O silêncio de Alberto


Foi durante uma viagem de metrô que tomou a decisão. No início a família estranhou. O que havia de errado com ele? Será que alguém tinha o magoado? Nas primeiras semanas tentaram fingir uma falsa normalidade; em vão. Seu silêncio era constrangedor. Passaram-se quatorze dias e os colegas de trabalho já começavam a estranhar a atitude de Alberto.

Murmúrios nos corredores, fofocas nas entre-salas, inquietação no coffe-break. Alberto era vítima de conspiração. Porque recusava-se a falar?!, diziam as paredes. Sua rotina era como de qualquer trabalhador padrão, acordava, tomava café, ia ao trabalho, voltava, comprava endorfinas nos finais de semana, dizia banalidades.

Cíclico silêncio! Que tanto incomodava os vizinhos, a família, o patrão!

Sua esposa tentara convencê-lo a se abrir, porém sem sucesso: fala Alberto, pelamordedeus, fala! Choro, soluços.

Alberto mantia a tranquilidade, e sim, nenhuma, nenhuma palavra.

Limitava-se a esboçar um bom dia com os braços, uma boa noite com a face e emitia onomatopéias sintéticas, curtas, precisas. No trabalho era cruel, nem uma máquina poderia ser menos comunicativa. Seu chefe tentou enquadrá-lo em alguma quebra de diretriz; seu supervisor pedia providências, os colegas protestavam, alguns sentiam-se impotentes! Mas Alberto não havia quebrado regras diziam seus defensores, continuava a ser eficaz, a produzir mais-valor, apertava os botões certos. Deveria haver uma lei contra seres anti-sociais, gritou o supervisor, no almoço, enquanto discutia o caso com os colegas de trabalho. É síndrome de tourette, um primo meu teve os mesmos sintomas, apontou o porteiro. Deve haver uma forma de enquadrá-lo, isso prejudica a firma!; inquiriu o gerente administrativo. Mas não, não havia.

E enquanto não houvesse, Alberto continuaria caminhando só, com seus passos curtos desajeitados, sua expressão calma emoldurada pelos aros de seus óculos negros, distribuindo expressões vocálicas milimétricamente reduzidas. Substituía discursos por gestos. Conversas por acenos. Discussões por expressões faciais. Conversar com Alberto era como assistir um filme apenas pela sinopse, escutar uma música apenas pelo refrão. E depois de meses sem nenhuma esperança de mudança, sua esposa o largou. Duas semanas sem uma única palavra eram demais para Rita. Que o filho da puta gritasse, que esperneasse, que xingasse bem alto para os vizinhos escutarem, que arrumasse uma amante, mas ficar mudo! Deus do céu! Era demais para ela! Uma mulher sofredora!

Ao ir embora, Alberto limitou-se expor um adeus com as mãos, tímido, curto, seco, sem rodeios, sem encantos nasálicos ou entonações vocais, seguido de um bater de porta raivoso de Rita que falava pelos cotovelos de seus problemas com as amigas, com o psicólogo, com os parentes.

Depois do primeiro mês os colegas já não comentavam mais. Até o jornaleiro, acostumado a longos papos, deixava de provocar aquela polêmica casual e sadia que animava as tardes de domingo. Seus vizinhos se afastaram. Rita nunca mais deu notícias.

E a vida ia seguindo, enquanto Alberto, o mímico, como era agora chamado, não avançava mais do que breves grunhidos e indicações com os olhos.

A noite caía e Alberto podia sentir a brisa gelada do incipiente inverno comunicar a chegada de uma nova estação. Os mais atentos poderiam perceber, se tivessem a oportunidade de traduzir a fisionomia de Alberto, que este agora era um homem feliz.

Um homem silencioso, completo, feliz.

silencio-de-alberto – Crédito da Foto: Flávio Filho (flaviofilho.com)

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