Nos quartos de motel


Quando assaltamos aquele banco, os expropriados reagiram, falaram que a propriedade privada, um bem inalienável e santificado fora corrompida por uma meia dúzia de anarquistas expropriadores; eu sacudia o controle remoto e sorria, sem camisa, deitado na cama, enquanto você tomava banho, e eu podia escutar as gotas, o barulho do chuveiro e a sua interrogação preencherem todo o ambiente: Está passando? Está passando? Você dizia.

Nunca falávamos de nós mesmos nestes momentos, nos esquecíamos dos “nós” pelo bem do coletivo, apesar do que, eu sempre pensava, que a linha tênue entre o coletivo e o individual sempre se esgotava nos finais de semana, no meio daquele bar pessoal, aquele que foi fechado pela polícia federal, somente por que gostávamos de nos amar ali dentro com aquele fundo musical, com aquelas coisas antigas, com aquela cerveja cara emoldurando prédios velhos.

Eu dormia sempre pensando no amanhã, e sinceramente desistia de escrever, de falar, de trabalhar muito, por que a música árabe, os livros romenos e toda a eventual anormalidade que perspassava nossas vidas recheadas de um cotidiano inesperado, pareciam desenhar que as segundas não eram própriamente segundas, as quartas podiam ter gosto de domingo ou vice-versa… já que as eventualidades produziam seus acasos tão particularmente interessantes e eu costumava beijar todo teu corpo quando nada funcionava e a gente respirava insatisfação.

E eu sorria, mesmo sabendo que o fato de você sair nua, completamente nua, apesar do que sua mente sempre estava vestida, conseguia eliminar toda tensão, mesmo que eu fingisse o oposto, e você repetia o “que foi”, o “Que foi?” que crescia, e fazia sentido, segundo após segundo, quando acabávamos nos amando despreocupadamente dentro de um quarto pobre de cortinas e papel de parede, mas repleto de paixão, sim, de paixão.

Aí eu acabava fazendo os mesmos elogios, retirava sua toalha molhada, você acabava sorrindo, me repreendia, ou às vezes até me odiava intensamente, o que provocava a necessidade de uma cautela, e invariávelmente acabávamos ou conversando ou nos amando(isto dependia essencialmente de nossos humores tão diversos), mas nós sempre conversávamos nos amando e nos amávamos conversando.

Quando você me negava em desculpas, era óbvio que mesmo devido as condições externas estava apoiando suas subjetivas vontades em condições gerais e objetivas que conseguiam mascarar um pouco de vingança parcelada(eu também fazia isso).

No final começávamos, um jogo de cafuné, uma massagem, e o dia posterior sempre era muito mais positivo, por que ou eu levava o café na cama, ou você me dava um beijo enquanto eu fingia sono. E era tudo muito bom.

Era um amor sem medo.

Seus cabelos molhados, sua blusa cinza, seus humores tão variados, eram tão apaixonantes, que eu podia carregar todo aquele dinheiro expropriado sem medo de ser reprimido: eu não temia ninguém, temia te perder.

O mundo era fácil, do teu lado era fácil.

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