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Fisioterapia literária

Para escrever é preciso desastres. Já falei isto uma vez mais, pois posso repetir a cada abismo. É só ter abismos.

Escrever é como andar de bicicleta: esquece-se. Não há rodinhas para a vida, nem abismos no caminho das bicicletas, mas angústias, há aos montes.

Eu procuro técnicas para escrever mas não me vem nenhuma no momento. A única que me recordo é pensar numa tragédia particular como um cateter, rumo ao estômago. Dói. Mas poesia e literatura tem de doer. Se não dói é melhor fazer palavras-cruzadas com as contas, o banco, o filho mais velho e a inspeção veicular.

Não sei mentir quando escrevo, só sei dizer. Um dia eu digo tudo. Um dia eu digo a você o que você merecia ouvir de verdade, mas que eu sempre enfeitei com literatura burguesa. Por enquanto eu repito: viver é abismo.  Por enquanto eu desisto de dizer o que você precisava ouvir. E olhe, tenho muito a dizer. Mas como eu uso rodinhas e o abismo está sob meus pés, vale sublinhar que por enquanto, a melhor coisa a se fazer é seguir e deixar um abismo te pegar como quem pega um pássaro no alçapão.

Eu tenho meus desastres, um dia você terá os seus, é assim que funciona baby.

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Instruções para evacuação de um trem na via

Os homens devem vestir gravatas rosas, as mulheres vestidos amarelos com bolas pretas.

Os casais apaixonados devem sair rodopiando abraçados uns aos outros, ao final da saída, uma coreografia do balé bolshoi deve ser executada na parte central da plataforma. Não haverá área V.I.P.

Os religiosos, os crentes, e os indecisos com culpa, devem rezar para salvar todos os demais passageiros.

Aqueles que não acreditam em deus devem permanecer sentados no banco preferencial aos ateus.

As contas a pagar podem ser queimadas na presença de um agente de segurança.

Os livros do Neruda podem ser reembolsados nas bilheterias das estações. Não aceitaremos rosas como devoluções.

E como diria a música do Rei Roberto

Eu voltei e agora é pra ficar…

Só mais uma carta de amor

Contexto: Resgatei isto do meu email sem querer. Foi uma carta que eu enviei (na verdade um email) para uma paixonite há algum tempo atrás.   Acho-a bela, mas como diria Fernando Pessoa, toda carta de amor é meio ridícula; pois bem.

Resolvi publicá-la pois paixão perdida bem cicatrizada jamais  cria problema.  E que venham outros amores, dores e humores.

É engraçado como eu, um cara que sempre acreditou que sua vocação para montanha-russa emocional não permitia tecer mais do que trinta e seis linhas sem iniciar uma longa discussão interna com parte da multidão de vozes que carrego em mim, consiga agora (talvez até impulsionado pelo looping da montanha-russa, devo assumir, sendo que uma parte de mim discorda disto totalmente) tranqüilamente plantar alguns quilos de parágrafos em meio a horta de coisas da vida.

Sem nenhuma dúvida, a tripulação interna de contradições que navega em meu peito não pode me julgar de não ser transparente e viral, o que produz alguns desconfortos de ordem literária, mas não há como negar que é a sinceridade que me motiva neste momento (por que um dos piratas diz que o impulso pode salvar o marujo da prancha ou pode jogá-lo no mar).

O capitão razão sempre diz que o timoneiro limpou o convés, cortou as batatas e subiu no mastro antes de pilotar o navio… E eu não deveria fugir à regra, mas como bom teimoso que sou atrevo-me a dar algumas escapulidas para o timão antes de limpar o convés e descascar as tais batatas do tempo.

O pirata pode ser um tipo impulsivo que prefere não seguir a escala do convés-batatas-timão mas sabe que quando a vela enche-se de sopro de alegria ele deve esquecer essa tal hierarquia do tempo e olhar somente para a origem do vento, e não há como negar que você já faz parte do sopro que impele a minha vontade-esquadra e a minha esquadra-vontade a desbravar os mares da vida.

Eu estou me esforçando para não me expor como um romântico bobo, (afinal, em nossa tecnocrática sociedade o romantismo está sempre ligado a infância como se fosse um sinal de fraqueza ou de imaturidade emocional) mas a verdade é que estes últimos dias foram tão bons, que eu resolvi concretizar parte do que eu sinto (só uma parte… também não pense que vou jogar todos os meus barris agora, assim de mão beijada… estragaria futuras surpresas…) neste textículo infantil (sim, a infância é uma fase tão espontânea, tão livre, por que não utilizá-la agora com denotações positivas?).

Sinceramente não me importo com o destino, aprendi muito a viver o presente e talvez isso tenha me prejudicado em certos momentos, o futuro pra mim é saudade, ampulhetas de areia que lentamente atrasam nossos encontros… o passado é um grande tesouro que mesmo nesses poucos dias que nos encontramos, só me traz recordações e sentimentos bons, que me levam a guardar e enterrá-los bem fundo em alguma ilha deserta para eu manter o mapa do tesouro só para mim…

Na verdade foram grandes dias, intensos, prazeirosos, cheios de cor que posso dizer sem medos, que se meu navio viesse a pique hoje, não me preocuparia com os redemoinhos jocosos do destino…

Enfim, gastei uma nau inteira de metáforas para te dizer coisas óbvias… estar com você é muito, muito bom… (e por que é que eu não falei isto no início do texto? por que estragaria TODAS as minhas torpes pretensões poéticas… )

E deixemos as correntes marítimas carregarem nossos navios sem que as expectativas os soçobrem nas dúvidas… parafraseando uma velha frase… não há navegação… há o navegar… há navegantes!

