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Emigrou

Rafael Vendetta

Maldito mundo novo. Que separa as pessoas por dias ou semanas, e linhas imaginárias. Mais de dois dias e você vira um peixe. Duas semanas e já passou do prazo, e começa a feder.  

No início, o seu sotaque e a cidade do raio-que-o-parta são interessantes na roda de conversa, como um gif de buldogue japonês de língua-azul e que faz parte do enredo dos que tem tempo para lhe escutar. Mas extrapolada a dead-line da novidade ou do abuso, você é só mais um comum que não sabe falar cadeira em búlgaro. E na rotina frenética dos bancos e dos que quebram bancos, ninguém tem tempo para tentar lhe ensinar a falar love-you-tear-us-apart em Cantonês porque empatia é cara meu amor e é paga hoje, em bit-coins. Veja bem. A coisa anda rápido e não espera você se decidir em que mundo vai morar. Ninguém tem mais tempo pra isso. O globo não é mais aquele encontro gentil e desinteressado do século XVI.  O mundo é hostil. É uma distopia do Marck Zuckerberg dirigindo um tanque de guerra movido à curtidas.

Demorei dois meses para aprender a mandar alguém pro inferno. Perguntei a Matias como eu falava e ele me disse: –  Está falando bem estrangeiro.  Mas era mentira.  Matias só estava sendo gentil com alguém de fora da linha. Era assim que tinha de ser. Esse era o papel de  Mathias.

Às vezes só se quer comer doce de leite e se integrar. Mas não é fácil. Isso demora muito. E eu, na apatia crônica do pequeno mundo, decidi mudar a linguagem de programação pra tentar me integrar-entregar. Achei que falar do que deixei para trás ia acabar com as minhas contradições de classe, que idiota. Em duas semanas isso se tornou tedioso  e eu achei que ia quebrar meus dentes apertando uns contra os outros, com tanta força, que achei que a tristeza iria sumir.

Com os dias cinzas passei a não conseguir mais acordar de manhã. Ninguém me ligava porque eu era um estranho. Eu vivia no silêncio e de manhã me silenciava. Tentei melotonina, álcool, efedrina e tarot. Nada me salvou. Passei a dormir quando eles andavam e falavam entre si. Comecei a pensar nas linha imaginárias que guardavam meus dias. Joguei i-ching e torci pela vitória do time de futebol da Albânia. Nada me ajeitou.

Não sabia mais morar no meu mundo. A moeda da vida me quebrou. E ela pedia demais. O banco dos sentimentos andou rápido e cada dia, a cobrança chegava pelo final da tarde.

O mundo era hostil. Não podia pagar. Que me enterrem num lugar onde não consigam ler meu nome. Não sei em que mundo vou morar. Não sei mais falar esse idioma. Desisti de aprender.

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Como fazer um café com o pó do absurdo

 Rafael Vendetta

Acorde. Lembre dos seus sonhos. Lave o rosto. Pense em anotar seus sonhos.

Esqueça seus sonhos.

Pegue o pó do café. Misture com o que restou de si mesmo. Esquente a água. Pode sentar. Pode andar pela casa. Pode fingir que está fazendo algo para si próprio ou pra casa. Pode até varrer a casa. Pode pensar no dia anterior.

Faça o que fizer, o tempo é curto e se mede sempre pela água. Pode sentar, acender um cigarro, olhar para o sol nascendo. Ele nasce laranja porque tem sujeira no ar. Se ele nascer amarelo é porque o dia vai ser quente. Se ele nascer cinza, o café vai ter um gosto muito bom. Espera a água esquentar. Se a água esquentar e você esquecer é porque alguma coisa aconteceu. Foi o sonho, foi o dia anterior, foi a carta que ela não enviou, foi o esquecimento, foi a falta de sentido. Alguma coisa sempre ocorre quando se esquece a água do café e ela seca sozinha (como você). Se isso acontecer deve-se adotar atitudes emergenciais: deixar o café para o próximo dia ou esquentar a água e o sentido de novo.

Com o café pronto, você enche a caneca da vida e pensa na semana, nos meses, nos anos. Você bebe. Você finge que há um plano para o dia (não há nenhum). Quando estiver quente você bebe. Bebe e esvazia o sentido. Canta aquela música. Olha no espelho. Amarra o cabelo. Se tiver um gato, fale com o gato. Se tiver uma planta, molhe a planta (de água, não de café). Pegue um copo. Esvazie o cinzeiro da noite anterior. Pode esticar as pernas com a camisa de flanela cobrindo o erro da noite anterior. Coloque as meias.

