O amor se constrói ou é construído?

 Rafael Vendetta

Parecia-nos que nosso momento já tinha passado. E por mais que nos esforçássemos para tentar repetir aquele momento mágico de quando nos conhecemos e de quando nossos olhos brilhavam, parecia impossível viver e sentir a mesma coisa. Fazia anos que não nos encontrávamos. Já estávamos demasiadamente duros, como um casco de navio cheio de cracas emocionais, mas cujo capitão, ainda crê que o navio é novo e as águas são tranquilas. Mas vivíamos numa tormenta, apesar de aparentar tranquilidade. O mundo tinha pisado em cima de nós.

A vontade era reviver um tempo que já passou, mas nada voltava do mesmo modo e nenhum de nós podia dizer que havia o mesmo jeito de amar, chorar, viver.

Eu chorei quando ela disse que sempre se lembraria de mim, porque percebi numa análise rápida de discurso que ela falava no pretérito. Eu já tinha passado. E eu a entendia. Pois quando a coisa passa, vamos arquitetando internamente as nossas respostas do porquê não ter dado certo. Vamos tecendo fio por fio, até formarmos algo que cubra aquele abismo aberto de mais uma decepção. É um mecanismo de proteção. Mas tal proteção é frágil. É um vestido que tem a concretude de uma obstinação, mas obstinações vem e vão e podem se romper quando a gente encontra a vontade vermelha assim, num domingo, num sábado, numa sexta, ou num dia de semana por acaso. E aí o vestido vai se rompendo, vai ficando frágil, enferruja ou apodrece. E os abismos passam a ser cobertos com band-aids. E passa a doer a beça. Dói demais.

É aí que uma parte de você, uma parte verde, pensa em recomeçar. Em acreditar de novo e de novo.

Ela continuava a falar, minha parte verde resistia e quando subitamente deixei meu outono sair, as lágrimas rolaram até encontrá-la em meus braços. Depois o que se deu foi como um mecanismo interno de negação do absurdo: tiramos parte da roupa – como se estivéssemos de férias na praia (do nosso passado) – ficamos abraçados dançando, tomando cerveja e beijando um ao outro como se aquele passado tão bonito pudesse voltar. Ela disse que eu a atraía. Eu disse que ela estava linda.

Esquecemos tudo. Éramos apenas duas pessoas.

Liguei o abajour vermelho e ela tocou minhas costas com a ponta dos dedos ; eu fazia uma confusão dos diabos e esperava um sinal da vida dizendo: “fique tranquilo que sua hora chegou”. Mas nada chegava, pois as coisas tinham nome mas não davam ordens, apenas chegavam e chegavam sem pedir licença ao mundo e sem ao menos dizer com que propósito vieram. Alguns achavam que tudo podia vir depois de algum mecanismo desconhecido. Imaginavam que o amor chegava depois de sete ou oito fracassos (algumas pessoas contavam em números pares, outras em números ímpares, primos, cada um tinha sua regra). Existiam aquelas que acreditavam que seria uma viagem, ou o fim de um ciclo que resolveria tudo, mas para pessoas como nós, estrangeiros emocionais, os ciclos eram sempre repetitivos, nunca acabavam: esse era nosso tormento. O que dizer daquela gente que pensava que a sua vez tinha chegado por que as coincidências coincidiam e buscavam nas revistas, na música, nos rodapés das conversas ou na forma de fazer alguma coisa, um sentido que dissesse: essa é a pessoa certa? E havia? Uns pensavam de modo mais caótico: era um sentido que parecia não ter sentido, mas tinha. “Amanhã eu me formarei: terei meu amor? Hoje fiz 29 anos: terei meu amor? Mudei de alimentação, religião, de hábito ou de vida: terei meu amor? Hoje acordei desse modo, sonhei desse jeito, pensei daquela forma: terei meu amor?”.

Mas para as estrangeiras e os estrangeiros o sentido não era dado de antemão. E eu não fazia ideia de como iria organizar aquilo tudo, jogado, como um quebra-cabeças emocional sobre a mesa. Invejava quem via sentido em tudo. Quem pegava o sentido já construído, como se pega uma fruta no pé e dizia: agarro isso com toda a minha vontade, esse é meu destino afetivo. No meu caso não. Achava sempre que o sentido era construído, como um jogo de armar ou um lego emocional. O problema é que as peças raramente se encaixavam e eu não sabia geralmente, nem onde tinha guardado as peças. Não conseguia construir nenhum amor e ficava sofrendo o atrito entre construir um ou esperar ser construído por ele.

E mesmo assim, dormímos abraçados e esquecemos parte do mundo. Isso não impedia a vida de passar. As perguntas ficavam sem respostas. E no outro dia, assim, quando ela se fora, eu vivia os dias como um pedaço cinza oscilando entre o verde o vermelho. Esperava alguma coisa decidir por mim. Mas nada nem ninguém decidia. Sempre fora assim. Eu tinha todas as contradições do mundo. E ao fim do dia eu não pensava, mas um pedaço de mim dizia, como ferrugem corroendo meus dentes: O amor se constrói ou é construído?

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Como fazer um café com o pó do absurdo

 Rafael Vendetta

Acorde. Lembre dos seus sonhos. Lave o rosto. Pense em anotar seus sonhos.

Esqueça seus sonhos.

Pegue o pó do café. Misture com o que restou de si mesmo. Esquente a água. Pode sentar. Pode andar pela casa. Pode fingir que está fazendo algo para si próprio ou pra casa. Pode até varrer a casa. Pode pensar no dia anterior.

Faça o que fizer, o tempo é curto e se mede sempre pela água. Pode sentar, acender um cigarro, olhar para o sol nascendo. Ele nasce laranja porque tem sujeira no ar. Se ele nascer amarelo é porque o dia vai ser quente. Se ele nascer cinza, o café vai ter um gosto muito bom. Espera a água esquentar. Se a água esquentar e você esquecer é porque alguma coisa aconteceu. Foi o sonho, foi o dia anterior, foi a carta que ela não enviou, foi o esquecimento, foi a falta de sentido. Alguma coisa sempre ocorre quando se esquece a água do café e ela seca sozinha (como você). Se isso acontecer deve-se adotar atitudes emergenciais: deixar o café para o próximo dia ou esquentar a água e o sentido de novo.

