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O amor se constrói ou é construído?

 Rafael Vendetta

Parecia-nos que nosso momento já tinha passado. E por mais que nos esforçássemos para tentar repetir aquele momento mágico de quando nos conhecemos e de quando nossos olhos brilhavam, parecia impossível viver e sentir a mesma coisa. Fazia anos que não nos encontrávamos. Já estávamos demasiadamente duros, como um casco de navio cheio de cracas emocionais, mas cujo capitão, ainda crê que o navio é novo e as águas são tranquilas. Mas vivíamos numa tormenta, apesar de aparentar tranquilidade. O mundo tinha pisado em cima de nós.

A vontade era reviver um tempo que já passou, mas nada voltava do mesmo modo e nenhum de nós podia dizer que havia o mesmo jeito de amar, chorar, viver.

Eu chorei quando ela disse que sempre se lembraria de mim, porque percebi numa análise rápida de discurso que ela falava no pretérito. Eu já tinha passado. E eu a entendia. Pois quando a coisa passa, vamos arquitetando internamente as nossas respostas do porquê não ter dado certo. Vamos tecendo fio por fio, até formarmos algo que cubra aquele abismo aberto de mais uma decepção. É um mecanismo de proteção. Mas tal proteção é frágil. É um vestido que tem a concretude de uma obstinação, mas obstinações vem e vão e podem se romper quando a gente encontra a vontade vermelha assim, num domingo, num sábado, numa sexta, ou num dia de semana por acaso. E aí o vestido vai se rompendo, vai ficando frágil, enferruja ou apodrece. E os abismos passam a ser cobertos com band-aids. E passa a doer a beça. Dói demais.

É aí que uma parte de você, uma parte verde, pensa em recomeçar. Em acreditar de novo e de novo.

Ela continuava a falar, minha parte verde resistia e quando subitamente deixei meu outono sair, as lágrimas rolaram até encontrá-la em meus braços. Depois o que se deu foi como um mecanismo interno de negação do absurdo: tiramos parte da roupa – como se estivéssemos de férias na praia (do nosso passado) – ficamos abraçados dançando, tomando cerveja e beijando um ao outro como se aquele passado tão bonito pudesse voltar. Ela disse que eu a atraía. Eu disse que ela estava linda.

Esquecemos tudo. Éramos apenas duas pessoas.

Liguei o abajour vermelho e ela tocou minhas costas com a ponta dos dedos ; eu fazia uma confusão dos diabos e esperava um sinal da vida dizendo: “fique tranquilo que sua hora chegou”. Mas nada chegava, pois as coisas tinham nome mas não davam ordens, apenas chegavam e chegavam sem pedir licença ao mundo e sem ao menos dizer com que propósito vieram. Alguns achavam que tudo podia vir depois de algum mecanismo desconhecido. Imaginavam que o amor chegava depois de sete ou oito fracassos (algumas pessoas contavam em números pares, outras em números ímpares, primos, cada um tinha sua regra). Existiam aquelas que acreditavam que seria uma viagem, ou o fim de um ciclo que resolveria tudo, mas para pessoas como nós, estrangeiros emocionais, os ciclos eram sempre repetitivos, nunca acabavam: esse era nosso tormento. O que dizer daquela gente que pensava que a sua vez tinha chegado por que as coincidências coincidiam e buscavam nas revistas, na música, nos rodapés das conversas ou na forma de fazer alguma coisa, um sentido que dissesse: essa é a pessoa certa? E havia? Uns pensavam de modo mais caótico: era um sentido que parecia não ter sentido, mas tinha. “Amanhã eu me formarei: terei meu amor? Hoje fiz 29 anos: terei meu amor? Mudei de alimentação, religião, de hábito ou de vida: terei meu amor? Hoje acordei desse modo, sonhei desse jeito, pensei daquela forma: terei meu amor?”.

Mas para as estrangeiras e os estrangeiros o sentido não era dado de antemão. E eu não fazia ideia de como iria organizar aquilo tudo, jogado, como um quebra-cabeças emocional sobre a mesa. Invejava quem via sentido em tudo. Quem pegava o sentido já construído, como se pega uma fruta no pé e dizia: agarro isso com toda a minha vontade, esse é meu destino afetivo. No meu caso não. Achava sempre que o sentido era construído, como um jogo de armar ou um lego emocional. O problema é que as peças raramente se encaixavam e eu não sabia geralmente, nem onde tinha guardado as peças. Não conseguia construir nenhum amor e ficava sofrendo o atrito entre construir um ou esperar ser construído por ele.

E mesmo assim, dormímos abraçados e esquecemos parte do mundo. Isso não impedia a vida de passar. As perguntas ficavam sem respostas. E no outro dia, assim, quando ela se fora, eu vivia os dias como um pedaço cinza oscilando entre o verde o vermelho. Esperava alguma coisa decidir por mim. Mas nada nem ninguém decidia. Sempre fora assim. Eu tinha todas as contradições do mundo. E ao fim do dia eu não pensava, mas um pedaço de mim dizia, como ferrugem corroendo meus dentes: O amor se constrói ou é construído?

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 https://pseudocontos.wordpress.com

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Da violência simbólica

Rafael Vendetta

Acabou. O horror sem a praia. A folha de papel está vazia e o café quente na mesa. Quando acordo não consigo dormir. Quando durmo não consigo acordar. O  desafio dos passos cotidianos. Sair de casa sob sonhos esmagadores sem caneta, pegar um ônibus, cumprir as tarefas, mastigar.