Você pode sair. Você pode voltar (talvez não possa). Inspire. Expire. 

Quando parar de pensar, o que sobrar é você, segurando uma caneca e bebendo café.

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Há dias que são inverno

Rafael Vendetta

Há dias que são inverno. Mas se eu disser isso, com todas as letras, sem disfarçar, as pessoas vão aparecer, vão me ligar, vão me encontrar e fazer aquele olhar de pena e isso, eu sinceramente não quero.

Quem quer isso, não sabe realmente viver um inverno. Quem deseja uma compaixão de isopor não é digno ou digna do inverno que se tem. Que vá viver com os medos medianos. Que vá fazer café no fim da tarde, mas por favor, não force um encontro.

Talvez os que resolvam escutar possam pedir para vestir-se de anjos platinados. Anjos que despertam uma vontade imensa de rir e dizer: burlesco. Mas é certo: vão logo embora e desaparecer. Esperam a vez de falar e somem, pois é essa a receita do cotidiano.

Quando se sentirem bem, ou melhor, quando eu me sentir bem, será a vez delas de se permitir sentirem-se “deprimidas”; e aí retribuirei a gentileza, com alguma ar de gratidão e um tacape emocional escondido debaixo do travesseiro. E o mundo seguirá, com a fatura passando de um lado ao outro. Algum dia, alguém irá cobrar e aí é que a coisa começa a ficar esquisita.

Se eu insistir ao dizer: “nada mudou, continuo no meu inverno” elas vão me mandar procurar um terapeuta. Vão jogar com as pílulas prontas e os comentários-diamante. Falarão: faça-amigos-se-divirta-vá-ler-um-livro-exercite-se-chore-procure-amigos-durma-mais-vá-no-cinema-você-é-muito-solitário-que-tal-comer-algo. 

Isso tudo é muito deprimente. Me deixe com meu inverno. Eu colocarei alguma coisa no seu lugar. Eu alimentarei meu inverno com cerveja e o vento batendo no rosto, no fim da tarde de domingo.

Eu poderia dizer aos que insistem em curar meu inverno: já fiz isso tudo, não resolveu. Não me imponham essas cores, chega de distrações. Vamos parar de flanquear e ir direto ao ponto. Parem de se evitar. Vocês querem resolver meu inverno, pois temem que o seu verão acabe.

Amanhã não estarei melancólico. Talvez semana que vem tudo passe. Ou mês que vem. Ou pode ser como no ano retrasado, em que larguei a melancolia dentro de um ônibus, depois de oito meses brincando de jogos de armar, pude respirar e olhar ao sol, quase como na primeira vez.

Foi como nascer de novo. Eu sentia que podia andar com aquele calor. Mas era um mormaço que logo passou e eu voltei ao mundo, com o ar de gratidão. Agora falemos a verdade. Quem vive sem invernos?

Chega de mentir. A diferença é que eu resolvi falar sobre isso. Mas não quero olhar de pena. Eu quero apenas que vocês vivam seus invernos sem autopiedade.  É preciso aceitar o que se faz.

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Éprecisoaceitarnossosinvernos

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Um Sonho Terrível

Rafael Vendetta

Que sonho terrível.

Eu andava por uma estrada cinza. Era outono. As folhas caíam. Folhas de várias cores, mas a cor que evidenciava meu coração era o amarelo. Eu andava pela estrada. A estrada estava vazia. Nenhum carro. Aquele asfalto negro, úmido e um vento frio (não tanto). Nada. O som: apenas dos pássaros, ao fundo, nada que me tirasse a concentração de andar.

Cheguei a ver um ou dois roedores. Lagartas, pedras com limo e um pardal, comendo alguma coisa, antes de perceber que eu estava ali, e então desapareceu. Foi então que eu percebi quanta energia eu apostei naquilo tudo. Em você ruiva, antes de você sumir. E mesmo assim, eu estava ali, querendo tomar café e sentar numa mesa de madeira confortável, esperando você entrar de repente naquele restaurante agradável de beira de estrada. Mas não.