Com o café pronto, você enche a caneca da vida e pensa na semana, nos meses, nos anos. Você bebe. Você finge que há um plano para o dia (não há nenhum). Quando estiver quente você bebe. Bebe e esvazia o sentido. Canta aquela música. Olha no espelho. Amarra o cabelo. Se tiver um gato, fale com o gato. Se tiver uma planta, molhe a planta (de água, não de café). Pegue um copo. Esvazie o cinzeiro da noite anterior. Pode esticar as pernas com a camisa de flanela cobrindo o erro da noite anterior. Coloque as meias.

Você pode sair. Você pode voltar (talvez não possa). Inspire. Expire. 

Quando parar de pensar, o que sobrar é você, segurando uma caneca e bebendo café.

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Pragmatismo afetivo

Rafael Vendetta

Abraçamo-nos e não sentíamos nada. Nada nos incomodava. Isso era bom.

Às vezes sonho com a dissolução, disse. Ela me olhou, passou as mãos sobre meus olhos e comentou que isso não fazia sentido. Você sabe que o sentido é uma massinha de modelar, cortei.

Ela virou e jogou a coberta no chão. Eu subi, beijando seu calcanhar, sua perna, encostamos as mãos, ela revirou os olhos e jogou o cabelo para o lado. Dar as mãos foi como amar de novo e de novo. Dar as mãos a ela era algo tão reconfortante, encostávamos e parecia que tocávamos piano. Ela se espreguiçou, me beijou como se eu fosse morrer amanhã e puxou meus cabelos: havia força, vazios, delicadeza.

Aquela tranquilidade se convertia em silêncio. Eu sabia que tudo aquilo iria acabar. Amanhã, talvez semana que vem. Isso era o amor. Mas eu não me importava. Eu tinha aprendido, depois de tantos pequenos desastres a viver um dia de cada vez. Não tinha esperança em mais nada, apenas no sol, nos sorrisos e no relógio. A paixão se media pela intensidade e pela sinceridade, não pelo tempo.

Eu perdi a capacidade. Não sabia quem iria amar. Era uma sina.

– Não sei saber, confessei.

E ela retrucou: e alguém sabe?

– Sim, muitos sabem. Invejo quem decide tudo no primeiro olhar, no primeiro beijo, na primeira semana. Eu não. Nunca decidi nada. Sempre acho tudo muito amplo. Estou sempre esperando o próximo sinal, mas ele nunca vem. Não sei mais o que é um sinal. Fico sempre no aguardo.

Ela se calou.

Eu disse: isso te ofende?

– Não, ela retrucou. Eu não me importo, disse resoluta. Eu só vivo o presente, falou apressadamente, mordendo o cigarro na boca como se desejasse terminar a conversa.

Eu achei aquele pragmatismo romântico. Beijei seu pescoço pelo lado direito, ela largou o cigarro sobre o cinzeiro e me deu um beijo, recomeçando tudo novamente. Paramos no meio do caminho, sorrimos, apertamos as mãos e nos apertamos. Eu me lembrei de Sísifo no meio do caminho, que devia ser seu momento de maior prazer, nem tão alto, nem tão baixo.

E o que fazemos?, perguntei.

Ela riu suavemente, me puxou para seus braços, me beijou e apagou o cigarro no cinzeiro.

– Eu não consigo saber nunca.

– Tenho um universo dentro de mim. Acho tudo muito amplo. Enjoo de tudo. Mudo a cada manhã.

Ela sorriu, arranhou levemente minhas costas, ajeitou o cabelo, foi até a janela e pediu que eu fizesse chá de morango. 

Enquanto eu ia pra cozinha com aquele peso do mundo ela gritou: – Disso eu tenho certeza.

Eu esquentava a água e o chá. Aquele momento era o que realmente importava. Escutávamos “a música em que o mundo iria acabar”. Ela iria pegar o trem e viajar, como sempre fez. Eu iria permanecer ali, até alimentar-me novamente de outro universo, de outro vazio. E o que dizer para a ruiva? Exigir uma cerca branca e um cachorro? Exigir raízes? Eu não acreditava, assim como ela nesse modelo. (Não havia tempo para debater, decidir). Eu levei o chá de morango, nos beijamos, abraçamo-nos e dormimos. Amanhã era outro dia. Ontem, eu amei e fui amado. Amanhã não sei mais. Ainda consigo esquentar a água do chá. Vou seguir e ela também. É assim que será. Não é o romantismo que é pragmático, é o pragmatismo que me parece romântico.

Vou esperar a próxima estação.

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Um gato anarquista

Rafael Vendetta

– Você é o dono do gato? perguntou o de macacão-verde.

– Sim, sou eu, falou com hesitação.

– Ele tem quantos anos?

– 12, talvez 13.

Como dizer que o gato tinha muitos donos? Como dizer a ele, que o gato não era de ninguém. Quase me passou na cabeça, dizer que o gato pertencia a si mesmo, mas isso também era falso. Pois isso significava a liberdade absoluta dos estetas, dos excêntricos, dos individualistas. E aquele gato não. Aquele gato era parte do coletivo. O gato não era um raio atravessando o vazio. Era parte de algo maior.

A clínica veterinária vazia. Tantas necessidades lá fora e ele lá dentro, com um gato. Combalido, o animal mexia o rabo, mas deixava os olhos encontrarem o vazio que esbarrava nas reflexões mais íntimas, no choro mais secreto. O semáforo perto da porta. Buzinas. Um vendedor de balas no sinal. Do lado oposto, grades, gaiolas e eu, estrangeiro, ali dentro.

Pedi pra ficar mais um tempo. O funcionário concordou e disse pra ficar a vontade. 

Lembrei do gato andando dentro do centro comunitário. Uma coisa puxou a outra. Vieram as flâmulas, as bandeiras, o canto da internacional e o gato, desrespeitosamente, passando no meio das pernas, durante o momento mais solene ou mais crítico da assembleia. E aí alguém dizia: “mas que gato lindo” e o que era tensão ou dramaticidade, se convertia na imagem de um gato de pelo rajado, interrompendo de maneira justa aquelas reuniões.

Lembrei o quanto aquele gato fazia sentido. Não era um gato comum. Quando comecei a chorar, como um pequeno-burguês qualquer, que às centenas, passavam naquela clínica, lembrei: era o gato do coletivo. Não estava só. Haviam centenas de ombros (muito mais proletários que eu) ali do meu lado. Mesmo se naquela sala só houvesse silêncio e cheiro de álcool isopropílico. 

