A Festinha na Gafieira


aguardando correção ortográfica e gramatical.

Para escrever é preciso desastres.

Mas eu que só tenho repetições de coisas pequenas, que calculadas de maneira miúda se concretizam, não sirvo para escrever, só sirvo para existir, como um saleiro com arroz integral.

Se tivesse algum terror pessoal guardado na gaveta ou uma tragédia na ponta da língua para contar diria: sou escritora.

Mas eu só tenho pequenas bobagens, pequenos desastres. Frágeis e inconsistentes; cíclicas inadaptações.

Meu terapeuta que não era crítico literário já me avisara: Ana Cristina, isso aí não faz um defunto, no máximo um medíocre e olhe lá!

E eu, com aqueles meus textos soltos na mão, não chorava, e olhava para ele com cara de pena ou de raiva, dependendo do dia do mês.

Quando as minhas forças já estavam exauridas, eu não conseguia me matar, pois toda vez que eu me jogava do apartamento eu voava de volta como uma gaivota.

No térreo dançavam os meus joelhos esfolados e minha compulsão por band-aid.

E em alguns dias, em uma morte cotidiana que chamam de festas, alguém dizia com pressa: Ana Cristina, sua idade, o que você faz, onde você estuda? Doutorado ou endocardite infecciosa?

Que importa o clube dos imbecis? Que importa os delinquenteszinhos de apartamento, se o que verdadeiramente vale é olhar com fé para aquela janela grande e cretina de frente para aquela baía suja e que emudecia aquele mundinho térreo, que subia e descia, subia e descia, sem surpresas?

E nas gafieiras mais velhas e maduras, com a bibliografia toda dançando em torno de mim, os salgadinhos e os canapéiszinhos iam diminuindo aquelas pessoas, enquanto aquela musiqueta de merda fazia tchan-tchan-tchananana-tchan-tchan, para lá e para cá, para cá e para lá. Até que alguém de alguma maneira mais corajoso/a do que eu podia surtar e gritar bem alto que aquela festa toda estava uma merda.

– Está uma merda me ouviram, uma MERRRRDA! Entenderam seus putos? Uma merda(ai, que mulher louca – xingou o cetim da segunda fila).

Era neste pontinho desagradável da festinha, que os pasteizinhos, os crossaintzinhos, as tacinhas de pró-seco iam se enfiando num grande buraco negro de hipocrisia humana, dobrado com guardanaposinhos de alto relevo dourado, como um cú sugando todo o entorno de si mesmo: era um big-bang anal, e ao contrário.

E era assim, quando a cabeça girava, as luzes cresciam, tudo ficava meio inaudível, e alguém no fundo de mim existia com aquela raiva sangrando nos dentes e eu costumava dizer bem alto para todas aquelas festas e pessoas melancólicas:

– Sou mais velha que você e não sou escritora minha filha!  Eu sou é alcoólatra!

Anúncios

Um pensamento sobre “A Festinha na Gafieira

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: