Ruiva e os paralelepípedos amarelos (A)


Ah Ruiva. Como eu queria que você estivesse comigo quando eu subi aquela rua de paralelepípedos tão extensos. Pude sentir você sussurrando em meus ouvidos: chore, vai, chora… você precisa disso… E eu pude perceber na terceira, ou na quarta casa de tijolos amarelos, que meu caminhar, minha respiração estavam tão carregados Ruiva. E aí eu resolvi brecar.

Parar tudo. A revolução, as caminhadas, o esforço ruiva. Tudo tem de parar, antes que eu me perca, o que aliás é falso; já estou completamente perdido.

Ontem eu respirei um céu pesado, dobrei meus joelhos; minhas pupilas doíam, mas mesmo assim eu acordei e fui para aquela praça que você adora ruiva, com a esperança nos bolsos e algumas flores enfeitando meus medos e anseios, era uma praça singela, bonita, insignificante demais para ser percebida, mas eu cheguei lá. Fumei meu tabaco, e depois resolvi comprar um café bem forte para me manter vivo sobre os escombros dos pequenos prazeres, e inevitavelmente reclamando pouco açúcar, pouco afeto.

Perambulei pela Biblioteca Nacional, pelo centro da cidade, vadiei até encontrar um banco vazio dentro de um prédio público, aquela dor ainda vivia em mim e tinha seu nome. Deitei-me com a cabeça e os olhos mirando o teto, como se o teto fosse me mirar; mas ele não deu respostas, e eu só tive sono, cochilei.

Alcancei o pináculo central da cidade, e foi por uma boa causa, consegui almoçar e descobri o verdadeiro centro geográfico daquele mundinho, mas não daquilo que eu nunca achei, que é seu manual de instruções e o centro do meu mundo. O que eu ocultava era a ignorância sobre mim mesmo; e era assim, que me restavam os trocados e ao invés de me entender eu resolvia era comprar pilhas recarregáveis ou me esquecer com objetivos que se reproduziam e nunca chegavam ou bastavam, pois sempre que se bastavam, reproduziam-se e criavam outros objetivos-filhos que nunca se bastavam.

Jejuei de noite só pra me sentir mais iluminado e próximo do quê eu não sei ruiva, mas eu estava próximo de alguma coisa que transcende a existência.

Aprendi nas últimas semanas que um dia mediano é um dia bom, na verdade um dia mediano é um dia excelente. Sei que você sempre sorria destas minhas metáforas baratas, e quando você fazia isto, eu me sentia mais motivado a repetí-las, mesmo que para isso eu conseguisse te deixar irritada de propósito, num paralelepípedo amarelo no centro da cidade às duas ou três da manhã. Era fácil acabar com sua irritação. Eu normalmente te agarrava com força, e te beijava a exaustão contra sua vontade, que você fingia. E cada vez que queria me beijar, nós sabíamos, e era um acordo secreto, só nosso, que não estava lavrado em um cartório, mas ainda assim existia, nos aproximávamos, assim, generosos, nos oferecendo mais do que precisávamos, nos desperdiçando sem dúvidas ou chão. E você me deixava cada vez mais perto, e no final nos beijávamos como últimos; e era quando você começava a sorrir e normalmente me chamava de maluco. Maluco, bobo. Eram as mesmas frases, mas outro amor, sempre mudado. E eu as adorava, por que tinha certeza que o plano tinha funcionado.

Adorava olhar para seus lábios e seus olhos, aqueles olhos amendoados enquanto você repetia, bobo, chato, maluco… Amendoados.

E me deixava envolver neste joguete, enquanto algumas idéias malucas iam voando por entre os paralelepípedos e as toneladas e toneladas de papel picado caíam e faziam neve o asfalto.

Quando você ofegava, eu me desprendia do mundo e colava meu corpo no teu, você deitada no chão, naquele piso branco-marfim, e eu colado, com meu corpo em cima do teu, onde éramos uma só respiração, onde o calor era tão forte, naquele frio, que aquecíamos tudo ao nosso redor; tornávamo-nos fogueira.

