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O dia em que o cachorro amarelo fugiu

Rafael Vendetta

Tudo começou quando o amarelo fugiu. Haviam coisas mais importantes para fazer, mas o cachorro fugira e parte do sindicato se mobilizou porque aquela parte, uma parte sensível, acreditava que ele também era parte de tudo aquilo e não tínhamos de esperar a revolução mundial da oitava sinfonia internacional para mudar o que estava errado ali, naquele momento. O amarelo era tão digno como qualquer outro e outra, apesar de dizerem e fazerem o contrário. A sede do sindicato tornou-se um ponto de encontro e não foi pela revolução. Aquilo de fato, não nasceu do nada. Tampouco fora o cachorro que criou aquela situação. Cada grama de açúcar contribuíra ao seu modo para aquela mobilização, espontânea e planejada, planejada mas espontânea. Haviam relações de anos ali. Tomara-se litros e litros de café, que poderiam encher um pequeno riacho de solidariedade, até que à tarde, Alaiana se moveu, com quilos de açúcar no bolso, pegou o guarda-chuva e disse com a força nos dentes que lhe era característica: vamos procurar o amarelo!

À partir daí uma rede de solidariedade tecida por anos a fio, foi cobrindo o bairro, com pontos frágeis porém honestos, que alcançavam cada um ao seu modo, espaços do cotidiano, hora por hora, como um radar sensível a cada movimento do bairro, onde aquela rede que começou com Alaiana (a mais ativa), foi se reproduzindo e ganhou os cantos e quinas mais escondidos. 

Alguém sugeriu que pusesse um cartaz e uma recompensa. O cartaz foi aprovado, já a recompensa virou alvo de debate acalorado que tomou uma assembleia semi-lotada no fim da noite. No fundo, existia a questão de uma suposta natureza humana, apesar de se tratar de um cão. Havia a questão se o cachorro iria ser encontrado por Rosseau ou por Hobbes, até que uma companheira disse em sua lucidez que isso não era fundamental. O velho Pepe sublinhou em alto e bom som:

– Botem o dinheiro que for, isso não importa, só acharemos o amarelo com apoio mútuo e solidariedade e terminou com um soco na mesa, sob aplausos e algumas pessoas chorando.

Pronto, a pendenga se resolvera à favor de Kropotkin, pois o que faltava não era definir a natureza do problema, mas a ação. Depois de alguns meses, já no meu limite crítico de introversão, onde eu me fechava numa concha (apesar de temer o mar) resolvi entrar naquilo de cabeça. 

Depois de três dias de muito trabalho, eu fui encontrar Melina e os demais, até que me disseram que o cachorro se perdera por um descuido coletivo. Meu mundo começou a girar. E tive vontade de despejar minhas frustrações na assembleia (quem nunca teve?), mas me contive e aguardei o desenrolar das coisas. Confiei no instinto de transformação do mundo e me entreguei (apesar de pessoalmente disparar impropérios ao mundo sempre que possível). E lembrei do dia em que o amarelo chegou ali. Cambaleante, frágil e acuado com toda a reação do mundo. O mundo lhe parecia hostil. O mundo tinha lhe dado apenas amarguras e violências cotidianas. O amarelo respondia na sintonia que lhe cabia. Mas isso foi mudando, dia após dia, a solidariedade foi convertendo o amarelo num bom ouvinte, num bom companheiro. Era a ação concreta das pessoas (não uma suposta intenção, que tudo absolve) que o fazia reencontrar-se.

Semanas antes nada tinha mudado. Eu estava lá, no mesmo lugar. Olhei para o amarelo e senti que ele estava triste. Mexeu a cabeça e girou os olhos para baixo. Falei com o velho: – O amarelo está apático Pepe?

E parecendo dialogar conosco, o amarelo olhou para o nada, apático, moveu o pescoço e dormiu. Pepe dizia que os cães eram assim mesmo, que também precisavam ter seus próprios abismos e que a vida era assim, talvez nenhuma revolução mude isso, sublinhou com o saco de café nas mãos. Seguiu-se um debate acalorado onde o velho tremia a colher em riste e alguém perguntando em espanhol se a revolução fecharia ou não os abismos. Mas de fato, o resultado era inóspito.

Comecei a me sentir culpado. Até que o amarelo, alguns segundos depois, começou a se coçar vigorosamente para desespero da teoria do velho. Lambeu os lábios e pôs se a espreguiçar nos meus pés, simulando felicidade enquanto eu dizia que Pepe estava errado e alguém lhe deu um apertão nas bochechas. Ali percebi que apesar da comemoração de fora para dentro, quem estava triste era eu e que Pepe falava, sem saber, de mim. 

– Ele me olha com tristeza, veja Pepe. O cachoro sonda algum abismo do mundo.

– Pare de falar besteira estrangeiro, o cachorro está cansado, como eu, porque é velho.

O amarelo dormia e eu ficava acordado. Ele sonhava ou gania durante o sono e quando eu encostava minhas mãos no seu pelo ele se movia abruptamente. Era um cachorro angustiado, tal como eu e passei a insistir nessa tese sempre que via o velho. 

– Pepe, o cachorro é meio angustiado…

– Ele só está cansado estrangeiro, ele correu por todo o quintal. Vá para a gráfica, pare de inventar essas histórias e batia na mesa com rudeza e um sorriso que fechava o meu dia.

