A I Carta para a Ruiva


Rafael Vendetta

Ruiva eu estou muito estranho. Não há mais tanto sofrimento. Inesperadamente eu passei sistematicamente a dar conselhos e a administrar meus surtos poéticos em dias chuvosos. Estou virando um guru de final de semana eficiente. E quem vai me ajudar ruiva? Quem me ajudará? Quem vai me abraçar quando eu estiver deprimido ou quando eu resolver compartilhar sonhos? Quem ruiva? Quem vai escutar canções francesas a piano enquanto eu resolvo me perder dentro dos caminhos cegos que me movem?

Quem ruiva? Por que você me deixou, tudo agora é mais fácil. É mais fácil entregar-me a algo ordenado. Paixão é caos. E caos é desordem. A rotina canaliza muito bem meus vazios. Ela ordena eles em séries, graus e às vezes, simplesmente não dá certo…

Não dá certo ruiva, por que eu continuo a escrever e a guardar meus botões em pequenas caixas coloridas. Olhe para mim. Sim olhe para mim quando escrevo esta carta. Esta pose de auto-suficiência não dura nem cinco minutos. Apesar do que em outros períodos nem duraria dez ou doze segundos. Eu tenho boas idéias. Excelentes idéias. Faltam-me apenas argumentos para prová-las. Pois sou muito bom em sentir idéias do que própriamente prová-las.

Ruiva eu sinto medo do fim. Faça isso, arrume aquilo. Começar é bom, mas terminar é tão terrível. Por que as coisas terminam ruiva? Tenho dez respostas prontas para esta pergunta. Sei dizê-las em voz alta ou sussurando, a todos/as que me pedem conselhos. E elas me confortam, mas não é demais distribuir dúvidas por aí não?

Chega de respostas. Eu estou tão concentrado ultimamente, mas tenho medo que esta concentração se dissipe e suma como você sumiu ruiva.

Quando você me disse uma vez que não havia ideal, que o ideal estava dentro de mim (eu sei que você vai dizer que não disse isto) mas de certa forma, eu sei (nós sabemos), que esta foi uma tentativa egoísta sua de me monopolizar. Agora parece que você conseguiu e armamos uma boa trégua.

Uma trégua tão insosa e perdida quanto eleger prioridades. Eu podia até tomar mais uma cerveja antes de encher isso aqui do que verdadeiramente você está esperando que eu encha: amor pútrido amor um guardanapo na quarta, câncer emocional na boate, dor, fractais coloridos no centro da cidade, cacos quebrados, barulho, um samba na segunda-feira e por fim, queimaduras de cigarro.

Mas esta fase já passou. Sei que o tempo não é uma linha mas uma rede e que estas idéias nem própriamente são minhas, nem são deles, nem de ninguém, mas de todos, mas o fato é que no momento sinto que isso vai me desviar do que interessa.

Talvez tudo seja novidade. Talvez eu esteja numa fase de aproveitar o que eu lutei muito para conseguir (não pude evitar esse  jargão). Mas o fato é que o conflito com você só me rende poemas medianos e alguns contos medíocres.

Seja mais clara da próxima vez e aí poderemos nos agredir verbalmente ao som do velho Buckley. Mas você nunca foi clara o suficiente. Você sempre tergiversou e os melhores, quando fazem isso, o fazem com a certeza entre os dentes.

Já construí minha cúpula psico-geodésica. É ela que irá me proteger. É claro que o world trade center caiu, que o titanic afundou e que o mar Aral está morrendo, mas eu ainda acredito que símbolos são bons começos.

Podem me chamar de esquizofrênico, mas sinto cada vez mais a sua presença e atualmente sua paz (que eu oportunamente compartilho, como um filho compartilha a certeza de um pai).

Outrem eu só via ódio e decepção, mas hoje consigo ver esperança e acordos internos. Isto é um bom sinal. Um bom sinal ruiva, que um dia lhe ofuscará de brinde.

Você é um vulcão adormecido e se eu te pedisse pra dormir durante 4 ou 5 anos, estaria mentindo para mim mesmo. A lava revigora o solo, dói, sangra, mas é da cicatriz que vem a flor.

Se um dia isso acontecer, prometo colocar seu nome vermelho nela.

https://pseudocontos.wordpress.com/ – Publicado originalmente em 17/04/2007 

Revisado em 23/05/14

aprimeirapretendeseraultima

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