Uma carta dela para mim – A Pergunta


Rafael Vendetta

Você precisa abrir mão. Precisa abrir mão obstinadamente, precisa abandonar e fazer disto um cotidiano. Precisa rodopiar sob seus opostos, invertê-los de maneira apaixonada.

Precisa ser o que odeia para compreender. Tornar o que você é implica em me reconhecer, mas você nunca, nunca… jamais o fez, mesmo quando eu recebi seus beijos, mesmo quando eu tomei café da manhã no pé da cama; e até mesmo quando você me bajulou com o Neruda, eu sabia, eu tinha a certeza, de que aquilo não era para mim. Era para você.

Você massageou o meu(seu) ego. Você dançou sob a escuridão para si mesmo, não para mim.

Você não me amou, você encontrou uma parte de si que parecia encaixar… E eu não tive tempo, mas agora tenho, não sou um quebra-cabeça; eu sou um jogo de armar.

Amai-vos uns aos outros como eu me amei. Amai e recebei, e você fez jus ao egoísmo, fez jus às complicações, fez jus ao duende que corria entre vós, apesar de tê-lo ignorado solenemente, com um tom de desprezo e arrogância bem característicos.

Gostava dos seus autores preferidos antes mesmo de você, mas você exigiu destino, conjecturou sincronicidades que não existiam e arquitetou perfeição aonde só existia acaso.

Racionalizei sim, racionalizei aquele momento por que era a única forma de lhe salvar de si mesmo. Você já estava condenado, e a única forma que eu encontrei foi matar o Eros(eu não o matei você está me entendendo?), Eros que você apreciava como irmão, mas que usurpava e lhe oprimia: você era não só um escravo de suas paixões, mas um Ícaro pronto a despencar. Eu não retirei seus projetos e nem suas asas: você é um Da Vinci orgulhoso mas continua original.

Tudo tem seu preço, você sempre soube, sabia desde o início que eu iria cobrar com juros. E foi o que eu fiz. Você não seguiu seu conceito de palpável. Você voou e desafiou as nuvens. E eu só escrevo isto aqui, por que deu errado me entendeu?

Os vencedores terão outras explicações… mas não se trata de uma disputa de objetivos. O alvo é a origem.

Você nem vai terminar de ler isto aqui. Você sabe, eu sei.

Por que gente humana escreve a realidade com os olhos.

Saiba…Foi melhor deste jeito. Você chegou até aqui, sabe que se ultrapassar a linha limite não haverá retorno. A linha limite não existe, por que você não caminha em linha reta…

Você anda em círculos.

https://pseudocontos.wordpress.com – 20/06/ 2008

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