Nem tão mal assim, nem tão bem o suficiente


Rafael Vendetta

Ruiva, sabe exatamente como o corpo reage a angústia? Já sentiu os olhos úmidos de lágrimas, e a garganta engolir aquela decepção embalada antes do café-da-manhã ruiva?

Meus passos longos precipitaram uma imensidão de cores, cores que eu não consegui filtrar(e quem disse que eu deveria?); ela apenas racionalizou o mundo a nossa volta Ruiva, ela matou o dionisíaco que nos temperava, ela pragmatizou a realidade ao nosso redor.

Faltou-lhe coragem? Coragem esta que me sobrava… Mas eu Ruiva, este tonto Vasilli, enebriado pelo desejo de re-construção dos cotidianos, não conseguiu compreender que isto apenas dizia respeito ao poder de decisão dela Ruiva, e não do meu, de convencimento(e eu repito isso para me convencer… para me convencer racionalmente, mas emocionalmente nunca me convenci).

E cá estou eu, cercado de guimbas de cigarro, fuçando livros no centro da cidade na terceira quarta-feira do mês, comendo uma esfiha com gosto de saudade Ruiva, e secando lágrimas que eu nunca despejei na verdade, metaforizando tudo ao meu redor, tudo, por que assim, o mundinho cinza dessa urbe impiedosa ganha mais vida.

Já não estou nas suas fotos, sei disto Ruiva, ela me apagou de todas as suas fotos e suas recordações, as minhas frases de efeito e meus ditados clichês, ecoam por cinco ou seis amores esquecidos, por que idéias não morrem Ruiva, idéias são a prova de balas, e no fundo no fundo é assim que me sinto, uma grande idéia presa num corpo humano, demasiadamente humano; e talvez seja esta minha função no mundo Ruiva, fazer parte de momentos longos(para muitos, e curtos para mim) onde eu tenha me transmutado não em corpo, mas em espírito.

Exercitei a imaginação alheia demasiadamente, e em troca, (dentro desse olhar egoísta inconsciente) apenas recebi letras ruiva, letras que eu já tinha de sobra.

Anatole, fora de sua habitual inabilidade para com piadas, conseguiu fugir do padrão esses dias, e disse algo que realmente me interessou(a posteriori – é claro, eu não daria este gostinho ao puto):

“Precisamos de uma novo tipo de tuberculose que só consiga matar os poetas.”

Nato está certo, não há mais glamour(se é que houve algum dia), mistério ou mágica em trocar emoções por letras, isto já foi intensamente exercitado e minha verdadeira profissão de fé é me iluminar diante o esquecimento. Nossa miséria é tão escassa ruiva, que me envergonho de despejar esta parte de mim, não é justo dar aos outros uma metade de você que eles acham ser a inteira, a impressão normalmente é que se costuma vender algo, por um preço muito mais alto do que podem pagar.

Ruiva, quando olhei para tuas fotos, me lembrei o quão inadaptado eu me sentia ao lado de determinados grupos, e eram poucos, muito poucos, os que eu não tinha de me esforçar para vestir aquelas personas descartáveis irritantes, mas isto é um fato tão coerente e corrente que no final das contas, me achava mais e tão verdadeiro quanto possível.

O daqui pra frente é uma estrada deliciosa Ruiva, este paradoxo ambulante de nome Vasilli, no fim das contas concorda que a tristeza é o verso da alegria, não sabe bem como autogerir isto a ponto de equilibrar-se sem muletas, mas está no caminho… Irrito-me com a necessidade mórbida de imporem a ditadura da felicidade, isto é triste demais ruiva… gente sem verso é apenas um simulacro de ser humano…

Isto é tudo Ruiva, mandarei outras cartas depois, pois já não tenho mais para quem enviá-las, me sinto meio Anatole agora Ruiva, distribuindo metades de si para muitos(quando sabemos que ele é inteiro, não metade) aguardando compaixão, mas não há compaixão suficiente, nunca há, e depender desta caridade emocional definitivamente não diz respeito aos espíritos livres(e quem disse que eu quero ser? deixe o ubermensch para as próximas gerações…).

Agora me vou, esgueirar por entre o cotidiano, apesar de continuar a me sentir sozinho, ainda posso olhar ao lado e ver muita gente ao meu redor.

https://pseudocontos.wordpress.com – Publicado originalmente em 11/03/2008

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