Um gato anarquista

Rafael Vendetta

– Você é o dono do gato? perguntou o de macacão-verde.

– Sim, sou eu, falou com hesitação.

– Ele tem quantos anos?

– 12, talvez 13.

Como dizer que o gato tinha muitos donos? Como dizer a ele, que o gato não era de ninguém. Quase me passou na cabeça, dizer que o gato pertencia a si mesmo, mas isso também era falso. Pois isso significava a liberdade absoluta dos estetas, dos excêntricos, dos individualistas. E aquele gato não. Aquele gato era parte do coletivo. O gato não era um raio atravessando o vazio. Era parte de algo maior.

A clínica veterinária vazia. Tantas necessidades lá fora e ele lá dentro, com um gato. Combalido, o animal mexia o rabo, mas deixava os olhos encontrarem o vazio que esbarrava nas reflexões mais íntimas, no choro mais secreto. O semáforo perto da porta. Buzinas. Um vendedor de balas no sinal. Do lado oposto, grades, gaiolas e eu, estrangeiro, ali dentro.

Pedi pra ficar mais um tempo. O funcionário concordou e disse pra ficar a vontade. 

Lembrei do gato andando dentro do centro comunitário. Uma coisa puxou a outra. Vieram as flâmulas, as bandeiras, o canto da internacional e o gato, desrespeitosamente, passando no meio das pernas, durante o momento mais solene ou mais crítico da assembleia. E aí alguém dizia: “mas que gato lindo” e o que era tensão ou dramaticidade, se convertia na imagem de um gato de pelo rajado, interrompendo de maneira justa aquelas reuniões.

Lembrei o quanto aquele gato fazia sentido. Não era um gato comum. Quando comecei a chorar, como um pequeno-burguês qualquer, que às centenas, passavam naquela clínica, lembrei: era o gato do coletivo. Não estava só. Haviam centenas de ombros (muito mais proletários que eu) ali do meu lado. Mesmo se naquela sala só houvesse silêncio e cheiro de álcool isopropílico. 

Ricardo, um metalúrgico que costumava tomar café todo os dias no mesmo horário, como um relógio suíço e que sempre reclamava da falta do açúcar, ou que Pepe tinha deixado a água ferver além da conta, ou de como o transporte público estava insustentável, ainda que rangendo os canais do dente, dizia com sua voz grave tomando conta da cozinha: ONDE ESTÁ o estrangeiro?

– Está cuidando do gato, alguém gritou, com um parafuso e um copo de café marcado de graxa. Onde está o pão Pepe? 

– Em cima da mesa.

Enquanto eu deitado, no fundo de um dos cômodos, fingia dormir, o mundo girava.

– E porque ele cuida do gato, respondeu cuspindo açúcar e jogando a faca ao lado do pão? Mas e as assembleias, a greve? Não tinha reunião do núcleo hoje Pepe?

 – Não, é amanhã.

– Esse gato custa muito dinheiro, entra vaticinando um terceiro. Gatos custam muito dinheiro. Sou favorável que vivam soltos, na natureza selvagem.

– Porque gastam tanto com o gato? pergunta Ricardo. Não temos nem um bebedouro aqui e gastam tanto com o gato, essa é boa.

Porque o gato não come Ricardo, gritou uma companheira do fundo da cozinha. Está muito enfermo.

– Se está enfermo, encaminhou Pepe, com roquidão e a bengala de madeira batendo no piso sujo da cozinha: é porque está alienado. Todos riram.  Você está doido Pepe? Como o gato pode estar alienado?

– O gato não gosta de jaulas, nem prisões, falou Pepe. O lugar do gato é ao lado do povo. Eu entrei na sala e todos se calaram.

Ricardo com a dureza da metalurgia resmungou e olhou para Pepe fazendo um gesto com as mãos que dava a entender que o velho era um anarquista senil. Eu enchi meu copo de café e segui. Era hora de terminar o que deixei incompleto. 

No outro dia a reunião do comitê dos secundaristas. Um grupo de seis jovens carregavam uma mesa enquanto Pepe gritava: não arranhem o taco! Esse taco é mais antigo que Bakunin. Todos riram, mas levavam a sério a voz do velho. Eu os admirava por muitos motivos. Um deles era a paciência com que não faziam terra arrasada dos cabelos brancos de Pepe, cabelos brancos que acumulavam paixões perdidas, centenas de jornais operários e uma estranha mania de abrir a biblioteca sempre no mesmo horário. 

Depois de perguntarem a Pepe onde estava o felino, os secundaristas escreveram um manifesto de solidariedade ao gato e arrecadaram dinheiro no final da reunião do comitê, pois segundo diziam, a saúde pública era precária para os humanos, que dirá para os gatos. Me entregaram em mãos e disseram que temiam que o gato sofresse preconceito por ser anarquista. Melina, que dividia comigo a tarefa de preparar as comissões, dizia que o gato não constava nos inquéritos policiais e tudo seguiu.