A análise de Pepe e a minha virou um caso de esgrima pessoal. Alguns embates se seguiram, sem nenhum vencedor.

E quando eu dizia isto a outros do sindicato, riam ou não acreditavam que era possível existir um cachorro angustiado. “Pare de projetar no cachorro suas emoções, diziam, é só um cachorro”. Mas eu respondia, falando que não. Eu não projetava nada. Quem duvida que pode haver um cachorro angustiado no mundo? Vocês estão errados e não vêem nada. Só vêem o que querem ver: um cachorro que segue sua natureza. Mas e se esse não seguisse? 

Mas o mundo seguia. As vizinhas e vizinhos procuravam o cachorro dia após dia e nisso eu me deprimia, apesar de para o mundo, parecer ativo, altivo, quase que invencível com a marcha da utopia nos ombros. Mas no fundo não conseguia me mover. Estava paralisado. Tudo parecia lento e silencioso apesar de acreditar na transformação e na procura do amarelo de maneira decidida, cada passo doía enormemente… Com isso passei a ignorar a luta, a organização, os piquetes, o café e até mesmo as tarefas do cotidiano: varrer, cozinhar, fazer a barba. Nada fazia sentido. Até que um dia tive uma crise. Um cão cinza mordeu minhas costas. Tomei analgésico por três dias e a dor não passou. O cão cinza latiu dentro do vagão do metrô. Latia até tirar meu ar. Eu não aguentei e saí. Procurei o ar e sentei no banco verde. O cão cinza deitou do meu lado e dormiu.

Saí, sentia que ele me perseguia e arfava dentro da minha cabeça. O amarelo ausente, já não era capaz de me dar certo horário, apesar de eu nunca ter tido nenhum. Passei a ficar ausente de tudo. E um dia, na noite, lembrei de Boris Wladimirovich, um russo-ucraniano que exilou-se na Argentina. Falecida sua companheira, foi viver de vodka e anarquismo em outro país. Acabou num sanatório, não porque era louco (e quem não era?), mas porque ao se fingir de louco tomou a atitude mais sã da Argentina dos anos 20: executar o carrasco da Liga Patriótica que matou Kurt Wilckens, outro angustiado, que por viver a angústia de ter assistido o fuzilamento de mais de 1500 trabalhadores pelo comandante Varela, não se aguentou. Largou seu pacifismo e justiçou o assassino em massa, Varela. Virou um herói do povo, mas foi morto por um membro da Liga Patriótica dentro da prisão, que para se safar, fingiu-se de louco e foi internado num sanatório. Só não contava com as angústias de Germán Boris Wladimirovich. Aquele russo introspectivo que decidido, sob seu cinza particular, resolveu não só as suas angústias, mas a de toda a classe trabalhadora argentina numa única jogada, com um revólver dado a outro preso.

E eu, não sei porque diabos, passei a pensar em Boris junto a um cachorro amarelo e um cinza. Em cima de seu féretro. Mas aí voltava a realidade. O cachorro amarelo não estava lá. Tinha se perdido. “É só um cachorro diziam”. A Revolução é o mais importante. Mas a revolução não chegava nunca. E ainda assim, eu tinha angústias a resolver, tal como Wladimirovich. Deprimido passei a odiar o mundo, mas vi que odiava apenas a forma com que parte do mundo estava organizado. O problema não era com a humanidade, mas com certos limites construídos, certas barreiras que atingiam mulheres e homens, certas violências cotidianas e estruturais. Eu não odiava o mundo, odiava a maneira com que o organizavam à força, as instituições e as relações.

Eu passei a ficar amargo como o café que Pepe passava no fim da tarde. Minha vontade era irritar-me com as/os demais, mas me lembrei que o cão cinza pode chegar pra todo mundo e eu teria de me acalmar e seguir. Ainda tenho a revolução, pensei. No fundo de minha alma, agarrava-me a utopia, como o único pilar, capaz de sustentar a incerteza do meu ser. Nos dias mais terríveis, perdia-me num cinza constante e era tragado pela tormenta dos dias, mas ainda tinha uma aposta no acaso. No fundo no fundo, não tinha nada. Mas sabia que iria deixar esse nada, essa esperança no possível, semear o solo para os próximos estrangeiros e estrangeiras. Minha dúvida era saber se sentiriam o mesmo que senti e se esses panfletos e promessas, conseguiriam cobrir seus abismos.

Num domingo de sol forte, o que me deixava ainda mais nervoso, pois eu sentia, tal como um estrangeiro que definitivamente aquele não era meu lugar, Melina entrou com lágrimas, ainda que contidas, nos olhos. “Encontraram o amarelo”, ela me disse apertando gentilmente uma das pálpebras. Nos abraçamos como se a revolução tivesse a caminho e eu corri, com vontade de chorar, em direção a ele. Sentia no entanto, que algo cinza me acompanhou. Aquilo me mudara, talvez a todos e todas ali, nunca saberei, porque só tinha a minha medida. Com problemas de saúde, amarelo passou a dormir na minha casa e pronto, minha vida mudou. Diziam que tinha um problema incurável, talvez no coração. Num misto de pena e deliberação coletiva, mandaram o amarelo para a minha casa.

