Seu coração era um cinzeiro


O cinzeiro estava cheio de guimbas, de cinzas, de lágrimas. Seu coração era um cinzeiro.

Latas de cerveja vazias, alguns cubos de gelo derretendo em cima da pia. A cozinha estava suja.

Evitou-a fumando um cigarro na sala. Abriu a janela, viu a lua, parcialmente escondida, parcialmente exposta. Livros amontoados na sala, cd’s velhos, um sofá com um rasgo em um dos assentos e uma garrafa de vodka metade vazia e metade cheia(de hábitos).

Decidira enfrentar seus fantasmas com as gengivas sangrando, sempre era necessário. Não tinha medo da dor, era um mentiroso.

Sobre aquele pedaço de imundície; chamava-o coração.

Da tempestade sobrava era uma dor de cabeça, repetitiva, masturbatória, desbravadora. Tornava-se o que era, o que é, assim com uma nota de dez nos bolsos e  uma tristeza no pulmão forjada nos culhões de uma decepção à 40 pratas a sessão de terapia.

Iria buscar-se nos abismos emocionais, aqueles que se acendiam com o abajur, resgatado e inerte como um pedaço de coisa queimada, parte do limbo, onde salvaria a si mesmo. Onde confundiria-se com o próprio redentor.

Redenção do-it-yourself embalada à vácuo, fabricada na China por setenta e dois adolescentes, com a aprovação do lassez-faire, da embaixada local, do filho da puta que ganhou uma eleição fraudada pelo marketing, pela tv.

Por enquanto, apesar do discurso, possuía apenas uma vidinha medíocre e contas a pagar; sem nos esquecermos da lasanha políticamente incorreta que guardava no congelador há meses, do lado daquela cambuca de gelo, tão deprimente e com um saco plástico esquecido no fundo do freezer.

Olhava para a mesa de vidro e seu reflexo. Sentiu vontade de chorar.

Escorregou do sofá e sentou no chão, cruzou as pernas, apagou o cigarro e enquanto tamborilava os dedos na mesa pensou em não-agir. Em não pensar. Era preciso se encontrar. Era preciso parar e não pensar. Impossível.

As coisas ferviam lá fora. A maldade tinha lhe encontrado em duas ou três ocasiões mas conseguira esquivar-se. Estava vivo e expectativas demasiadas só traziam problemas demasiados.

Contentaria-se com o pouco. Este era seu plano. Um plano de final de semana.  Habituar-se com o necessário. Sem excessos. Sem excessos, sobreviveria. Café, alguma erva, cerveja e livros. Nada mais.

Era um bom filósofo de bar, não almejava além. Janelas de ônibus, serviam-lhe de farto material filosófico; sentia-se feliz.

Na segunda tragada sorriu. Na segunda tragédia quebrou o pé, e a família o acometeu de cuidados inúteis. Era cuidadoso como um péssimo ator. Mas quando do caos interno e introspectivo feito em maiores graus que suas máscaras, o lodo aflorava, parecia um prato sujo, largado na pia.

Pegou o metrô, escorou-se em uma das portas, lembrou de Paris, da Catalunha, lembrou da Av. Presidente Vargas. Desceu as escadas, olhava as faces ocultas, tentava adivinhar o que pensavam de si próprios, o que pensavam dele e o que pensavam da vida, do mundo, da metafísica e de Júlio Cortázar. Ao chegar na rua da Alfândega costurou os transeuntes como de costume, era um bom esporte, salgados chineses, pessoas na rua, panfletos que jamais pegava e sextas-feiras repetitivas: ócio, repetição.

No Largo de São Francisco sempre esbarrava com uma alma incauta, um espírito do Rio novo, do Rio pós-moderno, da pútrida modernidade enciumada e encolerizada. Suas máscaras afloravam, consumidas por doses de café. Olhos fixos, sem açúcar e uma ligeira dor de cabeça o conduziam até casa.

Chamaremos aquela doce imundície de casa.

E quando olhou para aquele quadro velho, no intervalo dos comerciais da agradável insônia da madrugada, teve vontade de pintar, de fazer poesia, de cantar, mas nada aquilo aquietaria seu espírito. Bastava se retornar, perder-se dentro de seu caos, e fulgurar diante do nada com os desejos explodindo sua epiderme. Havia caos, havia luz, havia um pedaço de vida diante da morte programada e ele não se eximiria mais do seu destino. As cinzas cimentavam o novo caminho.

“É um “pessimismo-realista” que me motiva a viver.” disse a si mesmo. Como assim?

Há contradição nesta frase. Há sim. Há sim. Há muita contradição na vida. E no momento. Neste parágrafo, deste momento, ele pensava em continuar.

Por que continuar, continuar era a única coisa que aprendeu a fazer em todos estes anos.

Continuar era uma profissão de fé.

Agradecimento especial à Helena Dantas e seu poema que me inspirou o título acima.

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