quando tudo dá merda, a gente lembra que sempre vai acordar amanhã (e quando não acorda, foda-se, isso não vai fazer diferença). E outra coisa que eu aprendi, foi que você deve evitar gente que vive como se houvesse uma câmera da MTV filmando seu cotidiano. Não tem MTV na quebrada. Não tem MTV às sete horas da manhã. Não tem MTV quando a gente lava a louça do jantar, pega o Tiradentes-Penha às duas da manhã e não tem MTV filmando Vicente de Carvalho.

A dor é universal. Mentira. A dor é maior para quem sofre mais. Universal é a mentira, Universal é a igreja. A dor é específica, de cada um ao que é seu e isso é o que basta. Na única vez que eu pensei que podia dividir Vicente de Carvalho e meus paralelepípedos amarelos cheios de adesivos de expectativas eu caí na maior cilada do mundo. Aquilo lá é só meu e é mais complexo do que a Europa.

Quando disserem pra você que o amor é universal diga que é mentira. Todo iludido sonha com um chifre de unicórnio colorindo a disney dos playboys e entregando o sapatinho da cinderela numa aquarela high-tec da vida, mas a realidade diz o seguinte companheiro/a: há luta de classes até nos romances. Um dia a síntese chega.

Deixa a ilusão para a Europa. Aqui bukowski é boteco, psicólogo é pinga e amor é esquina. O amor nessa terra, resolveu ser classista só para contrariar o idealismo alemão e anglo-saxão do Leblon e da “Grande” Tijuca, aquele amor-isopor com Temaki no final de semana. O amor aqui sai pela porta da frente às sete da manhã com o carteiro entregando a fatura da geladeira. O amor aqui não tem hipocrisia moral invertida e não transforma vício em virtude. O amor aqui chega de trem e não gosta do insosso. O amor aqui é uma grande verdade esfregada na cara. Não finge ser bacana para combinar com a sua coleção de vinis e de sapatos. O amor aqui meu irmão é classista.

Do Primeiro Milagre – Parte I, II e III e do prólogo inacabado

Rafael Vendetta

Agora que leio, e sinto, entre uma janela fechada ou uma terceira encomenda e carta depositada no destinatário errado, que possuo apesar da incapacidade intrínseca de percorrer estações sem me molhar e quando chove, a capacidade de andar e amar despretensiosamente pelos paralelepípedos amarelos; uma capacidade incrível de renovar todas e minhas esperanças.

Sim, eu possuo; e como se fosse o azul do céu que não anda tão perdido, mas entretanto observa-se com mais exatidão quando dorme, seja no ponto de ônibus, no metrô, ou na água salgada que envolve o sono mais profundo, eu prossigo… E caminho, eu caminho e crio esperanças, umas por detrás das outras, como formigas, singelas e agradáveis, que andam às centenas pelo meu quarto, despretensiosamente ordinárias e felizes.

Não tão especial eu abandono, abandono-me, abandono-a nos sonhos para resgatá-la na realidade, que se não é tão especial, aparenta pelos acasos, dizer-me algo que as vicissitudes do cotidiano, as vaidades, belezas, sínteses pessoais, procuram ocultar.

Flanqueio-a e ela nem vê, mas agora percebo-a, com mais exatidão à princípio, como aguardasse um afago que nunca virá, sem esmero, sem destino, sem naturalidade, cheio de esperanças e sonhos irredutíveis, inúteis com seus desejos apartados.

Lembro-me do seu cheiro, da poesia que eu nunca recitei, do encontro que não houve, mas haverá, das flores, da conversa, do futuro, que haverá! Lembro-me, lembro-me de tudo o que eu disse, assim, para mim mesmo, como se falasse para ela, mas ela… Ela não existe…

Ela é um pedaço meu, um pedaço meu que clama e conquista o mundo ao meu redor, um pedaço que entrego e desperdiço, vez ou outra, em novas, velhas e recorrentes esperanças.

Lembro-me então, dos contos e amores inacabados, como se postam e se conservam ao mar.

E lembro das memórias dos sonhos. Da praia que tudo carrega. Do amor que tudo leva. Da paixão que tudo conquista. Do abraço que tudo desmorona.

E aí esqueci de mim mesmo, como uma janela fechada, e de juventude, que por amar despretensiosamente andou às centenas no quarto, e com cheiro de poesia, de naturalidade, fez-se no beijo e na surpresa daquele amor platônico agora concreto, irresistível, porém ainda abstrato. Pois sozinho, lhe cabem esperanças, e da mesma forma de que tudo leva, aqueles olhos ainda haverão de encontrar os seus, que conservados ao mar fizeram-se tão inacabados, sem ela.

[…]

E hoje acordei assim, normal, com vontade de passar o dia costurando sonhos. Peguei tudo o que tinha: vontade, vergonha, cigarros, meia caixa de fósforo, uma mochila e quatro camisas, sendo uma verde; saí sem princípios, e isto foi até o meio-dia.

Na mesinha de centro o relógio apitava, e não era meu. Eu não me importava.

A geladeira jazia ligada, e o fundo da casa acrescia-se de uma água-furtada, que ligada pelos tijolos e pelas insônias dos anos anteriores faziam dos cômodos passárgadas e conectavam-se com um sonho antigo, pontuado sem motivo como uma pedra de gelo caída e morta em minutos no centro da sala sem nenhum aplauso ou alarde dos convidados, e uma música que muitos queriam escutar, mas ninguém, ninguém absolutamente podia realmente ouvir.

E ela, ela que nem me lembrou, mas que eu fingia esquecer depois do almoço, na minha imaginação dormia, dormia sob as águas-furtadas que incriminavam metade de mim, cujo esboço feito de esmero e efêmero era pura vodka-estraga-poemas.