Mal sabiam que o cão cinza, nesse período, passou a latir quando as pessoas falavam comigo. Eu passei a não entender mais o que elas diziam. Eu me esforçava, mas ele latia mais alto. E aí eu fingia que estava interessado e saía, até ele se aquietar e lamber minhas mãos. O cachorro cinza aparecia na ausência do amarelo (quando ele dormia no banheiro por causa do calor) e eu tinha de inventar desculpas pra todo mundo. Dizia que tive um problema ou que fiquei doente (nunca dizia qual era a doença, eu não tinha coragem) e faltava as reuniões sistematicamente. Era culpa do cinza. Eu inventava uma desculpa que as pessoas aceitavam, porque elas me viam de maneira distorcida e isto ajudava elas próprias a não receberem a visita do seu próprio cachorro cinza. 

Quando perguntavam do amarelo dizia que ele estava bem (e estava mesmo). Ele comia, andava e dormia. Talvez amarelo sentisse falta de Pepe e de Melina, ou tivesse uma tristeza habitual, mas no fundo ficava feliz em receber as saudações de um ou de outra no final do dia, sempre por cartas. Mas quando perguntavam sobre ele, sentia que eu lembrava um pouco de mim. Não sabia onde eu terminava e ele começava. Tinha também vontade de me perder como o amarelo, sair sem entender o mundo. Talvez tenha sido por isso que o amarelo fugiu. Aquele lugar não lhe bastava. Ele precisava se perder e recomeçar. Para depois recomeçar, como fez Boris.

A espiral de estranhamento voltava. Vez ou outra, pensei que tinha a superado e o cão cinza tinha partido e só o amarelo tinha ficado. Mas tal como um mecanismo incerto, sentia arrebatar meu peito, cindir-me em pedaços de mim que digladiavam-se pelo meu controle. Nessas horas nada havia a fazer. Nada me emocionava mais do que olhar para uma paisagem e sentir que o estranhamento tinha escapado; ainda que por um momento breve. Era a consciência dessa incerteza, que me fazia amar as paisagens. Olhava-as, como se olhasse para uma esperança, que apesar de nada me dizer, me confortava com as linha sinuosas do céu verde e do azul.

Ah sim, eu ainda tinha o amarelo a lamber minhas mãos e a empurrar a pata como se me abraçasse, isso me fazia esquecer o cinza do mundo, por um breve (e importante) momento. Talvez ele olhasse a paisagem e se angustiara um pouco. Quando falei disso, ninguém acreditou. 

– Veja Melina, o amarelo olha para paisagem como se tivesse um problema existencial…

Todos riram. E eu falava sério. Como numa conexão íntima com o amarelo e o cachorro cinza (este último aparecia quando queria) passei a olhar para o mundo. Tal como Wladimirovich, tomado de vodka e utopia transbordando seu esôfago, entreguei-me a angústia do mundo esperando o momento onde eu deveria cumprir meu papel. Fazia-o com o ar sombrio e constante de sempre. Mas não era preciso ser triste para ser militante?

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Não era preciso ser triste para ser militante?

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Há dias que são inverno

Rafael Vendetta

Há dias que são inverno. Mas se eu disser isso, com todas as letras, sem disfarçar, as pessoas vão aparecer, vão me ligar, vão me encontrar e fazer aquele olhar de pena e isso, eu sinceramente não quero.

Quem quer isso, não sabe realmente viver um inverno. Quem deseja uma compaixão de isopor não é digno ou digna do inverno que se tem. Que vá viver com os medos medianos. Que vá fazer café no fim da tarde, mas por favor, não force um encontro.

Talvez os que resolvam escutar possam pedir para vestir-se de anjos platinados. Anjos que despertam uma vontade imensa de rir e dizer: burlesco. Mas é certo: vão logo embora e desaparecer. Esperam a vez de falar e somem, pois é essa a receita do cotidiano.

Quando se sentirem bem, ou melhor, quando eu me sentir bem, será a vez delas de se permitir sentirem-se “deprimidas”; e aí retribuirei a gentileza, com alguma ar de gratidão e um tacape emocional escondido debaixo do travesseiro. E o mundo seguirá, com a fatura passando de um lado ao outro. Algum dia, alguém irá cobrar e aí é que a coisa começa a ficar esquisita.

Se eu insistir ao dizer: “nada mudou, continuo no meu inverno” elas vão me mandar procurar um terapeuta. Vão jogar com as pílulas prontas e os comentários-diamante. Falarão: faça-amigos-se-divirta-vá-ler-um-livro-exercite-se-chore-procure-amigos-durma-mais-vá-no-cinema-você-é-muito-solitário-que-tal-comer-algo. 

Isso tudo é muito deprimente. Me deixe com meu inverno. Eu colocarei alguma coisa no seu lugar. Eu alimentarei meu inverno com cerveja e o vento batendo no rosto, no fim da tarde de domingo.

Eu poderia dizer aos que insistem em curar meu inverno: já fiz isso tudo, não resolveu. Não me imponham essas cores, chega de distrações. Vamos parar de flanquear e ir direto ao ponto. Parem de se evitar. Vocês querem resolver meu inverno, pois temem que o seu verão acabe.

