Arquivo da categoria: ruiva

É difícil falar do 1990 vermelho

 

Rafael Vendetta

Não sei mais falar de você ruiva. Muitas coisas passaram, mudaram e é difícil falar do mesmo sonho sempre. Se fosse nos anos 90 falaria com muitos detalhes. Mas agora não consigo mais. Não me lembro tanto. Era fácil antigamente. Eu me lembrava e escrevia. Agora é tudo mais difícil. Eu lembrava do dia em que te conheci, sentada num banco de madeira, perto daquele pedaço de lama. Estava quente, depois nos encontramos, brincamos com as formigas naquele gramado, embaixo da árvore que ligava o mundo ao desejo. Alguém passou tocando flauta. Dormimos abraçados. Eu acordei com um sol invencível. E a única coisa que eu me lembrava era você com aquele vestido cheio de flores. Muitas coisas sem sentido aconteceram naquele dia, eu constelei tudo ao redor de você, mesmo depois sabendo que o que deu sentido aquilo tudo fomos nós.

Eu lembrava do dia do almoço. Quando a gente reclamou que tinha morte em tudo ao nosso redor e nos atenderam. E a gente só queria um legume ou outra coisa. Não queríamos morte ao nosso lado nem em nosso prato. De noite fazia um frio brutal. A gente dormiu com jornal no chão, nos amamos, sorrimos. Nos beijamos. E voltamos, com as esperanças nas mãos. Viajamos de trem. Dormimos no chão. Não nos importávamos. Tínhamos um ao outro.

No outro dia, ou outro mês, eu fui te ver. Te encontrei por acaso. Mas na real planejamos. Você tentou me impressionar. Levou-me em tudo o que pode.  Eram dias diferentes, com pôr do sol, a ponte, de noite iluminada, comida vegetariana, beijos no elevador. A gente viveu. Era isso que a gente queria (e quem não quer?). Encontrar um cantinho, amar e viver. Mesmo assim a gente se fazia de durão (e quem não faz). O que a gente queria era dizer que esse problema já foi resolvido (do amor) . Tal como os outros problemas da vida.

Aí eu voltei. Tudo se distanciou. Não encontrava mais você, ruiva. Não mais. Não pela guerra. Mas pelas dúvidas. Foram dois anos de exílio. Você me abandonou. Eu não insisti. E por eu não insistir, você achou que eu lhe abandonei. Era assim que funcionava. Nossa gramática, tão próxima de nossos corpos, desapareceu. O telefone tocou poucas vezes. Perdemos aquele momento (que nunca soubemos qual era). Mas eu segui, porque me disseram às dezenas que era para seguir e que tudo ia passar (mas não passou).

Gostava da ruiva pois era uma estrangeira. Não se adaptara a nenhum lugar. Não se encaixava. Viveu numa diáspora afetiva, tal como eu. Nossos estranhamentos combinavam. Sempre combinavam. A gente falava sem falar. Mas sua imagem começou a ficar cada vez mais distante e imprecisa. Era como tentar lembrar de um sonho e falhar. Eu ficava calado. A sorte é que ninguém percebia. Eu ainda podia olhar sua foto, tomar café e seguir. Era o que eu fui treinado para fazer. Era o que todos diziam: você vai encontrar alguém. Mas eu só tive desencontros.

O tempo passou rápido. A ruiva desapareceu. Aí você quer ser alguma coisa mas não sabe bem o quê (quem não teve essa dúvida). Você passa a terceirizar o que você será para o tempo. Mas o tempo é um mal funcionário, um funcionário rebelde. Você pensa que é o tempo que vai dizer. Mas ele nunca vai te dizer o que tu é. Ele vai seguir, sempre em silêncio. E você vai ser isso aí: uma coisa esperando o tempo passar e dizer. Mas ele não diz. O tempo só cala. E a ruiva assim, ficou pra trás. E eu não sei mais. Não sei mais a fórmula (nunca soube). Não procuro mais.

Sinto-me um estrangeiro.

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Estrangeiro

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O amor se constrói ou é construído?

 Rafael Vendetta

Parecia-nos que nosso momento já tinha passado. E por mais que nos esforçássemos para tentar repetir aquele momento mágico de quando nos conhecemos e de quando nossos olhos brilhavam, parecia impossível viver e sentir a mesma coisa. Fazia anos que não nos encontrávamos. Já estávamos demasiadamente duros, como um casco de navio cheio de cracas emocionais, mas cujo capitão, ainda crê que o navio é novo e as águas são tranquilas. Mas vivíamos numa tormenta, apesar de aparentar tranquilidade. O mundo tinha pisado em cima de nós.

A vontade era reviver um tempo que já passou, mas nada voltava do mesmo modo e nenhum de nós podia dizer que havia o mesmo jeito de amar, chorar, viver.

Eu chorei quando ela disse que sempre se lembraria de mim, porque percebi numa análise rápida de discurso que ela falava no pretérito. Eu já tinha passado. E eu a entendia. Pois quando a coisa passa, vamos arquitetando internamente as nossas respostas do porquê não ter dado certo. Vamos tecendo fio por fio, até formarmos algo que cubra aquele abismo aberto de mais uma decepção. É um mecanismo de proteção. Mas tal proteção é frágil. É um vestido que tem a concretude de uma obstinação, mas obstinações vem e vão e podem se romper quando a gente encontra a vontade vermelha assim, num domingo, num sábado, numa sexta, ou num dia de semana por acaso. E aí o vestido vai se rompendo, vai ficando frágil, enferruja ou apodrece. E os abismos passam a ser cobertos com band-aids. E passa a doer a beça. Dói demais.

