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A espera sem esperança

Rafael Vendetta

Esperar, mas não com gosto.

Não tinha mais fé. Perdeu a esperança.

Era ela. A que se fora. Não havia mais jeito. Ela partiu. Não voltaria. Pegou o passaporte e partiu. Foi num dia de semana. Tudo estava bem, mas tudo mudou. Ela deixou uma flor sobre a mesa. A flor murchou e morreu.

Eu não acreditei. Achei que voltaria. Guardei a flor até o último momento.

Então comecei a andar sem propósito. Eu buscava a mim mesmo, eu me buscava ali, andando de um lado para outro sem propósito, sem o propósito de gente que busca as bibliotecas; enfileirado entre aqueles livros com códigos, eu sonhava em me encontrar na terceira estante, com algum livro, onde eu pudesse ler aquele meu manual de instruções. Mas sempre pensava que ser amado aos 30 anos era como ser um livro velho editado em 1972 numa biblioteca grande. Havia livros que nunca foram abertos, que nunca foram pegos, mas estavam na estante, esperando algum leitor chegar. E se ninguém os pegasse, o que aconteceria? Sempre saía da biblioteca com essa sensação. Que aquilo não fazia sentido. Guardar-se para algo que nunca chegaria.

Nunca tinha falado isso para nenhuma bibliotecária porque me sentiria ridículo, mas aquilo era o verdadeiro sentido da vida, ali, espremido nas coisas ordinárias. Um dia tomei coragem e questionei: há algum livro daqui, que alguém nunca leu? Ela disse, olhando de soslaio: sim, muitos. E o que fazem com eles? Não jogamos fora. Guardamos até alguém ler. E se ninguém ler?, aprofundei.

Ela tirou os óculos, olhou para os dois lados, como se fosse falar algo proibido e disse: jogamos a coleção fora, mas isso depende de um parecer e um relatório depois do outro. É tão complexo, tão complicado, que fazer isso requer muita vontade de se livrar de um livro. Então optamos por deixar ele lá, na esperança que alguém irá um dia, lê-lo. 

Mas isso é enganar o livro, refutei. Ela fingiu indignação, bateu no balcão de madeira e disse que eu deveria culpar os leitores que nunca o procuraram. Nós só os guardamos, afirmou, pegando uma caneta. A culpa na verdade não é só do livro, nem do leitor, pra mim é de ambos, finalizou.

Não quis insistir. Mas antes de sair emendei: você acha que há livros que não tem sorte? Ela respirou, guardou a caneta por sob o balcão e finalizou: são como pessoas, entenda como quiser, mas agora eu preciso trabalhar.

Depois disso passei semana como qualquer outro. Era outono. Comprei tabaco, peguei dois livros (os que tinham sorte), dormi. Comi. Trabalhei, mas isso não era digno de menção. Fiz café no fim da tarde (como nós ruiva, isso sim é digno de menção), peguei sol na soleira do prédio e deixei o jornal na água-furtada. Era hora de comprar pão e beijar o gato, depois tudo se ajeitaria.

Mas isso fazia todos os dias. O que não dizia, é que vez ou outra havia a espera. Uma espera sem esperança. Que chegava sempre com o olhar perdido. Podia ser na quinta ou na sexta, tanto fazia. Mas o sentimento era o mesmo. Ninguém ia chegar. O tempo passava. Eu lia mais um ou dois livros, mas em determinado momento pensava que podia estar me comportando como aquele livro da estante, o que nunca seria pego, o que nunca seria usado, o que nunca seria lido, o que nunca despertaria interesse. 

Foi aí, que para completar o paradigma da bibliotecária, pensei que o leitor poderia não gostar do livro, mas seria muito pior, o livro não gostar do leitor, o que me acontecia frequentemente. 

Voltei para casa. A flor continuava lá. Ruiva, eu senti tanta dor ao olhar aquela flor. Foi como se eu me olhasse no fim da semana sem qualquer filtro. Tua mala sumiu. Minha mala estava vazia, o que me deu uma sensação de não poder me encher. Pensei naquele momento em encher minha mala de livros. Mas minha dor não passava. O gato se esfregava na minha mala vazia. Eu olhava para a mesa com aquela toalha de mesa branca e verdade com manchas do nosso melhor almoço. Aí me lembrei de tudo. Sentei e pensei em você, comendo maçã. Pensei em você jogando a tua roupa no abajour. Pensei em você se despindo daquele modo natural que só você sabia fazer, mas aí voltei a realidade. E começou a chover. E eu descobri que fiquei 6 horas sentado: no sofá, na mesa, no chão, no piso do banheiro, com a água quente me massageando.

Pensei em descer e conversar com Alonso. Mas ele só iria falar do evitável. Pensei em ligar para Anatole, mas ele iria me dar jogos de armar que eu não poderia suportar. Pensei em pegar meu passaporte e partir, mas eu não tinha uma estante pra ir. Eu não tinha teu paradeiro e mesmo que tivesse, não iria te procurar, pois entendi que você era minha espera sem esperança. Você não me queria, mas eu achava que era tudo uma fraude, que era apenas aguardar você mudar de ideia e que tudo iria se ajeitar: mas quanto? Talvez, essa fosse a mesma sensação que um livro que nunca foi pego sentira. Mas livros não se enganam, eu sim.