E aquele passado invencível na mesa, junto do pão e do café, esperando alguém abrir a janela, fumar cigarro e voar por entre os prédios desse bairro cinza. Não queria virar escritor? Mudar o mundo? Viajar ao redor do globo? E agora, nem consegue abotoar os botões sem olhar para o nublado do céu? O tempo está passando. Amanhã são trinta, quarenta, cinqüenta anos. E tem gente na fila, esperando o seu lugar adulto vagar.

Me responde agora: essa poesia consegue fazer a ferrugem falar? Todo mundo é escritor.  E se isso aqui está sem sentido é por que a tradução do estranhamento não é uma coisa que se possa resenhar com o livro do Bourdieu nas mãos minha querida. O que você esperava de mim? Eu sou como você. Só vim aqui para cumprir tarefas e esperar o tempo passar para morrer/viver. Não seja tão exigente.

Não posso ser maior do que sou. Olha a folha de papel vazia. Vou voar por aí amanhã, hoje eu espero que o mundo abra uma janela sem me perguntar porque diabos o tempo passou e eu ainda estou com esses sonhos recorrentes nos olhos. Me deixa em paz. Cuida da sua própria ferrugem.

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Paradoxo do sucesso

E me diga se há alguém ou algum fracassado que falhou em falhar?

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Pela porta da frente

Quando a estabilidade abandona o corpo pela porta da frente, diante daquelas cervejas, daquele cigarro amassado na caneca de café vermelha e com aquele gosto de insurreição psíquica varrendo o quarto, a gente se sente como um pedaço de coisa que não se encaixa no mundo, e é aí que vem o que se segue.

O metrô, a literatura, e os ideais da revolução francesa parecem ser uma forma preparada de escárnio, enquanto aquele corpo que já foi e passou pela porta da frente, privou-se de conviver com um espírito bêbado, sôfrego, que no fim da noite coça os cabelos e varre a cozinha em tom de decepção.

Quando sobra algum fôlego, um pedaço de final de semana serve para encaixar o mundo dentro de si; e de forma espúria, começamos a pender como verdadeiros imbecis à procura de um pedaço de mundo que se encaixe conosco.

Mas na verdade as coisas não se encaixam; as vergonhas, a saudade, e até a desilusão amorosa que não é tão amorosa assim quanto rezam os manuais.

Neste ponto, cortamos o pedaço de pão, pegamos o metrô, subimos as escadas, lembramos das mesmas piadas e até nos incomodamos de ler os mesmos livros.

Quando a estabilidade abandona a porta da frente, a gente se sente assim, com vontade de estilhaçar o mundo e comer de manhã, junto com aquela cafeína preparada pela rotina e por aquele absurdo que chamam de tempo, o que faltou de chamarem de humano.

Toda pausa é um chute nos córneos

Suicídio ou Reestabelecimento? Reestabelecimento é óbvio. Mas quem disse que reestabelecer-se é retornar ao original?

Não há estado original, tudo se modifica: as células do corpo, o comportamento, os medos, as decepções, as esperanças, o pão de manhã e o modo com que se sorve o café.

Viver é matar-se todos os dias, e isso não é ruim, pois tem dias que a gente mata aquela parte da gente que impede a felicidade de respirar. Mas a felicidade é um pequeno arranjo de uma sinfonia que possui tristeza, cansaço, desilusão; a felicidade é um pequeno solfejo que percorre a melodia. E a gente tem de saber o que quer tocar. Cada um escolhe a música que quer tocar, e cada música pode ter mais felicidade, mais solfejo, mais tristeza.

Mas a gente não escolhe os instrumentos. E tem gente fudida que não ganha nem um tambor; e de um berimbau tem de tirar acordes, que não existem.

Essa parte eles não falam; essa parte eles escondem por trás da cortina e enfiam na cabeça da gente que todo mundo nasceu pra ser violino.

Temei os que não fazem a vida andar

E em determinado momento, as pessoas fingem que a vida está andando.

E para isto casam, resolvem ter filhos, divorciam-se, ou pegam algum papel que diga que depois de quatro anos estão aptas a exercerem uma profissão.

Algumas param de frequentar certos lugares e começam a frequentar outros, vestem-se de outra forma, selecionam as amizades e amores de acordo com determinados padrões que indiquem que só conhecem e andam juntos daqueles que também possuem uma vida que avança: precisam balizar o “movimento” com determinados rituais e ocasiões especialíssimas.

Seria completamente inadequado compartilhar a companhia dos que não fazem a vida andar: aqueles que não tem filhos, os malditos que nunca casaram, os imaturos que continuam a usar as mesmas roupas e frequentar os mesmos lugares; que ainda escutam aquela canção, aquele acorde, e que ainda sentem o mesmo arrepio percorrer aquelas dermes cansadas.

São estes, os miseráveis de barba e vergonha por fazer, que insistem na burrice de não fazerem suas vidas andar, estes tolos, que acabariam nos demonstrando pelo exemplo prático e inoportuno que as vidas jamais andam e isto seria completamente mau.

E  à partir de um apelo dolorido e confuso provocado por estas companhias, é que se demonstraria evidente, o fato de nossas vidas também não andarem; teríamos então esta irremediável certeza de saber que nada, nada neste mundo anda, e que tudo é criação, ilusão de nossa vontade de ver algo mudar.

Todas estas ilusões institucionalizadas para fingir movimento, acabariam pela companhia dos bárbaros que não querem que a vida ande, nos dizendo o contrário do que gostaríamos, e chegaríamos à conclusão que o movimento, é apenas o instante, e portanto o instante é a memória, fixa como um pedaço de aço e portanto imóvel, que nós por ilusão e medo da obviedade de nada modificar-se, transformamos em movimento.

No final das contas, sem os casamentos, as crianças, as roupas de adultos e os empregos que fingem maturidade, saberíamos, que a vida, a vida é um instante o tempo todo seu tolos.