Amanhã não estarei melancólico. Talvez semana que vem tudo passe. Ou mês que vem. Ou pode ser como no ano retrasado, em que larguei a melancolia dentro de um ônibus, depois de oito meses brincando de jogos de armar, pude respirar e olhar ao sol, quase como na primeira vez.

Foi como nascer de novo. Eu sentia que podia andar com aquele calor. Mas era um mormaço que logo passou e eu voltei ao mundo, com o ar de gratidão. Agora falemos a verdade. Quem vive sem invernos?

Chega de mentir. A diferença é que eu resolvi falar sobre isso. Mas não quero olhar de pena. Eu quero apenas que vocês vivam seus invernos sem autopiedade.  É preciso aceitar o que se faz.

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Éprecisoaceitarnossosinvernos

Éprecisoaceitarnossosinvernos

Amigo porção-única

Rafael Vendetta

Hoje foi um fim de noite estranho. Encontrei Alonso e ele não me via há quatro anos. Ele disse que eu continuava com a mesma cara. Perguntei como ele estava e ele me respondeu que bem.

Nos encontramos num posto de combustível, mas nenhum dos dois tinha carro, só parei para comprar cerveja e ele já estava  lá, bêbado e feliz com um cigarro na mão; rodeado de amigos porção-única. Havia cheiro de gasolina e ele disse que teve um filho com uma romena há 4 anos atrás e que continuava bebendo, fumando e saindo. Eu não falei nada, pois preferia ouvir e eu não tinha nenhum filho, muito menos com uma romena e eu não queria nem fumar, nem sair, apenas beber e voltar para casa. E por um lado, eu achei que encontrá-lo era um pouco tedioso.

Perguntei se o filho dele estava aqui ou na Romênia. Perguntei por perguntar, porque no fundo, queria acelerar tudo aquilo e eu não sabia o que fazer com duas latinhas de cervejas na mão e eu não sabia nada sobre a Romênia. Ele disse que a romena levou seu filho, mas era seu direito e ele entendia, mas sentia falta.

Perguntei se ele ainda se encontrava com alguém do passado, e ele disse que com ninguém. – Estão todos espalhados, me disse. Ninguém tem mais tempo para nada. É uma pena, disse com um sorriso cheio de decepção. E apagou o cigarro na sola do sapato. Os amigos dele também não ajudavam. Eles apenas olhavam e conversavam entre si, como se nossa idade fosse uma doença.

Foi naquele momento que todos os amigos de Alonso sumiram, no fundo da nossa conversa. Eu abri uma cerveja e perguntei se ele sempre passava ali, pois já tinha comprado cerveja nos últimos meses e nunca o encontrei. Ele disse que não. – Hoje eu só quero beber, sair e fuder, me disse. E eu fiquei constrangido com o que ele disse, mas no final, achei que nem tanto.

Ele me perguntou se eu tinha casado. Disse que me separei, mas não critiquei o casamento.

Ele perguntou se era homem ou mulher. Disse que era mulher.

E ele falou que não era homofóbico, caso a resposta fosse homem. Eu sorri e aí ele encheu meu copo de cerveja e passou a mão no meu cabelo e eu me senti ligeiramente homofóbico. Meu celular tocou, mas era o alarme.  Pensei em tomar Vicodin, mas eu já tinha cerveja e agi com desdém.

Ele falou que estava ficando velho e que iria morrer. Ele estava mais magro. Disse que fez o que pode. Que saiu com muita gente, que bebeu muito, que se divertiu. E que ele foi o melhor amigo que pode ser. E que agora bastava. E que estava tudo bem. E que ele era feliz. Pensei que podia ser uma despedida, então valorizei aquele momento, que no fundo, não me dizia nada.

Eu não sabia mais o que falar. Perguntei uma ou duas coisas que não vem ao caso pois são irrelevantes. Falei que iria embora. Ele não protestou.

E eu segui. Não o via há quatro anos.

Despedi-me de Alonso. Retomei meu objetivo pois estava tudo tedioso. Era preciso agir com desdém, voltar, tomar vicodin ou beber a cerveja. Nada importava, além de seguir. Pensava no cansaço dos meus joelhos e como Alonso, me atrasava e tornava meu caminho na rua de paralelepípedos amarelos, pior do que deveria ser. Despedi-me de Alonso sem dizer nada e pensei que meus amigos continuavam assim, espalhados pelo mundo.

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Estão todos espalhados

 

Cretinice escolar

Rafael Vendetta

Comprei minha primeira caixa de singles, aproximadamente em 1998. Foi a coisa mais cara que me lembro de ter comprado, à época. Juntei muitas moedas, completei com uma três semanas de dureza e levei de uma loja no Méier, que hoje não existe mais. Ainda tenho a caixa de singles, a sensação não, deixei guardada no fundo de uma mochila, que perdi dentro de um ônibus (madureira x méier). Comprei essa caixa num dia em que matei aula e essa é um das memórias mais carinhosas que tenho do período escolar.

Sempre matei aula sozinho. Demorei a ter coragem de fazê-lo, mas o fiz. Não só pela escola (que era cretina), mas pela maioria dos alunos (que eram cretinizados).