A flor morrera, mas eu tinha um gato para cuidar, muitos livros para ler e vez ou outra eu me despia, não de modo natural, mas era preciso seguir, mesmo assim, com uma espera sem esperança no peito. Era preciso seguir, com um sol me dando, o que nenhum sentido deu. Era preciso levantar, acordar, tomar café, ler outro livro, deitar e sonhar. Enfim, fazer tudo aquilo que não é digno de menção. Tudo aquilo que deixou de ter teu cheiro. Tudo aquilo que faz da espera e da esperança, coisas vermelhas que um dia a gente põe no peito e começa a achar que é só falta de sorte.

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Amigo porção-única

Rafael Vendetta

Hoje foi um fim de noite estranho. Encontrei Alonso e ele não me via há quatro anos. Ele disse que eu continuava com a mesma cara. Perguntei como ele estava e ele me respondeu que bem.

Nos encontramos num posto de combustível, mas nenhum dos dois tinha carro, só parei para comprar cerveja e ele já estava  lá, bêbado e feliz com um cigarro na mão; rodeado de amigos porção-única. Havia cheiro de gasolina e ele disse que teve um filho com uma romena há 4 anos atrás e que continuava bebendo, fumando e saindo. Eu não falei nada, pois preferia ouvir e eu não tinha nenhum filho, muito menos com uma romena e eu não queria nem fumar, nem sair, apenas beber e voltar para casa. E por um lado, eu achei que encontrá-lo era um pouco tedioso.

Perguntei se o filho dele estava aqui ou na Romênia. Perguntei por perguntar, porque no fundo, queria acelerar tudo aquilo e eu não sabia o que fazer com duas latinhas de cervejas na mão e eu não sabia nada sobre a Romênia. Ele disse que a romena levou seu filho, mas era seu direito e ele entendia, mas sentia falta.

Perguntei se ele ainda se encontrava com alguém do passado, e ele disse que com ninguém. – Estão todos espalhados, me disse. Ninguém tem mais tempo para nada. É uma pena, disse com um sorriso cheio de decepção. E apagou o cigarro na sola do sapato. Os amigos dele também não ajudavam. Eles apenas olhavam e conversavam entre si, como se nossa idade fosse uma doença.

Foi naquele momento que todos os amigos de Alonso sumiram, no fundo da nossa conversa. Eu abri uma cerveja e perguntei se ele sempre passava ali, pois já tinha comprado cerveja nos últimos meses e nunca o encontrei. Ele disse que não. – Hoje eu só quero beber, sair e fuder, me disse. E eu fiquei constrangido com o que ele disse, mas no final, achei que nem tanto.

Ele me perguntou se eu tinha casado. Disse que me separei, mas não critiquei o casamento.

Ele perguntou se era homem ou mulher. Disse que era mulher.

E ele falou que não era homofóbico, caso a resposta fosse homem. Eu sorri e aí ele encheu meu copo de cerveja e passou a mão no meu cabelo e eu me senti ligeiramente homofóbico. Meu celular tocou, mas era o alarme.  Pensei em tomar Vicodin, mas eu já tinha cerveja e agi com desdém.

Ele falou que estava ficando velho e que iria morrer. Ele estava mais magro. Disse que fez o que pode. Que saiu com muita gente, que bebeu muito, que se divertiu. E que ele foi o melhor amigo que pode ser. E que agora bastava. E que estava tudo bem. E que ele era feliz. Pensei que podia ser uma despedida, então valorizei aquele momento, que no fundo, não me dizia nada.

Eu não sabia mais o que falar. Perguntei uma ou duas coisas que não vem ao caso pois são irrelevantes. Falei que iria embora. Ele não protestou.

E eu segui. Não o via há quatro anos.

Despedi-me de Alonso. Retomei meu objetivo pois estava tudo tedioso. Era preciso agir com desdém, voltar, tomar vicodin ou beber a cerveja. Nada importava, além de seguir. Pensava no cansaço dos meus joelhos e como Alonso, me atrasava e tornava meu caminho na rua de paralelepípedos amarelos, pior do que deveria ser. Despedi-me de Alonso sem dizer nada e pensei que meus amigos continuavam assim, espalhados pelo mundo.

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Estão todos espalhados

 

Permita-se cansar

Rafael Vendetta

Cansei, mas quando digo isso quase ninguém entende. Uma parte acha que eu desisti.

E uma parte ainda mais maldosa (talvez minha, talvez de uma parte de quem me lê) apenas diz: “fraco, vou seguir e que fiquem para trás os desistentes”.

