Doce Fruto do Amor


Ela estava com a mesma cor doce do fruto dos laranjais amadurecidos. Suas formas perfeitas contrastavam com toda a imensidão daquele velho e decadente armazém, cujo rebouco despedia-se das paredes e onde Humberto trabalhava no setor administrativo,  gerenciando setenta funcionários e se fosse preciso, varava noites realizando o velho serão da madrugada.

De início permanecera acanhado, fingiu não tê-la visto, num dos cantos sombrios do armazém. Porém a vontade fora irresistível.

Resolvera caminhar até seu objeto de desejo, enquanto seu coração palpitava de uma excitação tão incontrolável, suas mãos suavam frio ao imaginar o que viria a se seguir. Os últimos passos foram os mais calorosos e de certa forma torturantes. Abraçaram-se durante um longo período.

Nenhum som era necessário! Ele já sabia o que sentia por ela!

A paixão totalmente correspondida privava o ambiente de qualquer barulho que pudesse vir a estragar a cena, que iria em breve imortalizar-se em seu pequeno e sofrido coração!

O armazém permanecia calmo. Com as grandes empilhadeiras adormecidas entre as imensas estantes de alimentos dos mais variados; os sacos de batata, os de legumes, a frutas mais variadas e outros mais alimentos perecíveis, impondo aquela rudeza e espontânea à cena já sublime!

Ao abraçá-la seu corpo foi tomado de um calor irresistível e seus membros começaram a formigar, inundando-se por uma onda abrasiva de emoção, que transmutava os breves segundos em longos e prazeirosos minutos ao seu lado!

Já tinha tudo planejado! Arrumara o lugar ideal para unir-se de uma vez por todas com sua “querida” Vênus de Milo.

Virara os olhos para o lado, somente para verificar, que o vento que corria lentamente por entre as gigantescas estantes do armazém, era como a harmônica canção que convidava a lua cheia brilhante, a mostrar sua face por inteiro. A lua dos poetas, pensou ele! Sim, a lua dos poetas! Nada mais poderia ser perfeito!

Dirigiram-se a saleta transversal ao escritório principal, onde a maioria dos funcionários, após horas extenuantes de trabalho caíam nos braços de morfeu por alguns minutos, antes de voltarem as obrigações frígidas que o “destino” traçara sobre os mesmos.

Caminhando por entre o corredor estreito, entrelaçou suas mãos à amada até o destino escolhido, onde poderia demonstrar todo o afeto que sentia.

Abriu a porta lentamente para não incomodá-la e nem produzir barulhos que pudessem alertar os vigilantes noturnos, os únicos além dele no recinto, de sua presença.

Deitou-a com extremo carinho, antes de desabotoar os botões da calça e projetar-se com toda ternura sobre aquele corpo macio que o convidava inconscientemente à completa depravação!

Olhou para ambos os lados para evitar que algum “voyeur” contemplasse tal fantástica e idílica cena! Com toques suaves, deslizando por todo seu corpo, ele esperou o momento certo para encontrar a fenda sagrada que o conduziria ao olimpo asgardiano do convidativo prazer!

Percorria todas as curvas de sua amada, com as mãos de don juan e manteve o vaivém cíclico e glaumoroso do balé sexual até a hora de seu desespero pessoal… A hora em que foram descobertos… e denunciados.

Sim, eles surgiram. Como a bruma avassaladora que engole o cavaleiro em sua perigosa jornada!

E resolveram o separaram de sua amada!

Doente, depravado, sem moral, gritavam seus algozes!Alguns riam, outros enojavam-se, outros cuspiam ou vomitavam no pátio cinza daquele túmulo de homens!

Porém ele se manteve firme, com o queixo apontando para o céu e o  corpo erguido em tom de desafio; até sua mão separar-se de uma vez por todas de sua ninfa preciosa! Seu tesouro pessoal!

No entando eles não mais se veriam! Os brutos, os malignos e horripilantes funcionários, os psicopatas de uniforme; separaram-no da última coisa que restara para amar… Ele foi expulso brutamente do armazém, sem tempo de defender-se ou apelar para a compaixão dos seus inimigos! Nem  espaço de tempo teve para relembrar as poucas recordações que durante todos estes anos foram acumulando-se em sua memória. Quanto à sua amada… Bem sua deliciosa amada! Fora esquartejada pelos imbecis, àvidos por  violência, desejosos de vingança! E fora jogada numa catacumba moderna de ferro, como um mero fruto podre no qual não se encontra mais o encanto de outrora e nem se sente mais o aroma da vida…

No dia seguinte, uma placa reluzia na porta do armazém: serão noturno proibido, apenas vigilantes.

Ele estava em casa. Desiludido, abatido, cansado… E copiosamente entregara-se às lágrimas.

Recebera então, o golpe definitivo às quatro horas e vinte e sete minutos : sua carta de demissão, pelo correio, como de costume, uma inovação introduzida irônicamente por ele próprio.

Rasgara o envelope com pressa, e com aflição  a carta  com letras garrafais, estampadas em um sóbrio papel timbrado não deixava dúvidas as formas de sua desgraça.

Demitido por justa causa. Motivo do incidente: Flagrado no dia 24/06, às treze horas e quarenta minutos de uma sexta-feira, copulando com uma ABÓBORA.

Repetiu mentalmente a palavra “abóbora”. Era como Humberto, ex gerente-operacional se sentia agora, um grande e desempregado abóbora-macho.

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