É aí que uma parte de você, uma parte verde, pensa em recomeçar. Em acreditar de novo e de novo.

Ela continuava a falar, minha parte verde resistia e quando subitamente deixei meu outono sair, as lágrimas rolaram até encontrá-la em meus braços. Depois o que se deu foi como um mecanismo interno de negação do absurdo: tiramos parte da roupa – como se estivéssemos de férias na praia (do nosso passado) – ficamos abraçados dançando, tomando cerveja e beijando um ao outro como se aquele passado tão bonito pudesse voltar. Ela disse que eu a atraía. Eu disse que ela estava linda.

Esquecemos tudo. Éramos apenas duas pessoas.

Liguei o abajour vermelho e ela tocou minhas costas com a ponta dos dedos ; eu fazia uma confusão dos diabos e esperava um sinal da vida dizendo: “fique tranquilo que sua hora chegou”. Mas nada chegava, pois as coisas tinham nome mas não davam ordens, apenas chegavam e chegavam sem pedir licença ao mundo e sem ao menos dizer com que propósito vieram. Alguns achavam que tudo podia vir depois de algum mecanismo desconhecido. Imaginavam que o amor chegava depois de sete ou oito fracassos (algumas pessoas contavam em números pares, outras em números ímpares, primos, cada um tinha sua regra). Existiam aquelas que acreditavam que seria uma viagem, ou o fim de um ciclo que resolveria tudo, mas para pessoas como nós, estrangeiros emocionais, os ciclos eram sempre repetitivos, nunca acabavam: esse era nosso tormento. O que dizer daquela gente que pensava que a sua vez tinha chegado por que as coincidências coincidiam e buscavam nas revistas, na música, nos rodapés das conversas ou na forma de fazer alguma coisa, um sentido que dissesse: essa é a pessoa certa? E havia? Uns pensavam de modo mais caótico: era um sentido que parecia não ter sentido, mas tinha. “Amanhã eu me formarei: terei meu amor? Hoje fiz 29 anos: terei meu amor? Mudei de alimentação, religião, de hábito ou de vida: terei meu amor? Hoje acordei desse modo, sonhei desse jeito, pensei daquela forma: terei meu amor?”.

Mas para as estrangeiras e os estrangeiros o sentido não era dado de antemão. E eu não fazia ideia de como iria organizar aquilo tudo, jogado, como um quebra-cabeças emocional sobre a mesa. Invejava quem via sentido em tudo. Quem pegava o sentido já construído, como se pega uma fruta no pé e dizia: agarro isso com toda a minha vontade, esse é meu destino afetivo. No meu caso não. Achava sempre que o sentido era construído, como um jogo de armar ou um lego emocional. O problema é que as peças raramente se encaixavam e eu não sabia geralmente, nem onde tinha guardado as peças. Não conseguia construir nenhum amor e ficava sofrendo o atrito entre construir um ou esperar ser construído por ele.

E mesmo assim, dormímos abraçados e esquecemos parte do mundo. Isso não impedia a vida de passar. As perguntas ficavam sem respostas. E no outro dia, assim, quando ela se fora, eu vivia os dias como um pedaço cinza oscilando entre o verde o vermelho. Esperava alguma coisa decidir por mim. Mas nada nem ninguém decidia. Sempre fora assim. Eu tinha todas as contradições do mundo. E ao fim do dia eu não pensava, mas um pedaço de mim dizia, como ferrugem corroendo meus dentes: O amor se constrói ou é construído?

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Pragmatismo afetivo

Rafael Vendetta

Abraçamo-nos e não sentíamos nada. Nada nos incomodava. Isso era bom.

Às vezes sonho com a dissolução, disse. Ela me olhou, passou as mãos sobre meus olhos e comentou que isso não fazia sentido. Você sabe que o sentido é uma massinha de modelar, cortei.

Ela virou e jogou a coberta no chão. Eu subi, beijando seu calcanhar, sua perna, encostamos as mãos, ela revirou os olhos e jogou o cabelo para o lado. Dar as mãos foi como amar de novo e de novo. Dar as mãos a ela era algo tão reconfortante, encostávamos e parecia que tocávamos piano. Ela se espreguiçou, me beijou como se eu fosse morrer amanhã e puxou meus cabelos: havia força, vazios, delicadeza.

Aquela tranquilidade se convertia em silêncio. Eu sabia que tudo aquilo iria acabar. Amanhã, talvez semana que vem. Isso era o amor. Mas eu não me importava. Eu tinha aprendido, depois de tantos pequenos desastres a viver um dia de cada vez. Não tinha esperança em mais nada, apenas no sol, nos sorrisos e no relógio. A paixão se media pela intensidade e pela sinceridade, não pelo tempo.

Eu perdi a capacidade. Não sabia quem iria amar. Era uma sina.

– Não sei saber, confessei.

E ela retrucou: e alguém sabe?

– Sim, muitos sabem. Invejo quem decide tudo no primeiro olhar, no primeiro beijo, na primeira semana. Eu não. Nunca decidi nada. Sempre acho tudo muito amplo. Estou sempre esperando o próximo sinal, mas ele nunca vem. Não sei mais o que é um sinal. Fico sempre no aguardo.

Ela se calou.

Eu disse: isso te ofende?

– Não, ela retrucou. Eu não me importo, disse resoluta. Eu só vivo o presente, falou apressadamente, mordendo o cigarro na boca como se desejasse terminar a conversa.