Um companheiro pedira para colocar a foto do gato no jornal do centro comunitário, metade da assembleia protestou. A outra metade riu. Eu não tinha opinião formada. Substituir Domingos Passos? Você está de brincadeira, alguém disse! E abriu-se uma enxurrada de questões de ordem, vieram as defesas e a proposta derrotada, apesar de aguerrida, apenas constou em ata.

No terceiro dia, veio a cavalaria nas ruas. As prisões, os panfletos sendo distribuídos nas esquinas, os comitês de solidariedade. Mas eu não conseguia me envolver, deixei aos companheiros e companheiras as tarefas: já estou com o gato e a comissão de organização, já me basta!

E os comitês estavam envolvidos com todas as mobilizações. Eram tempos acelerados, tempos industriais mas o gato andava num outro ritmo, um ritmo artesanal. O gato parecia passado a todos, menos para Melina, que se revezou comigo na ida a clínica. Aquele ato modesto, evitou meu afastamento completo do comitê. E eu pude contribuir com o que tinha para dar. E o melhor que eu pude fazer, foi o suficiente. Por conta da piora do gato, mais ausências. Não conseguia chegar a tempo da reunião que definiria o próximo ato de greve. Vieram as críticas, principalmente dos setores de oposição.

Num piquete alguém comentou maliciosamente no fundo da assembleia: isso é coisa de pequeno-burgueses! Tantas greves! E cuida de um gato! Mas mesmo os companheiros e companheiras mais próximos, viram naquela ausência, um ato claro de indisciplina. Eram tempos difíceis. Precisavam de braços, de vozes, principalmente naquela assembleia, cheia de felinos velhos e novos, de todas as cores e tendências.

Ricardo, apesar da proximidade, pois sempre dividia angústias e pedia conselhos, perdeu toda a paciência e deixou um recado desaforado em letras garrafais. Escreveu com raiva e agia sob o sentimento de indignação coletiva do comitê: “a greve precisa de você estrangeiro, largue esse gato para lá!”

Fez questão de colocar três pontos de exclamação no final e prendeu o recado com uma foto de um revolucionário sandinista jogando um molotov. Era o suficiente. Eu entendi o recado.

Pepe que leu em voz alta o desaforo que Ricardo escrevera por cima da mesa de ferro, sem pensar, compartilhou da mesma revolta. Mas quando cheguei Pepe desarmara-se. O meu rosto transparecia uma melancolia revolucionária que Pepe já vira muitas e muitas vezes. A experiência do velho fez com que passasse ao meu lado. E a greve, acabaria no dia posterior. As prisões foram revogadas, a rua se acalmou, o ar de tensão na assembleia deu lugar a ponderação. Mas o gato continuava mal. E percebia, ainda que instintivamente que se aquele felino morresse, uma parte importante de mim e do coletivo morreria ali, junto de nós, sem pedir qualquer licença ao mundo.

Um comitê, formado por mim, Melina e Pepe, revezou-se no cuidado ao gato. O gato voltara ao centro comunitário.

Havia esperança. Havia utopia. O gato era parte daquele chão. Pepe estava certo. 

As adesões aumentaram.

No sétimo dia, um comitê de solidariedade ao gato se formou a contragosto do sentimento geral da oficina, ainda ressentida com as disputas da greve. Pepe fez o café, Melina fez uma comissão de solidariedade, composta por seis militantes e que se revezavam na aplicação dos remédios, na alimentação e na formação política do felino. Cartas chegaram de todo o país. Um comitê feminista organizou uma atividade de apoio ao gato. Os secundaristas confeccionaram uma bandeira para homenagear o retorno do felino. Os horários de visita alargaram-se. Até um botton foi feito em homenagem ao gato. Mesmo assim, o gato parecia que ia morrer. 

Não se mexia, o pelo opaco, os olhos fixos na parede e o movimento fixo do rabo causavam consternação geral. Eu, um estrangeiro que durante dias, meses, vivi melancólico, tal como minha chegada com as malas e a coragem nas mãos, passei a debater apenas consigo próprio meu frouxo agnosticismo. Mas resolvi aceitar o inevitável. Num ato de lucidez e coragem disparei: – companheiros, eu acho que o gato vai morrer.

