Arquivo da categoria: panfletos poéticos

A dignidade é silenciosa

Rafael Vendetta

Baseado nos rascunhos de um exílio

A dignidade é silenciosa. Hoje eu a vi, num sorriso de uma criança, numa horta comunitária no fundo de um quintal. Numa rua com 20 cachorros sujos e maltrapilhos, num mate passado de mão em mão, na verdade sincera de quem vive nas franjas de uma máquina de moer gente.

Mas a dignidade, como eu disse, é silenciosa. Ela chega no sorriso de um igual, na piada pela manhã (em meio a escombros), nas mãos calejadas de quem amacia o pão que será dividido no amanhã, sem saber se haverá pão ou amanhã suficiente para todos os iguais.

Eu caminhei por entre ruas de barro, com a terra arrasada da América Latina (criando estrangeiros/as em ritmo industrial) enfeitando o fundo da minha memória e me pareceu que todo o meu pretenso e orgulhoso sofrimento era apenas um esporte entediante. Aquela coisa, aquele estranhamento que me parecia horrível, só funcionava nos labirintos da cidade, no conforto do umbigo industrial.

Quando eu fui mais ao fundo, mais além do que a superfície pode me levar, eu vi a dignidade nascer da pobreza, como uma rosa nasce nas fissuras do concreto.

Eu olhei para a dignidade e vi que não havia uma fissura no meu coração, que era preciso ir até o fundo para se buscar aquele feixe de luz que iria me levantar no outro dia, com um sol e a dignidade dos justos me dizendo para seguir.

Naquele breve momento, senti-me um igual e esqueci que por aqueles dias eu era um estrangeiro. Obriguei-me a seguir e entendi que sentir-se estrangeiro fazia-me caminhar e buscar meus iguais.

dignidade

buscar-meus-iguais

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A justiça entrou em campo

Rafael Vendetta

 

Amarildo meteu o primeiro gol no Brasil.

Cláudia, arrastada pela viatura da PM, recebeu a bola e fez o segundo.

Operários mortos na construção dos estádios fizeram o terceiro.

Luís Felipe, morto pela política de segurança pública do governo federal, chutou e o goleiro aceitou.

Hidecki recebeu livre e enfiou a bola para dentro da rede.

Manifestantes intimados a depor, detidos, presos pela ditadura padrão fifa meteram uma bola no ângulo.

Movimentos sociais, comunidades removidas, organizações políticas que foram às ruas contra a ditadura da FIFA sacramentaram a goleada.

Hoje a justiça saiu das ruas e resolveu entrar no campo.

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A Pedra e a Carne – O Cotidiano

Rafael Vendetta

Quando eu disse que viver com o atrito entre os dentes e a realidade não era fácil, metade da sala riu (neuroticamente), a outra metade ficou em silêncio. Havia um mal estar no ar que não combinava com a decoração daquela firma. As paredes salmão, o café e os biscoitos na mesa. Tudo escondia a negação que ia explodir a qualquer hora. Podia ser o Joel entrando com uma metralhadora no setor de RH. Ou, a firma poderia sofrer o vandalismo do mercado financeiro na próxima primavera, pois uma declaração infeliz do subsecretário de assuntos estratégicos da ONU no Oriente Médio poria tudo a perder.

Outra opção eram os chineses, comprando mais ferro e coragem do que podiam. Mas tudo poderia seguir como sempre foi e algum dia, a verdade estouraria na cara daquela gente, no fim da tarde, ou no meio do almoço. Não faria diferença. Eu avisei uma ou duas vezes, mas o que mantinha aqueles elos da corrente unidos, era uma aposta perdida no futuro: tudo ia melhorar. “Aqui é temporário”, diziam. “Com a experiência adquirida aqui, posso concorrer a gerência no ano que vem”. Eu sempre dizia que não se devia esperar o que não se pode agarrar com os dedos, mas ninguém, ninguém me escutava. Eu dizia que era tudo areia fina, escorrendo nos dedos. E todos continuavam a andar em círculos até os feriados que antecediam o natal.

Mas no meio da tarde, um passarinho resolvia voar diferente e os outros resolviam segui-lo, por hobbie. Ou podia ser uma explosão emocional no fim da tarde, que colocaria combustível no meio da rua, até que centenas de pessoas indignadas, marchariam até a delegacia de polícia local, exigindo que os carniceiros saíssem do bairro.

Logo se via as chamas no fundo da avenida. E a beleza das vidraças quebradas contrastava com a harmonia do silêncio. No meio da tarde um beijo e uma greve.

