De como eu pintei uma porca de barro e criei um totem de guerra


Rafael Vendetta

Hoje ruiva, eu consegui rasgar uma foto sua. Não imagine a cena, por que é geralmente mais patético do que você pode imaginar. Além disto, consegui(falhas de memória) encontrar soluções para todas as coisas que diretamente lembram você. Não eu não vou dinamitar ou dinamizar nada, muito menos queimar cartões-postais, fato é que preciso cada vez mais dormir até mais tarde. Estou de férias ruiva; foi difícil, eu sublimei tudo por você, digo, eu sublimei você por tudo, e deu certo. Cumpri todos os meus compromissos políticos e profissionais(como se houvessem compromissos que não são políticos e tomara que existam), me dei extremamente bem em todas as atividades intelectuais que me envolvi e até vejamos, consegui pintar a porca de barro de vermelho e preto. Estou realmente me organizando, coisa que você sempre achou impossível de ocorrer.

Paralelamente a isto, há dois fatos ocorrendo com maior ou menor amplitude ruiva. Na verdade são mais do que dois fatos, mas não conseguirei sistematizar nada(deixo isso para uma monografia estéril de gaveta de universidade) com cerveja preta nos córneos(usei esta palava nesta carta por que sei que ela causa invariávelmente uma sensação suja que remete às pornochanchadas da década de 70).

Minha porca está vestida para a guerra, de preto e vermelho, prepara-se como uma aborígene(eurocentrismo latente) para um confronto. E realmente ruiva, haverá um confronto, quer dizer, já está havendo ruiva, este combate se iniciou há algum tempo.
Primeiro que está chovendo há dois ou três dias consecutivamente(mas esta não é verdadeiramente a questão). Segundo, que há uma tentativa interior realmente fracionária, fracionada, de me monopolizar emocionalmente, e você faz parte de um dos complôs internos. Dominar-me furiosamente, eis a questão.

Acho que não estou tão triste como poderia estar(mais a frente você verá que isto não é verdade). Isto também passa por uma ligação intríseca com o Nato Ruiva, você sabe. Há um equilíbrio esquisito em toda a nossa trajetória, e eu tenho que me manter forte enquanto ele se ferra e vice-versa.

A outra parte realmente importante em toda esta conversa, é que na maioria das vezes a sobriedade atrapalha as convicções e as reflexões, mas é um fato a dizer, digamos que por consenso, que não consigo mais olhar para nenhuma mulher como olhava para você ruiva. E quando vejo uma ruiva em potencial, exponencialmente sou desprezado, por mim mesmo na maioria das vezes.

Para que você não ache que eu estou tornado toda a discussão uma questão boba de gênero, acho que o inverso também é verdadeiro, há muita gente boa querendo se encontrar, mas a vida, é a arte dos desencontros(isto aqui eu roubei do Fernando Sabino ruiva, mas é tão bom que não consegui evitar).

Pois bem ruiva, ruiva lembra rubro, lembra rojo(vermelho), lembra a cor que eu pintei minha porca de cerâmica, vermelho e negra. Vermelho paixão, preto mistério, soma de cores, e de humores. Lembra guerra. Guerra declarada, guerra interna. Uma batalha surda, silenciosa, que ninguém vê ruiva, é verdade, ninguém vê. Como eu disse anteriormente, fingir confiança dá confiança ao mundo, mesmo que o castelo interno de cartas esteja desmoronando é preciso não entupir as pessoas de problemas alheios para resolver(ser você mesmo já é um baita problema – imagine ser outras pessoas por pouco tempo).

Hoje eu pensei novamente em fazer algum tipo de terapia, pintar porcelanas não é suficiente, escrever, agir intelectualmente, tudo isto pode ser tão motivador, mas há uma lacuna não preenchida, que simplesmente não consegue, não consegue(lacunas na memória)…

Eu queria fugir logo ruiva. Voltar logo para o Uruguai. Talvez até a Argentina e quem sabe, Lima, quem sabe…

Pausa para o jazz(algo meio nervoso diga-se de passagem).

Zorrita. Este é o nome da porca ruiva, zorrita. Vingadora. Olho para a vingadora, pintada de vermelho e negra, camuflada entre a escuridão desse meu quarto pequeno, pequeno e espúrio, o que me causa a sensação de que talvez não conseguiria abandoná-lo sem recriar outro ambiente igualmente introspectivo(sem pagar 200 ou 300 paus por isso).

No fundo há um cd de jazz, não é tão glorioso escutar jazz com tanta regularidade mediante dias como este, mas ainda assim é excessivamente, geralmente, reconfortante. Talvez deveria fazer isso daqui a vinte ou trinta anos, mas não posso; para quem não acredita em muitos anos posteriores de vida, há de se fazer tudo o que sempre quis intensamente, o que me gusta ruiva, o que me gusta.