E aquelas paredes que anteriores e mudas à nossa fome resolviam nos olhar, e quando eu, sem desprender nossos corpos já siameses, sem negar, sem temer ou recuar um centímetro do teu ventre, fazia algo mais forte e nem me desculpava… E era ali que sobrevinha uma mordida, era ali, exatamente ali, que sobrepunham-se os beijos famintos, a vontade de te sorver com a língua, e aquela fixação pelos teus poros lascivos. E aquele animal que vivia em nós escapava, e a civilização acabava assim, envergonhada no terceiro ou no quarto agarrão, naquele gemido, naquele arranhão, naquela solicitude bêbada…

E definitivo, fazia-se então o amor; simples, de instantes; e que nos impunha o gozo, era o deus da nossa catedral, da nossa catedral chamada sem fé e vergonha, de puro desejo.

E aí eu estava. Logo depois eu estava. Sozinho. Caminhando por entre os mesmos paralelepípedos amarelos, fuçando quartos azuis, alguns com luzes de néon roxas. Em festas vazias, cheias de gente incompleta eu me sentia inadaptado, demasiadamente deslocado para conseguir aturar mais do que duas ou três horas de simulacros humanos vazios movendo-se caoticamente em torno do quê ruiva, do quê ruiva? Eu não sei. Eles apenas eram, é assim que conseguem ser felizes, com prozak, com seis comprimidos de futilidade e rotina durante a semana. Eles eram.

Andando de bicicleta à margem do sena, costurando a praça da bastilha pelo lado oposto ao da Biblioteca Forney, comendo uma baguete perto do cemitério de Perry Lachaise eu me senti vivo novamente, pulsante como uma lua ao som da velha torre, enquanto um sonho ruim da noite anterior, a noite do quarto do sótão de Vitry Sur Seine trazia você para mim ruiva, aos meus passos de caracol e ao meu cheiro de uva, de vinho de bordeaux, eu soprava seus sonhos em formato de bolhas de sabão-maduro e conseguia dentro dos bolsos do meu casaco azul contar quantos motivos eu tinha para cansar-me de esperar você chegar naquele banco de madeira que nós costumávamos nos entregar em Montparnasse.

Ruiva, estes dias foram pesados. As lágrimas escorreram de maneira mais habitual e há um pouco de iluminação nisto tudo. Há um pouco de dor parcelada, há um pouco de amor negado. E o que me vinha de original, era ter paciência com meia dúzia de literatos fracassados. E aí olhava para os paralelepípedos amarelos, e normalmente encontrava sempre algo mágico. Uma vez um corcel branco, não tão corcel, um cavalo que fuçava lixo, assim como eu, que sempre tenta olhar algo de positivo no que já foi descartado. Outra vez um enfant, e sua bicicleta, ele tão jovem, talvez um quase-futuro-bobo, maluco, que apertava uma buzina imaginária, que não tinha ainda um coração de cinzeiro, que não conhecia a ruiva, mas que se movia, que se movia.

E eu, maluco, bobo, e que me lembrava dos seus lábios, de um passeio feito por um corcel branco, de um infantil de bicicleta, de meus próprios pés que caminhavam pelos mesmos paralelepípedos amarelos, ignorava a nostalgia e seguia, seguia com seis comprimidos de rotina, com paciência, com meia dúzia de literatos fracassados, com uma semana, com um casaco azul, com um céu pesado, com força, te beijando à exaustão.

Como eu queria que você estivesse comigo.

e as toneladas e toneladas de papel picado caíam e faziam neve o asfalto.
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5 pensamentos sobre “Ruiva e os paralelepípedos amarelos (A)

  1. […] Sugestão de leitura Ruiva e os paralelepípedos amarelos (A). […]

  2. Juliana disse:

    Esse conto é inédito? Fiquei com a impressão de que já tinha lido… o,O

    • Mr. Durden Poulain disse:

      É quase inédito. Na verdade é um conto antigo que foi lanternado. Não costumo fazer isso. Mas o faço por questões estritamente teleológicas.

  3. Tainá disse:

    Rafael, isto não é conto. É uma coisa!

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