Eu achei aquele pragmatismo romântico. Beijei seu pescoço pelo lado direito, ela largou o cigarro sobre o cinzeiro e me deu um beijo, recomeçando tudo novamente. Paramos no meio do caminho, sorrimos, apertamos as mãos e nos apertamos. Eu me lembrei de Sísifo no meio do caminho, que devia ser seu momento de maior prazer, nem tão alto, nem tão baixo.

E o que fazemos?, perguntei.

Ela riu suavemente, me puxou para seus braços, me beijou e apagou o cigarro no cinzeiro.

– Eu não consigo saber nunca.

– Tenho um universo dentro de mim. Acho tudo muito amplo. Enjoo de tudo. Mudo a cada manhã.

Ela sorriu, arranhou levemente minhas costas, ajeitou o cabelo, foi até a janela e pediu que eu fizesse chá de morango. 

Enquanto eu ia pra cozinha com aquele peso do mundo ela gritou: – Disso eu tenho certeza.

Eu esquentava a água e o chá. Aquele momento era o que realmente importava. Escutávamos “a música em que o mundo iria acabar”. Ela iria pegar o trem e viajar, como sempre fez. Eu iria permanecer ali, até alimentar-me novamente de outro universo, de outro vazio. E o que dizer para a ruiva? Exigir uma cerca branca e um cachorro? Exigir raízes? Eu não acreditava, assim como ela nesse modelo. (Não havia tempo para debater, decidir). Eu levei o chá de morango, nos beijamos, abraçamo-nos e dormimos. Amanhã era outro dia. Ontem, eu amei e fui amado. Amanhã não sei mais. Ainda consigo esquentar a água do chá. Vou seguir e ela também. É assim que será. Não é o romantismo que é pragmático, é o pragmatismo que me parece romântico.

Vou esperar a próxima estação.

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Quando ele achou que conheceu a ruiva

Rafael Vendetta

Eu saí sem rumo, andei a esmo, e finalmente encontrei um bar.

Mas não qualquer bar. Eu sentia que aquelas paredes de tijolos cinzas iriam me fazer esquecer o chute que eu tinha tomado em Alcabar. Aquilo não fazia mais sentido. Eu já tinha tomado outros chutes. Sabia reagir. Mas tem uma hora que a gente baixa a guarda e foi assim que eu fui golpeado sem perceber. Ela me apresentou a família e me olhava de um jeito que parecia que iria me amar no futuro; mas eu errei. Era apenas o jeito de alguém. E o jeito de alguém não se decifra, se aceita.

Eu entrei e você estava lá. Você tinha maquiagem no rosto. Estava mais velha. Mas eu não me lembrava de você mais nova e isso foi maravilhoso. Você usava um batom vermelho e tinha um bloco de papel na mão. Você parecia não se importar com aquela noite, apesar dela ser a noite mais importante dos meus últimos dias. Você aparentava desprezo e foi esse ar de descarte que me fez entrar.

Eu perguntei se o bar estava fechando. Meu francês era ruim e você ficou irritada com aquela pergunta, porque parecia óbvio, mas não era óbvio, para mim, um estrangeiro, que mal conhecia o ordinário, quiçá o supreendente. Eu sentei perto do balcão e tomei cerveja rubia. Estava vazio e eu achei que iria me deprimir com aqueles vinis velhos.

Eu cansei daquilo tudo rapidamente. Por um momento achei que iria me vencer, abrir a porta e sumir, deprimido, mas eu mudei de ideia e me aproximei de você. Eu puxei assunto sobre como ser um estrangeiro era difícil naquela cidade de luzes coloridas. Era papo furado, mas você aceitou e sorriu com o canto da boca.

Aquele sorriso iluminou minha noite cinza.

Você me pediu para eu esperar, porque você tinha de servir a outra mesa. E eu tirei dos bolsos um papel com uma poesia que eu tinha anotado no final da noite retrasada, mas quando você chegou eu guardei, porque não queria mostrar fraqueza.

A gente trocou olhares e eu esqueci todo aquele mundo maluco, onde a gente viaja sem saber bem porque ou por qual motivo e ao mesmo tempo recebe uns golpes do destino que pegam a gente no contra-pé da esquina. Como os golpes que eu recebi na semana passada e ainda assim fazia como o kung fu, ou fingia que não doeu ou revidava, que era o que eu sabia fazer (muito mal).

Você andou de um lado para o outro e o bar foi formigando, com gente saindo e entrando, até que às 03h tudo foi ficando devagar. Você disse para eu esperar e sumiu. Eu acreditei que você voltaria e fiquei com medo de tudo dar errado, pois era comum eu pensar que as coisas davam errado na minha vida. E um cara que trabalhava no balcão deve ter percebido isso, pois ele voltou e me disse que iria fechar. E eu achei aquele cara, o rosto do mensageiro da morte. Não sei porque pensei nisso. Mas eu pensei: porra esse cara vai fuder meu dia. Mas depois me bateu a sensação de que na verdade ele estava no ritmo da vida ordinária e haveria um dia pra ele, bem especial, que ele estaria no meu lugar.

Ele continuou a me empurrar pra fora e eu resolvi sair, mas decidi esperar lá, ainda com minhas paranóias guardadas no bolso, até que tu saiu, com teu casaco vermelho e tudo acabou. Eu percebi que o cara não era o mensageiro da morte, era só um cara, querendo descansar e dizendo pra mim que amanhã teria The Smiths e que eu deveria voltar pra minha espelunca de quarto, escrever, tomar vinho e dormir.

– Vamos sair?

 -Pra onde, perguntei.

Talvez para lá, tu apontou.