Mentira. Alucinações e imaginação sempre acompanham a caminhada. Não era nada. Aquilo era só um desejo que virou pintura, que virou a descrição do que eu queria fazer, não do que era. Isso é uma tendência. O pardal só estava lá para comer e voar. 

Mas eu, eu, cheio de débitos com o futuro, já imaginava que o pássaro me mandou um recado. É assim ruiva. É assim que funciona. A gente quer encontrar sinais onde só há vida. E a vida é uma mó, é um moinho que esmaga o que passar adiante. A vida não manda recados. A vida é natureza. E a natureza não brinca de oráculo. Ela só se move, como um granito. Como eu, caminhando ali, naquela estrada, sem cigarros. 

Sentei pra descansar num banco de madeira velho, com algum mofo branco em um dos pés. Era um banco sem sentido, cheio de folhas mortas ao seu redor e que ficava perto de uma ponte. Quem iria querer sentar perto de uma ponte? Quem foi que construiu aquilo ruiva?

Eu sentei ali, estava úmido e eu não me importei. A mochila pesava, mas não tanto como você. Você pesava mais. Suas viagens, seus sorrisos, seu sumiço. Sim, isso pesava muito mais. Teu desprezo pesava mais do que a minha mochila e acredite, acredite, minha mochila pesa bastante. Foi nesse momento, de abrir e fechar a mochila, como se dali, fosse sair algo que me dissesse: “continue, acredite, você vai chegar lá”, que eu reivindiquei a minha dor do mundo. Eu reivindiquei toda dor e não adiantou muita coisa, para ninguém, pois não tinha ninguém ali. E só eu sei, só eu, ruiva, que aquilo fez todo sentido e eu tive de sentar e olhar para o céu. Eu larguei a mochila, catei uns pedaços de madeira (velhos), me agachei e não sei por que diabos, voltei, fechei a mochila e continuei a andar. No banco haviam nomes. Corações. Iniciais. Riscadas a canivete.

Que violência.

Eu me pus a andar. Segui, atravessei a ponte, como um granito. E andei, andei, andei. Andei demais, sem saber onde começava o ponto final. E no meio do caminho eu tropecei e caí. Foi uma queda feia. Eu ralei as mãos, os cotovelos e bati o joelho com força. Isso tudo por que tentei descer e encher meu cantil numa fonte. Fui pelo lugar errado.

Não tinha mais forças. Parei e desisti. Pensei em morrer ali, esquecido. Mas meu ferimento não era tão grave. 

Eu queria ficar ali. E os pássaros gritavam com mais força, mas pássaros não gritam. Eu estava deitado. Depois de uns 20 minutos (talvez mais, eu não sei bem), um som na estada. Era um carro. Eu escutei algo parar. Escutei som das portas. E eu lá, deitado, olhando para o céu. Que lindo céu. Escutei e levantei. Meus joelhos doíam. Escutei o carro acelerar novamente. Eu corri, mas não vi nada.

Continuei a seguir pela estrada. Foi ali que comecei a chorar. Amarrei meus cadarços. Peguei um pedaço de madeira e me apoiei. Os joelhos doíam. Eu segui. Caminhei sem olhar para cima.

Um carro deu ré. Eu parei. Era um carro azul, velho, mas inteiro. O carro atravessou a pista de ré. A porta do carona se abriu. Era você. Você disse: entra aqui. vem logo.

Palavras carinhosas. Era você. Eu te achava linda, mas ali só tive tempo para sentir dor no joelho e te achar pálida. Teu cabelo estava mais liso e foi assim, que eu caminhei até ti.

Você falou mais alguma coisa. Disse que eu teria de seguir. Disse que eu teria de seguir sozinho. Eu disse que entendi, mas era mentira. Eu dizia aquilo, pois não queria que você perdesse tempo comigo.

Nos despedimos e eu continuei a andar. E achei que ia chorar.

Mas meus joelhos não doíam mais. Eu segui, como a natureza, como um granito, um mó, rumo ao destino. Eu me pus a andar.

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naohaestrada

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Teu jeito de lidar com o mundo

Rafael Vendetta

Você foi uma idiota, eu fui um idiota. Mas somos idiotas diferentes e com motivos distintos. Eu devia ter te falado que te amava, mas nunca disse. Sempre insinuei é verdade. Traduzi meu amor com meu corpo, minhas cartas (sim eu ainda enviava cartas), meus beijos e minha ilusão. Achei que você se comunicava da mesma forma que eu, mas eu estava errado.

