Estranhamento de si próprio


Não é que a vida fique completamente insosa, por que o sabor continua; à despeito de se ser obrigado a ver quase tudo por um ângulo completamente diferente e incômodo; mas que mesmo assim, continua presente, martelando a realidade nos olhos.

E conquanto a multiplicidade de opções, insonia2fatos por dentro dos fatos, e opiniões que não podem jamais ser compartilhadas multipliquem a angústia e a desilusão com as pobres possibilidades de si próprio, há um sentido oculto que se desperta e se presta a colher certos absurdos que clamam vingança diariamente. E entre a pausa do café, do ônibus que não chega, e daquele amor que se posta à distância, o mecanismo continua implacavelmente injusto e os ângulos se multiplicam ao infinito.

Este fim de mundo particular, que se não consegue se revelar explícito no diálogo com os outros, tão estranhos e inóspitos ao universo próprio, demonstra pelo dia após dia que o sentido está ali, guardado naquele fim de mundo que chamam de espelho.

É neste momento que irrompe uma fome de pausa misturada com um horror, horror singular.

É neste momento que coisas desabam, pois verdadeiramente nunca estiveram montadas, e é exatamente neste ponto que se observa que não há conforto, não há descanso, não pode haver paz quando as formas definitivas de se estar e explicar o mundo se esgotaram, faliram, morreram.

Há a cada dia um modo novo, um modo novo e terrível a se explorar, cujas explicações anteriores não cabem mais, tem de ser reinventadas na pia com a escova de dentes e a coisa toda não se explica, pois é difícil explicar aquele absurdo, é difícil salivar com aquele estranhamento invadindo todo o corpo.

Este horror quando não se presta à violência ao mundo, constitui o inóspito estranhamento de si mesmo, promovendo uma agonia interna que justifica o desejo de abolir o estudo, a caminhada, o labor e que no final dos dias se emoldura em piores e terríveis insônias.

E se quer é verdadeiramente terminar com aquilo tudo, que parece uma conspiração secreta; e quando deus existe se amaldiçoa deus, quando não o há, culpa-se apenas a si próprio…

É neste exato momento, que se toma emprestado aquele medo irreversível de si mesmo, capaz de terminar com a própria existência cotidiana mas que nunca o faz; não se sabe dia após dia, mas agradecemos com fé, qual é aquele poderoso pilar que mantém imune o corpo àquele estranhamento poderoso e devastador, estranhamento que ganha espaço e que merece viver.

É neste segundo que se concebem as caminhadas cotidianas como repetidas viagens aos abismos. É neste fôlego que o jogo de armar implacavelmente se insere num caminho cíclico, num balé circular, numa dança desconcertante em torno de si mesmo.

E só se pode então agradecer essa experiência toda, por que afinal, conseguir dar nome a uma coisa que corrói a gente como ferrugem, é digna sim, de um grande e demorado auto-elogio.

Não é que a vida fique completamente insosa, por que o sabor continua; à despeito de se ser obrigado a ver quase tudo por um ângulo completamente diferente; mas mesmo assim, continua presente.

E conquanto a multiplicidade de opções, fatos por dentro dos fatos, e opiniões que não podem jamais ser compartilhadas, multiplique a angústia e a desilusão com as pobres possibilidades de si próprio, há um sentido oculto que se desperta e se presta a colher certos absurdos. Este fim de mundo particular, que se não consegue se revelar explícito no diálogo com os outros, tão estranhos e inóspitos ao universo próprio, demonstra pelo dia após dia, que o sentido está ali, guardado naquele fim de mundo que chamam de espelho.

É neste momento que irrompe uma fome de pausa misturada com o horror.

Este horror quando não se constitui em violência ao mundo, constitui o inóspito estranhamento de si mesmo, promovendo uma agonia interna que justifica o desejo de abolir o estudo, a caminhada, o labor e que no final dos dias se emoldura na pior das insônias.

É neste exato momento, que se possui aquele medo irreversível de si próprio, capaz de terminar com a própria existência cotidiana; e não se sabe dia após dia, qual é aquele poderoso pilar, que mantém imune aquele corpo àquele estranhamento poderoso, mas efetivamente inútil ao desejo de viver apesar de tudo.

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