A lascividade do último encontro


Rafael Vendetta

Convidou Amanda para o bar não por que precisasse conversar própriamente, mas porque gostaria de soltar meia dúzia de frases de efeito e ter algum material fresco para colocar suas idéias literárias em prática.

Isso era egoísmo, mas pelo menos ele era um egoísta sincero. No caminho o egoísmo dava lugar a um sentimeno altruísta muito ocasional. Na verdade era um disputa interna entre suas múltiplas faces. Quando atravessou a faixa de pedestres, prometeu que seria atencioso e carinhoso com Amanda tempo o suficiente para embebedar-se com seis ou sete cervejas.

Não houve muito tempo.

Amanda em alguns momentos era egocêntrica. Ele a adorava, mas ela insistia em ser egocêntrica nas ocasiões erradas e isso tornava tudo a partir daí muito mais difícil e intricado.

Amanda lera seus poemas? Jamais! Amanda o visitou quando ficou doente? Nunca! Amanda esqueceu de seu aniversário? Duas vezes! Afinal, o que era Amanda além de um ser miserável, imprestável, que não merecia sua atenção!?

Mas lá estava ele! Como um Gandhi moderno, uma madre teresa de Calcutá contemporânea ouvindo as aflitas lamentações/considerações de Amanda. O casaco perdido, a díficil situação financeira dos seus pais, sua rotina extenuante de estudos, o caso mal resolvido com seu antigo affair… Deus, a lista era enorme. Amanda falava, gesticulava, apontava e decidia onde a conversa iniciava, onde as palavras delimitavam mudanças de tema, ela avaliava quais piadas eram realmente interessantes, quais considerações importantes e quais lamúrias ela estaria efetivamente interessada em escutar.

– A partir do momento em que parei de girar a sociedade em torno do meu umbigo, respondeu a Amanda com um gole de cerveja pontuando a frase, eu consegui me tornar mais nobre, mas muito mas infeliz.

Amanda sorriu, era um sorriso que revelava que ela não estava muito inclinada a entender, apenas a esperar sua vez de falar. A maioria das pessoas funcionava sob esta lógica.

E foi assim, até que ela foi embora para suas luzes de neon; um mundinho micro fascista chamado boate, que vendia ambientes geométricamente perfeitos que simulavam alguns sonhos e realidades, das quais muito chamavam de diversão.

Antes disso a ruiva tinha chegado, cumprimentaram-se enquanto ele esperava a fase da qual as confluências, ou seja, o acordo mútuo entre qual seria o eixo temático da conversa básicamente surgisse. Mais a Ruiva era uma artista dedicada e sincera diga-se de passagem, que conseguia transitar por todos os terrenos, entrar e sair por todas as portas como uma lady inglesa, não com a mesma falsidade, claro.

Amanda despedira-se como de habitual, com um toque de honestidade que sempre acabava salvando a impressão de que ele guardaria para o resto da noite.

Após o “como você está” mais insoso que ele já ensaiou com a ruiva ele resolveu repetir as mesmas palavras para ver se a convencia a entrar em um delicioso jogo filosófico que só ela sabia fazer.

– A partir do momento em que parei de girar a sociedade(…) repetiu.

– Como assim? Você não está sendo claro.

Respirou fundo.

-Essa cidade parece ser uma junção de pessoas sem propósito. E quando eu resolvi falar menos e ouvir mais eu quebrei uma merda de uma lógica. E agora isso fica tão brilhante que eu consigo ver esse amontoado de egocentrismo espirrar por todos os lados dos meus dias.

-Seja mais direto.

– Essa é a questão. A linguagem está presa, condicionada por esse tempo cínico e cruel em que vivemos. Não há tempo para desenvolver as idéias, por que o nosso comportamento de apertadores cíclicos de botões nos encaixou em modelos opressivos de comunicação. Se desenvolvo uma idéia com mais profundidade sou interrompido. Se falo algo curto, a princípio sou aceito, mas estão apenas esperando sua vez de falar. Obrigam-me a ser sintético.

– Eu olho para uma formiga na parede do meu quarto e aprendo mais com ela do que com os discursos de bar. Esses discursos de bar são uma merda.

– Você tem razão… mas eu gostaria de lembrar que as pessoas são diferentes. São como…

– Amanda?

– Sim. São como ela.

