Duvido que leia


Rafael Vendetta

Vasilli sentia-se numa fase particularmente inédita. Inédita por muitos motivos; um deles referia-se à vodka, esta não era mais um consolo amigável, não que fosse um alcóolatra de profissão, e estava bem distante desta categoria, todavia começara a desconfiar do ciclo ascendente que estabalecera como premissa para produzir material literário; portanto, bastava-se, sem álcool demasiado, mas com demasiadas outras muletas ainda pendentes.

Desconfiava desta sua fase mais esperançosa, a desconfiança era sistêmica e racional.

Ao lado desta, residia um medo intenso, ou de tornar-se uma paródia transmutada em livros de auto-ajuda ambulantes, e sentia-se como um grande livro de auto-ajuda, quando lhe pediam conselhos afetivos por telefone, por cartas, com desconhecidos em mesas de falsos pub’s no outono ou quando simplesmente era obrigado a citar cinco ou seis frases de efeito, que ele mesmo criou, para tentar convencer meia dúzia de amigos. Era cansativo.

Quando a ruiva entrou no bar, decidida a acabar com a farsa, exigindo respeito com dois goles rápidos e sufocantes de um conhaque ruim, ele já sabia que escutar jazz, apesar de clichê, era bem apropriado para o local.

Um bar sujo, uma vitrola que não funcionava muito bem, uma mesa de bilhar abandonada, meia dúzia de fregueses ruins, bancos de madeira contornado o balcão, um balcão ainda respeitável, apesar do garçom detestar jazz, e lá, a ruiva, batendo o copo vazio na madeira, e provocando um embate.

– Lembra do nosso primeiro encontro?

– Lembro.

As pausas propositais, quase sepulcrais duraram um gole da cerveja; Vasilli lembrou-se do último enterro em que foi convidado. Nada agradável, pranto, doença fatal, flores baratas e a repetição esdrúxula de etiquetas sociais(como as que utilizava para comprar pão por exemplo).

– Você estava usando aquele jeans comprado no Alabama.

Ela gargalhou. Ele ainda conseguia lhe fazer rir.

– Isto é muito clichê não?

Ela sorria… mostrando seus lindos dentes.

– Demasiado. Pontuou, Vasilli.

Ela gargalhou ainda mais, mas ensaiando um ponto final exclamou:

– Não gosto das suas cartas Vasilli. Não gosto mesmo, elas me enjoam. Você está fazendo exatamente o que disse que nunca faria. Puta merda, mas que contradição!

Duvido que leia, ele pensou.

Enquanto o garçom limpava o balcão, Vassili esboçou um sorriso no canto da boca; mas a piada dos clichês já não fazia mais sentido, e foi aí que surgiu como sempre surgia nesse frenesi de associação livre, a idéia de que boa parte das pessoas ensaiavam clichês em comportamentos, os arquétipos… A história não está tão errada. Mas isto só emergiu, depois de conectar sequencialmente o jeans fictício da Ruiva, ao Alabama, ao documentário sobre o racismo no sul dos E.U.A, a música pop americana, aos literatos norte-americanos, a um ou dois amigos fãs de Bukowsky e por fim, clichês; mas que volta.

– Nunca me esquecerei daquele saxofone Ruiva.

– A noite cinza. A garrafa de vinho quebrada. A luz baixa era desagradável…

Ela calou, olhava Vasilli compenetradamente, e ele já sabia que apesar de compreensivo, ele não poderia recuar.

– Faltava-me maturidade. Agora o que me sobra é em parte o que eu desejo perder. Ontem eu conversava com um homem-robô. Sabe o que é um homem robô? Uma pessoa que não consegue mais se mover naturalmente, por que seus traumas o conduziram a um engessamento da alma.

– Que se dane ruiva, eu não quero ser um engessado. Jamais.

Não o interrompeu por educação? Vassili não sabia. Decerto, seus mais curtos(agora) cabelos vermelhos(sempre), refletiam o whisky, que enganava o garçom, perdido lavando copos, escondia os clientes chatos no fundo do bar e o mundo rodopiava, rodopiava soçobrando Vassili cujas velas eram a ruiva. A ruiva movia aquele lugar.

Ela falava pouco, mas gestualmente era um monumento literário vivo.

– Eu te amava russo, mas você perdeu sua chance.

(Vassili achou que ouviu, mas não, ele não ouviu, ela nunca diria isto diretamente, precisaria rodopiar, por que estava numa posição defensiva que poderia desestabilizar seu falso compromisso com a sensibilidade)

– O que você disse?

– Que eu te falava. Que eu sempre te falei, que não há volta quando se ultrapassa o ponto limite Vassilli.

– E atingimos este ponto?, encheu o copo pediu mais cerveja.

– Talvez.

Papos deste tipo sempre os enojaram. Esse jogo de xadrez, este tango emocional, era danoso para a alma, mas profundamente enriquecedor para jogos de metáforas.

– Eu te amei. Te amei como um estúpido. Mas quem disse que o amor é inteligente…

– Suas cartas são… ela disse. São boas; são como você diz, farto material literário. Elas são isso tudo Vassilli, mas… você não entende… É hora de esquecer o Saxofone. Esquecer não. Desesquecer. São coisas diferentes, você sabe.

– Poderíamos falar sobre isto a noite toda não é? Até mais. A semana inteira.

– Sim. Mas o fim nunca é poético o suficiente. O fim sempre é ruim.

– Como o fim do Nato, Vasilli exclamou.

– Sim. Ela respondeu erguendo a cabeça . Como o fim do Nato.

– Ruiva… disse ele, interrompendo a melodia e gerando um tom de voz que desarmaria qualquer oposição.

– Fala. Diz.

(Ele pensou duas coisas. Duas possibilidades: A ruiva é uma ilusão necessária, um combustível do meu ofíciou ou eu inventei isto para justificar algo que eu não posso assumir totalmente, que ela tem o controle de Eros, a Eros de Vasilli.)

– Vou pagar a conta e…

– Não quero mais escutar jazz. Vamos embora!

https://pseudocontos.wordpress.com – Publicado originalmente em 05/05/2008

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