Ricardo, um metalúrgico que costumava tomar café todo os dias no mesmo horário, como um relógio suíço e que sempre reclamava da falta do açúcar, ou que Pepe tinha deixado a água ferver além da conta, ou de como o transporte público estava insustentável, ainda que rangendo os canais do dente, dizia com sua voz grave tomando conta da cozinha: ONDE ESTÁ o estrangeiro?

– Está cuidando do gato, alguém gritou, com um parafuso e um copo de café marcado de graxa. Onde está o pão Pepe? 

– Em cima da mesa.

Enquanto eu deitado, no fundo de um dos cômodos, fingia dormir, o mundo girava.

– E porque ele cuida do gato, respondeu cuspindo açúcar e jogando a faca ao lado do pão? Mas e as assembleias, a greve? Não tinha reunião do núcleo hoje Pepe?

 – Não, é amanhã.

– Esse gato custa muito dinheiro, entra vaticinando um terceiro. Gatos custam muito dinheiro. Sou favorável que vivam soltos, na natureza selvagem.

– Porque gastam tanto com o gato? pergunta Ricardo. Não temos nem um bebedouro aqui e gastam tanto com o gato, essa é boa.

Porque o gato não come Ricardo, gritou uma companheira do fundo da cozinha. Está muito enfermo.

– Se está enfermo, encaminhou Pepe, com roquidão e a bengala de madeira batendo no piso sujo da cozinha: é porque está alienado. Todos riram.  Você está doido Pepe? Como o gato pode estar alienado?

– O gato não gosta de jaulas, nem prisões, falou Pepe. O lugar do gato é ao lado do povo. Eu entrei na sala e todos se calaram.

Ricardo com a dureza da metalurgia resmungou e olhou para Pepe fazendo um gesto com as mãos que dava a entender que o velho era um anarquista senil. Eu enchi meu copo de café e segui. Era hora de terminar o que deixei incompleto. 

No outro dia a reunião do comitê dos secundaristas. Um grupo de seis jovens carregavam uma mesa enquanto Pepe gritava: não arranhem o taco! Esse taco é mais antigo que Bakunin. Todos riram, mas levavam a sério a voz do velho. Eu os admirava por muitos motivos. Um deles era a paciência com que não faziam terra arrasada dos cabelos brancos de Pepe, cabelos brancos que acumulavam paixões perdidas, centenas de jornais operários e uma estranha mania de abrir a biblioteca sempre no mesmo horário. 

Depois de perguntarem a Pepe onde estava o felino, os secundaristas escreveram um manifesto de solidariedade ao gato e arrecadaram dinheiro no final da reunião do comitê, pois segundo diziam, a saúde pública era precária para os humanos, que dirá para os gatos. Me entregaram em mãos e disseram que temiam que o gato sofresse preconceito por ser anarquista. Melina, que dividia comigo a tarefa de preparar as comissões, dizia que o gato não constava nos inquéritos policiais e tudo seguiu.

Um companheiro pedira para colocar a foto do gato no jornal do centro comunitário, metade da assembleia protestou. A outra metade riu. Eu não tinha opinião formada. Substituir Domingos Passos? Você está de brincadeira, alguém disse! E abriu-se uma enxurrada de questões de ordem, vieram as defesas e a proposta derrotada, apesar de aguerrida, apenas constou em ata.

No terceiro dia, veio a cavalaria nas ruas. As prisões, os panfletos sendo distribuídos nas esquinas, os comitês de solidariedade. Mas eu não conseguia me envolver, deixei aos companheiros e companheiras as tarefas: já estou com o gato e a comissão de organização, já me basta!

E os comitês estavam envolvidos com todas as mobilizações. Eram tempos acelerados, tempos industriais mas o gato andava num outro ritmo, um ritmo artesanal. O gato parecia passado a todos, menos para Melina, que se revezou comigo na ida a clínica. Aquele ato modesto, evitou meu afastamento completo do comitê. E eu pude contribuir com o que tinha para dar. E o melhor que eu pude fazer, foi o suficiente. Por conta da piora do gato, mais ausências. Não conseguia chegar a tempo da reunião que definiria o próximo ato de greve. Vieram as críticas, principalmente dos setores de oposição.

Num piquete alguém comentou maliciosamente no fundo da assembleia: isso é coisa de pequeno-burgueses! Tantas greves! E cuida de um gato! Mas mesmo os companheiros e companheiras mais próximos, viram naquela ausência, um ato claro de indisciplina. Eram tempos difíceis. Precisavam de braços, de vozes, principalmente naquela assembleia, cheia de felinos velhos e novos, de todas as cores e tendências.

Ricardo, apesar da proximidade, pois sempre dividia angústias e pedia conselhos, perdeu toda a paciência e deixou um recado desaforado em letras garrafais. Escreveu com raiva e agia sob o sentimento de indignação coletiva do comitê: “a greve precisa de você estrangeiro, largue esse gato para lá!”

Fez questão de colocar três pontos de exclamação no final e prendeu o recado com uma foto de um revolucionário sandinista jogando um molotov. Era o suficiente. Eu entendi o recado.

Pepe que leu em voz alta o desaforo que Ricardo escrevera por cima da mesa de ferro, sem pensar, compartilhou da mesma revolta. Mas quando cheguei Pepe desarmara-se. O meu rosto transparecia uma melancolia revolucionária que Pepe já vira muitas e muitas vezes. A experiência do velho fez com que passasse ao meu lado. E a greve, acabaria no dia posterior. As prisões foram revogadas, a rua se acalmou, o ar de tensão na assembleia deu lugar a ponderação. Mas o gato continuava mal. E percebia, ainda que instintivamente que se aquele felino morresse, uma parte importante de mim e do coletivo morreria ali, junto de nós, sem pedir qualquer licença ao mundo.

Um comitê, formado por mim, Melina e Pepe, revezou-se no cuidado ao gato. O gato voltara ao centro comunitário.

Havia esperança. Havia utopia. O gato era parte daquele chão. Pepe estava certo. 

As adesões aumentaram.