E quanto mais eu me deteriorava, podia ver o mundo deteriorando-se. E o mundo deteriorava não só enquanto eu me deteriorava, mas era algo além, pois minha deterioração estava aquém, e sim eu sabia, sabia quando nos piores dias percebia, que mesmo que eu não me deteriorasse haveria algo ou alguém para se acabar no finito do mundo. Pois o mundo se acaba sem mim. E isto era uma tragédia à minha verve narcísica… Eu adorava. Adorava saber que eu acabaria, mas tudo então, permaneceria com força e vigor, e que minha potência era apenas um maço de cigarros prestes a terminar, poemas e justos consolados.

Para manter a instituição imaginária da sociedade, eu deveria conviver bem comigo mesmo, e não deixar minhas criações subjugarem o criador. Como deus por exemplo, que nunca me intimidou ou conseguiu me subjugar, mas meu destino, este sim, que não estava escrito nas velhas fórmulas, fazia planos secretos naquele pedaço de mente que eu esquecia ou ignorava, e tanto fazia sob os antigos ou novos esquemas, o que era relevante era que isto implicava em manter a esperança.

Algo real e concreto começou a germinar, rompendo as cascas e forçando o solo e as desilusões à acomodarem-se sob o novo quadro: a luz, o orvalho perante às cascas, folhas, no céu da verdade empírica e esmagadora dos fatos; fatos feitos que se faziam só, eu nascia ali, na esquina da morte, que não fazia peso, pois era parte do todo e das cinzas do novo, reciclando no final dos finais. Era a morte cotidiana.

Renascia sob o tom da dúvida; o sal e o tempero eram só meus, naquele momento íntimo do paladar, algo meu.

O mundo terminava em mim, era uma fronteira possível mas que odiava o outro em si mesmo, na água-furtada, no poema do outro que feito para mim, me escolhia sem que para isto eu tivesse esmero. Todavia guardava alguma empatia, mesmo forçosa.

E demasiadamente empática, empático, nos assemelhávamos, mesmo assim, largados na avenida ordinária do mundo. Eu via o mundo morrer, mas eu sabia que ele iria sobreviver sem mim, mas que ele morria na minha presença, sob a minha vida, sob meus auspícios encurralados por alguma manobra vulgar, profunda, do meu cotidiano.

[…]

Aberta a janela, a das opções, o mundo falava com o quarto que a princípio era todo o mundo; tímido, mas eterno, como um universo já feito. E aí a cama, os copos vazios, os livros calados que falavam sem parar, e aqueles pequenos papéis, os rabiscos, e as pequenas coisas que eu não conseguia ordenar, já que organizar um universo clamava as esperanças, e agora eu só tinha e mantinha sonhos, sonhos que eu não lembrava.

A nota amassada, a mandala que da esperança à superstição fora justa, justa desde o início e nunca mentiu apesar de ser objeto das perguntas que não queria responder…

E eu, eu, que não me encontrava mais sujeito nas quintas-feiras, mas resolvia, implacável comigo mesmo, juntar-me com os cacos ou as sobras daquela obra, daquele sorriso que não era e nunca foi meu, daquele beijo que eu admirei sem que fosse seu alvo, daquele amor, que eu só dispunha com a obra pronta, em película de 35 mm ou que só admirava por um outro necessáriamente menos empático, menos dramático, menos infeliz. Daquele afago que eu assistia e completamente aturdido pelo amor que existia fora de minha presença, cirscunscrevia minha solidão num plano lógico de sentido.

Eu quando tocado, assim, por aquela força que também me queria, mesmo que de tão longe merecesse mais força, nós nos implacavelmente nos amávamos num futuro possível e indisposto, mal resolvido, e por isto agradável, quase terminal.

Novamente. Novamente, eu não ligava para a morte do amor, nem de mim mesmo, pois eu já estava com os pés na vida, e assim, como um outro que não deixa de cantar; sorria, sofria.

Irredutível, eu sabia, e lia, entre uma janela fechada, entre mais um copo de café, entre mais um poema longo e demasiado, que era assim, era assim na esquina da imperfeição da vida, que mais um empático, entregava-se, entregava-se e colocava à disposição o coração de avenidas de amor que ele percorreu.

E aí eu voltava, voltava à tudo… Esquentando chaleiras, friccionando as mãos e o coração enquanto preparava café; observando sem desejar títulos eu retornava ao estado original, pois toda dor, segundo meu autor preferido…

“Toda dor retorna ao seu estado original”.

E retornava, com amplitude de uma fé. Retornava, amando um futuro indisposto…

Criado… Mas no germe  da poesia, e aquele seu estado bruto, que sempre retornava…

Ele chegava, por entre as trilhas, por entre as sendas, por entre os muros, pelo criado-mudo. Ele sempre chegava.

[…]

(Em uma semana que não resolveu sair para nada, apenas tomar café, comer, escrever, pintar, o prólogo)

A amplitude do cômodo me possuía. Meu quarto, que já foi verde, azul, branco ou simplesmente cinza e amargo como um comentário maldoso ou uma rotina de final de semana, começaram a comprimir meu coração. E eu, eu que sempre consegui expandir meu amor pelo amor, amor sempre no outro, do outro, na outra, sentia como causa e efeito meu coração se comprimir até caber.

E eu me juntava, perdido, num enigma que eu inventei, com uma carta secreta publicizada e exposta numa praça que ela frequentou, mas que já não fazia muito sentido para a realidade, sempre fria. Eu colocava minhas cartas e sempre que o fazia, recomeçava do zero, e iniciava um prólogo cujo amor perpetuava-se inacabado em meu coração, e ela, ela jamais, comprimia-se, pois forças da natureza deformam o espaço e o amor em detrimento de pessoas previsíveis como eu.

Sentia sua falta.

[…]