Foi isso que definiu meu caráter. O melhor lugar para matar aula era Madureira. Era um acordo secreto, que todos faziam, quando queriam se esconder. Mochilas e uniformes guardados na mochila, aguardando o sol abrir o dia, enquanto tudo seguia como sempre foi

Da estação de trem a escola, eu andava cinco minutos. Eu levava uma camisa por baixo do uniforme. Quando eu me enchia, ao invés de jogar flipper, eu saía dali, e pegava um ônibus para madureira ou para o méier. E às vezes, perdia meus minutos, catando gibis num camelô perto da escola, que vendia as melhores revistas. Eu gostava daquela banca e da sinceridade dos humildes. Eles não me julgavam.

A escola serviu para tudo, menos para aprender. Tudo o que eu aprendi aprendi com amigos ou com livros. A escola só me ensinou a ser cretino e o fato de ser aquele ambiente, um ambiente cretino, nunca combinou com o que eu realmente queria, que era acabar com a cretinice no mundo. Mas só desejei isso nos anos finais da escola. Ali fui entender, que aqueles cartões e catracas, que os inspetores e a disciplina de gado na descida e subida ao concreto da sala, representavam a preparação da prisão. Entendi tarde, logo depois de um professor bradar contra o imperialismo norte-americano. Aquilo me interessou; talvez não tanto, quanto a virada de 1999 para 2000, onde diziam que o mundo iria acabar. Todos nós sabíamos que tudo iria continuar como sempre continuou. Que os cretinos da escola, aqueles que oprimiam em grupo e em ritmo industrial, continuariam cretinos. Que os indiferentes continuariam indiferentes. E que os funcionários fariam o que sempre fizeram, que é fingir que fazem alguma coisa, quando no fim, ninguém se importava realmente. E apenas esperavam a hora de sair daquele lugar.

E de 1999 a 2000 imaginei, que uma porcentagem minúscula do destino, poderia realmente me dar um final de mundo. E quando eu imaginava o mundo ruindo, a primeira coisa que eu imaginei realmente que poderia ruir até rachar ao meio, era a escola. De todo o resto eu guardava algum carinho, que me evitava desejar sua destruição, mas a escola não.

No recreio eu costumava ir para a biblioteca. Fiz isso durante uns 4 anos. Foi ali que aprendi a ler de verdade, com a aspereza daqueles minutos tão insípidos e que distribuíam traumas para os anos seguintes. Na escola não aprendi a fumar. Nem a beber. Muito menos a estudar. Aprendi a escutar professores reclamarem de ser professores. E alunos reclamarem de ser alunos. Aprendi que o mérito era premiado com uma foto colada num papelão. E que uma nota baixa poderia significar uma ansiedade guardada, durante 40 minutos, que era o tempo que durava a minha ida, de ônibus, da escola a minha casa. Aprendi, nos anos em que se era obrigado a cantar músicas cretinas, que ficar calado durante muitos minutos lhe daria uma estrela verde, que você carregaria para casa, amassada, enquanto se acotovelava, para entrar pela frente do ônibus, ali, pelos seus 7 ou 8 anos de idade. Foi ali que aprendi que parte significativa do que estudava serviria para alguma coisa: mentira. Nunca serviu.

Foi ali, que comecei a perceber que  os muros da escola serviam para esconder o esgoto que vazava de fora para dentro.

Não sei onde foram parar os bem sucedidos, os cretinos e os desajustados da escola. Não me importo se eles chegaram até o pote de moedas no fim do arco-íris ou se hoje, tomam prozak. A pergunta é saber, se continuam cretinizados ou preferiram se tornar cretinos. Quero saber, se ainda conseguem dormir ou acordam como eu, pronto para o revide. Quero saber, se ainda acham que aquela merda com muros e grades altas lhes fez bem, ou se o estômago guarda as estrelinhas de cartolina, verdes ou azuis. Quero saber se ainda conseguem matar sua rotina ou fazem como eu fazia, há anos atrás, esperam um cataclisma, que nunca, jamais vai chegar.

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Permita-se cansar

Rafael Vendetta

Cansei, mas quando digo isso quase ninguém entende. Uma parte acha que eu desisti.

E uma parte ainda mais maldosa (talvez minha, talvez de uma parte de quem me lê) apenas diz: “fraco, vou seguir e que fiquem para trás os desistentes”.

Mas deixa eu repetir, deixa eu repetir até para os super-humanos, que deixaram sua humanidade guardada no baú da cretinice heroica cheia de si mesma e saíram para esmagar e empilhar: cansar é diferente de desistir. Desistir é desistir. E eu nem acho que quem desista, desistiu de verdade, pois eu acredito no ser humano. Mas eu (fica a mensagem) não desisti. Acho até, que todos e todas tem o direito de desistir e de recomeçar. Mas esse é outro papo.

Cansar é diferente. Isso precisa ser dito. Cansar é uma arte. Nem todo mundo cansa do mesmo jeito. Eu sempre canso com uma xícara de chá e um nublado. Cada um cansa diferente, eu canso assim, e não vou te ensinar como você tem de cansar, mas eu te direi: permita-se cansar.

E quando eu digo que cansei, também não quero dizer: fugi.

Fugir é outra coisa. Fugir é diferente. Fugir é desistir de encarar. Desistimos quando aceitamos apanhar. E fugimos, quando não nos expomos para apanhar, jamais.

