Animais Eróticos


Tomou banho, e era como se fosse um um orgasmo gratuito, naquele dia quente, quente e perfeito, que escorria tudo o que era ruim pelo ralo, tão curto, apertado.

A ruiva estava num dia ruim, e era esse, era esse o melhor dia para pegá-la com força; pegá-la não, queria devorá-la num quadro de Munch.

Estavam famintos. Enquanto ele tomava banho, ela despia parte da roupa, cantarolando uma música francesa, os pingos no chão do boxe, e ele, com tesão guardado que não fechava no registro do chuveiro.

Ela usava uma roupa que lhe era familiar e que ele já conhecia os atalhos, mas nem por isso removia o inédito daqueles corpos ébrios de desejo.

O lábio dela mirava o lábio dele – com força. Os olhos dela reviravam-se antecipadamente. Ele sentia tesão a cada suspiro, a cada gesto espontâneo, quase apático, mas que ainda guardava naquele ventre, a vontade de unir aqueles desejos tão criminosos num balé de corpos despudorados.

A cerveja esquentava, eles não ligavam.

O quarto simples e seus vassalos, cômoda, cama, telefone diziam: fode ela com força.

Quando ela se espreguiçava com aquele tesão guardado por semanas transbordando com a banheira e a espuma, com o cabelo assim largado, o corpo dele dizia, dizia que iriam se consumir até o inferno.

Aquelas unhas pintadas de vermelho instituíam uma lei: não para, não para nunca, vai até o final seu filho da puta!

A respiração de ambos, aquele ritmo, aqueles urros primevos, aquela dor que ele sentia quando ela arranhava todas as suas costas, e que parecia dizer: estive aqui, eu estive aqui, eu marquei minha história no teu corpo já desgraçado, já usado…

E ela, que não se explicava, mas deixava bailar, ora parecia controlada, mas tudo era um ardil, e eles sabiam bailar neste teatro honesto, onde não haviam censores, onde somente haviam o haver naquele balé dos diabos.

O início era sempre angelical e profundo, onde armavam-se, onde faziam aquele palco de lençóis respirar por entre os sussurros, as texturas das mãos, dos corpos se roçando, provocando aquele início que fingia inocência, mas que guardava uma maldade erótica que explodia quando o animal guardado dentro de ambos resolvia fugir, quando aqueles dois sexos se encontravam.

E quando eles arfavam e inspiravam o perfume de si próprios, e quando degustavam-se, canibalizando o amor, o afeto, a paixão, o tesão, o sexo que esgotava não no cansaço, mas naquela raiva contida, que tomava conta daquela cama profana, algo acontecia, ou era um urro, um tapa mais firme e descomprometido, uma olhadela por cima daquela timidez deste quarto provinciano.

E aí largavam-se, largavam-se e por alguns momentos, ainda umbrais e dominados por sentimentos antigos e primitivos, como aquele grito dela, cujo abajour destroçado no canto da cama, onde ele jogava-a e carregava ela assim, como um origami desajeitado, resolvia falar, explodir.

Vai, mais perto, mais fundo, mais forte, devagar, com calma, continua, eu te amo, eu te amo, filho da puta, filha da puta.

E um grito, um urro sincero, seguido de um tapa que estalou o recinto, falaram por eles e calaram, calaram todo o conto, numa mixórdia plena de gozo e grito que trazia à tona naquele instante, aquela serenidade típica dos amantes.

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