Supernova


Esperando telefonemas que não chegariam.

Lembrando de poemas que eu nunca recitaria.Foi então que eu olhei para mim e analisei minha antipatia exterior.

Eu gosto de filosofia marginal eu disse…

E daí?! ela respondeu.

Depois do terceiro copo de vinho eu subi as escadas do salão de sinuca, ela me seguiu. Segurei com uma das mãos o copo descartável com vinho barato e com a outra me apoiei em uma das mesas vazias. Ela olhou em meus olhos e disse que eu era um verdadeiro porra-louca. Olhei para o chão nesse momento, tomei coragem, a fitei durante alguns segundos e engoli o restante da bebida sem respirar.

Deixei o copo vazio cair sobre o carpete verde, da mesa de sinuca e soltei uma frase escrota do Nietschze: o que não nos mata nos torna mais fortes, afirmei. Ela riu. Um sorriso irônico, forçado, uma atriz, era o que ela era. Colocou uma das mãos sobre o rosto, apertou em sinal de tédio ou cansaço e apontou para um conjunto de bolas que estavam jogadas aleatóriamente pela mesa: Você sabe o que é isso? É um jogo. A vida é uma porra de um jogo. Mesmo você com toda a sua ideologia pretensamente esclarecida, deve admitir que não pode vencer todas. Que você pode se dar bem e se ferrar a qualquer momento. Mas mesmo que perca ou ganhe você deve dar a sua melhor tacada. Só que você com todo esse sentimentozinho escroto de individualidade retorcida só consegue soltar esses espasmozinhos filosóficos baratos para tentar me conquistar.

Eu mantive-me firme. As lágrimas atreveram-se a brotar no canto dos meus olhos, mas consegui segurá-las com uma olhadela rápida à única janela de alumínio do lugar. Vi pessoas se divertindo, vi homenszinhos vestidos de preto, mulheres fantasiadas para matar, para morrer, enfim, toda aquela baboseira de rebeldia sem confronto, sem dor, sem “causa”. Mas eu tenho um motivo; enraiveci-me.

Seus motivos não são seus objetivos, eles são apenas motivos. Paradigmas. Você é um desgraçado de um paradigma. você odeia os paradigmas. Mas você é um deles cara. Você é um deles e não afirma isso sem meia dúzia de palavrões “teorizados” ela disse.

Dobrei os punhos, me apoiei sobre a mesa, peguei a garrafa com violência e comecei a beber.

(ela continuou) Você continua preso aos seus estereótipos, a sua filosofiazinha idiota, a sua vontade inepta de continuar buscando, buscando e buscando a perfeição em forma de versos, textos e desafios emocionais!

Eu somente bebia. Virei a garrafa com vigor.

Você ainda é um filho da puta especial porque continua a assumir esses rótulos escrotos sacou?

Você continua a afastar as pessoas porque não conseguiu se aproximar delas de forma mais sincera!

Você busca padrões em tudo o que procura! Você não quer ou nunca quis originalidade, você quer seguidores, encostos, muletas emocionais para sua personalidade fértil! Um estampido.

Arremessei a garrafa em uma das paredes. Olhei para aqueles olhos azuis (os meus já em lágrimas) soluçando e gritei: Você não pode me entender!! Você nunca pôde e nunca vai poder! Porque você nunca me conheceu o suficiente para ter noção da dor que eu sinto. Da vergonha que eu tenho em nunca parecer sincero, em nunca agradar o suficiente ou mostrar para o mundo o que eu sinto. Eu…eu… tentei tocar músicas, fazer músicas, para ser compreendido, eu..eu… escrevi textos, mas eu falhei, merda, eu falhei.

Ela afastou-se. Deu dois passos para trás. Ajeitou aqueles lindos cabelos vermelhos, deus, só eu sei o quanto eram lindos, para trás das orelhas e começou a chorar também: Eu estou disposta a te ajudar. Eu estou disposta a compartilhar dessa alegria de viver e dessa dor contigo, mas eu não posso ficar a mercê da sua instabilidade, do seu temperamento inconstante entendeu?

Fiquei mudo, ajoelhei e chorei mais ainda.Eu posso ficar do seu lado ela falou. Mas eu não quero…

Eu não quero ver você assim. Você vai ter que reagir. Eu nunca vou lhe cobrar um amor eterno porque sei que você me amará do jeito que eu sou. Mas eu não posso ver você assim! Ela ajoelhou-se em prantos.

Foi então que nos beijamos ao som de um bonito solo de sax de um velho e decadente músico que tocava solitáriamente na esquina mais próxima. Eu estava feliz por tudo o que ela tinha me dito. Foi aí que tudo começou: eu acordei. Sozinho… Mas acordei feliz.

[ Publicado originalmente na puta que pariu, este conto foi a primeira aparição da ruiva. Estou republicando-o no original de 2004 ou antes disto(chutei a data) e é sem dúvida nenhuma um dos meus preferidos. Além disso, além disso é o caralho, a questão, é que, este conto FOI O PROPULSOR DE TUDO O QUE ESTÁ ESCRITO AQUI. FOI ELE QUE ME INCENTIVOU A ESCREVER. NOTE, A IMPORTÂNCIA ( APESAR DA MEDIOCRIDADE ESTILÍSTICA).]

Revisado em..

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