Mas deixa eu repetir, deixa eu repetir até para os super-humanos, que deixaram sua humanidade guardada no baú da cretinice heroica cheia de si mesma e saíram para esmagar e empilhar: cansar é diferente de desistir. Desistir é desistir. E eu nem acho que quem desista, desistiu de verdade, pois eu acredito no ser humano. Mas eu (fica a mensagem) não desisti. Acho até, que todos e todas tem o direito de desistir e de recomeçar. Mas esse é outro papo.

Cansar é diferente. Isso precisa ser dito. Cansar é uma arte. Nem todo mundo cansa do mesmo jeito. Eu sempre canso com uma xícara de chá e um nublado. Cada um cansa diferente, eu canso assim, e não vou te ensinar como você tem de cansar, mas eu te direi: permita-se cansar.

E quando eu digo que cansei, também não quero dizer: fugi.

Fugir é outra coisa. Fugir é diferente. Fugir é desistir de encarar. Desistimos quando aceitamos apanhar. E fugimos, quando não nos expomos para apanhar, jamais.

Cansar não. Cansar é saber quando e quanto estamos dispostos a bater e quando apanhar. Mas os neurastêmicos não entendem isso. Pois eles acham que viver é bater o tempo todo em ritmo industrial. Mas eles nunca saberão quanto estão dispostos a bater e a apanhar, pois agem como uma metalurgia e cansar, cansar é simplesmente uma arte artesanal. Quem quer apanhar, mesmo tornando suas arestas rígidas, trocou o coração por um carburador. E eu não tenho um carburador no peito e nem quero ter.

Não entendo gente que atropela cotidiano e a sensibilidade do mundo por um alto falante. É um preço alto (e errado) a se pagar. Definitivamente não entendo. Não sou nem pretendo ser, um sistema de combate

Vejo gente super-humana, que ama o mundo e trabalha por sua transformação, com tiques neuróticos e atropelos de fala ou super-absurdos recheando a sala  de estar. Mas aprendi, que neurastêmicos reunidos podem fazer um consenso virar mofo. Gente que gagueja no âmbito privado, mas passa um rolo compressor com a naturalidade de um caminhão. Não são todos, não serão maioria, mas vos digo: não amem o que ainda não construíram. Não amem o poder de uma possibilidade, sim, no fundo somos isso, possibilidades.

Não tenho as respostas (eu tateio como você) nem a culpa dos problemas do mundo. Não posso ter. E por que teríamos? Se é para agir prefiro que minha ação possa olhar nos meus olhos diante de um espelho e diga: chega, cansou. Pare tudo. Agora quero descer. Não dá pra seguir, pare, encontrei meus limites, não me massacre.

Não é seguindo que nos tornamos humanos, mas sim, cansando. Sim. Temos de cansar, temos de saber cansar, pois o que nos faz humano não é amando a humanidade em abstrato em detrimento do assassinato da nossa própria; o que nos faz humano é seguir, recuar, amar, mas sempre, agindo e cansando, com os olhos mirando o horizonte, mirando a utopia. O que nos dá consciência… é cansar.

Não somos polvos políticos, que agarram suavemente o mundo em seus tentáculos mecânicos e não desistem, até esmagar a humanidade em abstrato sendo corroída pelo líquido espesso de si próprio.

Não.

É preciso cansar. É preciso fugir, desistir e cansar para se fazer humano. Não estou fazendo uma apologia do que não se move. Percebam: apenas não quero mover com engrenagens no peito. Quero me mover como humano, sem engrenagens.

Não é fácil cansar. Há muitos juízes. Sei disso. Mas se não posso cansar não é minha revolução.

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cansarnosfazhumanasehumanos

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Sincero, mas não verdadeiro

Rafael Vendetta

Minha última mensagem soou muito pessimista. 

Escrevi meio cansado, soou natural, mas não verdadeiro.

Não sou pessimista. Citando Emil Cioran, o Nietzsche da Romênia (, eu digo, “Não sou pessimista, eu amo esse mundo horrível”. O amo, pois é o único que há. Não há outro.

Não há éden na terra. Mas aqui no Rio de Janeiro há um cidade na baixada fluminense, chamada Éden, na década de 70 não tinha saneamento básico, faltava água, faltava luz. Foi lá que um grupo de militantes da Ala Vermelha, resolveu fazer uma base durante a ditadura militar (“pois tem muitos trabalhadores, é estratégico”). A maioria foi presa, torturada ou morreu. Mas não se pode mais dizer, que os comunistas não foram ao Éden. Admiro a coragem e o pessimismo, juntos; de gente que quer mudar a si mesmo e o mundo, de uma tacada só. Que difícil. Isso não é fácil. Não é fácil agir contra uma máquina, nem lutar contra um moinho.

Estou de mudança, me mudei para longe de mim. E eu disse, copiando, parafraseando Jung: “a terapia não te leva a felicidade, ela te fortalece contra o sofrimento” fez tanto sentido.

Foi fazendo, ou melhor, pensando nisso, que eu me livrei de tudo o que me pesava. Aí veio a música. Aí passei no centro da cidade e vi um cara tocando Gaita de Fole. Depois peguei o metrô e um trio argentino tocou uma música em francês. Eu me repeti.

