Dos primeiros ou últimos encontros


Rafael Vendetta

Não sentia-se particularmente triste, contudo não era euforia, muito menos excitação. Apagou as luzes e resolveu caminhar um pouco, arejaria um pouco suas idéias. Era difícil explicar, não era dor, nem sua antítese. Muito menos apatia, por que não lhe consumia de maneira tão efetiva a ponto de proporcionar um comentário mais audacioso.

O apartamento, estava quente, um pouco de vento lhe faria bem, faria realmente bem. Quem sabe uma cerveja. Talvez.

Passou num pequeno mercado, comprou cervejas, cigarros e caminhou até a ponte. Uma ponte quebrada, onde conseguia apreciar bem um pouco da lua, um pouco daquela brisa do mar. O cheiro de cidade pequena era cada vez mais nítido.

Sentou num banco simpático, próximo ao centro da praça, podia assistir a lua cada vez mais nítidamente. Depois do terceiro gole pensou consigo que sim, a ruiva poderia aparecer.

Mas isto são projeções. Ruivas não aparecem dessa maneira, clichê. O máximo que posso fazer é olhar a lua e me satisfazer com elucubrações. (e racionalizar um conto é matá-lo totalmente pensou)

Recuso. Recuso sim, elas podem aparecer. Este é o meu conto, é minha vida. Talvez elas apareçam. Há um pouco de Vasili em todos nós pensou. Há uma Laura escondida em cada esquina, clamando por revelação. Mas nunca, eu disse nunca, definitivamente nunca, retirem os mistérios da vida. Matem a ciência, matem a psicanálise, matem o que for preciso(exceto o ser humano), mas permitam que o mistério exista, sem o mistério não haveriam cores. E cores são essenciais. Papéis laminados são invenções estúpidas, refletiu antes de abrir a próxima cerveja, cartesianamente falando.

Cortaram-lhe o pensamento de maneira súbita, estrondosa, um som metálico de pedais o que revelava sua total desatenção para com grande parte da realidade, com na verdade, uma bicicleta branca. Era a ruiva pedalando.

Usava um short curto que lhe caía bem, uma camisa larga demais, não estava com sutiã, e dentro da cestinha da bicicleta carregava morangos. Inicialmente tratou de pensar que era uma cena demasiadamente estúpida, mas a ruiva tratou de contornar toda a estupidez dos sentidos com seus trejeitos que encantavam metade do universo(aliás pensou o quão contraditório podia ser algo uniforme e múltiplo ao mesmo tempo… uni – verso). Ou seria um único verso? Além disso o sorriso da ruiva era capaz de tornar a cena mais ridícula possível na obra de arte mais interessante, na memória mais viva, e quem não vive de memórias… Memórias são fundamentais.

No momento em que a ruiva ainda fazia sinais com as mãos indicando cansaço e inclinava metade do corpo com a respiração ofegante, uma das lâmpadas de um dos postes da praça apagou e ele achou de certa forma(odiava esta palavra, de certa forma, lembrava fôrma e ele escreveria mentalmente errado para lembrar que algo que forma não pode ser bom de nenhuma forma) que isto foi um elemento síncrono, ou seja, resumidamente de relevância para ambos; mais para ele que pensava, do que para ela que pedalava apressada naquele momento, se ajeitando desajeitadamente com os morangos e a bicicleta cambaleante em uma das mãos.

Lutava para fazer com que o descanso da bicicleta mantivesse a bicicleta de pé, mas em vão, necessitou que Vasilli ajeitasse a bicicleta antes de iniciar o seguinte passo, não tão sincrônico e não tão perfeito como toda projeção deveria ser.

Com energia e vivacidade, a Ruiva mexe os peões:

– Oi.

– Oi.

– Gostou da minha bicicleta?

– Sim, quer dizer(mexeu a cabeça em tom de ironia), está de acordo com a situação(sorriu para deixar a cena mais agradável).

– Bobo. Eu trouxe morangos.

-Eu trouxe cervejas, apontou para as latas vazias.

– Está bem, me dá uma latinha, apontou a ruiva, antes de escorar-se sentada com todo seu típico descompromisso sob o banco da praça.

Era um medroso. Bebeu aceleradamente para evitar maiores diálogos. A ruiva tinha esta capacidade, de lhe manter constantemente num jogo de xadrez, onde deveria, mesmo que inconscientemente pensar e repensar seus diálogos, saber que palavra usar, não desagradá-la, mostrar se inteligente, suave, tolerante, deus, sabia que tudo isto não funcionava! Teria de ser natural, mas como ser, e fingir ser natural, com alguém que lhe tirava do padrão. E se o padrão é o natural, jamais conseguiria manter-se dentro do padrão.

Tinha medo, talvez quando a ruiva descobrisse quem realmente era, olhasse para seu âmago tudo ruiria. Mas tudo já estava ruindo. Era fácil falar de descompromisso e de liberdades amorosas quando a ruiva era um modelo para todos os envolvimentos futuros. Encontre uma jóia rara e saberá o que estou dizendo, pensou. Jóias raras são únicas. Padrões, cópias, pessoas iguais… Já conhecia muitas. Era fácil ser livre com os padrões. Difícil era abrir exceções às exceções, difícil era abrir mão do inédito. Ninguém quer abrir mão do inédito. O inédito é o inesperado e o inesperado faz parte do segredo, do mistério, que são sustentáculos básicos da vida.

Voltou ao assunto. Quando a ruiva, já virava a latinha de cerveja de maneira ruidosa e irresponsável, como ele realmente adorava, e era realmente adorável. As gotas fujonas, escorriam por seus lábios, enquanto ele lembrava que há duas semanas atrás, escutou sua música favorita, e não pode deixar de lembrar da ruiva. E lembrou que talvez não estaria ali caso ela tivesse sumido, digo aparecido(é da capacidade do conto e dos contistas inverter quaisquer tipo de situações, a palavra é pois uma serpente…).

A ruiva bebeu. Ele também. Abraçaram-se, ela acariciou seu pescoço e ele passou a mão lentamente sobre seu cabelo, beijaram-se sem importar-se muito com a praça, com a bicicleta, ou com as cervejas jogadas. Eram apenas motivos, adereços muito bem colocados pelos próprios.

Pensou outra vez o quão amador era nesta arte. Dos mais principiantes. Ainda estava se descobrindo, descobrindo seu papel no jogo.

Largaram os morangos de lado, sorriám, enquanto estes caíam, a bicicleta e os beijos também… Os abraços fortes, os transeuntes passavam como objetos próprios de um conto que ambos criavam e toda aquela imperfeição parecia preencher-se de sentido. Resolveram passear com a bicicleta, com os morangos e com os sorrisos estampados na alma, a praça era pequena demais para um amor que ocupava o centro de suas emoções, o centro da cidade, o centro de suas vidas. Era um universo que construíam, que apesar de já existente consideravam-se em seu tabuleiro, com suas próprias regras, no centro.

Vasilli lamentou apenas ter acordado e revelado por meio de três ou quatro páginas com as devidas alterações gramaticais algo que não deveria ser racionalizado, mas teria de permanecer no centro de seus sonhos e de sua psiquê.

O último trecho da carta enviado, revela bem seu desejo: Jamais racionalizem seus sonhos. Matá-los é matar a si próprio. Sonhar é viver de “certa forma” plenamente.

https://pseudocontos.wordpress.com – Publicado originalmente em 29/10/2007

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