No sétimo dia, um comitê de solidariedade ao gato se formou a contragosto do sentimento geral da oficina, ainda ressentida com as disputas da greve. Pepe fez o café, Melina fez uma comissão de solidariedade, composta por seis militantes e que se revezavam na aplicação dos remédios, na alimentação e na formação política do felino. Cartas chegaram de todo o país. Um comitê feminista organizou uma atividade de apoio ao gato. Os secundaristas confeccionaram uma bandeira para homenagear o retorno do felino. Os horários de visita alargaram-se. Até um botton foi feito em homenagem ao gato. Mesmo assim, o gato parecia que ia morrer. 

Não se mexia, o pelo opaco, os olhos fixos na parede e o movimento fixo do rabo causavam consternação geral. Eu, um estrangeiro que durante dias, meses, vivi melancólico, tal como minha chegada com as malas e a coragem nas mãos, passei a debater apenas consigo próprio meu frouxo agnosticismo. Mas resolvi aceitar o inevitável. Num ato de lucidez e coragem disparei: – companheiros, eu acho que o gato vai morrer.

Houve silêncio. E Ricardo que minutos antes, questionara as prioridades do comitê, foi até o gato e pôs se a chorar. O que me causou grande comoção, porque os nervos de Ricardo eram forjados no que havia de mais duro e ainda assim ele abraçava o gato como se fosse a última vez. Eu tive vontade de chorar e vi que Ricardo, tanto na metalurgia, quanto na luta de classes parecia negar na prática, a dureza de sua vida, de sua infância, de seus últimos dias, dedicando-se ao gato de maneira incomum. Eu, que semanas antes não conseguia nem fazer meu próprio café conseguia recomendar as tarefas e passei vinte minutos com Ricardo convencendo-lhe que o gato fora bem tratado e morreria dignamente. “A terra lhe será leve” companheiro. Ricardo foi aos prantos e enquanto passava a mão pela cabeça do gato, dizia com a voz rouca: “não se vá companheiro, não se vá. Você vai ficar bem”. No final, disse que eu me comportava bem. Que mesmo vindo de fora, eu era parte daquilo tudo e sempre seria.

Uma vizinha trouxe um remédio homeopático ao gato. Pepe, varria nervosamente a calçada. Melina, no intervalo da reunião do comitê de vizinhas, trocava a água do gato, lhe dava comida e fazia carinho. Eu passei a aceitar que o gato iria partir, para sempre. Era a nossa sina. Alguém teria de escrever o necrológio. O gato morreria com coragem.

Durante toda a semana, entre as reuniões do comitê, as assembleias e as tarefas cotidianas, não havia dia que alguém não visitasse ou perguntasse do gato. Ricardo, mais exaltado, dizia que o gato morria por conta da origem pequeno-burguesa do veterinário que o cuidou. Sugeriu ir lá e tirar satisfação. Mas eu lhe convenci de que ele fez o que pode: o companheiro é sincero, respondi. Confiemos. O importante é onde ele está, não de onde veio.

A mobilização em torno do felino acalmou a dureza da greve. As prisões separaram as companheiras e companheiros. As barricadas, os enfrentamentos na rua, a aspereza das assembleias, tudo aquilo esgarçara o que havia de essencial. Eu distante de tudo e ainda acossado pela dureza do mundo, o atrito dos meus últimos dias, comecei a viver em torno do gato. O gato, mesmo sem planejar, gerou apoio mútuo. Não era suficiente para cobrir meus abismos (ninguém cobre abismos com panfletos), mas já melhorava bastante. Voltei a fazer meu café e anotar meus sonhos.

Pepe improvisou um porta-retrato com a foto de Kropotkin e colocou no cômodo que o gato dormia. Uma das vizinhas disse que ia trazer a foto de São Francisco de Assis para pôr ao lado e Melina, vendo que tudo ia longe demais, pediu a Pepe que deixasse o gato em paz. Eu comecei a rir. Pela primeira vez em semanas. A epidemia do hoje convertia os ouvintes em cacos espalhados pelo mundo. Os que falavam não ouviam, os que ouviam não falavam. Mas ali, ali, entre o gato e as companheiras/os havia alguém que escutasse, pelo menos, o gato. Para mim não importava que o gato só ouvisse e não falasse, pois muitos falavam e nada diziam. E naquele tempo cheio de terra arrasada e pedras voando por sobre as calçadas, me sentia confortável em ficar ao lado de alguém que não pedia nada em troca.

A atitude do gato, justa, honesta, começou a contagiar o coletivo. A solidariedade, que nos tempos duros, passou a ser apenas palavra escrita, extrapolou as linhas, extrapolou o gato e virou regra. O apoio mútuo não era uma frase num adesivo. Precisariam ouvir. Precisariam fortalecer-se. Precisariam fazer o que era preciso fazer: mas juntos.

Ninguém ligava mais para os gastos com o felino. A vida andava. Companheiras distantes se viam mais vezes. Companheiros duros passaram a chorar. Os mais novos tinham contato com os mais velhos. Os mais velhos aprendiam com os mais novos. As vizinhas e vizinhos contavam histórias dos seus próprios gatos e gatas.

Na segunda ou terceira semana, mas podia ser a quarta, o gato inesperadamente voltou a comer. Pepe avisou, mas foi Ricardo que dera a notícia, oficialmente. Depois do terceiro, do quarto, do sexto e do décimo e quinto dia, o gato saiu da letargia. Andou de um lado para o outro. Esnobou a assembleia mais uma vez. Parecia irracional, mas alguém propôs uma salva de palmas ao gato enquanto o gato dormia se espreguiçava perto de uma caixa de papelão. A esperança voltara. O centro comunitário voltou a se comportar como um relógio, mas o essencial permaneceu lá. No intervalo do café, Ricardo recuperando-se de uma agressão policial na última manifestação, mancando, pôs café no meu copo e me disse com firmeza:

Estrangeiro. Isso é muito triste.

O que é triste?, perguntei.

– Gente que olha um felino e só vê um gato.

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Há dias que são inverno

Rafael Vendetta

Há dias que são inverno. Mas se eu disser isso, com todas as letras, sem disfarçar, as pessoas vão aparecer, vão me ligar, vão me encontrar e fazer aquele olhar de pena e isso, eu sinceramente não quero.

Quem quer isso, não sabe realmente viver um inverno. Quem deseja uma compaixão de isopor não é digno ou digna do inverno que se tem. Que vá viver com os medos medianos. Que vá fazer café no fim da tarde, mas por favor, não force um encontro.