Lembrei da Maga do Cortázar. Coisas fantásticas, mas pequenas coisas tem acontecido.

Vou escrever amanhã. Acho que é isso o que eu quero fazer até o fim  da vida. Escrever.

Escrever é como andar de avião pela primeira vez. É uma sensação terrível, mas muito boa. É como se eu tivesse voltado há três anos atrás. Ainda estou lá sentado, escrevendo. E me sinto no avião. Olhando para o futuro, mas o futuro já chegou. E os papéis se inverteram (mesmo que temporariamente)

Ano que vem é ano de mudanças. Vou viajar.

Mentira, vou ficar aqui. Tirei férias de mim mesmo. Já perdi o medo (mentira, ainda tenho medo).  É um medo diferente dos militantes da Ala Vermelha, mas ainda é medo. Medo precisa ser respeitado. Falta de medo também.

Outra coisa maravilhosa que me aconteceu foi desacelerar. Continuo fazendo muitas coisas, mas não acelero mais. Isso é ótimo. Era exatamente o que eu queria. Só consegui comprar pão, tomar vinho, fumar e escrever.

Há duas semanas não lembro dos meus sonhos. Talvez a realidade tenha ficado mais colorida e os sonhos mais cinzas. O contrário é pior.

Estou aberto a coisas novas, mas não perdi o foco. As coisas fantásticas da vida. As pequenas coisas. Isso sim é o Éden. E eu não o julgo. Vou voltar para a minha aula. O texto é a “Guerra Total” de Eric Hobsbawm. Nada mais apropriado, para uma semana em que consegui ver o maravilhoso enterrado pelo cinza.

Te cuide…

Não me amo, porque quem se ama, para e morre; olhando para si.

Eu apenas sinto. Porque me movo, olhando para as minhas dobras e rugas, e quando sinto, sinto com a verdade nos olhos emoldurando meus sonhos que comecei. Eu vou continuar a escrever.

Vou-me.

Eu amo esse mundo horrível.

Vou escrever sobre isso, até o fim da minha existência. Com éden ou não. Continuarei a escrever. Pretendo ser sincero, mas não verdadeiro.

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ocinzaserajulgado

ocinzaserajulgado

Teu jeito de lidar com o mundo

Rafael Vendetta

Você foi uma idiota, eu fui um idiota. Mas somos idiotas diferentes e com motivos distintos. Eu devia ter te falado que te amava, mas nunca disse. Sempre insinuei é verdade. Traduzi meu amor com meu corpo, minhas cartas (sim eu ainda enviava cartas), meus beijos e minha ilusão. Achei que você se comunicava da mesma forma que eu, mas eu estava errado.

Você tinha seu jeito próprio de lidar com a coisa. Eu me movia e pensei em comprar os livros do Neruda. Eu te dei os livros do Neruda. Confesso que não soou espontâneo, mas eu nunca fui tão espontâneo. Na hora me pareceu a melhor coisa a fazer . Achei bonitinho (e o fiz de novo, em menor grau, achando que funcionaria). Eu sempre reagia assim, falando o pouco, o necessário. Nunca fui tão longe. Mas minha ansiedade te amava. Você não percebeu? Eu te liguei tantas vezes. Eram tantos emails. Quando você ia tomar café longe de mim, eu me controlava e fingia-me liberto, mas eu estava lá, esperando você chegar. Dê-me um desconto. Eu não te vi mais. E na época nem falei tanto assim. Não sou do time dos obsessivos, pois você transpirava a tranquilidade dos amores justos.

Pense bem. Eu precisava fazer daquele jeito. Você não me viu mais. Não me ligou. Não me explicou. Não mandou nenhuma carta. Você também não tentou, diga a verdade.

E no meio de tudo, alguém passou de bicicleta, uma bicicleta cinza; eu não tinha cigarros no bolso, mas pensei em fumar. O café estava frio e eu segui, segui com os paralelepípedos emoldurando os corações inscritos no granito. Mas eu só tinha areia nas mãos e uma tarefa imprescindível a cumprir: mudar o mundo.

Então, o que eu tinha, o que eu tive? Eu tive um ou dois momentos de amar e eu joguei as fichas lá (não me julgue). Você tinha a certeza de si mesma. Tuas dúvidas não eram como as minhas. Minhas dúvidas eram profundas; eu tinha uma raiz que ligava meu coração com o compasso da vida.

E depois? O que aconteceu? Eu não sabia o que fazer com o que sobrou. Nunca fui bom em lidar com cacos. Meu problema é com o que sobrou. Não sei fazer mosaicos. Sei que não dá mais para existir ou voltar com a mandala, os livros do Neruda, com aquele encontro casual na fila do jantar. Sei que tudo passou e desmoronou. Desmoronou a ponto de sim, e aí tenho certeza, de que mesmo dando certo, algo terrível aconteceria (mentira, podíamos ter tentado, de verdade). Você se enjoaria. Talvez eu (duvido). Um de nós ia desistir (ia ser você, como sempre). Alguém ia viajar (ia ser você). Alguém ia falar que não daria certo pelo telefone ou pessoalmente (foi você). E no final você encontraria alguém, alguém para lhe suprir e eu viraria memória. Uma justa memória. Bonitinha e na embalagem mas inútil. Não serviria mais. Não serve mais. Mas foi bom para ti. Estou aí, nesse pedaço de mundo. Mesmo sem querer.

