Sobre os aniversários


Rafael Vendetta

Ruiva, escrevo em tom de cansaço. Em tom de cansaço, por que(e não usarei “de certa forma” antes desta frase ou antes do por que, ou antes dos subsequentes parágrafos) você é a primeira e a última pessoa que eu posso conversar. Todos, todas falharam, e você sabe que eu não sou tão perfeccionista assim. Sabe também que neste “todos” há pequenas exceções, pequenas grandes exceções para pessoas muito especiais; conquanto, pessoas especiais precisam provar que realmente são especiais, e isto não se faz com um, ou dois quartos de século ruiva, isto se faz diáriamente, isto se faz cotidianamente.

É difícil ser especial, eu admito. Na verdade na maioria das vezes acham realmente que eu, eu, o pseudo-ruivo, proto-moreno ruiva, ou incorporo metade daquele irritante joguete do “aceito qualquer coisa” , como um falso Gandhi ruiva, e Gandhi não aceitaria qualquer coisa, ou apenas tenho uma capacidade extrema de não me importar, não me importar como um beatnik sulamericano, de perdoar, de perdoar ruiva, de perdoar com todas as minhas artérias, sem que para isto eu realmente precisasse de sangue correndo em minha veias; e para quem não quer suportar mais nada emocionalmente tão exasperado, eu não tenho sangue correndo nas minhas veias ruiva, não, não tenho.

Não depois de você ter me feito de palhaço ruiva, um palhacito ruiva, um palhaço indisponível, um palhaço desprezívelmente raso, razoável.

Mas faz parte ruiva, faz parte do meu metafísico destino, um destino previsível, não pelo que eu construí, mas pelo que ele efetivamente constrói, mesmo não me imaginando tão determinista, é um fato concreto, de que este destino de merda, constrói-se a si próprio, a mim próprio, num casulo de previsibilidade tão constante, que vez ou outra eu me pego perguntando-me se há solução para este paradoxo.

Não há. Não há solução. A solução é eu me completar. Mas isto trairia todos os meus princípios, pois não há completude no alheio, segundo meus princípios ruiva, princípios tão bonitinhos ruiva, tão belos, tão obesamente preenchidos de vigor, são tão belos, são verdadeiramente lindos! Lindos ruiva! Do tipo em que se aperta e não se enxergam defeitos!

Mas ruiva, há os poréns, e os poréns normalmente enterram, mesmo que seja em breves segundos tudo o que é bom e perfeito ruiva. É no porém que se enterram mundos, é na vírgula que se enforcam princípios e embalsamam-se eras. É na incompletude das brevidades que se assiste o fim de ciclos, ciclos movidos a cachorro quente sem salsichas, sem carne ruiva, na esquina da avenida Mem de Sá. Eu pareço(e sempre tive este talento) estar sempre imerso em determinadas atividades ruivas tão intensas, tão recheadas de vida, de clamor, de emoções, de histórias que se desdobram em mesas de bar, em copos vazios, em encontros casuais ou em carteiras vazias, mas a verdade ruiva, é que meu talento é apenas esmiuçar das letras algo que valha a pena, é enforcar a monotonia da rotina neste balé literário gramatical; o que causa a impressão de que a cada carta que eu escrevo a você(s) há uma supernova em explosão, há um vulcão enterrando civilizações emocionais, há um genocídio literário autorizado, quando na verdade é mero balé ruiva, é mera capoeira, é mero gingar de corpos, digo na verdade, de frases.

Sou talentoso com letras(um complexo psíquico autônomo insiste o contrário), não com pessoas. Devo todas as minhas condolências a Kafka, Oscar Wilde, Clarice Lispector, Cortázar, Lima Barreto, João do Rio e diversos amigos ilustres, e não-ilustres(os não-ilustres são os que mais me inspiram). Prefiro não morrer de tuberculose, apesar do que tenho a incrível habilidade de me resfriar, e me adoecer sempre em datas importantes.

Termino a carta imaginando se um dia será possível, olhar para trás, cinquenta anos atrás, não como meu 1/4 de século ruiva, mas como uma metade de século e tentar enxergar algo ou profético ou nostálgico nisto tudo ruiva. Será possível?

Talvez ruiva, talvez, falei exasperadamente de mim, de minha pessoa, mas devo dizer no finalzinho da conversa e da carta(já que o papel está acabando), que você e seus malditos jogos de xadrez emocional não irão me vencer.

Quem topar o desafio(e para isto deverá comer argumentos de ruivas no café da manhã), me ganha.

Não tenho talento para troféu; mas posso tentar me vestir de dourado.

https://pseudocontos.wordpress.com – Publicado originalmente em 21/12/2007

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: