Ruiva, a vodka, o cigarro, os clichês (A)


Eu acendo um cigarro e ela tenta me convencer que naquele momento, tabaco e dispersão seriam sentimentos inapropriados.

Eu guardo o maço e jogo o isqueiro na mochila, trago na garrafa de vodka e sento no paralelepípedo; olho para a lua e penso em todas as promessas que eu fiz para mim mesmo: parar de fumar era uma delas.

Alguns transeuntes passam, a maioria no ignora, eis uma das qualidades da Lapa; esta que sábiamente utilizávamos à nosso favor.

Suas mãos, delicadas e bem delineadas, servem de sinal para a aflição; ela passa as mãos sob seus ruivos cabelos, retira a faixa vermelha com bolinhas brancas, algumas desiguais, que o  prendia, enquanto me encara de soslaio e começa a flanquear, de início sem muita intenção:

– Porque há todo este fascismo de mercado? Porque as coisas não funcionam da maneira que gostaríamos que funcionasse Vasilli?

Eu me finjo de morto, pego sorrateiramente o isqueiro e acendo o cigarro sem que ela perceba, uma condução abarrotada de gente e que merece no mínimo, atenção ou espanto encontra meu olhar.

Eu abaixo a cabeça com os cigarros na mão e soletro po-der, assim, mais como frase de efeito do que pura convicção.

– O poder é um câncer. Ele existe, é real. Não é um mero simulacro como desejariam , ele é viral, potente, e produz mortes, mísseis e os tais fascismos de mercado…

Ela pega a garrafa de vodka que eu encostei num dos cantos do paralelepípedo e dá uma bela tragada, uma tragada corajosa.

Eu me guio pelas sinuosidades do diálogo e respondo uma pergunta que ela não me fez:

-Sabe por que meus contos são clichês?

Ela não reage ao comportamento que eu idealizei. A idealização sempre falha nas horas em que mais precisamos…

Um silêncio constrangedor termina alguns segundos, enquanto eu penso em desistir ela acaba com tudo e me esgrima sem piedade:

-Seus contos não são clichês, ela responde carinhosamente, depois daquela pausa, que pôs em dúvida, e daquela dúvida que pôs em pausa meu futuro, minha paz e até o amor por ela, que eu jurava que era inabalavelmente eterno, mas que se desintegraria tão frágilmente se ela prosseguisse pelo caminho errado. Mas não, ela obteve os selos de aprovação da minha idealização – naquele momento.

Estávamos sozinhos, e apesar dos transeuntes, só podíamos estar, ficar, nos comunicar sozinhos, com a multidão de vozes que nos bastavam.

-Claro que são. Até nós somos clichês. Olhe para isso. Vodka numa quinta-feira, cigarros baratos, este diálogo, tudo isto aqui cheira miserávelmente à clichês, somos um verdadeiro nicho de mercado, já meio falido: meta-narrativa.

– Você sempre desvia o assunto… sempre… sempre desvia o assunto, ela me responde com uma indignação fingida, que dá  até gosto de assistir,  se não fosse uma aspirina no meu bolso que atrai minha atenção por um segundo ou uma lembrança inoportuna de um beijo amargo no último verão, eu até acreditaria naquela sinceridade fingida.

-Me desculpe, falei, com a pausa na respiração pontuando o diálogo.

Olhei para vodka, a garrafa estava no final. Dei uma tragada no cigarro, expirei a fumaça para cima e as memórias daquele segundo momento eram as dos meus últimos contos. Era tudo o que me importava. Escrever e retratar situações das quais eu não tinha absolutamente, nenhum controle.

Ela ajeitou o cabelo novamente, a obsessão não sei se era da minha percepção ou se era de seu comportamento repetitivo, talvez ambas; colocou aquele pedaço de pano que fingia dar vida às repetições de gente como ela na rua, e de novo começou a esfregar o tênis no asfalto cinza e sujo, fazendo aquele ruído característico de monotonia provocada pela falta de sentido e de coragem.

-Você escreve bem. Ela disse.

E eu respondi sem hesitação: e você é linda.

Ela sorriu, e antes, contrariando os desdobramentos rudes que eu tinha conduzido como um padrão, resolveu deixou espaço para aquela dúvida, que me enchia de ansiedade, mas deixava-a com a situação nas mãos, apesar de ter percebido, que o que havia por detrás daquele seu poder, que ela manipulava com perfeição, era apenas medo. Medo de mim.

-Quer mais vodka?, perguntou com todo seu potencial feminino. Já está no final.

Ser rejeitado não era muito interessante, mas aquela era minha oportunidade, eu tinha o controle, mesmo sem saber.

-Não. Eu quero um beijo seu. Um beijo alemão.

