Da porca de barro que guardava idéias


Rafael Vendetta

Simplesmente fenomenal. A chuva, que bela chuva! Fenomenal. Eu andei, olhei para as calçadas portuguesas, digo pedrinhas portuguesas, construídas sob suor, sob o sol, mas o sol ali não estava, talvez a lua, mas o sol… quem dirá, o sol.

Quando eu precisava conversar ela sempre aparecia. Quando nada mais me dava atenção, um brilho surgia, um caos dançava dentro de mim e eu conseguia olhar no reflexo do espelho, enquanto escutava a voz, as vozes, encerrarem ritos.

Reclamavam da vida, o vagão-trator-vagão, petrificava os problemas, engessava e reduzia os transeuntes a um pó de vida-morte, morte-vida-pó, um quê de cousas sem identificação, que no final das contas, eram puros backgrounds, efeitos. Quando me perguntavam como eu encarava a dor, eu respondia que escrevia contos e bebia cervejas. Ninguém entendia. Achavam-me idiota ou clichê (como algo não fosse), talvez seja uma defesa que eu assumi. Alguns começavam a rir ou permaneciam calados em tom de respeito.

Mas o inconsciente fazia planos. E eu os desconhecia. Queria conversar, mas era difícil, conselhos eram desnecessários; só queria ser escutado(ela sussurrava que tudo era um devir… até mesmo ela). Ninguém entendia a ruiva.

Eu escrevia sobre e para ela. Ela também escrevia, mas era difícil conviver com as dúvidas que as pessoas encaminhavam sobre seu comportamento, sobre meu comportamento.

Foi num dia de verão que eu resolvi comprar uma porca de barro, estava alegre, juntaria não dinheiro, como a maioria, mas juntaria idéias. Cada momento de lucidez e de loucura, seria uma idéia colocada na porca. Poemas, contos, haikais, teorias, cartas de amor com destinatário ou sem destinatário, crônicas, catarses, fotografias dobradas, tudo seria colocado na porca de barro. Uma grande porca marrom(ou seria laranja…), vendida nos sinais, era a porca das idéias. Depois quebraria tudo e veria o que restou.

Pensei em quebrá-la várias vezes. Mas em todos os momentos ela me olhou e pediu clemência de uma maneira tão estática, que eu a poupei.

A ruiva me provocava. Dizia que eu não teria coragem, que eu me apeguei. Que a porca era um totem e totens não podiam ser destruídos, matem o séquito, mas os totens vivem, re-vivem.

Ela brincava de um jogo esquisito comigo, era uma provocação explícita. “A porca ou eu”, dizia em momentos de raiva. Tudo para me testar. Cofre de sonhos. Isto era o que era a porca. Meu cofre de sonhos.

La roja quase atirara a porca mas eu a detive e neste dia, nos beijamos tão intensamente, que a porca repousou sobre o edredon da cama tão plácidamente, que quando abri meus olhos a vi de olhos abertos dizendo: “obrigado. obrigado”.

Deixe-me falar sobre alguns dias específicos. A porca entrara em meus sonhos dizendo que teria de falar por metáforas durante anos, toda uma vida, pois quem guarda segredos, mesmo que inofensivos ou desejos, é um escravo. Um verdadeiro escravo. E escravos mandam pombos ou porcas-correio ao invés de se exporem. Por que a exposição traz alguns pedaços de morte.

E a porca não queria morrer.

A capacidade de criação aumentava. As coisas tornavam-se extremamente cíclicas e aí resolvi encontrar Justine, Justine, era doce, tinha seus próprios problemas. Seu problema chamava-se Nicolas. Era seu edema pessoal.

Nos encontramos no bar, eu e Justine. Resolvi falar do sumiço da ruiva e ela do aparecimento de Nicolas. O papo teve alguns eixos temáticos, mas básicamente era o clássico “minha vida é irônica, deus joga dados e eu fumei Haxixe semana passada com um casal de argentinos”. Eu só falei da porca e dos meus sonhos vermelhos. Justine achou engraçado, por que ela movia os olhos e o cigarro de forma característica, então eu já sabia que ela iria sorrir depois desse padrão frenético de ironia que acompanhava uma baforada.

Ela olhou nos meus olhos e perguntou como estava. Eu disse que não muito bem, e ela tragou mais um pouco do cigarro, antes de me fazer um cafuné-placebo e eu com aquela cara de tédio tradicional, que me impelia a esperar os primeiros passos.

Conversamos sobre livros que já tínhamos lidos, frases clichês e derrotas, parecia que Justine por um momento poderia ser uma boa companheira de final de semana, mas havia uma metafísica da distância, que nos dizia mútuamente, que o maior contato que teríamos era o de contar frustrações e desenhar balões de tristeza no alto de algum morro.

-Tenho medo que você se suicide, ela falou.

-Não vou me suicidar. De onde tirou essa idéia?

-Ela veio falar comigo. Disse que você está estranho últimamente.

-Deve ser a porca, eu respondi, se é por ela… saiba que…eu não a trato mal.

Ela me interrompeu. Disse que eu não podia mais ter este tipo de atitude.

-Como assim Justine?

-Simples. Você já superou todos os padrões. Já não é um há muito tempo. Não chega a ser um übermensch mas sobreviveu e eu te admiro por isso seu filho da puta.

-Prossiga.

-Caso você se mate, vai jogar parte da merda onde ela tem que ficar: na merda. Contudo você é um puto transgressor. E eu acredito na essência disso, seu grande filho da puta. Você vai assistir sua própria decadência. É homem o suficiente para isto.

-Você é uma merda de um exemplo. Um exemplo ruim. Tem de se manter vivo e seguir. Você sabe disto.

-Sim, eu sei. Não tenho vocação de mártir.

Ela sorriu, foi uma piada desigual, fora de foco, de hora. E eu já havia me cansado daquilo tudo.

-Responda-me, sem hesitação… Quantas pessoas lêem o que você escreve, ela me perguntou.

-Hum… Seis, em dias bons.

-E quantas se importam?

-Talvez nenhuma.

-E a importância não vem da perda? Da maldita perda?

-Pense?! É tentador viver na morte, para sempre, não? É o que fazem os malditos, os tuberculosos e os suicidas.

Uma longa pausa ocorreu. Eu bebi minha cerveja e olhei para o vazio. Justine sorriu e começou a falar de futilidades, do livro do Korczak, da pedagogia, das aulas de alemão, e eu esqueci que tudo aquilo poderia não ser real.

Aí eu entornei meu copo de cerveja, fechei meu casaco de flanela, me lembrei dos edemas provocados pela bebida e resolvi voltar pra casa. Justine me acompanhou, por que acreditava que cantar uma canção argelina no caminho do bar à minha casa poderia me ajudar a não morrer naquele dia.

Mal sabia que a única coisa que eu pensava naquele momento era em ter meus cigarros. Não pensei muito sobre isso, mas naquele momento, aquilo foi mais importante para mim, do que pensar ou não, se eu iria morrer.

https://pseudocontos.wordpress.com – Publicado originalmente em 17/03/2007

Revisado em: em andamento

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