Breves histórias


Rafael Vendetta

Vasilli em seu jogo de cartas semanal, no truco filosófico que mantinha com Anatole, e impreterívelmente Laura costumava aparecer, não para ganhar, mas para fazer com que alguma graça surgisse além da praticidade mórbida daquele ritual de fim de semana, costumava digitar oralmente algumas histórias(ou seriam estórias) interessantes, que faziam Anatole revisar o que era realmente mais importante; aprender Fitche ou Shopenhauer ou viver intensamente relações sociais.

Vasilli sempre assobiava e completava com uns trocos de música, quando uma rodada estava a seu favor, versos batidos, “alegria era o que faltava em mim”, assobiava Cartola em tom de sarcasmo, era um recado para Anatole. Uma crítica clara, direta. Como era vil quando conseguia. Ele sempre fazia algo do tipo, percebia que Anatole costumava abaixar as sombrancelhas em tom de protesto, perder não era um bom negócio claro, e o que era um jogo transmutava-se numa batalha campal de filosofia e sarcasmo; Anatole sempre encerrara tais situações com olhares deprimidos ou comentários polêmicos sobre algum livro que Vasilli celebrara.

Bati!, gritou Vasilli… Hahá! Par de ases!

Anatole, recolheu as cartas, e embaralhou mecânicamente os valetes, os reis e as damas, enquanto Laura, movia-se frenéticamente até a geladeira, daquele cômodo sujo, um carpete marrom que negava a modernidade, tufos de cabelo e pedaços de papel no chão constrastavam com a louça suja, um macarrão a alho e óleo que Vasilli tão hipócritamente cozinhara para todos.

Era a raiva que o dominava…

Bebeu o copo de contini com força. E na ausência de Laura, que se jogara no colchão rasgado e sujo ao lado da garrafa de vodka que na sua metade, desafiava os que ali estavam a assassinar aquele indecente caminho para as portas da percepção, continuou a embaralhar as cartas. Vasilli, segurou suas mãos e disse: “acabou companheiro. acabou.”

Olhou nos seus olhos e disse: “O homem sagrado não compete, por isso ninguém pode competir com ele”.

Anatole, esperava mais. Mais as rosas não falam. E as de plástico, emolduradas, entorpecidas pelo ambiente, aquela luz, aquela lâmpada de 60 watts, que iluminava pendurada num bocal sinuoso e problemático, traduziam a noite.

Laura, doce laura, perfume que dominava o ambiente, de bruços, com sua calça jeans negra, seu tênis amarelado, do brechó de algum jardim, de algum pseudo-jardim, da lapa, dos arcos, de santa teresa, de algum convento, de alguma igreja do subúrbio, eram tantas versões, que exalavam todo o perfume doce de Laura. Seus cabelos curtos, olhos de amêndoa, moderna e tão ultrapassada, assim era Laura, enquanto o caos rodopiava sob seus olhos, ela simplesmente dormia.

O que você disse?

Que acabou.

Acenou com a cabeça. Despejou o baralho sobre a toalha de mesa e incitou Vasilli a ficar bêbado naquela noite: “outra cerveja Gaijin.”

Vasilli foi submisso a idéia.

Enquanto tirava a chapinha com um pedaço improvisado de faca, que usava como abridor, a porta anunciava algum viajante. Batiam na porta com virulência, violência. Vasilli sorriu, transparecia uma felicidade mórbida, o coração de Anatole preocupou-se com a semi-automática dentro da gaveta, quando Vasilli trouxera os pacotes de alho; emudeceu, tomou mais contini e preocupou-se com aquele momento.

Vasilli caminhou até a porta com um casco nas mãos e abriu a porta sem nenhum pudor. Apenas a cerveja e o sarcasmo eram suas armas naquele momento. Era o fim da noite.

O sr. Fitche chegara, não em pessoa, mas em idéias. Pizza.

Comeram pizza de mussarela, e falaram da morte de animais, abatedouros e dormiram como pedras pomes até o sumiço do russo.

Dia eventual, que deixou Anatole, finalmente sozinho com Laura.

Mas isso é uma outra questão.

https://pseudocontos.wordpress.com – Publicado originalmente em 15/03/2007

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