O ponto limite, a “dead line”


Rafael Vendetta

As coisas estava monótonas Ruiva, monótonas como sempre lhe pareciam, até que momentos antes o desencadear dos fatos contradizia não só a realidade, mas impunham uma nova percepção. Uma percepção irônica, jocosa. Forjada em algum lugar secreto, inacessível para nós, dois mortais que brincávamos de semi-deuses nos finais de semana.

Era como um jogo de dominós, onde os números não poderiam ser memorizados e a cada partida os adversários se encontravam no ponto zero, ou seja; por mais que jogassem, nunca dependiam de suas próprias capacidades ou experiências, mas apenas do desenrolar secreto(se é que isto poderia existir) das combinações, das casualidades, dos encontros e desencontros não arquitetados, enfim da sorte, da maldita sorte.

Era exatamente neste ponto, que eu percebia, e nisto eu achei a princípio que era mais eficiente que você, que algo, não algo tão espetacular no sentido de presentes de natais escondidos atrás de mesas, muito menos velhas cartas que descobertas infrigiam regras básicas dos horizontes de expectativa, iria acontecer. Chamávamos de momentos limites, isto quando não estávamos nós dois bêbados, sorrindo, minto, serei mais sincero, gargalhando, perdidos em quartos de motéis baratos, envolvidos nus por colchas evidentemente de mau gosto.

Nunca sabíamos exatamente o roteiro para estes momentos, por que sempre inventávamos coisas novas, como furar os pneus do carro do yuppie atrevido, ou colocar fogo no brinquedo homo-erótico com rodas do filhinho de papai raivoso, que acabara de ser estúpido com o assalariado sincero e gentil do hotel local.

De certa maneira, perdíamos muito mais tempo e isto era algo que crescia exponencialmente, a falar de ações pretéritas do que própriamente em executá-las, por que o risco ficava maior, crescia e nos intimidava até um ponto quase insustentável, e aí retornávamos ao ponto inicial, chutando o tabuleiro como força…

Recomeçávamos o dominó irracional, sempre com a mesma ousadia, sempre com o mesmo amor, sim amor, pois nada explicaria racionalmente aquela gana com a qual vivíamos, um mundo que parecia prestes a se acabar para nós dois, mas continuava vívido, recheado de sentido, pois sabíamos exatamente o que fazer; não como fazer, isto aprendíamos cotidianamente, mas estava claro que havia um sentimento mais forte que envolvia nossas ações, nosso romance inabitual, nossos beijos desencontrados no meio da rua e sim nossa disposição para fuder as estruturas, mesmo que limitadamente.

Quando começamos a aparecer na televisão, eu não sabia mais o que te dizer, não parecia você exatamente naquele retrato mal feito(você era muito, mas muito mais bonita pessoalmente); as coisas começaram a esquentar, mas isto nunca abalou nossas convicções, talvez remodelou-as para objetivos mais concretos tomando todavia um caminho mais complexo que implicava em ceder.

Coisa que pessoalmente não estávamos dispostos.

Você entendeu mal, quer dizer, era o que eu achei, quando você sumiu. Ceder não incluía me abandonar, na época eu tive de mudar tudo. Tive de viajar para outro lugar como você fez, eu poderia ter ficado, talvez seria preso ou morreria, mas acabei “entendendo” seu recado. Decerto se tivéssemos permanecido unidos, estaríamos mortos; era uma pulsão de morte que me corroía, você sacou tudo novamente, ponto para você. Afastando-se, conseguiu não só sobreviver, mas manter-me vivo…

Claro que compreendi, e agora isto fica cada vez mais claro, que um retorno seu, era um novo processo. Você teve de sumir, teve de me esquecer abandonado num lugarzinho hipócrita do lado de perdedores como Anatole, teve de manter-me como um quebra-cabeça fora do lugar, por que enfim, o tabuleiro não estava para nós ruiva… não mesmo…

Não sei como será: talvez você volte, pode ser que fique de vez bem longe de mim, o que decerto não me agradaria, é óbvio no entanto que eu achava que tinha ultrapassado a linha limite, a dead line, mas sempre se pode girar sob seu próprio eixo, se é que existe algum eixo que não esteja aí, pertinho de onde você está.

https://pseudocontos.wordpress.com – Publicado originalmente em 18/06/2008

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