Cansar não. Cansar é saber quando e quanto estamos dispostos a bater e quando apanhar. Mas os neurastêmicos não entendem isso. Pois eles acham que viver é bater o tempo todo em ritmo industrial. Mas eles nunca saberão quanto estão dispostos a bater e a apanhar, pois agem como uma metalurgia e cansar, cansar é simplesmente uma arte artesanal. Quem quer apanhar, mesmo tornando suas arestas rígidas, trocou o coração por um carburador. E eu não tenho um carburador no peito e nem quero ter.

Não entendo gente que atropela cotidiano e a sensibilidade do mundo por um alto falante. É um preço alto (e errado) a se pagar. Definitivamente não entendo. Não sou nem pretendo ser, um sistema de combate

Vejo gente super-humana, que ama o mundo e trabalha por sua transformação, com tiques neuróticos e atropelos de fala ou super-absurdos recheando a sala  de estar. Mas aprendi, que neurastêmicos reunidos podem fazer um consenso virar mofo. Gente que gagueja no âmbito privado, mas passa um rolo compressor com a naturalidade de um caminhão. Não são todos, não serão maioria, mas vos digo: não amem o que ainda não construíram. Não amem o poder de uma possibilidade, sim, no fundo somos isso, possibilidades.

Não tenho as respostas (eu tateio como você) nem a culpa dos problemas do mundo. Não posso ter. E por que teríamos? Se é para agir prefiro que minha ação possa olhar nos meus olhos diante de um espelho e diga: chega, cansou. Pare tudo. Agora quero descer. Não dá pra seguir, pare, encontrei meus limites, não me massacre.

Não é seguindo que nos tornamos humanos, mas sim, cansando. Sim. Temos de cansar, temos de saber cansar, pois o que nos faz humano não é amando a humanidade em abstrato em detrimento do assassinato da nossa própria; o que nos faz humano é seguir, recuar, amar, mas sempre, agindo e cansando, com os olhos mirando o horizonte, mirando a utopia. O que nos dá consciência… é cansar.

Não somos polvos políticos, que agarram suavemente o mundo em seus tentáculos mecânicos e não desistem, até esmagar a humanidade em abstrato sendo corroída pelo líquido espesso de si próprio.

Não.

É preciso cansar. É preciso fugir, desistir e cansar para se fazer humano. Não estou fazendo uma apologia do que não se move. Percebam: apenas não quero mover com engrenagens no peito. Quero me mover como humano, sem engrenagens.

Não é fácil cansar. Há muitos juízes. Sei disso. Mas se não posso cansar não é minha revolução.

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Amar é como um fusível queimado

Rafael Vendetta

Não se morre duas vezes, mas eu duvido que possa se amar mais de uma ou duas.

Há um mecanismo, como um fusível queimado que não te deixa amar mais de uma ou duas vezes. Essa é a meta. Gaste bem seu amor, pois é assim que será. E minha experiência é que não, não sabemos como gastar, gastamos em princípio, logo com uma ou duas pessoas erradas e quando a realidade cai, não se pode mais retornar ao que era antes. E quando a gente quer trocar o fusível, descobre que já saiu de linha.

Não adianta procurar naquele conjunto de lojas simpáticas de eletro-eletrônicos, tampouco pedir para a fábrica enviar, pois as portas e as oportunidades já se fecharam. Você perdeu sua chance.

A solução é perambular pelos sebos, lojas de antiguidade, antiquários e lugares velhos. E foi assim que conheci minha supernova, andando de tiara nos fundos da Praça XV, com aquelas mesinhas desmontáveis e uma coleção de vinis velhos, esperando amor. Ela me perguntou se eu tinha um fusível reserva. Eu disse que já tinha perdido minhas fichas e ela me ensinou a fazer uma ligação direta do coração com o mundo.

– Pode doer na primeira vez. Mas depois que funciona, você não tem mais problema com isso.

– Tem algum efeito colateral, perguntei?

– Comigo apenas um, parei de pisar nas linhas das calçadas.

No primeiro dia eu não acreditei, segui como um rádio antigo, com a supernova nos olhos, tocando Johnny Cash no meu coração até que li um anúncio no jornal, que indicava que havia um fusível vermelho e verde à venda entre o Catete e o Largo do Machado.

Corri pra lá e fui atendido no balcão. Perguntei pelo fusível, disse que era urgente, pois precisava amar de novo. Ele disse que acabou de vender.

– Mas era o último da linha, protestei!

– Eu sei disso, devia ter chegado mais cedo, retrucou.

– O meu ônibus atrasou, dei azar.

– Todo mundo diz isso. O amor também precisa de sorte.

– E quem comprou?

– Uma menina com uma tiara verde na cabeça.

Saí pelo Catete sem rumo. Era um dia nublado e ameaçava chover. Resolvi cortar caminho pelo parque até o horizonte da praia e meu telefone tocou.

– Seu fusível está comigo. Era ela.

– E funciona, questionei?

– Quem sabe?

Desligou.

Fui embora com o peso no coração, mas não era um peso, era um vazio. E quando a chuva caiu eu recomecei a minha procura, mas sabendo – em determinado momento – que procurar era inútil, quando se sabia que um coração que amou uma ou duas vezes era um coração com um fusível queimado.

