De quando se encontraram e fizeram um retalho de vida


Rafael Vendetta

Vasilli costurou a rua da Alfândega com a Senhor dos Passos; era um hábito antigo aquele de passear por entre os transeuntes, esquivar-se das lojas coreanas e observar aquele movimento frenético. Sempre produziam as mesmas paranóias individualistas; repleta de megalomaníacos, era difícil executar alguns passos de música, sem que esbarrassem sempre na ilhota artificial ciente de sua estagnação, a universidade atrás do mercado do Saara era seu oposto, não por que desejasse, mas sim, por que estava fundamentada numa dissociação paranóica, num estilo de vida cimentado em alguns aspectos populares que dissimulavam apenas a tentativa mórbida de legitimar-se através da conquista, do domínio; bárbaro, puro, e simples.

Conquista de cargos, vagas, conhecimentos, um pouco de status e voilá. Não pretendia ser panfletário, apesar do que, isto era um tanto quanto redundante ou contraditório… Romanos falando de bárbaros!

Jogou as chaves da porta sobre a mesa de centro. Não havia muito o que fazer além de olhar algumas poesias antigas.

Havia um pouco de caos dentro dele. Partes que chegariam a um acordo breve.

O telefone tocou. Era a ruiva.

Onde você está! Ela gritou! Onde você está caralho! Que merda você está fazendo! Por que me faz sofrer assim seu desgraçado. Nós tínhamos um maldito de um acordo! Um acordo!! Entendeu!

Ficou lá com o telefone na mão, esperando o acaso bater, mas a única coisa que sentiu foi que estava sendo observado por si próprio. Desligou, desconectou o telefone sem raiva, mas cuja necessidade clamava por aquela ação e pensou em dormir.

Mas seu celular tocou. E ele leu a mensagem: – Estou chegan#d%o.

Luz demais em um ônibus, e lá uma caneta, e um corpo rolando, rolando com blocos de papel na mão, e sentindo que dentro daquele ambiente lembrava de todos os sonhos.

Beber cerveja com orgulho. Não era bem o que queria e nem sempre, nem sempre caralho, nem sempre queremos o que surge no horizonte. Pois às vezes sentia vontade de fuder o mundo.

A vida está cheia de sentido. Um sentido que exasperado, reclama vingança e felicidade.

Uma vida repleta de casos, acasos, e de caos. Uma vida que pede um metrô às cinco da tarde, pede uma viagem sem data, pede uma cerveja na terça e um desgaste emocional ou um corte na mão no dia dezessete.

Ah vida! Vida comiserávelmente reduzida num dia de chuva, vestida sob um casaco de flanela!

Há um momento no mundo. Em que se bastava diante do mundo. E que nada além do eu, podia ser mais importante; nada!

Leitor espera! Antes de matar a leitura com teu desprezo, peço-te que mantenha fiel à um ou três parágrafos! Ainda virá Isabel! E Isabel, vinha, vinha desajeitada dentro de um ônibus cheio de gente amorfa – segundo ela, mas ela respirava desprezo e trazia consigo, heroína e conhaque, quando em seus melhores dias se fazia assim, totalmente legitimada.

A esta altura, podes e tem todo o direito de verificar que esta súplica exagerada não é capaz de prender tua atenção.

Eu, este acrobata desajeitado das letras, este narrador zé-comum preciso fornecer um bom ou se não estético motivo, para que teus olhos leiam o que minha mente torta produziu. Continua correto, mas alerto que não é da nossa concordância que este texto coxo nasce. Este texto nasce de uma inquietação que é só minha, mas por algum motivo que desconheço, e tu deves sim, saber melhor do que eu, resolvo compartilhar contigo, senilmente dominado pela estética, que esta dor é tua também.

Numa janela, Isabel, muito cínica, escrevia com o próprio sangue, os pulsos já cheios de chagas e chocando a si mesma produz:

Vermelho sangue
Vidro quebrado
Grito no escuro
Silêncio arrastado

Isabel sempre perdida; e diziam dela: mal amada, esquisita, doida varrida.

Isabel solitária, mas cheia de si. Com conhaque e suas manias. Nunca se encontrava.

Nem no Robson, nem no Ricardo, nem no Yuri e muito menos com aquele sexo casual, que tanta inocência lhe inoculava.

Isabel, um fragmento de vida, uma vidinha de mulher farta. Completa de si mesmo e de suas manias. Manias irritantes que ninguém e que todos percebiam sempre transbordando o limítrofe do aceitável.

Acordou amarga e resolveu encontrar alguém e esse alguém resolveu ser Vasilli. Pois a vida, para Isabel era assim; ou amarga ou insossa. E assim, seguia, seguia meio cínica, sangrando no ônibus, pintando janelas com hemáceas ou apenas assim, meio desesperada.

Quando sentava na varanda com o gosto da bílis e da cerveja, ela normalmente adivinhava o momento em que podia utilizar aquele mecanismo; o único mecanismo, o que revelava o cinismo da vida.

Quando ia embora dos lugares, ela nunca avisava a ninguém.

Ele, Vasilli, o mentiroso, gostava quando ela caminhava nervosa pela casa. E às vezes ela buscava cigarro, ou haxixe. E fazia-se a paz.

Pois é, ele sempre insistia que Isabel tinha um quê de degenerada, mas ela negava. E talvez, fossem apenas cigarros de menta, as ligações no meio da madrugada, ou a intensidade do amor, um amor que se não durava mais do que uma noite, ou um capricho, não omitia informações, era visceral, cru, e até doído para o mundo que ostentando a mentira simulava-se, mas decerto, era TOTAL, era total e entregue, até o último segundo do orgasmo.

E naquela noite resolveu encontrar Vasilli, Isabel, que naquela noite específica, não bebeu, não fumou e resolveu amar Vasilli de uma forma tão tenra, que ele achou que aquele corpo não era dela naquela noite tão bárbara, pura, simples.

Amaram-se, amaram-se naqueles quinze minutos de amor; mal sabiam que no termômetro mundo, o amor fazia-se de uma mediocridade tão paupérrima, de uma obviedade tão espúria, que não cabiam deste modo, Isabéis, casualidades, sinceridades virais e muito menos os encontros Vasillinianos.

https://pseudocontos.wordpress.com/ – Publicado originalmente em 25/01/2009

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