Andamos com cheiro de sabão-maduro e paramos num bar, perto de um lugar que eu lembro o nome mas não quero dizer. Chegamos lá e entramos. Era uma espelunca, com mesas de madeira com toalhas vermelhas mas tinha vinho barato, E aí tomamos aquele vinho barato e eu pensei em te beijar, mas falamos de tudo antes de eu pensar em te beijar de verdade: de psicoterapia, de júlio verne, de como o Chile era diferente, de como a vida de garçonete era difícil, da crise econômica e dos cornópios de Cortázar. Depois saímos e estava muito frio (para mim). E de repente comecei a pensar que talvez tudo aquilo fosse acabar e não daria certo (eu sempre pensava isso).

Você foi andando e ainda tínhamos a garrafa de vinho nas mãos. Estava muito frio, tu me aquecia, mas eu não pensei em nenhum momento em agir, pois eu queria que agíssemos juntos. Andamos e tu ria do meu frio. Falava: – Respira mais fundo, respira. E ali eu achei que ia te beijar, porque eu tinha a imaginação de poeta. Mas não aconteceu.

De repente paramos numa banca de jornal e olhamos para aquele monumento iluminado. Eu voltei a colocar as mãos nos bolsos. E me lembrei do anjo da morte mais uma vez. Aí tu falou que iria embora. Eu disse que tudo bem. Mas aí tu voltou e me beijou.

Tu me perguntou se eu queria ir pra tua casa. Eu disse que seria ótimo, mas que eu tinha tomado um chute recentemente e que eu não me sentiria na obrigação de nada. Foi difícil dizer isso, pois além da minha hesitação, o idioma não ajudou. E tu começou a me esgrimar e eu caí no teu jogo de armar. E tu me esgrimou tanto, que eu, com meu francês precário, não conseguia explicar o porquê de um chute de alguém que eu conheci por três dias, fazia tanta importância a ponto de não conseguir lhe amar. Mas de fato era assim.

Aí tu riu e pediu um táxi (isso foi cruel).

Eu não saiba o que fazer. Achei que o melhor era ir embora. Tu abriu a porta do táxi. – Entra seu bobo.

Eu entrei. E ainda não acreditava, porque o anjo da morte tava ali, sentado ali do meu lado, dizendo que não era verdade. Tu mandou o taxista me deixar na minha espelunca e na tua casa. Eu achei que tinha terminado, aí conversamos durante cinco minutos quem iria para onde. E o taxista não riu, mas eu achei que ele riria, porque onde eu morava era assim que os taxistas se comportavam. Até que tu me beijou e eu entendi tudo. Tu mordeu meu lábio e ali tudo se apagou, o anjo sumiu e eu parei na tua casa. E esqueci tudo, o chute, o idioma e nossas línguas se entrelaçaram. E tu disse que achou bonitinho eu dizer que estava com medo, mas eu não planejei nada, eu apenas estava com medo mesmo (eu não sabia que isso era bonitinho).

Eu te amei ali naquele dia e nos deitamos nus, naquele frio, num quarto de madeira, com teu sapatos vermelhos e os meus azuis no chão, um par ao lado do outro. E nós, nos aquecendo (10 graus) sob uma janela estreita que dava para um lugar cheio de galpões. Tinha gente passando de um lado para o outro às 5h da manhã. Eu acendi um cigarro, te abracei e nos beijamos com força.

E do nosso encontro sobrou tudo. Ficou uma memória linda de uma noite ruiva. E estranhamente eu não esperei mais nada do outro dia, apesar de ter vivido aquilo com tanta intensidade, que me perguntei se aquilo tinha realmente acontecido. 

Fizemos isso durante 4 dias, num lindo eterno-retorno, até o dia que eu fui obrigado a sair. Eu não olhei pra trás. Não prometi nada. Tampouco disse que iria retornar. Peguei minha mala vermelha e segui. E de repente, todo o peso do passado se dissipou. E eu só conseguia olhar para frente.

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Quando acordamos

Rafael Vendetta

Acordamos e tocamos os nossos lábios. Depois passei a mão nos teus cabelos castanhos (sim, estavam castanhos) e você espreguiçou, deixando minha boca percorrer teu pescoço, enquanto os raios de sol entravam pela cortina.

A vizinha cantava ao lado e eu perguntei se era assim todos os dias. – Só quando ela está feliz. É isso ou o canário belga. Nos abraçamos por debaixo das cobertas e o tempo tinha parado. Eu não me importava com nenhum tipo de compromisso, meu compromisso era aquele abraço. Nossos olhos tinham se encontrado; tu com aqueles teus lindos olhos grandes e que me espreitavam até enxergando meus sonhos e que conseguiam me despir assim, de uma só vez e eu ali, costurando corações de papel imaginariamente. Recortando você devagar, enquanto encolhíamos nossos pés para dentro da coberta.

Tudo aquilo foi efêmero, mas preencheu de significado meus meses durante tempo o suficiente para eu saber que não era o budismo de banca de jornal, os combates de rua, a política internacional ou a teoria dos fractais que me davam sentido por aqueles dias, mas sim ruiva, te tocar, com a ponta dos meus dedos dançando pelas tuas costas, enquanto eu beijava teu corpo e segurava teus quadris com força. Tu colocava o café e eu esperava deitado, olhando para o teto, me escondendo do frio, mas pensando falsamente nas coisas que eu teria de fazer no dia. Era mentira. Eu fazia isso para acreditar que aquilo lá, aquele pedaço de mundo vermelho não era tão importante quanto eu achava, quando na verdade eu sabia que isso organizava muita coisa ao meu redor. Como uma núcleo de afeto que vai organizando as partidas de futebol, a ida na padaria, os sonhos, a vontade de sair e panfletar, os poemas escritos em algum banheiro ou aquela viagem no final do mês. Até o modo de fazer a mala, onde eu carregava como um estrangeiro meus afetos perdidos, voltava naquele dia.