Beijos, beijos, beijos, não vejo a hora de jogar minha âncora e de te encontrar…

“As paixões são como ventanias que enfurnam as velas dos navios, fazendo-os navegar; outras vezes podem fazê-los naufragar, mas se não fossem elas, não haveriam viagens nem aventuras nem novas descobertas.
(Voltaire)

Beijão!

Voando

Já tenho sua música e sua magia.

Não preciso mais de você.

Meu amor é um banheiro

Tem aqueles dias, que os culhões e os olhos do horizonte lhe cabem na palma da mão. E aí você vê um caixa de bombom vazia enquanto mija, com a lixeira flanqueando os bombons e com seus culhões nas mãos enquanto a urina acerta a cerâmica da vida.

Você mija e olha para o céu, mas o seu céu é um céu de azulejos, um céu de gesso.

Você olha para o espelho e para a música e conclui que aquilo tudo é você, mas dez anos mais velho.

Conclui então que vai morrer. Como todo mundo. Incrível descoberta.

Demorou a perceber que você mudou. Por isto, guarda seus culhões num caixinha segura de páscoa, azul marinho, com fitinhas vermelhas.

A música é a mesma. Quase francesa.. Mas os culhões não… culhões…

São apenas glândulas reprodutivas.

.

Conclui então que vai morrer.

Universo Vermelho

Foi na segunda cerveja que aquele milagre aconteceu.

– Tem cigarro?

– Não eu não fumo, falei.

– Tem isqueiro?

– Tenho, mas pra quê isqueiro se você não tem cigarro, sorri bebendo a cerveja.

– E pra que ter um isqueiro se você não fuma?, ela falou.

– Pra poder ser atencioso, prestativo, repliquei. Gosto de ser prestativo.

– Cruz Vermelha ou exército da salvação? ela falou sorrindo brevemente e tirando um cigarro do bolso.

– Nenhum dos dois, divisão dos prazeres, segundo setor.

– Entendi, a lógica é chegar a um denominador comum: gostos em comum. Já adianto que nunca vi Laranja Mecânica. E achei Amélie Poulain um porre.

– Que bom. De clichê já basta uma pessoa, costurei.

Nesse momento achei que tudo ia acabar aí; e se acabasse não seria mágico, mas seria terrível, seria terrível como readmitir um mundo que estava prestes a acabar.

– Você é aquela ruiva que gostava de jazz e bebia cerveja importada não é?

– Quase isso, agora eu sou morena e má. Também não gosto mais de jazz; eu prefiro dançar. Gosto de tinta de cabelo.

– Odeio dançar.

– Eu sei, ela emendou laconicamente. 

(Percebi que aquele desastre me conhecia.)

– E agora?

– Agora você me beija.

– E a minha dor?

– Guarda do outro lado do peito.

– Ruiva?, falei com aquele formigamento e rouquidão invadindo minha garganta e meus poros.

– Fala, ela disse ronronando com nossos lábios impositivos se tocando; e foi nessa hora que achei-a frágil demais, muito mais frágil do que eu, na primeira vez que nos encontramos.

– Eu não te esqueci. Por todos esses anos. Eu não te esqueci… soltei.

– Nem eu herr Durden, nem eu, ela disse, com aquela voz sussurada no infinito dos nossos corpos nos tocando. E seus dedos tocavam nos meus, nos acariciávamos completamente entregues, apesar de que a cada palavra havia mais a descortinar, a descobrir, a se devassar.

A última frase soara tão amorosa, mas pensei que talvez a gente visse apenas o que quisesse ver, e foi assim que agarrei a lata de cerveja e amassei na mão tamanha minha fragilidade e fé. Aquilo tudo passou na minha cabeça de uma vez. Até que comecei a falar.

– Depois de você conheci algumas pessoas.

– Eu sei, eu imaginei, ela disse passando as mãos por sob a minha camisa.

– Depois de você eu resolvi pintar, escrever. Eu resolvi TENTAR. Tentei demais. Umas vinte ou trinta vezes.

– Eu sei. Ela sussurrava, gemendo, beijando e acariciando meu peito; eu não ligo, ela disse, enquanto mordiscava meu ventre e meu ego.

Aquela respiração que ficava pesada me impelia à ação, eu não desejei falar mais nada, mas alguma parte de mim reclamou controle: havia fome de mundo.

– Você é um farsa ruiva.

– Sou? Ela falou fingindo choro e apertando meu cabelo com força.

– É sim. Você é uma estrela. Estrelas brilham mas já morreram. Morreram há muitos anos atrás.

– É bom ser imortal, ela falou, erguendo os joelhos e me beijando como se tivesse finalizado um ritual, já feliz e recuperada.

– É. Você é uma supernova. Queima como um cigarro, mas é algo mais violento.

– Cigarros acabam, falei, sem acreditar muito nas próprias convicções.

– Amores também, ela complementou, corretíssima.

Virei as costas para acender o primeiro cigarro da noite, e tudo sumiu, a ruiva, o isqueiro, o copo de cerveja, o bar. Foi como se eu estivese me respirando.

Só me sobrara o ônibus e aquela música, que dizia que o que me fazia feliz e me salvava era apenas um punhado de rosas sem sentido.

E aquela esperança retornava sempre vermelha: supernova,supernova, la roja, la roja, eu delirava…

– Ruiva, ainda vamos nos encontrar novamente.

– Vamos sim Durden.

 Neste ponto, me despedi e bebi toda aquela cerveja miserável do destino.

Boca Suja

Boca Suja

Cospe teu veneno sórdido

Vazio o estômago absorve

O sangue negro do teu pleito

Este é antigo, mas ainda válido.

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