E como eu faria?

Eu buscaria outra coisa, mas não, eu só tive uma oportunidade. Desperdicei, desperdiçamos.

Eu fui um idiota. Não tentei tanto, mas esse era o meu jeito. Se eu tentasse demais ia dizer aos quatro ventos que tudo terminou por conta da minha insistência. Como eu não tentei, digo agora, que poderia ter tentado mais. É um paradoxo. No fundo, acho que tudo deu errado, pois era você, era você que tinha de decidir. E você, no momento decisivo fraquejou. Você tinha seu jeito de lidar com o mundo.

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life

desperdiçou

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Sobre Abismos e coragem

Rafael Vendetta

Não consigo escrever nada mais. Parece que morri literariamente com meu cotidiano chato. Comprar pão, pegar ônibus, fazer a prova, dar aula sobre o imperialismo na Albânia. A vida anda, mas anda lentamente. Por isso escolhi sondar abismos. Vou largar tudo pra analisar abismos: é minha nova profissão. Sond[e]ar abismos.

Eu era bom com as letras. Ela não. Ela fazia bem com as imagens. Eu não.

Eu era meio cego com o mundo ao meu redor.  Eu não sabia bem como lidar com a vida. Eu era um merda [mentira-verdade-mentira-verdade].

A gente bebia. Juntos. Ela gostava de viajar. Eu gostava, mas não podia, pois meus pés fincavam raízes no chão, no chão. Era isso; basicamente. Eu era corajoso. Corajoso [Mentira] e pobre [Verdade]. Eu era um covarde [Verdade].

[Plano 2]

Você não percebeu. Se tivesse percebido, teria pulado do abismo. Eu me vou. Sempre, fui, como um trem, sempre fui [Mentira]. Eu nunca fugi no meio do caminho [Verdade]. Nunca. Eu sempre olhei para a lua e segui [Mentira]. Segui reto. Poderia ter ido, bastava um sinal [Verdade]. Mas não. Você não fez nada [Verdade]. Eu preciso de um sinal [Verdade]. Preciso. Como você [Mentira]. Mas você não deu [Verdade].

Fodase [Mentira] [Verdade].

As coisas seguiram. E eu segui […]. Eu aceitei, porque minha liberdade acaba sempre na vontade do outro, da outra, dos outros, desse mundo rubro. Meu mundo termina na sua coragem. E minha coragem termina na decisão do mundo. 

Hoje não há mais motivo para seguir; mas ainda assim eu sigo [Mentira-verdade]. Porque aquela busca repetitiva virou cotidiano. Não dá pra brincar de existencialista no verão [Verdade-mentira]. O país é quente, acabou a mordomia, acabou a ilusão. O termômetro da central do Brasil marcou 42 graus. É meio dia e eu tô fudido aqui, pensando na fiha da puta da vida. É impossível fingir no calor. Não dá pra pensar nos amores, nas decepções, e nem no cotidiano [Mentira-Mentira]. Somos raios solares e raios solares não vivem como animais.

Vamos aos medianos. Remédios de medianos: boates, universidades, expectativas, prozak. Ao gosto do freguês. Eram os falsos contrastes. Falsos contrastes segundo Ana Cristina, são pessoaszinhas, pequenininhas, que costumam se agigantar dentro do seu mundinho construído nas sextas-feiras. E se agigantam mais, quando há referências implícitas e explícitas ao seu mundo pequeno; seja num cartão postal de um filme estrangeiro, numa musiquinha francesa completamente desconhecida (pelos próprios franceses) ou num descanso de copo preso estrategicamente num bar de domingo, à 20 reais o bilhete de entrada para a inteligentsia. [Tudo mentira, acredite]

Mas há  um fundo do poço mais honesto; com gente  honesta que o frequentam. E quando isto acontece, a gente grita: é hora de ser feliz ou fazer o que a literatura e o vício pedem porra!: vamos tirar aquele abismo cinza para fora para brincar, o monstro está faminto. Vamos engolir o calor. Vamos esquecer a vidinha. Vamos superar essa merda toda. Esquecer os 42 graus. Vamos ser o que nascemos pra ser.

[Da memória da supernova] {tudo verdade daqui pra frente}

Quando eu entrei no bar, aquela portinhola parecia sufocante, mas logo a uma escadaria subiu ampla ao segundo andar, o único andar justo, que apesar das paredes curtas, transparecia um mundo de contrastes verdadeiros. Os banquinhos, o balcão, o freezer e a cerveja eram um simulacro.  Um lugar mal feito para gente mediana. Mesas de madeira, chão de ardósia. Era a mesma coisa.