Você tinha seu jeito próprio de lidar com a coisa. Eu me movia e pensei em comprar os livros do Neruda. Eu te dei os livros do Neruda. Confesso que não soou espontâneo, mas eu nunca fui tão espontâneo. Na hora me pareceu a melhor coisa a fazer . Achei bonitinho (e o fiz de novo, em menor grau, achando que funcionaria). Eu sempre reagia assim, falando o pouco, o necessário. Nunca fui tão longe. Mas minha ansiedade te amava. Você não percebeu? Eu te liguei tantas vezes. Eram tantos emails. Quando você ia tomar café longe de mim, eu me controlava e fingia-me liberto, mas eu estava lá, esperando você chegar. Dê-me um desconto. Eu não te vi mais. E na época nem falei tanto assim. Não sou do time dos obsessivos, pois você transpirava a tranquilidade dos amores justos.

Pense bem. Eu precisava fazer daquele jeito. Você não me viu mais. Não me ligou. Não me explicou. Não mandou nenhuma carta. Você também não tentou, diga a verdade.

E no meio de tudo, alguém passou de bicicleta, uma bicicleta cinza; eu não tinha cigarros no bolso, mas pensei em fumar. O café estava frio e eu segui, segui com os paralelepípedos emoldurando os corações inscritos no granito. Mas eu só tinha areia nas mãos e uma tarefa imprescindível a cumprir: mudar o mundo.

Então, o que eu tinha, o que eu tive? Eu tive um ou dois momentos de amar e eu joguei as fichas lá (não me julgue). Você tinha a certeza de si mesma. Tuas dúvidas não eram como as minhas. Minhas dúvidas eram profundas; eu tinha uma raiz que ligava meu coração com o compasso da vida.

E depois? O que aconteceu? Eu não sabia o que fazer com o que sobrou. Nunca fui bom em lidar com cacos. Meu problema é com o que sobrou. Não sei fazer mosaicos. Sei que não dá mais para existir ou voltar com a mandala, os livros do Neruda, com aquele encontro casual na fila do jantar. Sei que tudo passou e desmoronou. Desmoronou a ponto de sim, e aí tenho certeza, de que mesmo dando certo, algo terrível aconteceria (mentira, podíamos ter tentado, de verdade). Você se enjoaria. Talvez eu (duvido). Um de nós ia desistir (ia ser você, como sempre). Alguém ia viajar (ia ser você). Alguém ia falar que não daria certo pelo telefone ou pessoalmente (foi você). E no final você encontraria alguém, alguém para lhe suprir e eu viraria memória. Uma justa memória. Bonitinha e na embalagem mas inútil. Não serviria mais. Não serve mais. Mas foi bom para ti. Estou aí, nesse pedaço de mundo. Mesmo sem querer.

E como eu faria?

Eu buscaria outra coisa, mas não, eu só tive uma oportunidade. Desperdicei, desperdiçamos.

Eu fui um idiota. Não tentei tanto, mas esse era o meu jeito. Se eu tentasse demais ia dizer aos quatro ventos que tudo terminou por conta da minha insistência. Como eu não tentei, digo agora, que poderia ter tentado mais. É um paradoxo. No fundo, acho que tudo deu errado, pois era você, era você que tinha de decidir. E você, no momento decisivo fraquejou. Você tinha seu jeito de lidar com o mundo.

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desperdiçou

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Minha última sexta-feira no Catete

Rafael Vendetta

Acordei e fiz o que sempre fazia, lavar o rosto, escovar os dentes e depois colocar a água do café. Dormi mal, mas acordei bem. Porque o contrário sempre acontecia e eu estava feliz de ver algo mudando. A água do prédio tinha acabado e na noite anterior eu tinha jurado que ia sair de casa pelo menos uma vez, mas ia sair sem compromisso.

Depois de muitas semanas alguma coisa me aconteceu. Eu conseguia acordar e consegui dormir quatro horas. Na semana passada eu não acordei. Então fui até o Catete, aleatoriamente.

