Prosopografias ruivas ou de como a realidade objetiva procura confirmar a subjetiva


Rafael Vendetta

Não sabia bem o que faria; se algo mais do que a solidão pretendesse. Começa secreto como um substantivo sussurro escondido no fundo da sala, mas acaba crescendo como uma fama repentina. E na janela há esta paisagem torta que não cabe bem no seu horizonte. Não se encaixa. E cheira a mofo novo.

Ele obedece o coração, e por isto sofre, sofre baixinho… Sofre calado porque calado ele não rompe as regras dos outros que comprou para si próprio, num momento de endividamento.

Olha de ímpeto o ousado; nega o óbvio, mas mantém-se firme, apesar do quê, o olhar despretensioso daquela mulher dói; de verdade: eis mais uma idealização.

E da vida, pouco extrai a não ser o intenso; de que vale a experiência, se é o cheiro, o cheiro daquela mulher que acaba contando.

Ela entra, e nem está ruiva, mas acaba contagiando tudo, o caderno, a caneta, o café e a velha impressão, o ambiente todo. Ele nem sabe se é o sentimento novo, ou ela mesmo, já repetida, que conta.

Cheira a fumo e ele nem fuma. Mas se reproduz.

E ela. Bem ela, é mortal com poucas palavras, mesmo quando erra, mesmo quando erra, ela mata, mata-o, mata ele mesmo, esquarteja-o com o não-dito: Mas ela não sabe.

Ela apenas segue, como uma força da natureza.

Ele sofre, sofre com alegria, não por amar a dor: mas o sabe que, há sempre, há sempre uma ausência que encaixa presenças que faltavam. Dor e alegria, meras gangorras: necessárias!

E ainda assim, nas quintas à tarde, ou nas sextas de manhã, ele sabe que foge. Sete meses de luz!

Do mofo novo, a escuridão: sofre de novo?

Uma nova musa, uma nova ruiva?

Com quantas secretas terá de seguir? Força da natureza.

Foge. Foge de novo homenzinho. Foge com o diabo e a luz nos teus olhos.

Foge com o diabo ruivo, dentro de si, dentro de tu mesmo.

https://pseudocontos.wordpress.com – Publicado originalmente em 16/11/2008

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