Efêmero


Rafael Vendetta

Tudo passa, tudo vai. Algo fica, algo sai.

Era meia noite e eu tinha meu cachimbo. Tinha fumo, tinha raiva, iria fumar impaciência. A cicatriz no braço não fechava, talvez culpa da cannabis.

Há coisas que não merecem ser cicatrizadas e há coisas que não cicatrizam apesar de não merecerem. E pouca gente merece. Mas quem merece normalmente sabe deixar marcas.

E eu encontrava os fios de cabelo dela por toda a casa. Um dia eles iriam acabar.

Faltava limpeza naquele cômodo.

O som não funcionava e a estupidez estava no congelador aguardando a estrela certa. O sinal do óbvio estalava por todo o quarto.

É um quarto de esquina, de esgrima consigo mesmo, havia um sofá de dois lugares vazio, uma arena de tolos, conformada por sobre um circo particular. Confortável e gordo sofá, um gordo afável, que não usa em hipótese alguma os broches do “quer-perder-peso-pergunte-me-como”; é um sofá de bem com a vida, de bem com o quarto. Um sofá extremamente gordo.

Gordo de ausência.

A estante de livros, óbvia. Óbvia pois tinha livros; se não fosse óbvia guardaria sapatos e a mesa de centro marcada de fumo, de guimba, cheia de papel, evidentemente a que mais trabalhava naquele quarto infame.

O eterno é a mera soma dos efêmeros. Quem pensa o contrário ilude-se. Quem acha possuir o eterno ou o almeja, engana-se, pois apenas alcança efêmeros parcelados. O eterno nunca foi eterno. O eterno é esquartejado pelas pontuações do destino.

Papo de perdedor é claro. Mas quem nunca perdeu, quem segue os modelinhos nascei, crescei, multiplicai-vos, multiplica certezas e embota juízos.

O eterno é a ignorância. O eterno é não perceber as pontuações. E para que servem as pontuações? E quem realmente deseja de todo o espírito e causa, reconhecer e enxergar as pontuações? Quem seria idiota a tal ponto?

A curiosidade condena o indivíduo. Condena; e ninguém disse o contrário; se dissessem, o sofá, a cama de casal e a mesinha de centro, acusariam o erro.

Móveis que são parte do eterno… Mas lembremos, lembremos sem não mais tristeza mas com uma dose de esperança na constatação mórbida do desapego, que o eterno é o efêmero parcelado. Logo os móveis efêmeros, a mesinha, o sofá, a estante se degradam, e é o princípio entrópico. Uma merda comparado ao THC, a hemodiálise ou ao videogame de final de semana.

Mas pense bem. Degradam-se dia após dia e você não vê. O eterno embotou sua visão.

Está tudo morrendo.

Inclusive os fios de cabelo dela. A cannabis, a impaciência. E tem coisas que precisam morrer.

O eterno é efêmero unido à força. E nada unido a força realmente funciona. É só ficção. É só ilusão. É só esqueminha nascei-crescei-multiplicai-vos.

E você, nem o sofá, nem a mesinha de centro e muito menos a estante querem ser parte disto certo?

Portanto sê como eu, efêmero, e me nega.

https://pseudocontos.wordpress.com/ – Publicado originalmente em 11/11/2008

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