Bruxos


Rafael Vendetta

Ontem ele deu um grande passo na sua jornada, na sua vida. E foi aí, depois do sétimo dia, que a magia surgiu e que ele virou um bruxo. Um botão de flor foi capturado, a lua se escondeu atrás das nuvens e ele percebeu que sua magia poderia realmente funcionar. Mas falar de magia num mundo cinzento não era algo de gente sã. Gente sã quer medidas não-radicais. Gente sã gosta de economia no café da manhã e dirige carros movidos a diesel por auto-estradas de fim de semana.

Gente sã compra carne de vitela, uma espécie de jesus cristo dos animais e se masturba assistindo a tv digital.

Ele andava a passos curtos. Pequenos passos para um homem, para um bruxo, mas um grande passo para o inconsciente, para a teia do universo, para a magia em si.

Demorou a dormir, por que foi o preço a se pagar, um preço visívelmente estúpido, mediante todo o processo desencadeado.

Jorrou recordações em doses grandes e geladas; como agua límpida e gelada, afinal as memórias ruins normalmente são claras, límpidas e frias. A bruxaria não; é quente, calorosa e turva, como a rebeldia e a revolta tem de ser.

Caminhou bastante, caminhou bastante, enchendo a semana de sentido, para ver as lembranças se aglutinarem. Está tudo muito límpido para o bruxo.

Límpido de sentido: se há algo escondido, é por que realmente ele acha que precisa estar lá.

Talvez fique por toda sua vida.

Um pequeno insight causou um verdadeiro efeito dominó, pequenos desastres cotidianos, derrubar café na mesa, cair açúcar no tapete, deixar as moedas fugirem pela estação do metrô, mas que cena patética; não esqueça o troco da condução bruxo, o troco da condução, pegue aquela moeda lá, aproveite que a falsa-ruiva da esquerda não está olhando bruxo, aproveite que o senhor de terno laranja parou de jogar malabares em frente a máquina de refrigerantes.

Acionou mecanismos secretos e trouxe à tona os fragmentos que considerava separados; estes cacos polidos de emoções, segredos, revelações, disposições, complexos psicológicos autônomos, que emergem(e emergiram) com força, e é com força que eles reclamarão cada um por vez, sua parte no bolo: um verdadeiro banquete. O bruxo não vai poder dançar sobre os cacos, vai ter de se adaptar, entender, e parar de fazer bruxarias levianas, vai ter de crescer, ganhar responsabilidades e parar de se enfeitiçar deste forma. Vai ter de abandonar o misticismo para vender escravos na bolsa de valores, ou então viver como um vira-latas errante, sem um puto para comprar uma latinha de refrigerantes; mas bruxos, bruxos libertários não bebem refrigerantes; não gostam de vender escravos(já que espiritualmente não se pode diferenciar o escravo do senhor).

Bruxos tem capacidade de consumo limitada, muito limitada. Isto não os torna bruxos, é algo mais é claro, mais é um voto de silêncio, um voto de silêncio que faz parte dos rituais.

Bruxarias levianas, disse sua maga preferida, são só para bruxinhos recalcados(era uma noite sensual e ela estava bêbada, como poderia acreditar realmente que com aquela cinta-liga vermelha e depois de sete ou oito garrafas de cerveja ela diria a verdade?).

O bruxo dançou desajeitadamente no último sábado, lançou magias baratas de sedução(contrariando a maga ruiva, a ruiva maga), bebeu cerveja até as oito da manhã, contou estórias de fadas e encantos célticos à beira de um prostíbulo plástico, um prostíbulo a céu aberto, de consumo, de falsa diversão e de ficções sociais regado à cerveja e música cyberpunk: bruxaria new wave, oh sim!

Lançou sigilos, que funcionaram, claro, sempre funcionam. Basta concentração. Era fácil encantar as filhas e filhos do mundo de silício.

Resolveu não abrir baús. Davam trabalho demais. Mexeu a água com a ponta dos dedos, a diferença de temperatura era brutal, que água gelada, que água gelada.

Quando você for me visitar novamente ruiva, não me leve mais a morte para meus sonhos, por que brincar com a morte é algo efetivamente sério, é algo que não pode ser irresponsávelmente manipulado à distância com sua magia barata! Traga me flores e bombons na próxima vez! E nunca mais tente se cortar na minha frente ouviu bem? Não descerei catacumbas tentando lhe esquecer, hoje faço isso sem ter de sair de casa! Você não pode chegar ruidosamente assim deste jeito, peça licença, entre na fila, jogue seus feitiços de maneira mais apropriada! (bruxos também não se entendiam vez ou outra)

Farei um sigilo, um sigilo novo, um sigilo que despertará a rebeldia em níveis mais apropriados(a cafeteira tinha quebrado novamente).

Crowley era uma escoteira de final de semana, agora as coisas vão ficar certas; um Ravachol anarco-pagão não precisa de falsos líderes, pois todo líder é um sintoma de uma energia espiritual aprisionada em receptáculos errados. Bruxos conduzem a liberdade pelas vias erradas, mas do jeito certo!

Tudo pode ser usado como um medalhão. Um pente, um abridor de garrafas ou uma modem ethernet por exemplo; basta usar o focus, basta fluir por entre as ondas/partículas, partículas/ondas e iniciar o feitiço apropriado do não-agir agindo(redundante ou contraditório, mas fácil de ser entendido se não se vive numa sociedade de silício ou se procura entrar em contato com algo subcutâneo e subterrâneo a isto).

Bruxos tem princípios definidos. Druidas consertam estragos. Bruxos o fazem. Estragos necessários. Políticos se previnem de câncer de próstata. Bruxos andam sob tiroteio cerrado. Cardeais da economia tomam prozak, bruxos bebem vinho até o amanhecer. Bispos da burocracia lêem livros de auto-ajuda no final de semana, bruxo fazem amor durante todo o sábado(na verdade é o amor que os faz).

Matar o deus-silício é uma necessidade de todo praticante de bruxaria. Peixe e serpente não podem conviver juntos e todo bruxo sabe disto. A morte dos bruxos e do deus-silício estão íntimamente ligados. A diferença é que enquanto um evita, o outro atrai, um defende o outro ataca, não necessáriamente nesta ordem e os bruxos no final das contas são maravilhosas estrelas dançarinas, cujo ponto final não está encrustado em nichos de mercado estabelecidos em datas de consumo acelerada e muito menos em mortes parceladas em boates coloridas: bruxos só morrem quando a chama da rebeldia se apaga dentro de seus corações.

Bruxo lembrou-se da maga, esta pagã ingovernável, filha da lua avermelhada, dos rituais pagãos temporários em que se podia mover metade do mundo com uma alavanca…

Lembrou-se da época em que o deus-silício não era tão forte, apesar de não ter vivido materialmente, físicamente naquele tempo pretérito. Lembrou da água límpida. Da floresta susurrando… E viu…

E sentiu… E observou… e percebeu que os bruxos libertários estarão sempre destinados a enxergar a vida de uma forma meio mágica, meio diferente, apesar do silício, apesar do maldito e do vingativo deus-silício…

https://pseudocontos.wordpress.com/ – Publicado originalmente em 19/12/2007

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