Da salvação da ruiva


Rafael Vendetta

Quando ele se decidiu a participar do jogo não imaginava que tantas coisas ruins poderiam acontecer. Tudo era simples, precisávamos de apenas cinco minutos para entrar e sair, apontar as pistolas para o lugar certo, cada jogador no seu lugar, cada peão movendo-se como combinado, cada comprador assustado no seu exato lugar, os móveis, a mobília, as malditas jóias, o dinheiro, não ferir funcionários, fora o combinado, fuder o patrão era um bônus game, mas a intenção era simplesmente mudar as coisas de lugar, não destruir pessoas, pessoas não estavam na lista. O plano era abalar posições, não ferir pessoas.

Suas mãos tremiam. Acendeu um cigarro, apoiou-o no cinzeiro, e desengatilhou sua clock, tirando o pente, recolocou, apertou a pistola na cintura e fez sentir-se patético por ainda precisar estar usando este tipo de ferramenta. Era como um violino. Mas sempre há um dia ruim. Ele nunca confiou na sorte. Coincidências, azares cotidianos acontecem ora bolas, nos viramos com o fato, não com as possibilidades anteriores; o que vale é o a posteriori, o a priori é merda, é adubo metafísico, meditou.

Ele era um defensor da propriedade privada, mas deus, maldito deus, eu nunca me insurgi contra a humanidade, uma longa discussão sobre o pacifismo de Gandhi me levara a xingar Anatole em francês durante vinte segundos, mas isto era diferente, eram posições a serem quebradas, retorcidas. Ele tombou por defendê-la, sussurrava como autoconfiança.

Tudo caminhava bem, a ruiva dava conta do serviço, e era mais enérgica do que precisaríamos ser, sua frieza contrastava com o reluzente brilho das jóias, espalhadas no balcão, era simples, enchíamos os sacos, obrigávamos o gerente a mostrar a grana, não éramos sádicos, simplesmente acontecia naturalmente, o curso nos guiava, embalávamos o dinheiro, íamos embora de van, deixávamos tickets, provas falsas, e outras miscelâneas para trás. A comemoração vinha depois. O destino da grana era escolhido em futuras reuniões, nove dias após os eventos. Sempre em 9 dias, em horários determinados. Não havia muitas regras, mas as que existiam bastavam. Mas desta vez era diferente, era preciso uma exceção. Era preciso que todos nós nos encontremos antes do previsto.

Quando ele tentou acertar a ruiva, eu o matei, tive que fazer, e fiz com uma certa dose de raiva misturada a satisfação de não vê-la estirada naquele carpete vermelho. Maldito segurança. E se voltasse atrás faria novamente. Está feito. Era uma deriva perigosa.

Pensou em ligar para ela, mas era inútil, saberia que a ruiva não atenderia, estaria mais preocupada em raciocinar sobre o fato e acumular axiomas para o próximo encontro.

Não tento mais reagir à dor. Chorou um pouco, não talvez pelo segurança abatido, mas pelo que ele representava dento do jogo contraditório do maldito sistema de controle.

Socialismo ou barbárie comentou a si mesmo, reproduzindo talvez algum muro pichado de 1968.

Aliás pixar é com X ou com Ch? Não importa.

E ainda estamos na barbárie. Raciocinou, antes de abrir a geladeira e emendar umas três cervejas em tom de revolta: onde está a conjuntura? Aqui está. Eu a criei. É bom que o mundo se entenda.

Não leu Kurz naquele dia.

https://pseudocontos.wordpress.com – Publicado originalmente em 10/03/2007

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