No caminho uma mulher entrou no ônibus (atrasado) e sentou do meu lado. Reclamou do atraso do ônibus. Eu não respondi, mas concordei com o olhar. Aí ela me perguntou se teve algum acidente. Eu disse que não, Ela respondeu que isso era um absurdo e que ela ia chegar na hora do almoço. Eu entendi, mas não disse nada, só apertei os lábios, fingindo empatia, levantei uns 10 minutos depois e desci.

Não sei porque, mas achei que o fato de estar de bermuda foi o que influenciou algumas pessoas a olharem pra mim. Isso aconteceu metade pela minha paranóia, metade porque o ônibus parou no semáforo e eu atravessei.

Quando eu cheguei no palácio do catete eu atravessei a rua e vi um cara tocando flauta. Achei uma merda, mas pensei que fazia parte do meu dia e também dos clichês.

Entrei na feira do livro, Fui sistematizando os estandes. Fui e voltei. Fui e voltei. Aí comprei o que queria. Em alguns estandes as pessoas não botavam fé em mim então eu desistia. Num outro estande o vendedor foi muito atencioso, então fui embora. Quando enchi o saco resolvi passear pelo parque. Passei rápido. Grávidas e um velho reclamando que entrou no banco e o segurança pediu pra ele levantar a camisa. Concordei mentalmente que aquilo devia ser desagradável. Pensei se eu ficaria assim como ele, reclamando do mundo com 70 anos de idade.

Dois universitários entregavam flores de papel pra todo mundo, mas não entregaram pra mim. Achei que era metade machismo deles, metade machismo meu.

Aí fui embora e entrei numa aporia filosófica. Comer no Catete era caro demais. Subi numa escada e  num prédio errado e reclamei sozinho da placa em frente a um boteco muito sujo. Acabei no Largo do Machado comendo uma esfiha e um kibe no Árabe. No caminho encontrei uma velha com uma bola azul na cabeça, no meio da praça. Na volta vi um cara com um terno preto, com um dread grande e meio embolado segurando uma guitarra. Não tinha ninguém escutando. Umas madames comprando cânfora e o cara esperava pra subir no palco improvisado.

Quando eu passei pelo palco vi uma barraca da Assembléia de Deus e uma galera com um sorriso na cara. Passei direto e confesso que fiquei com raiva. Mas lembrei do cara do dread e alguém passou por mim dizendo alguma coisa que eu não consigo lembrar.

Voltei pelo outro lado da rua. Voltei e comprei uns dois livros. Numa barraca a vendedora me perguntou se eu era professor. Eu respondi que sim, mas não sabia se ela ia exigir algum documento, mas já tinha decidido mentir. Quando eu voltei pro parque  do Palácio do Catete cheguei perto de uma fonte e um café que tinha sido reformado. Lembrei de uma conversa sobre a França e Paris e como aquilo tudo não me pertencia. Lembrei de ter ficado sentado no banco de madeira verde e lembrei de quando eu acreditei e joguei fichas e moedas nas fontes e na esperança vermelha, com as grávidas e as crianças passando.

Peguei o metrô e entrei na galeria mais próxima. Sentei e fiquei lendo – mentira – acabei sozinho, olhando pra quem passava e o que acontecia. A hora não chegava e eu resolvi comprar café. Na volta um sujeito que tinha uns 40 anos pediu café pra mim, pois não tinha almoçado e provavelmente nem vendido bala nenhuma. Eu dei metade do café pro cara e andei  me sentindo o pequeno-burguês mas burguês da tijuca, indo falar que tinha problemas que existiam mas não existiam. Me senti mais merda, quando lembrei que não almocei porque não quis pagar cinco reais a mais, enquanto o tio das balas não almoçou porque não tinha cinco reais.

Fiquei na galeria observando o mundo, mas quase não passou ninguém. Chegou um cara de jaleco branco e eu julguei que ele era médico. Depois veio um cara de blaser e roupa de médico e eu julguei que ele era médico. A galeria tava vazia e eu julguei que era a tal galeria fantasma que todo mundo da Tijuca comentava. O cemitério das lojas.