Tu me perguntou se eu queria chá. Eu, embaixo do chuveiro, disse que não, só se fosse de hortelã. Tu voltava com a chícara nas mãos. Conversávamos sobre sobreviver, sobre qual era o melhor lugar para comprar hortelã, ríamos sobre alguma piada da noite anterior ou simplesmente fazíamos isso tudo ao mesmo tempo (embaralhados) enquanto eu mordiscava teu pescoço. Tu passava a mão na minha cabeça. Acordávamos para o mundo.

Era preciso golpear o cotidiano e a rotina cinza sem piedade. E fazíamos isso, exatamente quando esquecíamos da rotina e nos concentrávamos em nós. Era um segredo vermelho só nosso, que não era fácil de fazer, pois exigia dois espíritos livres. Isso era diferente de ter de acordar sozinho. Onde eu fazia café e só podia olhar para a chaleira, fumegando meus sonhos do dia anterior. Era aí que pensava na psicanálise. Que se dane a psicanálise.

Se eu tivesse um núcleo vermelho de afeto, não estaria ali, com dificuldades para decidir se tomava café ou hortelã, porque saberia de imediato que tu iria me perguntar isso e decidiríamos juntos.

Quando eu ia embora e era sempre no fim da manhã, eu fingia que as minhas urgências eram mais importantes que aquilo tudo: o toque das mãos, os beijos, os arranhões que deixavam pistas ou mesmo, aquele bilhete lindo, que escrevi para você e larguei em cima da cômoda: “o hortelã tem gosto dos teus beijos”. Mas não. Era preciso mudar tudo. Eu olhava aquele sofá cinza, minha velha estante de mogno e a sexta-feira dizia: hoje tem psicanálise. Os panfletos e textos deveriam cobrir os abismos, mas eles só grudavam na pele, enquanto o que eu desejava, era aquela rotina, cuidadosa, vermelha, precisa. Solta, efêmera, casual, mas linda nos detalhes.

Não era fácil acordar. Há um sonho vermelho que não me deixa dormir.

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A espera sem esperança

Rafael Vendetta

Esperar, mas não com gosto.

Não tinha mais fé. Perdeu a esperança.

Era ela. A que se fora. Não havia mais jeito. Ela partiu. Não voltaria. Pegou o passaporte e partiu. Foi num dia de semana. Tudo estava bem, mas tudo mudou. Ela deixou uma flor sobre a mesa. A flor murchou e morreu.

Eu não acreditei. Achei que voltaria. Guardei a flor até o último momento.

Então comecei a andar sem propósito. Eu buscava a mim mesmo, eu me buscava ali, andando de um lado para outro sem propósito, sem o propósito de gente que busca as bibliotecas; enfileirado entre aqueles livros com códigos, eu sonhava em me encontrar na terceira estante, com algum livro, onde eu pudesse ler aquele meu manual de instruções. Mas sempre pensava que ser amado aos 30 anos era como ser um livro velho editado em 1972 numa biblioteca grande. Havia livros que nunca foram abertos, que nunca foram pegos, mas estavam na estante, esperando algum leitor chegar. E se ninguém os pegasse, o que aconteceria? Sempre saía da biblioteca com essa sensação. Que aquilo não fazia sentido. Guardar-se para algo que nunca chegaria.

Nunca tinha falado isso para nenhuma bibliotecária porque me sentiria ridículo, mas aquilo era o verdadeiro sentido da vida, ali, espremido nas coisas ordinárias. Um dia tomei coragem e questionei: há algum livro daqui, que alguém nunca leu? Ela disse, olhando de soslaio: sim, muitos. E o que fazem com eles? Não jogamos fora. Guardamos até alguém ler. E se ninguém ler?, aprofundei.

Ela tirou os óculos, olhou para os dois lados, como se fosse falar algo proibido e disse: jogamos a coleção fora, mas isso depende de um parecer e um relatório depois do outro. É tão complexo, tão complicado, que fazer isso requer muita vontade de se livrar de um livro. Então optamos por deixar ele lá, na esperança que alguém irá um dia, lê-lo. 

Mas isso é enganar o livro, refutei. Ela fingiu indignação, bateu no balcão de madeira e disse que eu deveria culpar os leitores que nunca o procuraram. Nós só os guardamos, afirmou, pegando uma caneta. A culpa na verdade não é só do livro, nem do leitor, pra mim é de ambos, finalizou.

Não quis insistir. Mas antes de sair emendei: você acha que há livros que não tem sorte? Ela respirou, guardou a caneta por sob o balcão e finalizou: são como pessoas, entenda como quiser, mas agora eu preciso trabalhar.

Depois disso passei semana como qualquer outro. Era outono. Comprei tabaco, peguei dois livros (os que tinham sorte), dormi. Comi. Trabalhei, mas isso não era digno de menção. Fiz café no fim da tarde (como nós ruiva, isso sim é digno de menção), peguei sol na soleira do prédio e deixei o jornal na água-furtada. Era hora de comprar pão e beijar o gato, depois tudo se ajeitaria.

Mas isso fazia todos os dias. O que não dizia, é que vez ou outra havia a espera. Uma espera sem esperança. Que chegava sempre com o olhar perdido. Podia ser na quinta ou na sexta, tanto fazia. Mas o sentimento era o mesmo. Ninguém ia chegar. O tempo passava. Eu lia mais um ou dois livros, mas em determinado momento pensava que podia estar me comportando como aquele livro da estante, o que nunca seria pego, o que nunca seria usado, o que nunca seria lido, o que nunca despertaria interesse. 

