O retorno e o agravamento da Ruiva


Rafael Vendetta

“Não é preciso dormir para sonhar.” Sussurraram.

Acordou. Acordou e estava no bar. Sentara naquele Pub simpático, e por um momento ainda percebia o mundo desfocado. Desfocado enquanto adaptava-se de maneira covarde diante do barulho e do mundo, diante das pessoas, do copo de cerveja preta esvaziado, e talvez entre algo que o reflexo de seu copo e sua imagem diziam a si mesmo: “apenas acordou”. Apenas acordou.

Deve ter sido difícil acordar, assim tão último. Mas ele aprendia rápido.

Acordou. Acordou e fez um acordo, que aquela realidade precisa, extremamente precisa, e por isto doída e maravilhosa como um parto sem choro, havia de ter um motivo oculto, algo que encadeava fatos, organizava-os e dizia o que no passado haveria de valer a pena, e o que o futuro era o resultado apenas daquele pretérito feio, bobo e que costumava dizer: “era jovem e imaturo demais”.

Mas não. Havia a ruiva.

E ela disse: “Não é preciso dormir para sonhar.” E ele acordou. Acordou sem chão, apesar do taco de mogno opor-se às ruivas e as abstrações.

E ele deveria manifestar-se, socar o balcão, jogar o copo de vidro no chão. Segurar as mãos dela e ir para fora feliz ou gritar.

E o que ele disse foi o que segue, apesar de não poder reproduzir tudo.

– Eu sempre tive esperança. Eu sempre tive. Porra. Eu sempre tive esperança. (soluçou)

(Lágrimas rolavam…)

A ruiva voltara. Ela voltou. Voltou sem a música francesa; voltou diferente, voltou menos ruiva, voltou de cabelos negros, e ele socou o balcão; como exatamente disse que não faria…

E ela prostou-se. Abaixou a cabeça e possuía um olhar que não era mais o da ruiva original.

Ele não, ele só chorava. E resolveu deixar a conta; com a gorjeta, resolveu esbarrar em duas ou três cadeiras, resolveu chorar em público até a porta do bar, resolveu correr para o estacionamento quando sua vontade só lhe dizia para não fugir, mas para encontrá-la.

E ela, bem ela, resolveu esperar. Pois sabia exatamente, que deveria esperar, sabia exatamente o quão aguardar… E ele, ele, chorou e por um delicado momento, o momento que lhe roubaram os sonhos, sabia que ela esperaria, mas sentiu medo, sentiu medo, por que seu medo lhe dizia que ela sumiria da mesma forma que apareceu, pois não era preciso dormir para sonhar…

Ela chegou no terceiro soluço, mas ele já estava de pé, no estacionamento, olhava para a baía suja, repleta de polietileno e rancor, ele não chorava, apenas controlara-se e para isso precisava queimar fumo no pulmão, precisava dizer que enfim, cerveja preta era melhor do que cerveja branca.

– Você fez. Ela disse.

– Você fez. Eu vi na Tv.

– É. Eu fiz. Acabou. Chega! Ele fumou, e apagou o cigarro na sola do sapato. Era um silêncio profundo de quatro ou cinco anos.

– Eu não queria voltar assim, ela disse.

– Eu queria lhe mandar uma carta. Mas eles me perseguiram.

– Eu queria falar que tudo o que passou foi um terrível mal entendido.

– Um tiro na cara seria melhor, ele falou.

– Eu não mandei nenhuma carta por que eu pensei que você também podia estar com problemas. Eu só fiz o que eu pude fazer. Você sabe.

O silêncio tomara conta do cais.

Ele tirou os sapatos, jogou-os no mar. Ela não falou nada por que achava que era um falso cognato. Em inglês “adept” significa perito e não adepto. Exemplos.

Ele sentou, e chorou mais uma vez e era a segunda vez que ele chorava assim em anos.

Ela abraçou-o.

Não falaram mais nada.

Nada havia.

Nada poderia ser dito.

A conversa se encerrara.

E ao contrário do saxofone, ao contrário de uma viagem para o interior, ao contrário de um apartamento no Catete, ele, não ela, esqueceu o passado, e abraçou-a. Apertou sua mão carinhosamente, enquanto os lábios mudavam, enquanto eles se reencontravam, enquanto ele redescobria seu pescoço, seus cabelos outrora ruivos, enquanto ele apaixonava-se novamente por sob cinco minutos e ela entregava-se. Mas era o fim.

E entregavam-se. E resolveram não falar, por que era o silêncio que desejavam.

E os lábios já se reconheciam, e nada falavam, além dos beijos, além de encontrarem-se nas esquinas do amor; aquele amor já vazio, tentando se reencontrar, outrora original.

Ela amando algo que já tinha se perdido, e ele amando uma ruiva, uma ruiva, que resolveu morrer após o cais, pois ele, Vasilli, pobre Vasilli, não pode aguentar, não conseguiu aguentar e resolveu procurar o anjo, o anjo que levara Anatole, para o viaduto, para o concreto, para o mundo em que não haviam ruivas.

Amou-a. Não o culpemos. Ela foi embora, sabia que não podiam ficar juntos.

https://pseudocontos.wordpress.com – Publicado originalmente em 21/12/2008

Revisado em 21/05/2014

Cais_da_Praia_da_Vitoria__by_nry

agravouseoqueradoce

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