Aí vi que só frequentavam a galeria gente que tava doente. O único restaurante tava falido e fechado. Só me restou falar muito e ir embora. Fui andando pra casa (economizei uma passagem). E não, nem a terapia, nem o Catete, nem os livros, nem ficar sem almoçar adiantou muito. Eu eu só me lembrava da bola azul na cabeça daquela mulher e acho que foi isso que fez eu ter pensado sobre a loucura que é tentar ser você mesmo pelo menos uma sexta-feira da vida. E acho que foi, exatamente isso, que me fez brigar com o mundo todo naquele dia e ser mais eu de vez em quando, mesmo assim, desmembrado e fragmentado pelas ruas sujas e pequeno-burguesas das minhas artérias e do Catete.

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Esculpir modelos: talhar a si mesmo como pedra

Papai e mamãe fizeram modelos que muita gente celebrou como os definitivos da vida. Bolinho, casamento, festa de 1 ano e voilá, um cadeado com a família inteira, segurando cinismo e explosivos no estômago do tio júlio, que irá morrer de câncer ano que vem.

Os amiguinhos mimados e as anacristinas descoladas que dançam ao som de Bob Dylan e usam vestidos dos anos 50 como se estivessem no mundo a passeio fizeram modelos que muita gente celebrou como definitivos. Eram anti-modelos costurados na faculdade de moda em Frankfurt ou numa viagem a passeio no Canadá, ou pode ser na Bolívia, para parecer um importante-crítico.  Parecia simples, pisar em alguns calos, subir na carreira, viver a vida intensamente até o pulmão e os olhos encontrarem algum psicoativo com nome de banda londrina e algemar-se ao próprio umbigo para o resto da vida. Chamava-se isto de coração ou apenas paralelepípedo. Eu não sei o que acontece com essas pessoas. Eu não vejo o futuro dessa gente, não sou cigano nem astrólogo e não gosto de mirar o passado sem um plano bem amarrado.

Nesse mundo novo, admirável e feliz, de anti-modelos e modelos, a consciência brinca com os tolos de jogo de armar. Cigarro e cinismo vem e vão, junto com as passagens de metrô ou os cursinhos de pós-graduação. Eu só sigo meu  estômago quando o coração diz que é hora de parar. E só respondo meu coração quando o estômago diz que é hora de prosseguir.

Eu desci a Rua da Carioca com isso na cabeça, mas eu não pretendia pensar mais em nada. Eu apenas fumei cigarro, como meia dúzia de tolos e tomei uma cerveja. O dinheiro acabou. Eu voltei pra casa, peguei mais grana e desci. Bebi mais cerveja e cantei sozinho.

Voltei pra casa e bebi água. Comprei pão (que coração de paralelepípedo compra pão num domingo? eu deveria estar fumando haxixe ou comendo aquelas comidas japonesas que não sei dizer bem o nome).

Aí fui seguindo. Parecia simples. Era apenas boa música, um caneca de água gelada. Eu olhava para os trilhos do trem, passava por cima da passarela, andava pela rua pensando naquela iluminação toda e o povo na semana anterior, fantasiado de modelos e anti-modelos, e ia seguindo.

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Eu lembrava daquele banco que eu dormi, de madeira, de um pináculo que levava a um coração abaixo e a esquerda, no centro da cidade e pronto, explodiam-se as diferenças de classe, os hábitos, os absurdos cotidianos, tudo mudava de repente… Era esperar o mundo acordar amanhã, planejar o dia e a semana, viver, sentir aquele cinza invadir novamente as mesmas ruas, e eu ir colorindo tudo, devagar, como quem tivesse perdido os modelo da cabeça.  Mas um dia resolvi ficar rico de desgosto e de alegria, tudo junto e ao mesmo tempo.

Catei paralelepípedos soltos e comecei a pintá-los com giz de cera. No outro dia, decidi comprar uma talha e fui esculpindo e marcando os corações. Coloquei num parapeito e aí, muita gente começou a aparecer. Todo dia alguém trocava seu coração por um paralelepípedo pintado de giz. Eu não fazia a cirurgia, essa eu deixava para o mundo. E os pombos voavam longe daquilo tudo, felizes por não terem de carregar os paralelepípedos. Aí fui seguindo, fui seguindo. Fui seguindo, distribuindo corações de paralelepípedo ao mundo e nunca mais reclamei dos modelos e anti-modelos: no fim era tudo igual. Era tudo a mesma coisa.

No final de semana eu respirava aquele ar todo, rico de alegria e de desgosto, mas nunca triste, pois não se pode ser triste num mundo que precisa talhar a si mesmo todos os dias.