Foi aí, que para completar o paradigma da bibliotecária, pensei que o leitor poderia não gostar do livro, mas seria muito pior, o livro não gostar do leitor, o que me acontecia frequentemente. 

Voltei para casa. A flor continuava lá. Ruiva, eu senti tanta dor ao olhar aquela flor. Foi como se eu me olhasse no fim da semana sem qualquer filtro. Tua mala sumiu. Minha mala estava vazia, o que me deu uma sensação de não poder me encher. Pensei naquele momento em encher minha mala de livros. Mas minha dor não passava. O gato se esfregava na minha mala vazia. Eu olhava para a mesa com aquela toalha de mesa branca e verdade com manchas do nosso melhor almoço. Aí me lembrei de tudo. Sentei e pensei em você, comendo maçã. Pensei em você jogando a tua roupa no abajour. Pensei em você se despindo daquele modo natural que só você sabia fazer, mas aí voltei a realidade. E começou a chover. E eu descobri que fiquei 6 horas sentado: no sofá, na mesa, no chão, no piso do banheiro, com a água quente me massageando.

Pensei em descer e conversar com Alonso. Mas ele só iria falar do evitável. Pensei em ligar para Anatole, mas ele iria me dar jogos de armar que eu não poderia suportar. Pensei em pegar meu passaporte e partir, mas eu não tinha uma estante pra ir. Eu não tinha teu paradeiro e mesmo que tivesse, não iria te procurar, pois entendi que você era minha espera sem esperança. Você não me queria, mas eu achava que era tudo uma fraude, que era apenas aguardar você mudar de ideia e que tudo iria se ajeitar: mas quanto? Talvez, essa fosse a mesma sensação que um livro que nunca foi pego sentira. Mas livros não se enganam, eu sim.

A flor morrera, mas eu tinha um gato para cuidar, muitos livros para ler e vez ou outra eu me despia, não de modo natural, mas era preciso seguir, mesmo assim, com uma espera sem esperança no peito. Era preciso seguir, com um sol me dando, o que nenhum sentido deu. Era preciso levantar, acordar, tomar café, ler outro livro, deitar e sonhar. Enfim, fazer tudo aquilo que não é digno de menção. Tudo aquilo que deixou de ter teu cheiro. Tudo aquilo que faz da espera e da esperança, coisas vermelhas que um dia a gente põe no peito e começa a achar que é só falta de sorte.

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Ensina a te esquecer

 Rafael Vendetta

 Eu só penso em uma pessoa quando escrevo ruiva e você sabe que é você. Nunca neguei isso para ninguém. Eu evitei dizer, na verdade nunca disse totalmente, mas quem olha no fundo dos meus olhos sabe que essa é a verdade. E isso está estragando tudo. Todas as camadas que eu coloquei em cima de você não duram.

Você me diz pra seguir a vida e te esquecer, mas isso não é possível no momento e não sei mais quantos anos sentirei isso, como sinto, da primeira vez que te encontrei. Você deveria saber disso, talvez já saiba, mas é fácil me ignorar. Eu admito. Sou uma pessoa fácil de ser ignorada. Eu simplesmente me esforço para isso. Tomo café, durmo em casa sozinho, leio e compro tabaco. É fácil me ignorar. E eu gosto disso.

Não posso fazer isso como você: viajar o mundo e viver. Eu não sou assim. Nunca fui. Minha vida é mais simples. Eu vivo um mundo entre quatro paredes. Até quando viajo, gosto de estar entre quatro paredes. Não sei bem o que é essa liberdade de não ter raízes fincadas bem fundo na terra.

Eu vejo tuas fotos, as que eu posso ver e não espero mais nada. Já tive alguma esperança, mas não muita, nunca tive muita esperança. Isso explica a intensidade de tudo o que eu senti; o quanto eu me doei. E foram só duas semanas, talvez mais do que isso, mas se contarmos bem, o tempo que ficamos juntos, tudo não durou mais do que uns 20 dias. E pensando bem, eu poderia ter me doado mais. Na verdade me doei muito, mas não do jeito certo. Em nenhum momento eu disse, eu falei, nem gritei, nem citei nada nem ninguém que me inspirasse, mas enfim, eu me doeei, porque era teu cheiro que eu sentia, quando eu ia dormir, mesmo sem você. Eu achei que não precisava ter dito.

E agora? E agora como estou? Como te explico? Deixe-me começar e serei rápido. Eu não tenho mais esperança. Sei que aquilo já passou. Tudo aquilo. Um belo verão que se foi e foi um lindo e determinado verão. E veio o inverno. E eu fiz três anos de terapia e se foi. Mas espera. Não quero falar do passado. Quero que você me ajude e me dê meu futuro de volta. 

Eu não consigo mais seguir sem pensar nisso. Eu finjo que eu não penso, mas alguém sempre descobre e tudo começa a ruir. Eu falo para o meu terapeuta que eu não penso. Eu sempre sento naquela cadeira laranja e digo a ele que tudo está bem, que tudo está melhor. Eu sigo e ando até com os punhos fechados, mas meu problema, aquele que não se cala, é o fato de eu não conseguir mais amar ninguém ruiva. Só você.

Mas eu sei que você está no passado. Não sou nostálgico. Eu sei que você já passou. Eu tenho certeza disso. Eu sei que acabou. E você ainda apareceu no meu sonho, naquela estrada e me disse: vai, segue, me esqueça. Mas eu não consigo ruiva. Eu preciso saber como se faz. Por que eu tentei de tudo.