Talvez os que resolvam escutar possam pedir para vestir-se de anjos platinados. Anjos que despertam uma vontade imensa de rir e dizer: burlesco. Mas é certo: vão logo embora e desaparecer. Esperam a vez de falar e somem, pois é essa a receita do cotidiano.

Quando se sentirem bem, ou melhor, quando eu me sentir bem, será a vez delas de se permitir sentirem-se “deprimidas”; e aí retribuirei a gentileza, com alguma ar de gratidão e um tacape emocional escondido debaixo do travesseiro. E o mundo seguirá, com a fatura passando de um lado ao outro. Algum dia, alguém irá cobrar e aí é que a coisa começa a ficar esquisita.

Se eu insistir ao dizer: “nada mudou, continuo no meu inverno” elas vão me mandar procurar um terapeuta. Vão jogar com as pílulas prontas e os comentários-diamante. Falarão: faça-amigos-se-divirta-vá-ler-um-livro-exercite-se-chore-procure-amigos-durma-mais-vá-no-cinema-você-é-muito-solitário-que-tal-comer-algo. 

Isso tudo é muito deprimente. Me deixe com meu inverno. Eu colocarei alguma coisa no seu lugar. Eu alimentarei meu inverno com cerveja e o vento batendo no rosto, no fim da tarde de domingo.

Eu poderia dizer aos que insistem em curar meu inverno: já fiz isso tudo, não resolveu. Não me imponham essas cores, chega de distrações. Vamos parar de flanquear e ir direto ao ponto. Parem de se evitar. Vocês querem resolver meu inverno, pois temem que o seu verão acabe.

Amanhã não estarei melancólico. Talvez semana que vem tudo passe. Ou mês que vem. Ou pode ser como no ano retrasado, em que larguei a melancolia dentro de um ônibus, depois de oito meses brincando de jogos de armar, pude respirar e olhar ao sol, quase como na primeira vez.

Foi como nascer de novo. Eu sentia que podia andar com aquele calor. Mas era um mormaço que logo passou e eu voltei ao mundo, com o ar de gratidão. Agora falemos a verdade. Quem vive sem invernos?

Chega de mentir. A diferença é que eu resolvi falar sobre isso. Mas não quero olhar de pena. Eu quero apenas que vocês vivam seus invernos sem autopiedade.  É preciso aceitar o que se faz.

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Éprecisoaceitarnossosinvernos

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Quando ele achou que conheceu a ruiva

Rafael Vendetta

Eu saí sem rumo, andei a esmo, e finalmente encontrei um bar.

Mas não qualquer bar. Eu sentia que aquelas paredes de tijolos cinzas iriam me fazer esquecer o chute que eu tinha tomado em Alcabar. Aquilo não fazia mais sentido. Eu já tinha tomado outros chutes. Sabia reagir. Mas tem uma hora que a gente baixa a guarda e foi assim que eu fui golpeado sem perceber. Ela me apresentou a família e me olhava de um jeito que parecia que iria me amar no futuro; mas eu errei. Era apenas o jeito de alguém. E o jeito de alguém não se decifra, se aceita.

Eu entrei e você estava lá. Você tinha maquiagem no rosto. Estava mais velha. Mas eu não me lembrava de você mais nova e isso foi maravilhoso. Você usava um batom vermelho e tinha um bloco de papel na mão. Você parecia não se importar com aquela noite, apesar dela ser a noite mais importante dos meus últimos dias. Você aparentava desprezo e foi esse ar de descarte que me fez entrar.

Eu perguntei se o bar estava fechando. Meu francês era ruim e você ficou irritada com aquela pergunta, porque parecia óbvio, mas não era óbvio, para mim, um estrangeiro, que mal conhecia o ordinário, quiçá o supreendente. Eu sentei perto do balcão e tomei cerveja rubia. Estava vazio e eu achei que iria me deprimir com aqueles vinis velhos.

Eu cansei daquilo tudo rapidamente. Por um momento achei que iria me vencer, abrir a porta e sumir, deprimido, mas eu mudei de ideia e me aproximei de você. Eu puxei assunto sobre como ser um estrangeiro era difícil naquela cidade de luzes coloridas. Era papo furado, mas você aceitou e sorriu com o canto da boca.

Aquele sorriso iluminou minha noite cinza.

Você me pediu para eu esperar, porque você tinha de servir a outra mesa. E eu tirei dos bolsos um papel com uma poesia que eu tinha anotado no final da noite retrasada, mas quando você chegou eu guardei, porque não queria mostrar fraqueza.

A gente trocou olhares e eu esqueci todo aquele mundo maluco, onde a gente viaja sem saber bem porque ou por qual motivo e ao mesmo tempo recebe uns golpes do destino que pegam a gente no contra-pé da esquina. Como os golpes que eu recebi na semana passada e ainda assim fazia como o kung fu, ou fingia que não doeu ou revidava, que era o que eu sabia fazer (muito mal).

Você andou de um lado para o outro e o bar foi formigando, com gente saindo e entrando, até que às 03h tudo foi ficando devagar. Você disse para eu esperar e sumiu. Eu acreditei que você voltaria e fiquei com medo de tudo dar errado, pois era comum eu pensar que as coisas davam errado na minha vida. E um cara que trabalhava no balcão deve ter percebido isso, pois ele voltou e me disse que iria fechar. E eu achei aquele cara, o rosto do mensageiro da morte. Não sei porque pensei nisso. Mas eu pensei: porra esse cara vai fuder meu dia. Mas depois me bateu a sensação de que na verdade ele estava no ritmo da vida ordinária e haveria um dia pra ele, bem especial, que ele estaria no meu lugar.

Ele continuou a me empurrar pra fora e eu resolvi sair, mas decidi esperar lá, ainda com minhas paranóias guardadas no bolso, até que tu saiu, com teu casaco vermelho e tudo acabou. Eu percebi que o cara não era o mensageiro da morte, era só um cara, querendo descansar e dizendo pra mim que amanhã teria The Smiths e que eu deveria voltar pra minha espelunca de quarto, escrever, tomar vinho e dormir.

– Vamos sair?

 -Pra onde, perguntei.

Talvez para lá, tu apontou.