– Eu não quero desenvolver meu senso antropofágico de relação social, você sabe que eu não sou assim, mas eu gostaria de um interesse mais transparente na maior parte das vezes.

– É… todos queremos… Pontuou a ruiva.

Ela abaixou a cabeça, o olhar se perdeu, algumas imagens de outras situações e bares lhe ocorreram, mas ele tinha concentração o suficiente para concluir. O pensamento de ambos começava a se encontrar.

– As pessoas me cansam, por que elas se cansam delas próprias e acabam tornando seus amigos, conhecidos ou diabos um bando de espelhos. Às vezes me sinto acorrentado com uma arma nos córneos sendo obrigado a assistir um stripper ou uma operação cirúrgica das entranhas do egocentrismo. Tome este órgão doutor, segure o bisturi, segure meu fígado, tome meu rim, feche meu ferimento. Que grande merda! Assista isso! Minha mãe, meu estudos, meu eu, meu namorado, minha vida, meu eu, meu ego, meu meu meu meu… Tudo bem! Um pouco de reciprocidade é positivo, mas isso está tomando proporções muito perigosas.

– Você bebe demais.

Ele riu. Era um ótimo corte. Da melhor forma que só a ruiva poderia oferecer.

-Se eu falar “tá bom vamos falar de outra coisa” isso não seria extremamente unilateral? Não é um pedido, essa merda é uma ordem! As pessoas fazem isso todo o tempo.

– Dizem. Fazem isso cotidianamente. É como vestir luvas de auto-indulgência para com seus próprios erros.

A inteligência da ruiva merecia um comentário a parte. Uma inteligência emocional fantástica que o fascinava.

– Vamos dançar. Ela provocou.

Ele não precisou convencer-se, já estava; quando aquele olhar fascinante, aqueles belos cabelos vermelhos, e aquela camisa cinza baby look(pensou o quão americanizada era esta palavra em todos os sentidos do termo) que ressaltava seus belo seios, o seduziam e o negavam não necessáriamente nesta mesma ordem.

– Vamos.

E dirigiram-se sem darem as mãos uns aos outros(ele estava na fase de odiar esses ritos) e ela pensou que não seria agradável despertar muitas certezas, certezas estragavam quaisquer surpresas e ele com certeza ficaria surpreso por que tudo já estava decidido na cabeça dela e aquele seria um teste de fogo. Não como cigarros queimados nos pulsos, mas doeria muito mais diga-se de passagem.

Andaram… caminharam pela praia, emendaram em algumas ruas escondidas, e pegaram o ônibus rumo a destinos semelhantes, mas tão diversos dentro da dinâmica em que os dois se envolveram.

Não houve conversa durante a viagem. Estavam mais preocupados em certificarem-se cada um à sua maneira e sua expectativa o tamanho do estrago que iriam causar.

E o estrago começou no elevador do prédio dela, quando ele resolveu brincar com seus cabelos vermelhos enquanto ela fingia que não ligava ele se diminuiu a ponto de planejar quantos minutos ele demoraria para deixar ela no apartamento, tomar uma dose de gim e voltar para o ponto de ônibus a procura de um taxi.

Mas isso não ocorreu e não poderia ocorrer, por que neste dias ambos estavam sintonizados, e foi só ela parar na porta do quarto com um ar lascivo sorrir e entrar porta a dentro com seus cabelos vermelhos cuidadosamente desgrenhados que ele largou a cerveja perto do sofá e atirou-se descuidadamente em sua direção. As bocas se encontravam num ritmo febril, uma necessidade, como um vício, uma dependência mútua que encontrava ali seu auge mais explícito.

Enquanto ela dava alguns passos para trás ele jogava-a na cama com uma violência tão sutil que os olhos da ruiva reviraram enquanto ela tateava o rádio a procura do botão que desencadearia a trilha sonora do que seria talvez, o último encontro carnal dos dois.

A música do corpo, as peles se encontravam, os toques as reações, os gemidos lentamente construídos sobre a moldura do prazer, tudo se esquadrinhava em volta do grande erro que cometiam, um delicioso erro, um delicioso erro, que comprometia parte do juramento que fizeram juntos. O perfeito não existia, não existira, era apenas uma imagem ideal da realidade, mas não seria heresia nenhuma chamar isolar aquele momento e chamá-lo de perfeito. De maneira alguma… pois eles se permitiam tal luxúria…

https://pseudocontos.wordpress.com – Publicado originalmente em 28/05/2007

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