Não se pode jamais ter o privilégio de fracassar com o que o estômago e o coração dizem pra gente. Não se pode errar consigo. Deve-se repetir máximas morais para agradar os dois lados, ainda que  arrancar um pedaço de pedra não é um hobbie, nem uma arte, é apenas um esporte de combate.

Da violência simbólica

Rafael Vendetta

Acabou. O horror sem a praia. A folha de papel está vazia e o café quente na mesa. Quando acordo não consigo dormir. Quando durmo não consigo acordar. O  desafio dos passos cotidianos. Sair de casa sob sonhos esmagadores sem caneta, pegar um ônibus, cumprir as tarefas, mastigar.

E aquele passado invencível na mesa, junto do pão e do café, esperando alguém abrir a janela, fumar cigarro e voar por entre os prédios desse bairro cinza. Não queria virar escritor? Mudar o mundo? Viajar ao redor do globo? E agora, nem consegue abotoar os botões sem olhar para o nublado do céu? O tempo está passando. Amanhã são trinta, quarenta, cinqüenta anos. E tem gente na fila, esperando o seu lugar adulto vagar.

Me responde agora: essa poesia consegue fazer a ferrugem falar? Todo mundo é escritor.  E se isso aqui está sem sentido é por que a tradução do estranhamento não é uma coisa que se possa resenhar com o livro do Bourdieu nas mãos minha querida. O que você esperava de mim? Eu sou como você. Só vim aqui para cumprir tarefas e esperar o tempo passar para morrer/viver. Não seja tão exigente.

Não posso ser maior do que sou. Olha a folha de papel vazia. Vou voar por aí amanhã, hoje eu espero que o mundo abra uma janela sem me perguntar porque diabos o tempo passou e eu ainda estou com esses sonhos recorrentes nos olhos. Me deixa em paz. Cuida da sua própria ferrugem.

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Realpolitik do amor

Rafael Vendetta

Ruiva, prendi você numa caixinha em formato de coração. Enterrei bem fundo, bem fundo, ruiva. Cavei muitos buracos, e chovia. Cavei para esquecer onde enterrei. Onde enterrei teu coração.

Aí te acompanhava de longe. Era uma carta, era uma poesia. Uma notícia distante, uma carta. Era eu aqui, cheirando e beijando outra pessoa, pensando em você. Cheirando tuas cartas.

Quando tudo se aquietou eu lembrei quer era permitido sonhar. Num sonho, ruiva, eu desenterrava a caixinha, mas não encontrava nada dentro. As caixinhas estavam vazias. E alguém me dizia que na verdadeira, estava meu coração, não o teu. Ruiva, não consigo mais escrever. Perdi você e as letras. Enterrei meu coração e não sei onde está ruiva.

Você vai correr e se esquecer de mim. Eu vou envelhecer, morrer, sonhar. Não importa. O fato é que não nos encontraremos mais por que ambos somos covardes. Eu vou envelhecer e me arrepender; pois é isso que fazem os covardes.

Tentar viver uma ilusão é necessário. A realpolitik do amor é o presente, e o presente não voa como você voava, assim, num susto de verão.

Estou bem ruiva, mas falta-me uma dose de acaso, de você, da tua pele branca e do teu cheiro vermelho assim, espalhado no quarto depois do sexo. Falta aquela mordida, aquela recusa, e por que não dizer; que falta você tão instável, fazendo-me escrever repetidamente sobre algo que não se pode mais cavar, por que está enterrado num lugar que eu definitivamente já esqueci.

Não tenho mais pá, por que cavar a si próprio dói demais.

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Instruções para evacuação de um trem na via

Os homens devem vestir gravatas rosas, as mulheres vestidos amarelos com bolas pretas.

Os casais apaixonados devem sair rodopiando abraçados uns aos outros, ao final da saída, uma coreografia do balé bolshoi deve ser executada na parte central da plataforma. Não haverá área V.I.P.

Os religiosos, os crentes, e os indecisos com culpa, devem rezar para salvar todos os demais passageiros.

Aqueles que não acreditam em deus devem permanecer sentados no banco preferencial aos ateus.

As contas a pagar podem ser queimadas na presença de um agente de segurança.

Os livros do Neruda podem ser reembolsados nas bilheterias das estações. Não aceitaremos rosas como devoluções.