Levando Flores para Helena


Todos as sextas-feiras eu levava uma pequena surpresa para Helena. Na maioria das vezes eu roubava flores nos quintais que eu por acaso esbarrava ou se o dinheiro permitisse eu comprava um belo ramalhete de rosas vermelhas ou brancas. Essas últimas, suas preferidas, diga-se de passagem. A florista já conhecia meus recados e telefonemas, porque quase toda sexta-feira eu levava rosas para Helena, solitárias ou acompanhadas, eu fazia questão de cumprir aquele ritual tão “nosso”…

Quando eu não tinha dinheiro e os quintais não me permitiam caprichos, eu fazia flores de papel, pintava quadros ou entregavas cartas de amor devidamente emolduradas pelo sorriso sincero de Helena, um sorriso espetacular, que pagava toda a energia gasta e me deixava completamente absorvido pelo aroma doce do amor.

Os espinhos das rosas e do nosso namoro, eram tão ínfimos diantes daqueles grandes-pequenos acontecimentos que eu não podia esperar as sextas-feiras, às vezes eu não suportava esperar, e entregava declarações de amor pelo telefone às terças pela manhã ou improvisava com o que eu tinha de melhor: minha criatividade, sempre tão voraz…

Cumpri essa tarefa durante anos, as sextas-feiras ficaram mais espaçadas, as flores mais raras, mais em nenhum momento eu me esqueci desse pequeno ritual.

Helena adorava minhas flores, mas adorava mais ainda todo o teatro que nós encenávamos antes da entrega, era um pequeno teatro, com um “palco” só nosso, tão particular, que contagiava nossos momentos e deixava o mundinho fechado que vivíamos mais cheio de aroma e de amor.

Pois bem, as flores nunca acabaram, assim como a receptividade de Helena, meu humor, minhas flores, nosso aroma, deixavam nosso relacionamento tão brilhante que eu me curvava ao destino em sinal de capricho. Nosso namoro era trivial, mas amávamos os simples detalhes, e curtíamos cada momento como o velho jargão ensinava: “como se fosse o último”. Nas noites de sábado, ignorávamos o mundo e íamos construir nossos momentos em torno de velhas manias, Helena era uma idealista, eu um otimista incurável e um destruidor do velho. Odíavamos o antigo, o novo nos era mais interessante, e partia-nos de considerações iluminadas, quando pensávamos em tocar para a frente nossos projetos impossíveis. Comprar um trailler, viajar pela América do Sul e plantar tomates num quintal eram só parte dessa casa de sonhos que construíamos juntos.

Tudo parecia perfeito. E tudo parece perfeito até ruir. Semanas depois, da última rosa, Helena adoeceu. Levei-a no médico, e freqüentei consultas a especialistas, as dosagens de remédio aumentaram e as rosas também. A constante dor de cabeça que as poesias não viram e as rosas não curaram aprofundou-se nas semanas que antecederam a sexta-feira das rosas brancas. Parti para o hospital com um ramalhete de rosas brancas, estava atrasado e o horário de visita iria terminar caso o ônibus não se apressasse. Cheguei na recepção, a atendente já me conhecia, e eu não sei porque senti que ela me olhou de uma maneira diferente das últimas visitas.

Eu cheguei esbaforido, com as rosas brancas na mão, a atendente me deu a notícia que teria de esperar, mais eu não esperaria, enquanto não soubesse realmente o que estava acontecendo. As pessoas me olhavam, eu ignorei os avisos da atendente e parti para o leito de Helena. Subi os degraus, abri a porta esbaforido, sempre preocupado com o ramalhete de rosas brancas, abri a porta do leito de Helena e não a encontrei. Voltei e esbarrei com seu médico, cuja face denunciou todo o rumo das futuras coisas que viriam acontecer. Um aneurisma matara Helena. E as rosas não foram entregues naquele dia. Eu tive que jogar minhas útlimas flores sobre um caixão de madeira, enquanto eu recebia tapas nas costas de pêsames e via meu mundo ruir. Muita coisa mudou e eu sei que poderia repetir o ritual e eu o fiz algumas vezes, entrando na porta daquele cemitério seco e despejando algumas rosas no túmulo de Helena. E toda vez que eu entrava lembrava de Helena e seu amor pela vida e aquela continuação de um ritual que não era uma ode a vida, era uma morte parcelada, porque toda vez que eu entrava naquela estrada de paralelepípedos e me lembrava das sextas-feiras com Helena eu matava uma parte de mim.

Helena amava a vida, amava as flores pelo seu brilho, não por que tinham sido arrancadas dos campos. Na última vez que eu entrei naquele cemitério, parei para comprar flores de uma sra. que repousava seus pés num caixote de madeira, enquanto contava as moedas que eu entreguei para comprar flores brancas.

-Brancas eu não tenho, disse ela.

-Mas eu sempre compro rosas brancas aqui, eu disse. Ela abaixou a cabeça, olhou para o meu estado, vísivelmente derrotado e disse:

-Não existem flores brancas. Não aqui, nesse mundinho. Branco é ausência. E o que você tem no peito são flores negras. E essas eu não posso vender, por que daqui há algum tempo vou estar vendendo para seu enterro também. Supere essa perda rapaz. Você é jovem. Vá em frente.

Depois desse dia eu nunca mais comprei flores brancas. E onde quer que Helena esteja, ela saberá que fiz a coisa certa. Porque Helena amava a vida. Amava a vida.

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