Eu fiz tudo e mais um pouco e continuo na mesma. Parece que eu andei em círculos. As pessoas sempre dizem: isso vai passar. Como elas tem certeza? 

E se vai passar, quantos anos eu vou precisar? Quero saber. Quantos ruiva? Eu preciso saber pois não estou aqui pra brincar. E eu só quero saber pra saber se vale a pena esperar tanto. Por que sinceramente e sei que tu não vai voltar, eu quero que aquilo que já passou não faça o que está fazendo, que é me espremer como um inseto. Eu quero meu futuro de volta ruiva.

Me ensina a te esquecer. Me dá isso pelo menos.

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Um Sonho Terrível

Rafael Vendetta

Que sonho terrível.

Eu andava por uma estrada cinza. Era outono. As folhas caíam. Folhas de várias cores, mas a cor que evidenciava meu coração era o amarelo. Eu andava pela estrada. A estrada estava vazia. Nenhum carro. Aquele asfalto negro, úmido e um vento frio (não tanto). Nada. O som: apenas dos pássaros, ao fundo, nada que me tirasse a concentração de andar.

Cheguei a ver um ou dois roedores. Lagartas, pedras com limo e um pardal, comendo alguma coisa, antes de perceber que eu estava ali, e então desapareceu. Foi então que eu percebi quanta energia eu apostei naquilo tudo. Em você ruiva, antes de você sumir. E mesmo assim, eu estava ali, querendo tomar café e sentar numa mesa de madeira confortável, esperando você entrar de repente naquele restaurante agradável de beira de estrada. Mas não.

Mentira. Alucinações e imaginação sempre acompanham a caminhada. Não era nada. Aquilo era só um desejo que virou pintura, que virou a descrição do que eu queria fazer, não do que era. Isso é uma tendência. O pardal só estava lá para comer e voar. 

Mas eu, eu, cheio de débitos com o futuro, já imaginava que o pássaro me mandou um recado. É assim ruiva. É assim que funciona. A gente quer encontrar sinais onde só há vida. E a vida é uma mó, é um moinho que esmaga o que passar adiante. A vida não manda recados. A vida é natureza. E a natureza não brinca de oráculo. Ela só se move, como um granito. Como eu, caminhando ali, naquela estrada, sem cigarros. 

Sentei pra descansar num banco de madeira velho, com algum mofo branco em um dos pés. Era um banco sem sentido, cheio de folhas mortas ao seu redor e que ficava perto de uma ponte. Quem iria querer sentar perto de uma ponte? Quem foi que construiu aquilo ruiva?

Eu sentei ali, estava úmido e eu não me importei. A mochila pesava, mas não tanto como você. Você pesava mais. Suas viagens, seus sorrisos, seu sumiço. Sim, isso pesava muito mais. Teu desprezo pesava mais do que a minha mochila e acredite, acredite, minha mochila pesa bastante. Foi nesse momento, de abrir e fechar a mochila, como se dali, fosse sair algo que me dissesse: “continue, acredite, você vai chegar lá”, que eu reivindiquei a minha dor do mundo. Eu reivindiquei toda dor e não adiantou muita coisa, para ninguém, pois não tinha ninguém ali. E só eu sei, só eu, ruiva, que aquilo fez todo sentido e eu tive de sentar e olhar para o céu. Eu larguei a mochila, catei uns pedaços de madeira (velhos), me agachei e não sei por que diabos, voltei, fechei a mochila e continuei a andar. No banco haviam nomes. Corações. Iniciais. Riscadas a canivete.

Que violência.

Eu me pus a andar. Segui, atravessei a ponte, como um granito. E andei, andei, andei. Andei demais, sem saber onde começava o ponto final. E no meio do caminho eu tropecei e caí. Foi uma queda feia. Eu ralei as mãos, os cotovelos e bati o joelho com força. Isso tudo por que tentei descer e encher meu cantil numa fonte. Fui pelo lugar errado.

Não tinha mais forças. Parei e desisti. Pensei em morrer ali, esquecido. Mas meu ferimento não era tão grave. 

Eu queria ficar ali. E os pássaros gritavam com mais força, mas pássaros não gritam. Eu estava deitado. Depois de uns 20 minutos (talvez mais, eu não sei bem), um som na estada. Era um carro. Eu escutei algo parar. Escutei som das portas. E eu lá, deitado, olhando para o céu. Que lindo céu. Escutei e levantei. Meus joelhos doíam. Escutei o carro acelerar novamente. Eu corri, mas não vi nada.

Continuei a seguir pela estrada. Foi ali que comecei a chorar. Amarrei meus cadarços. Peguei um pedaço de madeira e me apoiei. Os joelhos doíam. Eu segui. Caminhei sem olhar para cima.

Um carro deu ré. Eu parei. Era um carro azul, velho, mas inteiro. O carro atravessou a pista de ré. A porta do carona se abriu. Era você. Você disse: entra aqui. vem logo.

Palavras carinhosas. Era você. Eu te achava linda, mas ali só tive tempo para sentir dor no joelho e te achar pálida. Teu cabelo estava mais liso e foi assim, que eu caminhei até ti.

Você falou mais alguma coisa. Disse que eu teria de seguir. Disse que eu teria de seguir sozinho. Eu disse que entendi, mas era mentira. Eu dizia aquilo, pois não queria que você perdesse tempo comigo.

Nos despedimos e eu continuei a andar. E achei que ia chorar.