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Sentido contrário

Rafael Vendetta

Eu resolvi mexer em papéis velhos escondidos lá no fundo do armário e da cabeça. Comecei a jogar tudo fora para a outra geração poder chegar e usar o espaço que lhe cabia. Pessoas mais jovens, mais rápidas, mais espertas e com uma fome de poder precoce que mereciam um espaço-premium na minha cabeça.

Tudo delas era realmente mais bonito e florido, os sonhos, as paixões, as viagens e até as camisas de flanela, pareciam mais jovens e interessantes e em breve iriam comer meus rins no happy-hour. Eu já era passado.

E não podia fazer mais nada do alto das minhas três décadas e meia, quase quatro, a não ser fingir experiência, quando o que eu tinha era uma vontade de involuir, regredir, voltar aos dezessete ou aos dezoito e tentar competir de novo com aquela gente que já tinha doutorado ou uma revolução nas mãos com vinte e seis anos e culhões de tungstênio importados da Europa. Eu não, eu era muito mais lento e pesado. Era como um cessna velho que voa com dificuldade gralhando como um pato e batendo as asas no final da pista até morrer e sorrir, explodindo no canteiro central.

Eu era um pato-de-foto. Abatido naquela competição de estadounidenses fortes, sulistas, com plantações de algodão, rotinas e rifles na mão.

Essas pessoas agressivas que andavam com um Nietzsche ereto no meio das pernas, prontas a sodomizar os passageiros no trem da história diziam em bom e alto som que chegariam a Lua em mais alguns anos e eu aqui, dando voltas no quintal de casa, jogando videogame com o liquidificador. Esses jovens fingiam falar português, mas cagavam em dinamarquês, neozelandês e quando queriam, ofendiam em esperanto.

Era uma geração muito faminta e suficiente que sempre apertava os botões certos. Não havia nada que não soubessem ou não tivessem opinião: da teoria dos fractais na República Dominicana a perestroika na literatura polonesa, essa sim era uma juventude farta de si mesmo, que moía o passado com os olhos sem expressão. E para isso precisavam moer, moer o passado, como mármore cheia de desprezo. O passado para aquela juventude era uma coisa terrivelmente injusta, pois no passado só há erro e traição.

Em pouco tempo iriam despedaçar você com a retórica nas mãos e fariam você correr até estourar os joelhos. Mas foi aí que eu resolvi parar. Foi na esquina, quando as bandeiras e os botões passaram, eu sentei no paralelepípedo bebi água e vi o horizonte se abrir. O sol se pondo e eu olhando para as pedras e para o mar. Eu voltei e andei ao contrário, mas eles já tinha me carregado, eles já tinham me levado para o fim da história e eu só pude, esperar e morrer sem direito a opinião, pois já tinha me enferrujado demais. Em algum momento que eu não me lembro, eu resolvi andar no sentido contrário.

sentido-contrário

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Proletárias/os do amor e da culpa

Rafael Vendetta

Vou tirar algo do estômago e você não vai gostar.

Eu vou te falar a verdade.

Eu finjo a maior parte do tempo. Se chocou? Então vou falar sua parte da história. Você também meu bem…Acha que meu cinza cai bem com seu marrom e verde por que diabos?

Fingimos juntos porque adoramos o cinza dos nossos corações. A-do-ra-mos.

Tratamos e trabalhamos a massinha de modelar da sociedade no nosso peito. Somos  proletários da culpa.

No meu apartamento há uma rede em todas as janelas. Quando as pessoas entram, eu digo que a rede é para os gatos, mas é mentira, é pra mim. E pra você, pra você não se jogar. Quando você entra, eu escondo as cartelas de rivotril no fundo do armário e os cascos de cerveja na área, onde ninguém pode ver, aquela parte do mundo, aquele esgoto.

Pensa nisso amor. Meu amor. Minha paixão. Enquanto você foge gastando milhas da Eurásia até o Butão, eu estou aqui, jogando War e morrendo. Mas a gente morre todo dia. E no final é igual.

Alguém lê jornal, alguém morre. Enquanto a minha campainha toca, alguém (você) viaja pra França; e eu aqui, olhando tudo com desgosto, e rindo da sua tentativa de trazer sentido para algo que eu juro, nunca teve nenhum sentido.  Pode correr, pode fugir, pode até sorrir e fingir que tudo está bem, que era isso que você queria, mas convenhamos. Convenhamos, na pausa entra a fé e o ceticismo: o castelo de cartas desabou. Nada mudou.

E você aí correndo e fingindo…  Que sempre desejou essa mudança permanente na sua vida. E o sol nasce amanhã, só com lençóis e cheiros diferentes. E eu estou aqui, comprando pão e pensando no imperialismo na Albânia.

Tenho sorte por ter te conhecido. Mas depois, paguei um terapeuta, que ficou quarenta sessões tentando tirar você de dentro de mim. Mas não adiantou. Quando eu achei que você tinha morrido, vi que você estava por sob os escombros. Eu fui colocando camadas por cima de você: Joana, Clarice,  a política, Isabel, o cheiro do mar, minhas traduções, a semiótica e Luana…

E aí depois veio a fase do não saber mais o nome das camadas, camadas de final de semana. E sempre que estas camadas acabavam eu me distraía com álcool ou cigarros.

Passou, e eu fui costurando outros amores, mas eles desmanchavam sempre que a chuva caía.