Eu acabei ali. Num momento, aquele momento que o abismo cinza come contrastes, eu pensei: vamos engolir o calor. Vamos esquecer os contrastes. Vamos ser o que nascemos para ser. […]

Eu não sei mais, eu só lembrei do saxofone e de que queria acordar logo. Eu queria esquecer minha vidinha.

Vamos superar essa merda toda.

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Minha última sexta-feira no Catete

Rafael Vendetta

Acordei e fiz o que sempre fazia, lavar o rosto, escovar os dentes e depois colocar a água do café. Dormi mal, mas acordei bem. Porque o contrário sempre acontecia e eu estava feliz de ver algo mudando. A água do prédio tinha acabado e na noite anterior eu tinha jurado que ia sair de casa pelo menos uma vez, mas ia sair sem compromisso.

Depois de muitas semanas alguma coisa me aconteceu. Eu conseguia acordar e consegui dormir quatro horas. Na semana passada eu não acordei. Então fui até o Catete, aleatoriamente.

No caminho uma mulher entrou no ônibus (atrasado) e sentou do meu lado. Reclamou do atraso do ônibus. Eu não respondi, mas concordei com o olhar. Aí ela me perguntou se teve algum acidente. Eu disse que não, Ela respondeu que isso era um absurdo e que ela ia chegar na hora do almoço. Eu entendi, mas não disse nada, só apertei os lábios, fingindo empatia, levantei uns 10 minutos depois e desci.

Não sei porque, mas achei que o fato de estar de bermuda foi o que influenciou algumas pessoas a olharem pra mim. Isso aconteceu metade pela minha paranóia, metade porque o ônibus parou no semáforo e eu atravessei.

Quando eu cheguei no palácio do catete eu atravessei a rua e vi um cara tocando flauta. Achei uma merda, mas pensei que fazia parte do meu dia e também dos clichês.

Entrei na feira do livro, Fui sistematizando os estandes. Fui e voltei. Fui e voltei. Aí comprei o que queria. Em alguns estandes as pessoas não botavam fé em mim então eu desistia. Num outro estande o vendedor foi muito atencioso, então fui embora. Quando enchi o saco resolvi passear pelo parque. Passei rápido. Grávidas e um velho reclamando que entrou no banco e o segurança pediu pra ele levantar a camisa. Concordei mentalmente que aquilo devia ser desagradável. Pensei se eu ficaria assim como ele, reclamando do mundo com 70 anos de idade.

Dois universitários entregavam flores de papel pra todo mundo, mas não entregaram pra mim. Achei que era metade machismo deles, metade machismo meu.

Aí fui embora e entrei numa aporia filosófica. Comer no Catete era caro demais. Subi numa escada e  num prédio errado e reclamei sozinho da placa em frente a um boteco muito sujo. Acabei no Largo do Machado comendo uma esfiha e um kibe no Árabe. No caminho encontrei uma velha com uma bola azul na cabeça, no meio da praça. Na volta vi um cara com um terno preto, com um dread grande e meio embolado segurando uma guitarra. Não tinha ninguém escutando. Umas madames comprando cânfora e o cara esperava pra subir no palco improvisado.

Quando eu passei pelo palco vi uma barraca da Assembléia de Deus e uma galera com um sorriso na cara. Passei direto e confesso que fiquei com raiva. Mas lembrei do cara do dread e alguém passou por mim dizendo alguma coisa que eu não consigo lembrar.

Voltei pelo outro lado da rua. Voltei e comprei uns dois livros. Numa barraca a vendedora me perguntou se eu era professor. Eu respondi que sim, mas não sabia se ela ia exigir algum documento, mas já tinha decidido mentir. Quando eu voltei pro parque  do Palácio do Catete cheguei perto de uma fonte e um café que tinha sido reformado. Lembrei de uma conversa sobre a França e Paris e como aquilo tudo não me pertencia. Lembrei de ter ficado sentado no banco de madeira verde e lembrei de quando eu acreditei e joguei fichas e moedas nas fontes e na esperança vermelha, com as grávidas e as crianças passando.

Peguei o metrô e entrei na galeria mais próxima. Sentei e fiquei lendo – mentira – acabei sozinho, olhando pra quem passava e o que acontecia. A hora não chegava e eu resolvi comprar café. Na volta um sujeito que tinha uns 40 anos pediu café pra mim, pois não tinha almoçado e provavelmente nem vendido bala nenhuma. Eu dei metade do café pro cara e andei  me sentindo o pequeno-burguês mas burguês da tijuca, indo falar que tinha problemas que existiam mas não existiam. Me senti mais merda, quando lembrei que não almocei porque não quis pagar cinco reais a mais, enquanto o tio das balas não almoçou porque não tinha cinco reais.

Fiquei na galeria observando o mundo, mas quase não passou ninguém. Chegou um cara de jaleco branco e eu julguei que ele era médico. Depois veio um cara de blaser e roupa de médico e eu julguei que ele era médico. A galeria tava vazia e eu julguei que era a tal galeria fantasma que todo mundo da Tijuca comentava. O cemitério das lojas.