A pedra e a carne se encontravam. Nas pedras voavam os sonhos. Na carne a utopia do desejo e a fuga do destino da máquina.

E o futuro?, perguntavam na saída do emprego.

O futuro eu não sei respondi, mas morrer com um escritório na cabeça e nos braços não é digno de alguém que não sabe onde começa a pedra e onde termina a carne.

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A Pedra e a Carne - cotidiano

A Pedra e a Carne – cotidiano

Professores fudidos do mundo e a ditadura do temporário

Rafael Vendetta

Estou esperando, como muitos outros fudidos e talvez numa condição muito menos fudida dos que me antecederam ou dos que agora estão aqui, o emprego estável desde 2000 (que me livraria da vida fudida) quando me formei (no início do verão de 1999) no segundo grau. Parei pra pensar e vi que já se passaram 13 anos de ilusões da ditadura do temporário e que já era hora, hoje, depois de uma reunião de seis horas, de encarar a coisa de frente.

Mas que coisa fudida esse mundo.

De lá para cá, só bolsas (algumas escrotamente irrisórias), empregos temporários, contratos de ocasião, bicos ou filhasdaputagem do tipo, “depois disso você vai ter um salário decente e aqui é só uma fase”. Com o diploma de graduação não tive muitas ilusões, porque todos os meus amigos que se formaram em humanas/afins passaram pela via crúcis de ficar desempregados  com o papel na mão durante meses (ou até anos), ou na melhor das hipóteses, vagando entre escolas precarizadas (que infelizmente viraram escolas temporárias para a maioria deles) que não eram o emprego “permanente”. Mas mentira, a gente sempre tem ilusão, porque ilusão é a base do sistema fudido que mói gente como carne no moedor.

Alguns professores decidem fazer mestrado/doutorado, porque segundo o mercado de trabalho, com mais “educação” “agora vai” e alguns vão se iludindo numa compensação meio fudida, onde preferem viver mal mas poder citar mentalmente duas frases de Nietzsche na fila do sacolão. Os que estão em escola particular me falam: “eu quero sair”, o que estão na escola pública, esses fudidos que apanham na rua com borrachadas de alguém que ganha mais para bater do que aquele que apanha para ensinar, tentam melhorar o que sobrou do resto dessa coisa fudida que chamaram de educação. Que vida fudida. Que educação fudida. Que borrachada e gás lacrimogêneo fudido, que dói mais no coração do que no corpo. Que merda de sistema fudido e ruim. Que capitalismo de merda, que protege os ricos, mata os pobres e tortura os que sobrarem.

Nós não somos pessoas vocacionadas. Para o inferno com a vocação, os santos, a visão missionária que nos diz que escolhemos uma “missão” e que temos de aceitar os percalços da escolha. Parceiro, eu não escolhi merda nenhuma. Foi esse sistema que me escolheu. Foi ele que escolheu fuder os/as professores/as, os camelôs, os sem-teto, os sem-terra e todo/a aquele que se revolta. E eu, nesses treze anos entre empregos fudidos, desempregos fudidos e militância fudida, participando de reuniões de fudidos/as esperando tudo melhorar, mas os canalhas trabalham em ritmo industrial e nós, as desgraçadas e  desgraçados do mundo somos obrigados a fazer a vida e a luta em ritmo artesanal.

Meus amigos que estão na pós-graduação e não compactuam com esse sistema fudido vão seguindo passando por percalços típicos de fudidos, mas falta-lhes, que pena, a boina, o martelo e a mão suja de graxa, ainda que sejam uns explorados de merda, que produzem números para um país de fudidos, para um governo fudido, produzindo teses de fudidos que ninguém vai ler. E ainda assim, tem uns fudidos que resolvem chamar a gente de privilegiado, academicista, pequeno-burguês e tudo o que é certo por um lado, se pensarmos nos fudidos que fecham fileiras com os inimigos e os bajulam com verbetes acadêmicos, mas por outro lado é errado, pois não sabem, ou fingem não saber, que hoje o sistema passa por cima de você de maneiras e com ilusões diferentes. Mas o rolo compressor está lá, vindo para nós.

O conhecimento acadêmico até é bonitinho na sala de jantar da família durante aquela festa de natal, mas mal paga contas, não dá FGTS, não dá férias, não tem direito trabalhista e não protege de assédio moral. Somos precários/as, somos fudidos/as, assumamos esse fato, tal como, um gole de café amanhã de manhã.

imagesO que motiva essa galera fudida de continuar na ilusão de que o fudido vai passar é aquele emprego duradouro de relação candidato-vaga de  97 temporários para 1 permanente que se acotovelam esperando sua vez de serem permanentes-fudidos, mas sabendo, como eu agora sei, que o temporário e o fudido são permanentes num mundo de gente fudida como eu e você.