Andamos com cheiro de sabão-maduro e paramos num bar, perto de um lugar que eu lembro o nome mas não quero dizer. Chegamos lá e entramos. Era uma espelunca, com mesas de madeira com toalhas vermelhas mas tinha vinho barato, E aí tomamos aquele vinho barato e eu pensei em te beijar, mas falamos de tudo antes de eu pensar em te beijar de verdade: de psicoterapia, de júlio verne, de como o Chile era diferente, de como a vida de garçonete era difícil, da crise econômica e dos cornópios de Cortázar. Depois saímos e estava muito frio (para mim). E de repente comecei a pensar que talvez tudo aquilo fosse acabar e não daria certo (eu sempre pensava isso).

Você foi andando e ainda tínhamos a garrafa de vinho nas mãos. Estava muito frio, tu me aquecia, mas eu não pensei em nenhum momento em agir, pois eu queria que agíssemos juntos. Andamos e tu ria do meu frio. Falava: – Respira mais fundo, respira. E ali eu achei que ia te beijar, porque eu tinha a imaginação de poeta. Mas não aconteceu.

De repente paramos numa banca de jornal e olhamos para aquele monumento iluminado. Eu voltei a colocar as mãos nos bolsos. E me lembrei do anjo da morte mais uma vez. Aí tu falou que iria embora. Eu disse que tudo bem. Mas aí tu voltou e me beijou.

Tu me perguntou se eu queria ir pra tua casa. Eu disse que seria ótimo, mas que eu tinha tomado um chute recentemente e que eu não me sentiria na obrigação de nada. Foi difícil dizer isso, pois além da minha hesitação, o idioma não ajudou. E tu começou a me esgrimar e eu caí no teu jogo de armar. E tu me esgrimou tanto, que eu, com meu francês precário, não conseguia explicar o porquê de um chute de alguém que eu conheci por três dias, fazia tanta importância a ponto de não conseguir lhe amar. Mas de fato era assim.

Aí tu riu e pediu um táxi (isso foi cruel).

Eu não saiba o que fazer. Achei que o melhor era ir embora. Tu abriu a porta do táxi. – Entra seu bobo.

Eu entrei. E ainda não acreditava, porque o anjo da morte tava ali, sentado ali do meu lado, dizendo que não era verdade. Tu mandou o taxista me deixar na minha espelunca e na tua casa. Eu achei que tinha terminado, aí conversamos durante cinco minutos quem iria para onde. E o taxista não riu, mas eu achei que ele riria, porque onde eu morava era assim que os taxistas se comportavam. Até que tu me beijou e eu entendi tudo. Tu mordeu meu lábio e ali tudo se apagou, o anjo sumiu e eu parei na tua casa. E esqueci tudo, o chute, o idioma e nossas línguas se entrelaçaram. E tu disse que achou bonitinho eu dizer que estava com medo, mas eu não planejei nada, eu apenas estava com medo mesmo (eu não sabia que isso era bonitinho).

Eu te amei ali naquele dia e nos deitamos nus, naquele frio, num quarto de madeira, com teu sapatos vermelhos e os meus azuis no chão, um par ao lado do outro. E nós, nos aquecendo (10 graus) sob uma janela estreita que dava para um lugar cheio de galpões. Tinha gente passando de um lado para o outro às 5h da manhã. Eu acendi um cigarro, te abracei e nos beijamos com força.

E do nosso encontro sobrou tudo. Ficou uma memória linda de uma noite ruiva. E estranhamente eu não esperei mais nada do outro dia, apesar de ter vivido aquilo com tanta intensidade, que me perguntei se aquilo tinha realmente acontecido. 

Fizemos isso durante 4 dias, num lindo eterno-retorno, até o dia que eu fui obrigado a sair. Eu não olhei pra trás. Não prometi nada. Tampouco disse que iria retornar. Peguei minha mala vermelha e segui. E de repente, todo o peso do passado se dissipou. E eu só conseguia olhar para frente.

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A dignidade é silenciosa

Rafael Vendetta

Baseado nos rascunhos de um exílio

A dignidade é silenciosa. Hoje eu a vi, num sorriso de uma criança, numa horta comunitária no fundo de um quintal. Numa rua com 20 cachorros sujos e maltrapilhos, num mate passado de mão em mão, na verdade sincera de quem vive nas franjas de uma máquina de moer gente.

Mas a dignidade, como eu disse, é silenciosa. Ela chega no sorriso de um igual, na piada pela manhã (em meio a escombros), nas mãos calejadas de quem amacia o pão que será dividido no amanhã, sem saber se haverá pão ou amanhã suficiente para todos os iguais.

Eu caminhei por entre ruas de barro, com a terra arrasada da América Latina (criando estrangeiros/as em ritmo industrial) enfeitando o fundo da minha memória e me pareceu que todo o meu pretenso e orgulhoso sofrimento era apenas um esporte entediante. Aquela coisa, aquele estranhamento que me parecia horrível, só funcionava nos labirintos da cidade, no conforto do umbigo industrial.

Quando eu fui mais ao fundo, mais além do que a superfície pode me levar, eu vi a dignidade nascer da pobreza, como uma rosa nasce nas fissuras do concreto.

Eu olhei para a dignidade e vi que não havia uma fissura no meu coração, que era preciso ir até o fundo para se buscar aquele feixe de luz que iria me levantar no outro dia, com um sol e a dignidade dos justos me dizendo para seguir.

Naquele breve momento, senti-me um igual e esqueci que por aqueles dias eu era um estrangeiro. Obriguei-me a seguir e entendi que sentir-se estrangeiro fazia-me caminhar e buscar meus iguais.

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Quando acordamos

Rafael Vendetta

Acordamos e tocamos os nossos lábios. Depois passei a mão nos teus cabelos castanhos (sim, estavam castanhos) e você espreguiçou, deixando minha boca percorrer teu pescoço, enquanto os raios de sol entravam pela cortina.

A vizinha cantava ao lado e eu perguntei se era assim todos os dias. – Só quando ela está feliz. É isso ou o canário belga. Nos abraçamos por debaixo das cobertas e o tempo tinha parado. Eu não me importava com nenhum tipo de compromisso, meu compromisso era aquele abraço. Nossos olhos tinham se encontrado; tu com aqueles teus lindos olhos grandes e que me espreitavam até enxergando meus sonhos e que conseguiam me despir assim, de uma só vez e eu ali, costurando corações de papel imaginariamente. Recortando você devagar, enquanto encolhíamos nossos pés para dentro da coberta.

