Matemática do Diabo


Rafael Vendetta

E o antigo, chamado de velho nos corredores íntimos do não-políticamente correto, observava, e sabia pelo movimento de quadril, ou pela blusa rosa desajeitada, cujo cabelo quase molhado, que cobria parte da alça do soutien, que a ruiva compraria pão, iogurte e mel.

Era uma matemática dos diabos.

E tal fato se repetia, reproduzindo-se, seguindo uma vontade oculta não explicada que não fazia sensualidade naquele corpo antigo, mas que despertava no cotidiano do velho uma sensação contínua de deja vu, esboçada no fim de seus dias, onde a ruiva, tornada ponteiro, ou apenas areia escorrida na ampulheta do cotidiano, colocava-se exposta, sempre num bom dia ou numa conversa trivial na porta daquele mercado curto, curto de interações sociais.

E o pão, o iogurte, e às vezes o cogumelo shitaque, preso num copo de vidro, rendiam mais do que um bom dia, no qual o velho, recostado no único banco sincero daquele hectar, em frente ao mercadinho sem nome, procurava prolongar mais seus oitenta e dois anos bem vividos com a conversa casual e pontualíssima que lhe era costumaz.

E a ruiva, vítima corriqueira e agradável de um sorriso cuja experiência e serenidade já faziam parte das necessidades culinárias do cotidiano e da vida, fazia questão de o agraciar, menos do que a sua história realmente merecia.

E o velho, ou o antigo – digam os justos, agradecia gentilmente aquela que parecia sua filha emigrada para o Canadá, ou na verdade, que justamente se assemelhava, de alguma maneira particular que só o antigo se recordava, de sua querida e eterna amante: esta mulher, Lola, valente e ruiva, que fazia-o viver perante os apocalipses do cotidiano. Que o fazia chorar nas noites de Natal. Aquela memória viva, lacinante, que fez aquele velho sem vida naquele mercado sujo e desigual, lutar nas barricadas da Espanha, que o fez, chorar, quando teve de enterrar Lola Iturbe assassinada pelos franquistas em 1936, onde a terra camponesa e coletivizada que guardava aquele corpo matava também parte de si próprio.

E o taxista, aquele que não tinha nem uma experiência rica e devastadora de uma grande guerra que produzia monstros de carne e osso, ou ou a esperança de uma grande revolução, assistia as guerras da televisão como videogames, onde não existiam Lolas, nem pães, nem iogurtes, e que costumava apenas pensar banalidades que não emigravam nem para a Espanha, nem para o mercado do cotidiano, que se espatifavam e morriam estilhaçadas quando um passageiro resolvia viajar de táxi, encontrava-se largado. Com as mãos e pupilas cansadas, onde a ruiva, a ruiva tornada assim cotidiano, parecia apenas inalcançável e distante como um fundo que não se mexia e ele não adivinhava nem com o movimento da ruiva ou do velho, que seus dias estavam contados.

Os ponteiros passavam, matando o velho nos intervalos da ausência sincera da ruiva, e quando ela fazia-o viver, agradava alguma idéia de encadeamento do destino, perdida no sótão sórdido e oculto de alguém que enxergava a eternidade em outro ponto da cidade que não aquele.

E aí neste ponto exato, mas estúpido, onde as coisas não se encontravam se não por obra de um deus dado pelo nome de acaso, ou no caso atual, desta fabricação quase real das possibilidades, Vasilli encontrava toda a história como num aneurisma de um mundo que se fazia apenas causa-efeito; este encontro secreto, mas agora revelado ao leitor, se deu na noite do dia dezesseis de um mês quente de verão, talvez um fevereiro, mas decerto seria um quase-março, onde ao acender um cigarro, Vasilli, enxergou sem ver, aquele soutien rosa, sob os ombros corajosos daquela ruiva.

No encontro do mundo, pequeno pedaço de algo forçosamente unido, nutriam, o mesmo sentimento de perda, e desconheciam, que cada um, taxista, Vasilli, o antigo e a ruiva, constituíam-se num encontro revelado que desabrochava frente à uma única cor e onde todos fingiam, mas mesmo sem par, a necessidade fazia e impelia-os a se encontrar.

https://pseudocontos.wordpress.com – Publicado originalmente em 27/02/2009

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