Da Tristeza de Vasilli


Rafael Vendetta

Anatole certa vez, injuriado com Vasilli, resolveu lhe interpelar numa quarta-feira de madrugada, que própriamente já era uma quinta, sobre algumas questões de cunho existencial.

– Vá aproveitar a vida, que ela não te persegue ainda que fosse a contento!

– Estranho-te. Abandona este ar parnasiano e fala como um pós-moderno imprestável que sempre foi.

Anatole gargalhou, era uma boa entrada antes do assunto principal. Resolveu animar Vasilli com mais uma de suas interpelações. Tirou o chapéu panamenho que estava utilizando, subiu em um dos sofás de Vasilli, numa interpretação um tanto quanto pitoresca e disse: – Vasilli, você simplesmente está definhando, enquanto ela está livre meu amigo. Livre como um pássaro. Livre como Quetzal. Larga os cabelos vermelhos, os cabelos cor de ferrugem e vem pra realidade meu amigo! Vem pra realidade que a realidade é tua melhor companheira!

Vasilli, ajeitava alguns livros, colocava-os em uma pilha, no canto da sala como um autômato. Parecia que os seus gestos, seu corpo, traduziam uma agressão à felicidade inconveniente de Anatole.

– Não há verdade mais odiosa do que conceitos absolutos sobre a liberdade meu caro. Enquanto o outro extremo também é verdadeiro, eu devo assumir que por diversos meses eu assumi uma postura complacente com tudo isto. É como se o mundo girasse e fizesse as pessoas ao meu redor rodopiarem, enquanto eu continuei neste balé profano. Faz sentido para você? Preciso ser mais claro, meu bom “Bon Vivant”. Vasilli, ressaltou o bon vivant com um ar de ironia que Anatole já conhecia desde sempre.

Adotando um tom mais sério, Anatole resolve contra-atacar:

– Vasilli, não se trata disso. Trata-se de felicidade. Você pode ser feliz com o que quiser, desde que consiga enterrar tudo isto de uma vez por todas.

– Cada um tem seu próprio combustível. Mas sabia que esta luz que você exala como indispensável pode lá ter suas matizes e eu bem escolho o que é felicidade para mim meu amigo. E sua felicidade me parece mais agradável para um apresentador de paródias televisivas. Gente que faz comercial de sabão em pó. Essa felicidade artificial, fingida, forçada que pede clemência e resposta a cada esquina, que sobrevive por repetição. Gente feliz por obrigação. Se é esta merda de felicidade que você me empurra, pode dar a volta, fechar a porta e me mandar cartões com frases cristãs no natal. Será mais honesto. Além disso, luz demais cega. Estar inadaptável não é negativo desde que se encontre seu próprio eixo. E se meu eixo é meio nebuloso, vai lá, por fim cheguei a alguma conclusão.

– Teimoso, como sempre. Além disto continua a racionalizar teus sentimentos com essa teoria de beira de esquina, completou Anatole, antes de acender o cigarro e guardar o isqueiro no casaco de couro sintético, professando oracularmente as últimas palavras inteligíveis para Vasilli.

Anatole, foi a cozinha, buscou uma caixa de papelão que parecia estar ligeiramente pesada; com os pés, livrou-se do banco de madeira que atravancava sua passagem e largou a caixa em cima da mesinha de centro.

– Toma Anatole. Guarda na sua casa então. Guarda toda essa merda na sua casa.

Não fora preciso olhar para dentro da caixa para concluir que eram coisas da ruiva. Anatole, resolveu não prosseguir na provocação. Aquilo já tinha ido longe demais e dado frutos suficientes. Tinha conseguido provocar o russo. Anatole apagou o cigarro no cinzeiro da sala. Mas o que era um cigarro para um acontecimento tão importante como aquele, apenas um cigarro, ora bolas!

– Esse é o caminho meu camarada, esse é o caminho. Livra-te dessa poeira cósmica! Hora de parir um novo mundo!