Morrer numa banheira com os pulsos cortados ou sumir pela américa central, tanto faz para uma vida de niilismo. Mas eu não sou um niilista ruiva, eu até brinco de niilista, como toda alma adolescente resolve brincar em finais de semana, mas eu não tenho vocação para isto, você sabe.

O grande dilema é saber o que se gosta. O que realmente é aprazível dentro desse joguete de morde-assopra.

Daqui a pouco ruiva, eu descerei para comprar algumas cervejas no posto de esquina, aquele 24h(já desci, voltei ruiva), em que todos parávamos como se celebrássemos algum solstício de verão(solstícios próximos do meu primeiro cumpleaños pós-ruiva), animados pela fúria juvenil armazenada. E eu me lembro de você ruiva, sorrindo tão liberta, com expressões, tão tão, extremo-orientais? E eu nunca fui tão longe ruiva, apesar de você assumir tantas formas, múltiplas formas, isto significa paixão, ou não significa amor, ou nada ruiva, nada destas linhas podem significar algo necessáriamente, além de catarse, catarse vergonhosa é verdade. Não acredite muito em mim ruiva. Não acredite. (me arrependerei provávelmente)

Eu posso morrer fazendo isso ruiva. Talvez isto seja uma síndrome do pânico prematura ou apenas uma intuição que quebra o efeito causal-linear da história, do tempo, e toda esta coisa jungiana que me invade em momentos de euforia.

Eu achei que esta carta seria boa ruiva, mas esta carta foi a mais medíocre de todas. Eu gostaria de expor esta carta como eu nunca fiz com todas as anteriores, gostaria de expor como um animal sacrificado num ritual aborígene(sem eurocentrismos) de deixá-la como um símbolo, como um totem de um momento particularmente interessante em todos os sentidos, pois sei realmente, e é a única coisa que eu sei, e que sinto, e a partir desta vírgula não estou mais me importando com os altruísmos, com as batalhas que eu assumo, que eu mesmo travei, anti-egocêntristas; voltando ao assunto principal, e é bom pontuar um foda-se neste momento, nesta parte, somente para lembrarmos de onde falamos(um cara arruinado e etceteras são falhas de memória!)

Chega de ruiva, chega da porra toda, chega dessa merda sem sentido. O fato caralho, e o caralho também é um falo, digo um fato, é que merda ruiva, merda, está difícil me sair como uma pessoa normal. Entenda normal, no melhor sentido. Eu digo, desejo, e desejo bastante ruiva, beber meia dúzia de cervejas dentro de um bar vazio, eu desejo, ruiva, dançar despreocupado sem a opressão, e isto vai ficando mais claro para mim ruiva, a opressão de não conseguir filtrar, isto cega demasiadamente.

Ruiva eu preciso de uma boa dose de normalidade. Sem músicas tristes, sem religiões. Não quero me religar a nada ruiva. Não quero me religar a nada. Quero me desligar de um monte de coisa. Dividir pesos. Dividir problemas, conversar, rir de verdade ruiva. Rir de verdade. Eu não quero mais sentir aquele medo ruiva, aquele peso, aquela dificuldade de respirar em lugares muito cheios.

Rir e sofrer sozinho já perdeu a graça.

Eu quero você de volta. Querer é necessitar? Talvez seja ruiva. Talvez stirner esteja certo.

Talvez.

Goethe é mais fatalista é verdade, Stirner e Nietzsche muito mais orgulhosos. Eu? Eu me enquadro no time do meio. Meio orgulhoso, meio fatalista. Mas acho que em todos estes estereótiois, há o vício em questão, o vício, seja objeto, seja sujeito, estamos todos dentro do furacão. Do furacão-deus ruiva.

Resumindo a porra toda, sem eufemismos poéticos ruiva.

Tive vontade de me contar(era me cortar, mas o tal infinito em sua sabedoria transladou apropriadamente), de me matar em parcelas, por que matar-se de uma vez só exige coragem, coragem que eu não tenho, tive vontade de me queimar ruiva(falhas de memória), de encarar um panzer, de explodir um fascista, de voltar no tempo e matar fascistas, de explodir pontes alemãs em meio à resistência francesa, resistência espanhola, e tentar quem sabe, quem sabe, dar sentido a uma vida, mesmo ideológicamente interessante, mas monótona, monótona, pois é a era das depressões, espirituais, e morais.

Chega ruiva… chega… de aniversário(cumpleaños) eu quero lâminas de barbear de presente. Só para lembrar que apesar do pessimismo, da contradição inerente, que me faz agir, mover-me, enfrentar as engrenagens mórbidas do poder, eu nunca vou desistir, mesmo com as ferramentas erradas na mão.

https://pseudocontos.wordpress.com – Publicado originalmente em 15/12/2007

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