Mas meus joelhos não doíam mais. Eu segui, como a natureza, como um granito, um mó, rumo ao destino. Eu me pus a andar.

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naohaestrada

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Despedida

Rafael Vendetta

Eu gostaria de dizer algumas palavras, mas eu sou ruim com palavras, então eu preferi falar dos meus sonhos.

Num sonho eu  encontrava uma cidade fria com uma antena colorindo ruas e desejos. Sim, falávamos de coisas do passado, mas na verdade a gente temia o presente, falando para si próprio que o passado era algo que não fazia mais sentido para nós. Meu terapeuta, que racionalizava até o amargo do café, dizia que a vida era assim, como tomar café em São Paulo no frio, essa era a vida.

Pobre terapeuta, pobre São Paulo.

Eu fui mexer em coisas velhas, foi assim que eu fui para lá (aí). Desenterrar o sofrimento dos antigos por entre papéis e cheiro de mofo e aí você surgiu, digo ressurgiu, com a tatuagem da Fênix na tua pele branca, que eu chamava de Quetzal, por que eu só conheci Quetzal, aquela ave que diziam que morria quando perdia a liberdade. Ave corajosa.

Não como eu, eu, andando por entre paralelepípedos amarelos, fazendo realpolitik do amor, flanqueando você nos momentos errados, quando eu deveria ter abandonado a minha coragem naquele gole de café e ter dito o que tinha de ser dito antes de tudo começar.

Mas não. Eu não disse nada, fiquei aqui escrevendo, morrendo de saudades homeopaticamente.

Ah não roja, eu não fiz o que deveria ter sido feito. Eu preferi andar erraticamente, caminhar por entre escombros emocionais, preferi montar castelinhos de nostalgia… Mas que palavra maldita e covarde, nostalgia… nostalgia… parece nome de remédio ruiva. Eu deveria ter ido até você.

Eu me lembro de tudo por que me lembro das histórias boas. Não sei quantas histórias boas eu vou ter na vida por que não sei quanto tempo vou viver, eu só sei que aquela flor que você esqueceu foi mais significativa do que a coleção completa do Jung lá em casa. Jung não me disse nada. Mas aqueles grampos na mesa, aquela flor, sim, aquilo tudo fazia muito sentido. Não sei quando vou viver isso de novo. Talvez seja exagero; não me importo.

São Paulo é tão cheio, mas o bar estava tão vazio. Eu não sei, mas aquilo teve cara de sonho. O encontro na fila, o beijo no parque, você e eu num lugar que eu não posso mais passar sem lembrar de você, por que mesmo que as coisas mudem, você estará gravada ali, com seus olhos, seu sorriso, com sua boca roja e seu perfume invencível.

Mas veja bem, os sonhos não acabam. O nome daquela palavra de que não conseguia me lembrar é despertar roja. Eu troquei por consequência, mas a palavra é despertar. “Depois do despertar vem, com o tempo, a conseqüência…” (Albert Camus). Óbvio que eu me reestabeleci roja, como eu sempre fiz na vida, dia após dia, com os sonhos guardados no coração. Eu sempre fui assim. Quixotesco pero no mucho.

A gente não mata os sonhos. A gente só acorda. Desperta. E volta a sonhar. O mundo é isso aí roja. É preto e branco e colorido ao mesmo tempo. É sonho e realidade. O mundo é o que a gente quer ele seja. E quando ele não é, eu digo que a terapia, a realidade, a sociedade e o capitalismo precisam ser  definitivamente mudados para haver mais gente ruiva e linda como você no mundo.

Quando a primeira cerveja acabou ruiva, eu vi que eu só tinha mais alguns minutos para olhar nos seus olhos à procura de mim mesmo. Dizem que isso é idealização. Pode ser. Talvez seja um universo vermelho. Juro que não irei mais escrever sobre você, por que guardar um universo dentro de si é coisa de gente grande.

oamanhaserasimbólico

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Realpolitik do amor

Rafael Vendetta

Ruiva, prendi você numa caixinha em formato de coração. Enterrei bem fundo, bem fundo, ruiva. Cavei muitos buracos, e chovia. Cavei para esquecer onde enterrei. Onde enterrei teu coração.

Aí te acompanhava de longe. Era uma carta, era uma poesia. Uma notícia distante, uma carta. Era eu aqui, cheirando e beijando outra pessoa, pensando em você. Cheirando tuas cartas.

Quando tudo se aquietou eu lembrei quer era permitido sonhar. Num sonho, ruiva, eu desenterrava a caixinha, mas não encontrava nada dentro. As caixinhas estavam vazias. E alguém me dizia que na verdadeira, estava meu coração, não o teu. Ruiva, não consigo mais escrever. Perdi você e as letras. Enterrei meu coração e não sei onde está ruiva.

Você vai correr e se esquecer de mim. Eu vou envelhecer, morrer, sonhar. Não importa. O fato é que não nos encontraremos mais por que ambos somos covardes. Eu vou envelhecer e me arrepender; pois é isso que fazem os covardes.

Tentar viver uma ilusão é necessário. A realpolitik do amor é o presente, e o presente não voa como você voava, assim, num susto de verão.

Estou bem ruiva, mas falta-me uma dose de acaso, de você, da tua pele branca e do teu cheiro vermelho assim, espalhado no quarto depois do sexo. Falta aquela mordida, aquela recusa, e por que não dizer; que falta você tão instável, fazendo-me escrever repetidamente sobre algo que não se pode mais cavar, por que está enterrado num lugar que eu definitivamente já esqueci.

Não tenho mais pá, por que cavar a si próprio dói demais.

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