O fudido é uma condição do mundo que só vai sumir quando os fudidos se organizarem e pararem de ter ilusões sobre sua condição. Não vai melhorar amanhã, nem depois de amanhã. Eu pensei isso em 1999, 2000 e 2001 e nos anos seguintes. E ano após ano falavam que tudo ia mudar, mas porra, não mudou nada e se você está lendo isso aqui, saiba que daqui a 13 anos pode ser você, aqui, no meu lugar. E daqui a pouco eu morro com a mesma ilusão de merda sendo jogada com as flores no caixão, de ter uma coisa permanente num mundo de gente que trabalha para o precário virar regra.

Às barricadas da luta fazer da vida uma coisa menos insossa e fudida para tentar fuder aqueles que passam por cima da gente, nos vandalizam, nos depredam e nos aterrorizam todos os dias. A revolução não vai ser semana que vem, mas é hora dos/as fudidos/as pararem de perder tempo e ir direto ao essencial. É hora de encarar a coisa de frente.

O amor é classista

A maior ilusão do mundo é colar seus sonhos e desejos na roupa das pessoas. A gente faz isso o tempo todo e é um exercício bom e prazeiroso, que alivia o futuro como analgésico, mas num momento específico, os sonhos e desejos das pessoas colam na gente ou não seguem o roteiro previsto. E aí parceiro/a, fudeu.

Eu evito pensar em pesadelos. Mas eles também chegam. Às vezes, aquela estrada de paralelepípedos amarelos acaba no lugar errado ou toma um caminho que não é bem o que o coração do lado esquerdo quer tomar.

temakiA única coisa que eu aprendi, e demorei 30 anos para aprender, foi que a gente sempre acorda no dia seguinte. Quando tudo dá merda, a gente lembra que sempre vai acordar amanhã (e quando não acorda, foda-se, isso não vai fazer diferença). E outra coisa que eu aprendi, foi que você deve evitar gente que vive como se houvesse uma câmera da MTV filmando seu cotidiano. Não tem MTV na quebrada. Não tem MTV às sete horas da manhã. Não tem MTV quando a gente lava a louça do jantar, pega o Tiradentes-Penha às duas da manhã e não tem MTV filmando Vicente de Carvalho.

A dor é universal. Mentira. A dor é maior para quem sofre mais. Universal é a mentira, Universal é a igreja. A dor é específica, de cada um ao que é seu e isso é o que basta. Na única vez que eu pensei que podia dividir Vicente de Carvalho e meus paralelepípedos amarelos cheios de adesivos de expectativas eu caí na maior cilada do mundo. Aquilo lá é só meu e é mais complexo do que a Europa.

Quando disserem pra você que o amor é universal diga que é mentira. Todo iludido sonha com um chifre de unicórnio colorindo a disney dos playboys e entregando o sapatinho da cinderela numa aquarela high-tec da vida, mas a realidade diz o seguinte companheiro/a: há luta de classes até nos romances. Um dia a síntese chega.

Deixa a ilusão para a Europa. Aqui bukowski é boteco, psicólogo é pinga e amor é esquina. O amor nessa terra, resolveu ser classista só para contrariar o idealismo alemão e anglo-saxão do Leblon e da “Grande” Tijuca, aquele amor-isopor com Temaki no final de semana. O amor aqui sai pela porta da frente às sete da manhã com o carteiro entregando a fatura da geladeira. O amor aqui não tem hipocrisia moral invertida e não transforma vício em virtude. O amor aqui chega de trem e não gosta do insosso. O amor aqui é uma grande verdade esfregada na cara. Não finge ser bacana para combinar com a sua coleção de vinis e de sapatos. O amor aqui meu irmão é classista.

Da violência simbólica

Rafael Vendetta

Acabou. O horror sem a praia. A folha de papel está vazia e o café quente na mesa. Quando acordo não consigo dormir. Quando durmo não consigo acordar. O  desafio dos passos cotidianos. Sair de casa sob sonhos esmagadores sem caneta, pegar um ônibus, cumprir as tarefas, mastigar.

E aquele passado invencível na mesa, junto do pão e do café, esperando alguém abrir a janela, fumar cigarro e voar por entre os prédios desse bairro cinza. Não queria virar escritor? Mudar o mundo? Viajar ao redor do globo? E agora, nem consegue abotoar os botões sem olhar para o nublado do céu? O tempo está passando. Amanhã são trinta, quarenta, cinqüenta anos. E tem gente na fila, esperando o seu lugar adulto vagar.