Parecendo não ter escutado as últimas palavras de Anatole, Vasilli prossegue: – Nato, leva pra tua casa, cuida bem das coisas dela. Pode me recriminar, mas talvez ela volte, ou peça as coisas dela de algum vilarejo da Nicarágua por correio. Sei lá.

– Pode deixar russo, ficarão comigo, bem guardadas. Saiba que isso é um grande passo. Como diria aquele ditado… Vasilli o interrompeu com um acenar de dedo, quase um “chega”, beiravam nesse momento, limítrofes emocionais. Anatole resolveu não prosseguir, entendia o recado. Já tinha conseguido o que queria: reavivá-lo. “Pelo menos ele reagiu”, pensou.

– Vai agora francês. Talvez te encontre pelos corredores do centro nesta sexta.

– Au-revoir!

– Até.

Anatole fechou a porta. Desceu as escadas. Foi necessário fazer aquilo. Sabia que teria de ser impiedoso. Era pelo bem de Vasilli. Nada seria como antes, mas ele demoraria a entender, o que era compreensívelmente natural. Mas já fazia tempo demais. Ela não iria voltar.

Ele não acreditava nisto; se Vasilli acreditava, tinha lá seus motivos. Mas bem, a ruiva não iria voltar. Ruivas não voltam. Simplesmente não retornam.

Enquanto isso, Vasilli recolhia, de maneira sugestivamente patética, alguns cartões postais soltos, enviados em tempos áureos, tempos onde se podia tomar banho de chuva de janeiro a março à espera de situações limites. Eram dores verdadeiras pelo menos. Dores verdadeiras.

Uma nostalgia o invadiu, mas quem vive de nostalgias… deus… já está perto dos pontos finais.

Enquanto cozinhava um macarrão, o pensamento Vasilliano ia fluíndo…

“Associar melancolia e tristeza com algo ruim é uma prática ocidental. Há um limite muito pequeno dentre estas práticas. O ocidental relaciona aparentemente extroversão com alegria. O oposto, seria a introversão, como algo ruim, além deste parâmetro, atividades ditas introvertidas e que não conduzem o indivíduo a um estado semelhante a de um palhaço no auge de seu espetáculo tornam-se repugantes. Remédios, noites vazias e metade da civilização ocidental está fundada para afugentar este espectro. Até a geografia urbana. Os letreiros coloridos, as ruas iluminadas, o barulho, parte disto tudo.”

Teorizava demais. Até mesmo com a segunda ou terceira garfada de macarrão e uma música não tão decadente dos anos 90 no fundo. Era a era dos macacos indo, dos macados vindo, dos macacos que ficavam parados, enquanto Vasilli, não relacionava o fato de apertar botões com o fato da música continuar porque precisava continuar, continuar, enquanto a cerveja preta ia descendo sem vírgulas, sem vírgulas, sem, as, malditas, vírgulas; Cantava alto, esparramado sobre os cartões postais, chorando por cima das folhas de papel soltas, a barba por fazer(não iria fazer), os malditos nostálgicos voando por sua cabeça. As malditas ruivas. Multiplicando-se, e as caixas de papelão no fundo do terceiro armário da cozinha.

A chuva tinha dilacerado parte do que sobrara de si mesmo. Os solavancos do ônibus, a água escorrendo pelos vidros laterais e as pessoas estáticas, um bom fim de noite pelo menos.

Anatole, apoiava a caixa em uma das mãos, e com a outra brincava de desembaçar o vidro do ônibus, desenhando sorrisos estáticos. Estáticos.

Pensava em Vasilli. Sentira pena do russo inicialmente. Era um confuso sentimento de pena e decepção. Onde escondera-se seu ímpeto de reação? Desceu, com a caixa na mão, a chuva molhava seu casaco, protegia a caixa como se fosse o próprio Vasilli, mas que situação patética.

Entrou no apartamento, guardou-as coisas da ruiva com carinho, trocou a roupa e resolveu tomar um banho cantando alguma música da Sr. Madeleine Peyroux.

Os vizinhos como de praxe, escutavam.

https://pseudocontos.wordpress.com – Publicado originalmente em 14/11/2007

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