Houve silêncio. E Ricardo que minutos antes, questionara as prioridades do comitê, foi até o gato e pôs se a chorar. O que me causou grande comoção, porque os nervos de Ricardo eram forjados no que havia de mais duro e ainda assim ele abraçava o gato como se fosse a última vez. Eu tive vontade de chorar e vi que Ricardo, tanto na metalurgia, quanto na luta de classes parecia negar na prática, a dureza de sua vida, de sua infância, de seus últimos dias, dedicando-se ao gato de maneira incomum. Eu, que semanas antes não conseguia nem fazer meu próprio café conseguia recomendar as tarefas e passei vinte minutos com Ricardo convencendo-lhe que o gato fora bem tratado e morreria dignamente. “A terra lhe será leve” companheiro. Ricardo foi aos prantos e enquanto passava a mão pela cabeça do gato, dizia com a voz rouca: “não se vá companheiro, não se vá. Você vai ficar bem”. No final, disse que eu me comportava bem. Que mesmo vindo de fora, eu era parte daquilo tudo e sempre seria.

Uma vizinha trouxe um remédio homeopático ao gato. Pepe, varria nervosamente a calçada. Melina, no intervalo da reunião do comitê de vizinhas, trocava a água do gato, lhe dava comida e fazia carinho. Eu passei a aceitar que o gato iria partir, para sempre. Era a nossa sina. Alguém teria de escrever o necrológio. O gato morreria com coragem.

Durante toda a semana, entre as reuniões do comitê, as assembleias e as tarefas cotidianas, não havia dia que alguém não visitasse ou perguntasse do gato. Ricardo, mais exaltado, dizia que o gato morria por conta da origem pequeno-burguesa do veterinário que o cuidou. Sugeriu ir lá e tirar satisfação. Mas eu lhe convenci de que ele fez o que pode: o companheiro é sincero, respondi. Confiemos. O importante é onde ele está, não de onde veio.

A mobilização em torno do felino acalmou a dureza da greve. As prisões separaram as companheiras e companheiros. As barricadas, os enfrentamentos na rua, a aspereza das assembleias, tudo aquilo esgarçara o que havia de essencial. Eu distante de tudo e ainda acossado pela dureza do mundo, o atrito dos meus últimos dias, comecei a viver em torno do gato. O gato, mesmo sem planejar, gerou apoio mútuo. Não era suficiente para cobrir meus abismos (ninguém cobre abismos com panfletos), mas já melhorava bastante. Voltei a fazer meu café e anotar meus sonhos.

Pepe improvisou um porta-retrato com a foto de Kropotkin e colocou no cômodo que o gato dormia. Uma das vizinhas disse que ia trazer a foto de São Francisco de Assis para pôr ao lado e Melina, vendo que tudo ia longe demais, pediu a Pepe que deixasse o gato em paz. Eu comecei a rir. Pela primeira vez em semanas. A epidemia do hoje convertia os ouvintes em cacos espalhados pelo mundo. Os que falavam não ouviam, os que ouviam não falavam. Mas ali, ali, entre o gato e as companheiras/os havia alguém que escutasse, pelo menos, o gato. Para mim não importava que o gato só ouvisse e não falasse, pois muitos falavam e nada diziam. E naquele tempo cheio de terra arrasada e pedras voando por sobre as calçadas, me sentia confortável em ficar ao lado de alguém que não pedia nada em troca.

A atitude do gato, justa, honesta, começou a contagiar o coletivo. A solidariedade, que nos tempos duros, passou a ser apenas palavra escrita, extrapolou as linhas, extrapolou o gato e virou regra. O apoio mútuo não era uma frase num adesivo. Precisariam ouvir. Precisariam fortalecer-se. Precisariam fazer o que era preciso fazer: mas juntos.

Ninguém ligava mais para os gastos com o felino. A vida andava. Companheiras distantes se viam mais vezes. Companheiros duros passaram a chorar. Os mais novos tinham contato com os mais velhos. Os mais velhos aprendiam com os mais novos. As vizinhas e vizinhos contavam histórias dos seus próprios gatos e gatas.

Na segunda ou terceira semana, mas podia ser a quarta, o gato inesperadamente voltou a comer. Pepe avisou, mas foi Ricardo que dera a notícia, oficialmente. Depois do terceiro, do quarto, do sexto e do décimo e quinto dia, o gato saiu da letargia. Andou de um lado para o outro. Esnobou a assembleia mais uma vez. Parecia irracional, mas alguém propôs uma salva de palmas ao gato enquanto o gato dormia se espreguiçava perto de uma caixa de papelão. A esperança voltara. O centro comunitário voltou a se comportar como um relógio, mas o essencial permaneceu lá. No intervalo do café, Ricardo recuperando-se de uma agressão policial na última manifestação, mancando, pôs café no meu copo e me disse com firmeza:

Estrangeiro. Isso é muito triste.

O que é triste?, perguntei.

– Gente que olha um felino e só vê um gato.

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