Ela sorriu mais ainda e indicou que a guarda estava baixa; bela esgrimista ruiva, mas que possuía lá seus bons pontos fracos.

– E como seria um beijo alemão, Herrrrr Vasilli?, perguntou, forçando os desdobramentos.

Minha insegurança não permitia tomar qualquer atitude. Eu preferi brincar de amante passivo.

Fiquei cantando uma música antiga dos anos 90, fingia estabilidade; ela brincava com a vodka. Eu tentava exalar auto-confiança.

Um beijo alemão é um beijo… Engasguei.

Surdo! É um beijo surdo, exclamei à plenos pulmões, como se tivesse descoberto a pólvora antes dos chineses.

Ela se surpreendeu, não menos indignada acometeu-se de dúvidas:

– Explique-se!

– Um beijo surdo, é um beijo egóico, egoísta, ególatra, egocêntrico, egopata!!

Por algum mecanismo ativado secretamente a confiança atingiu picos extraordinários, e eu achei-me disposto a convencer qualquer um, estava ganhando.

Ela sacou a princípio, mas vi que aquilo cansava-a e era hora de terminar, era a hora de tudo aquilo acabar, de algo novo ou velho nascer, era hora dos desdobramentos.

– Não, definitivamente nós não avançamos. Definitivamente continuamos dando voltas e voltas e voltas… Entendi, você acha que eu sempre me pautei pelos beijos-mudos, surdos, pelo afeto ególatra. Talvez você esteja certo. Talvez eu tenha mastigado alguns caras; tá bem, eu posso ter torcido algumas pessoas. Eu até admito que a minha concepção de amor livre esconda uma sociopatia, algumas couraças caracteriológicas(ela lia Reich), mas não me paute apenas por isso. Você sabe, você sabe, você sabe porra, que eu não perderia tempo com tudo isso aqui se não tivesse um pedaço de você dentro do meu coração seu filho da puta!

– Fizemos avanço, eu gritei.

– Fizemos avanço, já em pé, eu gritava, e com os dois braços e dedos das mãos aberto, com o casaco e cabelos amassados eu fazia um teatro com o corpo, sim merecíamos.

– Porra. Sociopatia é o caralho! Merda. Você me fudeu. Você me fudeu. Levantei o tom da voz, me enrubeci, perdi o prumo, ela não esboçava reação, mas resolveu se entregar à raiva e ao jogo.

– Eu não escolhi aquela merda de lugar! Você me encontrou naquela porra por que você quis. Eu não escolhi estar ali. Eu não te procurei. (A última frase parecia brevemente como uma súplica desesperada que ela entoava)

Eu passei as mãos nos cabelos, ajeitei parte do casaco, puxei um cigarro, acendi, olhei para o céu,  respirei, comecei a chorar, lágrimas honestas.

– Você podia ter voltado. Você podia ter ligado. Podia ter enviado uma maldita de uma carta, falei mais desarmado e com a voz embargada.

Ela ficou de pé, passou as mãos nos meus ombros e eu me lembrei de uma música do Charles Mingus, Duke’s Choice, e não sei se foi a música ou a situação, ou ambas, mas aquilo me encheu de melancolia e eu senti que aquele pedaço de mundo desabava e que ela removeu um pilar importante que eu não teria tempo de substituir. Por que a vida, a vida precisa de tempo, e aquilo ali, aquilo era insubstituível, aquela dor era invencível.

– Eu vou embora Vas, eu vou embora.

– Toma a chave, respondi.

– Não preciso mais daquele apartamento; eu vou para o Uruguai, amanhã compro minha passagem, dá um jeito naquela Luger, pega tuas coisas no armário, junta as cartas do Nato, não se esquece de fechar tudo.

– Vas. Vas…

– Fala.

– É medo de amar mesmo. Eu tenho medo de te amar. Vai pro Uruguai! Vai porra, ela gritou, assustando os transeuntes.

– Vai por que a única coisa que eu posso fazer é repetir essa merda toda. Eu gosto de estragar minha felicidade. Vai.

– Vai e some daqui.

Peguei a mochila, chutei a vodka carinhosamente no paralelepípedo, apaguei meu cigarro, caminhei sem olhar para trás, mentira, olhei duas vezes, na primeira ela olhava para mim sem forças, na segunda virou e correu para um táxi.

Deve ter ido ao apartamento.

É, ao apartamento, pensei alto e migrei sem rumo ao aeroporto com aquele pedaço de mim, ruivo, perdido para sempre dentro de um táxi.

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2 pensamentos sobre “Ruiva, a vodka, o cigarro, os clichês (A)

  1. luciana disse:

    intrigante… mas n deveria chutar a vodka

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