Da grande porca que sobrevivera


Rafael Vendetta

Todos os porcos são iguais. Mais há porcos mais iguais que os outros.

Entendeu?

Gritou; estava bêbado.

Jogara as chaves por cima da mesa, uma mesa de madeira solitária, uma madeira de baixa qualidade, em cima apenas a porca, um cinzeiro cheio de guimbas e um bloco de papel com rascunhos quaisquer. A porca estava parcialmente manca, fruto de um derrubão que lhe arrancara parte da pata esquerda. Culpa da maldita cuba libre. Respirou tão fundo, que assustou o gato que resolvera circular toda semana passada pelo apartamento.

Ainda tateara alguns segundos para apagar o interruptor e acender o abajour de centro que comprara num sábado qualquer e não-se-sabe o porquê mas o vendedor resolveu limpar os dentes enquanto resolvia convencê-lo de que o valor do abajour era justo.

Pensou o quão miserável era esse cotidiano. Estava dominado, recheado dos trejeitos e sonhos típicamente pequeno-burgueses que tanto fazia questão de rejeitar, ou diria projetar… projetar sobre tudo.

Sentou com a garrafa de cerveja próxima a cadeira, olhou para a porca, a admirou antes de encher o copo e tragar a espuma, a cerveja e parte das decepções. Botou a porca olhando para a parede oposta a da janela e pensou que escrever contos pequeno-burgueses era uma profissão de fé, algo que lhe dava lastro com o absurdo, com o horror do mundo, com a miséria entoada em cada final de semana. Jamais conseguiria escrever contos que lhe trariam realmente um pouco de dignidade, por que era necessário um tom de sobriedade que não obtia durante os dias de semana quando resolvia confrontar-se com si próprio.

Nesses dias, era apenas emoção e fundos falsos. Parava para recolher pedaços durante os dias de semana e no final do mês, eram quartos vazios.

Pegou a porca novamente. Esperava uma epifania. Mas como?

E dizia. Dizia sem abrir lábios que nem tinha. Dizia com as lembranças, com o simbólico, com o imaginário não-lido, com a falsa impressão dos sorrisos, com os encontros e desencontros dos dias e dos finais da semana; dizia tanto que faltava chorar. Mas ela não tinha olhos, nem pupilas, apenas buracos em paredes de barro. Quando olhava para a porca lembrava dos mesmos olhares brilhantes que o castigavam com a indiferença. A indiferença, o desprezo é o oposto do amor, não o ódio. O ódio é parceiro. Falara isso numa situação esdrúxula é verdade, chovia, e era o dia dos conselhos errados. Conselhos errados era a data que quatro campeões se reuníam para construir uma meta-filosofia da desgraça. Era engraçado. Um axioma antigo que o reconfortava.

Pois sempre precisava falar, falar entre algumas mesas de bar era fundamental para ver se conseguia exorcizar a porca, o passado, o símbolo e o diabo a quatro! Mas não era tão fácil.

Não era tão fácil por que quando acordava tinha a porca para lembrar da ruiva, da maldita ruiva e quando dormia, os sonhos se encarregavam de mostrá-lo o quanto podia ser cruel essa tal de memória. Evitar não é o remédio. Confrontar é a solução. Não é um tratamento homeopático, mas mesmo assim é algo corajoso a se fazer. Acordar com a faca nos dentes e esperar a situação virar a seu favor.

A temática não era lá essas coisas. Mas isso resolveria nos próximos meses.

https://pseudocontos.wordpress.com – Publicado originalmente em 24/05/2007

Em Revisão

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