Aí vi que só frequentavam a galeria gente que tava doente. O único restaurante tava falido e fechado. Só me restou falar muito e ir embora. Fui andando pra casa (economizei uma passagem). E não, nem a terapia, nem o Catete, nem os livros, nem ficar sem almoçar adiantou muito. Eu eu só me lembrava da bola azul na cabeça daquela mulher e acho que foi isso que fez eu ter pensado sobre a loucura que é tentar ser você mesmo pelo menos uma sexta-feira da vida. E acho que foi, exatamente isso, que me fez brigar com o mundo todo naquele dia e ser mais eu de vez em quando, mesmo assim, desmembrado e fragmentado pelas ruas sujas e pequeno-burguesas das minhas artérias e do Catete.

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Morra com mais dignidade

Rafael Vendetta

Uma coisa que não dá, uma coisa que eu não aceito mais, digo, não aceito, pois meu corpo não aceita, e ele sabe que não aceita com a insônia, com aquela sensação de impotência, com aquela vontade de dormir, é essa coisa do capitalismo impor a você ser uma pessoa integralmente dedicada a alguma coisa o tempo todo.

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E se você se rebela de verdade, contra essa coisa de se dedicar integralmente a alguma coisa inteira e monstruosa, resta a você essa outra coisa sempre muito inteira e integral, de derrubar o capitalismo, cotidianamente, o tempo todo, integralmente. O tempo todo, todo tempo, integralmente. Dia após dia.

Não são lados iguais. Não, não são a mesma coisa. Esqueçam-me sofistas. Voltem ao jardim de infância da vida. Não é igual. Nunca foi, nunca será. São apenas lados da mesma moeda, mas são lados diferentes. São ladrilhos  coloridos que quebram da mesma forma, em contato com o chão. Moem. Moem sim. Quem diz que não mente.

Você só vai morrer com mais dignidade.

Professores fudidos do mundo e a ditadura do temporário

Rafael Vendetta

Estou esperando, como muitos outros fudidos e talvez numa condição muito menos fudida dos que me antecederam ou dos que agora estão aqui, o emprego estável desde 2000 (que me livraria da vida fudida) quando me formei (no início do verão de 1999) no segundo grau. Parei pra pensar e vi que já se passaram 13 anos de ilusões da ditadura do temporário e que já era hora, hoje, depois de uma reunião de seis horas, de encarar a coisa de frente.

Mas que coisa fudida esse mundo.

De lá para cá, só bolsas (algumas escrotamente irrisórias), empregos temporários, contratos de ocasião, bicos ou filhasdaputagem do tipo, “depois disso você vai ter um salário decente e aqui é só uma fase”. Com o diploma de graduação não tive muitas ilusões, porque todos os meus amigos que se formaram em humanas/afins passaram pela via crúcis de ficar desempregados  com o papel na mão durante meses (ou até anos), ou na melhor das hipóteses, vagando entre escolas precarizadas (que infelizmente viraram escolas temporárias para a maioria deles) que não eram o emprego “permanente”. Mas mentira, a gente sempre tem ilusão, porque ilusão é a base do sistema fudido que mói gente como carne no moedor.

Alguns professores decidem fazer mestrado/doutorado, porque segundo o mercado de trabalho, com mais “educação” “agora vai” e alguns vão se iludindo numa compensação meio fudida, onde preferem viver mal mas poder citar mentalmente duas frases de Nietzsche na fila do sacolão. Os que estão em escola particular me falam: “eu quero sair”, o que estão na escola pública, esses fudidos que apanham na rua com borrachadas de alguém que ganha mais para bater do que aquele que apanha para ensinar, tentam melhorar o que sobrou do resto dessa coisa fudida que chamaram de educação. Que vida fudida. Que educação fudida. Que borrachada e gás lacrimogêneo fudido, que dói mais no coração do que no corpo. Que merda de sistema fudido e ruim. Que capitalismo de merda, que protege os ricos, mata os pobres e tortura os que sobrarem.

Nós não somos pessoas vocacionadas. Para o inferno com a vocação, os santos, a visão missionária que nos diz que escolhemos uma “missão” e que temos de aceitar os percalços da escolha. Parceiro, eu não escolhi merda nenhuma. Foi esse sistema que me escolheu. Foi ele que escolheu fuder os/as professores/as, os camelôs, os sem-teto, os sem-terra e todo/a aquele que se revolta. E eu, nesses treze anos entre empregos fudidos, desempregos fudidos e militância fudida, participando de reuniões de fudidos/as esperando tudo melhorar, mas os canalhas trabalham em ritmo industrial e nós, as desgraçadas e  desgraçados do mundo somos obrigados a fazer a vida e a luta em ritmo artesanal.