E sempre que ela caía, eu olhava teus olhos lacrimejarem afago e tristeza; e era neste ponto que eu fazia minha dor encontrar a dor do mundo, apenas por conveniência e sossego de saber que havia mais gente sofrendo muito mais do que eu. Eu andava à esmo pelo centro da cidade. Eu adorava ver os paralelepípedos molhados. Acabou aí a arrogância. Acabava tudo.

Eu comecei a viver de lembranças. E não era  muito justo. Aquele cinema; nunca me esquecerei. Aquela viagem. Aquele passeio. Ainda me lembro de toda aquela rua sabe; com todos os detalhes, com você procurando alguma música numa loja triste, que hoje nem deve mais existir; lembro daqueles livros que eu procurei e não achei, pois eu não procurava nada, eu esperava você. Era tudo teatro. Nunca vi um filme tão chato num cinema tão bom. Tão bom quando você me olhou no meio da sessão e me tocou para saber se eu era parte do filme, ou se algum de nós dormia acordado. Você tocou aquele pedaço de fantasia. Você viveu aquilo, e eu vi, senti, e correspondi. Superficial.

E todos meus amigos me alertaram que era loucura. Eles estavam certos, e por isso erraram todos. Eles não sentiram como eu senti; os pés na areia e aquele teu cheiro invencível. Eles não sentiram aquele som, aquele beijo, aquele encontro casual que parecia infinito como a cerveja no bar que acaba, que desenha o fim.

Eles não sentiram. Teu beijo, teu perfume, tua pproletariat-loveele, tua língua lasciva, e nem te viram acordar tão linda com os olhos que abriam a manhã. Era você no nosso apartamento, só nosso, como quem briga, morre, e nasce no amanhã. Era você que matou todas as outras. Você matou todas as outras e fez nascer um amor em mim que não cabe na mesa.

Na manhã esperava te acordar; se envergonhava.

Doparam-no diziam. Outro disse que era amor. Mas corrigiram-no: amor se planta. Isso é paixão, é paixão de chuva, que dá e some. Acabará rápido, outro comentou.

Tolo, jamais acabou. Jamais acabou, pois seguia de amor em amor, de ilusão em ilusão, de viagem em viagem. E quem ficou viajando perdeu. Perdeu pois só se ganha fingindo e você foi ser sincera, e ser sincera é fingir, e pra fingir precisamo estar certos e você por não estar certa, fugiu, fingiu demais e ficou viajando até morrer, farta de si própria. Você nunca acordou.

Por isso que eu fiz. Por isso que eu fiz e te larguei para o resto da vida e fui viver minha vida nesse meu apartamento, falando as coisas que você não gostava. Foi por isso que cansei de fingir e fui viver com vocês, pois, paixão é chuva que se dá, se planta e se come, e você certa demais de tudo isso, viajou até morrer, farta de si própria, fugiu. Você nunca acordou.

https://pseudocontos.wordpress.com

Regressão de Vasilli

Se a gente faz uma estatística da vida deve ter cuidado com os números que vai usar. Se a gente faz um balanço do passado, tome cuidado com a árvore que vai prender a si próprio para balançar o que já passou: cuidado para não prender o ponto de arquimedes no pescoço.

Depois de 30 anos a gente volta a ter 17.  E digo a gente, mas estou falando eu, porque na maioria das vezes, gente de 30 anos consegue ter trinta anos com TRINTA em maiúsculo, com um bom emprego, cervejas e uma consciência limpa no final de semana. Eu, eu só me lembro dos 17 anos. O terapeuta chamaria isso de “regressão”, eu chamo isso de “fudeu”, mas isso é linguagem formal. Eu continuo escutando nirvana e vou voltar a morar com meus pais. Você, com 17 anos quer sair da casa dos seus pais, mas eu sou você amanhã amigo. 

Na primeira primavera eu vou desabar com você me cercando. Serei tão frágil, como uma estátua de vidro. Você vai se plagiar aos 30 anos, você vai se plagiar como se tivesse 17, mas seus joelhos doerão e você beberá como Bukowski (com 30 você vai ter lido uns quatro livros desse idiota). Matei metade da minha vida procurando e esperando uma mulher que não veio: com 17 você vai desenhar essa mulher num caderno, mas acredite, ela não virá. Você sim, você vai vir com tanto pragmatismo e bebida, que talvez olhe para si mesmo e resuma a ópera psicanalítica a uma conversa de boteco. Você se autosabotará. E o mundo?

O mundo te trará como um arranhador de gatos, bicicletas repetitivas. O mundo te trará um moinho amigão. Você será Ana Cristina, voando por aí. Você vai trazer para si mesmo mais um número na estatística de vida.

Eu, por enquanto, vou olhar para o que é afiado e viver; até amanhã.

Contemplação

A organização das casas, o formato dos portões, a velocidade e forma dos carros, as pessoas indo de um lado ao outro, dia após dia; os botões, as tartarugas da indochina, os livros de pós-estruturalismo, os livros que negam o pós-estruturalismo, a gramática, alguém que resolve não pensar nisso tudo, o planeta terra, as geleiras glaciais, o deus cristão, a organização da poesia, pensar sobre o caos. É você.

No café da manhã aquela decisão: querosene! Querosene! Preciso de quarenta litros de querosene!

Queimou os livros e assou batata-doce a tarde inteira.