Quando amava


Rafael Vendetta

Caso amasse e amassasse a folha num surto impetuoso de vergonha, ainda um quase-bobo, recostado sem pressa no banco da praça, dispensaria as flores, e retomaria a escrita sem desistir, pois da janela e do ridículo sobravam poemas.

Enfiaria-se nos sebos da cidade, atrás do Neruda, um Neruda só para ela. Aquele de capa azul e de beijo de língua quando dado. Um Neruda com um tesão guardado na página dezessete, um Neruda com um sexo apressado, num quarto vazio, num vazio paulista, espreitado pelos olhares, um Neruda demasiadamente idealizado diga-se de passagem. Isso não se compra em banca de jornal. Não nasce todo dia. E muito menos, pode se repetir assim, quando quiser.

Mas convenhamos; foi o melhor Neruda que ele já leu. Mas já passou. Não se pode comprar outro.

Em dias de calor passearia pelo seu corpo com uma pedra de gelo, beijaria-a na nuca e pelo corpo lhe daria a volúpia já verão. Mas era tarde, o sol se foi, nos dentes, perdida num dia de frio. Apaixonariam-se, mutuamente, mas apenas num instante, como é de costume.

Ele pinta e escreve mal. Ela faz bem, move o corpo e segue, sem rumo, espalhada pela babel do mundo. 

Ele mandaria cartões tortos recortados por ele. Era ela que ele recortava, mas nunca disse. Recortou ela própria, com a cartolina vermelha nas mãos e em seu coração.

Faria brigadeiro no sábado frio e ele nem gosta tanto de brigadeiro. Mas os corpos se encontrando no apartamento do Catete, isso sim. Havia também o ritual despretensioso, de andar juntos, de mãos dadas num supermercado que iluminava um domingo. 

Escreveria cartas. Mas não enviou nenhuma. A primeira que ela recebeu não voltou. A segunda ele respondeu, mas voltou apenas silêncio.

E ela sorriu e quando ela acorda e se ajeita por entre seus cabelos negros, quando ela se ajeita e mordisca-o, e ele provocado, acaba atacando-a com declarações de amor em forma de cócegas. Isso acabou. Talvez volte, mas não será a mesma pessoa, nem o mesmo passado. Tudo mudou.

Ele lembraria dela, uma, duas ou três vezes. Nada mais. Talvez se encontrariam num dia em que leram Camus, no mesmo instante: nunca saberão.

Eles se abraçaram e fizeram poesias com o rosto colado um ao outro. Era verão. Fazia calor e o mundo parecia ter 20 anos de idade.

E quando cansaram, voltaram cheios de si próprios, beijaram os lábios, e caminharam por entre os paralelepípedos de mãos dadas respondendo a terrível pergunta: “onde está o amor, onde está o amor?”

Dariam vexames, e vexames dos mais livres, por que costumavam ignorar parte do mundo enquanto estavam sozinhos consigo mesmos. E sorririam, adorariam-se sem possuir um ao outro, e assim recordariam seus melhores momentos da forma mais exigente possível: vivendo.

Ele faria isto e aquilo, faria isto tudo, sem pestanejar. Não havia horizontes de expectativa ou nos passados que sobredeterminavam a vida dos frouxos ou dos temerosos. Faria isto tudo, amaria como uma dinamite, sem nenhum senão, sem nenhum porquê… Era intenso e fugaz. Acabou rápido como um fósforo aceso.

Amaria-a, assim como escreveu, amaria-a intensamente, se houvesse algo além do que ele próprio esculpia. Amaria intensamente e faria tudo como assim descreveu, se ela tivesse voltado. Mas não. Nunca voltou.

Por enquanto, seguiu. Acordou, fez café, dormiu. Era hora de levantar. Não era o mesmo passado, nem a mesma pessoa. Tudo mudou.

https://pseudocontos.wordpress.com/ – Publicado originalmente em 22/11/2008

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