Meus amigos que estão na pós-graduação e não compactuam com esse sistema fudido vão seguindo passando por percalços típicos de fudidos, mas falta-lhes, que pena, a boina, o martelo e a mão suja de graxa, ainda que sejam uns explorados de merda, que produzem números para um país de fudidos, para um governo fudido, produzindo teses de fudidos que ninguém vai ler. E ainda assim, tem uns fudidos que resolvem chamar a gente de privilegiado, academicista, pequeno-burguês e tudo o que é certo por um lado, se pensarmos nos fudidos que fecham fileiras com os inimigos e os bajulam com verbetes acadêmicos, mas por outro lado é errado, pois não sabem, ou fingem não saber, que hoje o sistema passa por cima de você de maneiras e com ilusões diferentes. Mas o rolo compressor está lá, vindo para nós.

O conhecimento acadêmico até é bonitinho na sala de jantar da família durante aquela festa de natal, mas mal paga contas, não dá FGTS, não dá férias, não tem direito trabalhista e não protege de assédio moral. Somos precários/as, somos fudidos/as, assumamos esse fato, tal como, um gole de café amanhã de manhã.

imagesO que motiva essa galera fudida de continuar na ilusão de que o fudido vai passar é aquele emprego duradouro de relação candidato-vaga de  97 temporários para 1 permanente que se acotovelam esperando sua vez de serem permanentes-fudidos, mas sabendo, como eu agora sei, que o temporário e o fudido são permanentes num mundo de gente fudida como eu e você.

O fudido é uma condição do mundo que só vai sumir quando os fudidos se organizarem e pararem de ter ilusões sobre sua condição. Não vai melhorar amanhã, nem depois de amanhã. Eu pensei isso em 1999, 2000 e 2001 e nos anos seguintes. E ano após ano falavam que tudo ia mudar, mas porra, não mudou nada e se você está lendo isso aqui, saiba que daqui a 13 anos pode ser você, aqui, no meu lugar. E daqui a pouco eu morro com a mesma ilusão de merda sendo jogada com as flores no caixão, de ter uma coisa permanente num mundo de gente que trabalha para o precário virar regra.

Às barricadas da luta fazer da vida uma coisa menos insossa e fudida para tentar fuder aqueles que passam por cima da gente, nos vandalizam, nos depredam e nos aterrorizam todos os dias. A revolução não vai ser semana que vem, mas é hora dos/as fudidos/as pararem de perder tempo e ir direto ao essencial. É hora de encarar a coisa de frente.

O amor é classista

A maior ilusão do mundo é colar seus sonhos e desejos na roupa das pessoas. A gente faz isso o tempo todo e é um exercício bom e prazeiroso, que alivia o futuro como analgésico, mas num momento específico, os sonhos e desejos das pessoas colam na gente ou não seguem o roteiro previsto. E aí parceiro/a, fudeu.

Eu evito pensar em pesadelos. Mas eles também chegam. Às vezes, aquela estrada de paralelepípedos amarelos acaba no lugar errado ou toma um caminho que não é bem o que o coração do lado esquerdo quer tomar.

temakiA única coisa que eu aprendi, e demorei 30 anos para aprender, foi que a gente sempre acorda no dia seguinte. Quando tudo dá merda, a gente lembra que sempre vai acordar amanhã (e quando não acorda, foda-se, isso não vai fazer diferença). E outra coisa que eu aprendi, foi que você deve evitar gente que vive como se houvesse uma câmera da MTV filmando seu cotidiano. Não tem MTV na quebrada. Não tem MTV às sete horas da manhã. Não tem MTV quando a gente lava a louça do jantar, pega o Tiradentes-Penha às duas da manhã e não tem MTV filmando Vicente de Carvalho.

A dor é universal. Mentira. A dor é maior para quem sofre mais. Universal é a mentira, Universal é a igreja. A dor é específica, de cada um ao que é seu e isso é o que basta. Na única vez que eu pensei que podia dividir Vicente de Carvalho e meus paralelepípedos amarelos cheios de adesivos de expectativas eu caí na maior cilada do mundo. Aquilo lá é só meu e é mais complexo do que a Europa.

Quando disserem pra você que o amor é universal diga que é mentira. Todo iludido sonha com um chifre de unicórnio colorindo a disney dos playboys e entregando o sapatinho da cinderela numa aquarela high-tec da vida, mas a realidade diz o seguinte companheiro/a: há luta de classes até nos romances. Um dia a síntese chega.

Deixa a ilusão para a Europa. Aqui bukowski é boteco, psicólogo é pinga e amor é esquina. O amor nessa terra, resolveu ser classista só para contrariar o idealismo alemão e anglo-saxão do Leblon e da “Grande” Tijuca, aquele amor-isopor com Temaki no final de semana. O amor aqui sai pela porta da frente às sete da manhã com o carteiro entregando a fatura da geladeira. O amor aqui não tem hipocrisia moral invertida e não transforma vício em virtude. O amor aqui chega de trem e não gosta do insosso. O amor aqui é uma grande verdade esfregada na cara. Não finge ser bacana para combinar com a sua coleção de vinis e de sapatos. O amor aqui meu irmão é classista.