Me responde agora: essa poesia consegue fazer a ferrugem falar? Todo mundo é escritor.  E se isso aqui está sem sentido é por que a tradução do estranhamento não é uma coisa que se possa resenhar com o livro do Bourdieu nas mãos minha querida. O que você esperava de mim? Eu sou como você. Só vim aqui para cumprir tarefas e esperar o tempo passar para morrer/viver. Não seja tão exigente.

Não posso ser maior do que sou. Olha a folha de papel vazia. Vou voar por aí amanhã, hoje eu espero que o mundo abra uma janela sem me perguntar porque diabos o tempo passou e eu ainda estou com esses sonhos recorrentes nos olhos. Me deixa em paz. Cuida da sua própria ferrugem.

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Meu eterno desconhecido que na camaradagem uma dia se foi

O rapaz era a mim quase um desconhecido. Mas ouvi chamarem-no de Camillo Berneri e tudo se explicou. Não fui eu que inventei, escutei da própria boca de um ferroviário da Catalunha, que entrara com um rifle nas mãos, naquele bar que não tinha nem conhaque, nem cervejas; era uma pausa, uma pausa diante o que parecia ser, a aparente eternidade.

 Em plena revolução de 36, a camaradagem deu lugar a impaciência.

 – Companheiro, se quer fumar fume lá fora!

 E foi dessa forma antipática e cretina que eu preferi ficar lá fora fumando o cigarro ao invés de me despedir do querido companheiro Berneri.

 Que se vá! Pensei, gritando alto antes do fim: um dia nos encontramos e resolvemos como libertários, essas cicatrizes do cotidiano. Tudo se resolverá.

Trabalho improdutivo

Rafael Vendetta

Essa foi num curso de formação marxista dos mais clássicos há alguns anos atrás. Diziam que o trabalho se dividia em produtivo e improdutivo. O chão de fábrica: era ali que deveríamos estar, ali que a contradição capital-trabalho se apresentava com todo seu esplendor. Era a chave da revolução, o momento onde o véu da sociedade burguesa se descortinava, e alguém podia dizer, voilá, achei o ponto de arquimedes!

Lembrei-me das minhas últimas profissões e comentei com Augusto: bilheteiro, técnico de suporte, digitador. Porra, eu não produzi merda nenhuma.

Calma, disse o João interpelando a nós dois, pior eu que fui atendente de telemarketing!

Que outro caminho nos resta?

Rafael Vendetta

Proudhon dizia que há cadáveres galvanizados que transitam pelo mundo. Traduzindo: gente morta que passa pelo mundo, com a vida escorrendo nas mãos, como areia, até morrer pela segunda vez.

Quem pretende tornar-se vivo só tem um caminho. Aqui eu paro de falar dos vivos que estão mortos. Prefiro dar voz aos mortos que estão vivos. Pocho Mechoso nos diz que “há uma só maneira de viver sem sentir vergonha: lutando. Ajudando para que a rebeldia se estenda por todos os lados, ajudando para que se unam o perseguido e o homem sem trabalho, ajudando para que o “sedicioso” e o operário explorado se reconheçam como companheiros, aprendam lutando que têm à frente um inimigo comum.” Essas são as palavras de Pocho, que nos chegam ao coração por intermédio do passado e da história. São os ombros dos gigantes.

Alberto “Pocho” Mechoso morreu lutando. Bárbaramente assassinado pelos seus algozes. Gente galvanizada, com medalhas, fardas e um hino nacional tocando ao fundo. Gente que construiu a utopia de um mundo pior.

Nós, por aqui, vamos lutando. Com a mensagem de Pocho inscrita nos nossos atos e sonhos. Com pedras que o tempo nos deu. “Por tudo isso, companheiros, quero que me guardem um lugar… por tudo isso não vou tardar em voltar”.

 Pocho. Aqui em nossos corações as pedras que estão inscritas, as que constróem nosso sonho, estão firmadas com o nome dos que nunca se foram. Estão inscritas com o lema dos que nunca desistiram. Assinam “Liberdade ou Morte” e escrevem o futuro com as palavras de um passado que joga adiante, os que hoje lutam!

Vidas ordinárias

Leandro cheirava cocaína e fazia análises demográficas no final de semana.

Isabele comia cheetos e transava spinning.

Luís lia Nietzsche e bebia cervejas.

Alice colecionava manifestações. Durante semana não fazia mais nada.