Tudo aquilo foi efêmero, mas preencheu de significado meus meses durante tempo o suficiente para eu saber que não era o budismo de banca de jornal, os combates de rua, a política internacional ou a teoria dos fractais que me davam sentido por aqueles dias, mas sim ruiva, te tocar, com a ponta dos meus dedos dançando pelas tuas costas, enquanto eu beijava teu corpo e segurava teus quadris com força. Tu colocava o café e eu esperava deitado, olhando para o teto, me escondendo do frio, mas pensando falsamente nas coisas que eu teria de fazer no dia. Era mentira. Eu fazia isso para acreditar que aquilo lá, aquele pedaço de mundo vermelho não era tão importante quanto eu achava, quando na verdade eu sabia que isso organizava muita coisa ao meu redor. Como uma núcleo de afeto que vai organizando as partidas de futebol, a ida na padaria, os sonhos, a vontade de sair e panfletar, os poemas escritos em algum banheiro ou aquela viagem no final do mês. Até o modo de fazer a mala, onde eu carregava como um estrangeiro meus afetos perdidos, voltava naquele dia.

Tu me perguntou se eu queria chá. Eu, embaixo do chuveiro, disse que não, só se fosse de hortelã. Tu voltava com a chícara nas mãos. Conversávamos sobre sobreviver, sobre qual era o melhor lugar para comprar hortelã, ríamos sobre alguma piada da noite anterior ou simplesmente fazíamos isso tudo ao mesmo tempo (embaralhados) enquanto eu mordiscava teu pescoço. Tu passava a mão na minha cabeça. Acordávamos para o mundo.

Era preciso golpear o cotidiano e a rotina cinza sem piedade. E fazíamos isso, exatamente quando esquecíamos da rotina e nos concentrávamos em nós. Era um segredo vermelho só nosso, que não era fácil de fazer, pois exigia dois espíritos livres. Isso era diferente de ter de acordar sozinho. Onde eu fazia café e só podia olhar para a chaleira, fumegando meus sonhos do dia anterior. Era aí que pensava na psicanálise. Que se dane a psicanálise.

Se eu tivesse um núcleo vermelho de afeto, não estaria ali, com dificuldades para decidir se tomava café ou hortelã, porque saberia de imediato que tu iria me perguntar isso e decidiríamos juntos.

Quando eu ia embora e era sempre no fim da manhã, eu fingia que as minhas urgências eram mais importantes que aquilo tudo: o toque das mãos, os beijos, os arranhões que deixavam pistas ou mesmo, aquele bilhete lindo, que escrevi para você e larguei em cima da cômoda: “o hortelã tem gosto dos teus beijos”. Mas não. Era preciso mudar tudo. Eu olhava aquele sofá cinza, minha velha estante de mogno e a sexta-feira dizia: hoje tem psicanálise. Os panfletos e textos deveriam cobrir os abismos, mas eles só grudavam na pele, enquanto o que eu desejava, era aquela rotina, cuidadosa, vermelha, precisa. Solta, efêmera, casual, mas linda nos detalhes.

Não era fácil acordar. Há um sonho vermelho que não me deixa dormir.

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A espera sem esperança

Rafael Vendetta

Esperar, mas não com gosto.

Não tinha mais fé. Perdeu a esperança.

Era ela. A que se fora. Não havia mais jeito. Ela partiu. Não voltaria. Pegou o passaporte e partiu. Foi num dia de semana. Tudo estava bem, mas tudo mudou. Ela deixou uma flor sobre a mesa. A flor murchou e morreu.

Eu não acreditei. Achei que voltaria. Guardei a flor até o último momento.

Então comecei a andar sem propósito. Eu buscava a mim mesmo, eu me buscava ali, andando de um lado para outro sem propósito, sem o propósito de gente que busca as bibliotecas; enfileirado entre aqueles livros com códigos, eu sonhava em me encontrar na terceira estante, com algum livro, onde eu pudesse ler aquele meu manual de instruções. Mas sempre pensava que ser amado aos 30 anos era como ser um livro velho editado em 1972 numa biblioteca grande. Havia livros que nunca foram abertos, que nunca foram pegos, mas estavam na estante, esperando algum leitor chegar. E se ninguém os pegasse, o que aconteceria? Sempre saía da biblioteca com essa sensação. Que aquilo não fazia sentido. Guardar-se para algo que nunca chegaria.

Nunca tinha falado isso para nenhuma bibliotecária porque me sentiria ridículo, mas aquilo era o verdadeiro sentido da vida, ali, espremido nas coisas ordinárias. Um dia tomei coragem e questionei: há algum livro daqui, que alguém nunca leu? Ela disse, olhando de soslaio: sim, muitos. E o que fazem com eles? Não jogamos fora. Guardamos até alguém ler. E se ninguém ler?, aprofundei.

Ela tirou os óculos, olhou para os dois lados, como se fosse falar algo proibido e disse: jogamos a coleção fora, mas isso depende de um parecer e um relatório depois do outro. É tão complexo, tão complicado, que fazer isso requer muita vontade de se livrar de um livro. Então optamos por deixar ele lá, na esperança que alguém irá um dia, lê-lo. 

Mas isso é enganar o livro, refutei. Ela fingiu indignação, bateu no balcão de madeira e disse que eu deveria culpar os leitores que nunca o procuraram. Nós só os guardamos, afirmou, pegando uma caneta. A culpa na verdade não é só do livro, nem do leitor, pra mim é de ambos, finalizou.

Não quis insistir. Mas antes de sair emendei: você acha que há livros que não tem sorte? Ela respirou, guardou a caneta por sob o balcão e finalizou: são como pessoas, entenda como quiser, mas agora eu preciso trabalhar.

Depois disso passei semana como qualquer outro. Era outono. Comprei tabaco, peguei dois livros (os que tinham sorte), dormi. Comi. Trabalhei, mas isso não era digno de menção. Fiz café no fim da tarde (como nós ruiva, isso sim é digno de menção), peguei sol na soleira do prédio e deixei o jornal na água-furtada. Era hora de comprar pão e beijar o gato, depois tudo se ajeitaria.

Mas isso fazia todos os dias. O que não dizia, é que vez ou outra havia a espera. Uma espera sem esperança. Que chegava sempre com o olhar perdido. Podia ser na quinta ou na sexta, tanto fazia. Mas o sentimento era o mesmo. Ninguém ia chegar. O tempo passava. Eu lia mais um ou dois livros, mas em determinado momento pensava que podia estar me comportando como aquele livro da estante, o que nunca seria pego, o que nunca seria usado, o que nunca seria lido, o que nunca despertaria interesse. 

Foi aí, que para completar o paradigma da bibliotecária, pensei que o leitor poderia não gostar do livro, mas seria muito pior, o livro não gostar do leitor, o que me acontecia frequentemente. 

Voltei para casa. A flor continuava lá. Ruiva, eu senti tanta dor ao olhar aquela flor. Foi como se eu me olhasse no fim da semana sem qualquer filtro. Tua mala sumiu. Minha mala estava vazia, o que me deu uma sensação de não poder me encher. Pensei naquele momento em encher minha mala de livros. Mas minha dor não passava. O gato se esfregava na minha mala vazia. Eu olhava para a mesa com aquela toalha de mesa branca e verdade com manchas do nosso melhor almoço. Aí me lembrei de tudo. Sentei e pensei em você, comendo maçã. Pensei em você jogando a tua roupa no abajour. Pensei em você se despindo daquele modo natural que só você sabia fazer, mas aí voltei a realidade. E começou a chover. E eu descobri que fiquei 6 horas sentado: no sofá, na mesa, no chão, no piso do banheiro, com a água quente me massageando.

Pensei em descer e conversar com Alonso. Mas ele só iria falar do evitável. Pensei em ligar para Anatole, mas ele iria me dar jogos de armar que eu não poderia suportar. Pensei em pegar meu passaporte e partir, mas eu não tinha uma estante pra ir. Eu não tinha teu paradeiro e mesmo que tivesse, não iria te procurar, pois entendi que você era minha espera sem esperança. Você não me queria, mas eu achava que era tudo uma fraude, que era apenas aguardar você mudar de ideia e que tudo iria se ajeitar: mas quanto? Talvez, essa fosse a mesma sensação que um livro que nunca foi pego sentira. Mas livros não se enganam, eu sim.

A flor morrera, mas eu tinha um gato para cuidar, muitos livros para ler e vez ou outra eu me despia, não de modo natural, mas era preciso seguir, mesmo assim, com uma espera sem esperança no peito. Era preciso seguir, com um sol me dando, o que nenhum sentido deu. Era preciso levantar, acordar, tomar café, ler outro livro, deitar e sonhar. Enfim, fazer tudo aquilo que não é digno de menção. Tudo aquilo que deixou de ter teu cheiro. Tudo aquilo que faz da espera e da esperança, coisas vermelhas que um dia a gente põe no peito e começa a achar que é só falta de sorte.

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Amigo porção-única

Rafael Vendetta

Hoje foi um fim de noite estranho. Encontrei Alonso e ele não me via há quatro anos. Ele disse que eu continuava com a mesma cara. Perguntei como ele estava e ele me respondeu que bem.

Nos encontramos num posto de combustível, mas nenhum dos dois tinha carro, só parei para comprar cerveja e ele já estava  lá, bêbado e feliz com um cigarro na mão; rodeado de amigos porção-única. Havia cheiro de gasolina e ele disse que teve um filho com uma romena há 4 anos atrás e que continuava bebendo, fumando e saindo. Eu não falei nada, pois preferia ouvir e eu não tinha nenhum filho, muito menos com uma romena e eu não queria nem fumar, nem sair, apenas beber e voltar para casa. E por um lado, eu achei que encontrá-lo era um pouco tedioso.

Perguntei se o filho dele estava aqui ou na Romênia. Perguntei por perguntar, porque no fundo, queria acelerar tudo aquilo e eu não sabia o que fazer com duas latinhas de cervejas na mão e eu não sabia nada sobre a Romênia. Ele disse que a romena levou seu filho, mas era seu direito e ele entendia, mas sentia falta.

Perguntei se ele ainda se encontrava com alguém do passado, e ele disse que com ninguém. – Estão todos espalhados, me disse. Ninguém tem mais tempo para nada. É uma pena, disse com um sorriso cheio de decepção. E apagou o cigarro na sola do sapato. Os amigos dele também não ajudavam. Eles apenas olhavam e conversavam entre si, como se nossa idade fosse uma doença.

Foi naquele momento que todos os amigos de Alonso sumiram, no fundo da nossa conversa. Eu abri uma cerveja e perguntei se ele sempre passava ali, pois já tinha comprado cerveja nos últimos meses e nunca o encontrei. Ele disse que não. – Hoje eu só quero beber, sair e fuder, me disse. E eu fiquei constrangido com o que ele disse, mas no final, achei que nem tanto.

Ele me perguntou se eu tinha casado. Disse que me separei, mas não critiquei o casamento.

Ele perguntou se era homem ou mulher. Disse que era mulher.

E ele falou que não era homofóbico, caso a resposta fosse homem. Eu sorri e aí ele encheu meu copo de cerveja e passou a mão no meu cabelo e eu me senti ligeiramente homofóbico. Meu celular tocou, mas era o alarme.  Pensei em tomar Vicodin, mas eu já tinha cerveja e agi com desdém.

Ele falou que estava ficando velho e que iria morrer. Ele estava mais magro. Disse que fez o que pode. Que saiu com muita gente, que bebeu muito, que se divertiu. E que ele foi o melhor amigo que pode ser. E que agora bastava. E que estava tudo bem. E que ele era feliz. Pensei que podia ser uma despedida, então valorizei aquele momento, que no fundo, não me dizia nada.

Eu não sabia mais o que falar. Perguntei uma ou duas coisas que não vem ao caso pois são irrelevantes. Falei que iria embora. Ele não protestou.

E eu segui. Não o via há quatro anos.

Despedi-me de Alonso. Retomei meu objetivo pois estava tudo tedioso. Era preciso agir com desdém, voltar, tomar vicodin ou beber a cerveja. Nada importava, além de seguir. Pensava no cansaço dos meus joelhos e como Alonso, me atrasava e tornava meu caminho na rua de paralelepípedos amarelos, pior do que deveria ser. Despedi-me de Alonso sem dizer nada e pensei que meus amigos continuavam assim, espalhados pelo mundo.

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Estão todos espalhados