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Acumular amigos

Meus amigos. Cresci mais do que eles. Voei, voei. Como um balão de hélio, subi demais. Quando tentei descer, eles iam no caminho contrário como camelos. E eu fui me enterrando. Bem no fundo. Quanto mais eu me enterrava, mais amigos, virtuais, eu tinha. Quinze, vinte e seis, duzentos e dezenove, mil e cinquenta e três. Quanto mais eu acumulava amigos, menos eu os via. Não conseguia mais falar com eles.

Chegou um tempo em que era difícil saber como se fazia amigos. Chegou um tempo em que eu não falava mais nada e resolvi calar, porque falar era cansativo. E aí eu passava a noite ouvindo música suja com vodka ou jazz. E quanto mais eu me enterrava, parecia voar. Bem no fundo, eu sentia que esperava uma mão para me tirar da lama. A mão nunca chegou. Cinco ou seis minutos. Era o que me restavam. Eu tinha prometido que sobreviria. Sobrevivi a tudo: ao colégio, aos encontros estudantis, aos joelhos dobrarem com Vicodin no fundo. Sobrevivi aos almoços de família.

Pedir piedade era uma saída, mas não, não consegui falar com eles. Eu só queria falar e ouvir. Dignamente. Sem esperar a vez de falar.

Mas eu voava, e me perdia, enterrado, como um balão de hélio: pesado e sem rumo

 

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INTERTEXTOS (ADAPTAÇÃO À PÁTRIA EDUCADORA)

Primeiro deixaram de pagar os terceirizados
Mas não me importei com isso
Eu não era terceirizado
 
Em seguida fecharam as escolas
Mas não me importei com isso
Eu já era formado
 
Depois cortaram as bolsas da graduação
Mas não me importei com isso
Porque eu já sou graduado
 
Depois cortaram as bolsas dos pós-graduandos
Mas como sou estatutário
Também não me importei
 
Agora estão me precarizando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
 
Rafael Vendetta

Um gato anarquista

Rafael Vendetta

– Você é o dono do gato? perguntou o de macacão-verde.

– Sim, sou eu, falou com hesitação.

– Ele tem quantos anos?

– 12, talvez 13.

Como dizer que o gato tinha muitos donos? Como dizer a ele, que o gato não era de ninguém. Quase me passou na cabeça, dizer que o gato pertencia a si mesmo, mas isso também era falso. Pois isso significava a liberdade absoluta dos estetas, dos excêntricos, dos individualistas. E aquele gato não. Aquele gato era parte do coletivo. O gato não era um raio atravessando o vazio. Era parte de algo maior.

A clínica veterinária vazia. Tantas necessidades lá fora e ele lá dentro, com um gato. Combalido, o animal mexia o rabo, mas deixava os olhos encontrarem o vazio que esbarrava nas reflexões mais íntimas, no choro mais secreto. O semáforo perto da porta. Buzinas. Um vendedor de balas no sinal. Do lado oposto, grades, gaiolas e eu, estrangeiro, ali dentro.

Pedi pra ficar mais um tempo. O funcionário concordou e disse pra ficar a vontade. 

Lembrei do gato andando dentro do centro comunitário. Uma coisa puxou a outra. Vieram as flâmulas, as bandeiras, o canto da internacional e o gato, desrespeitosamente, passando no meio das pernas, durante o momento mais solene ou mais crítico da assembleia. E aí alguém dizia: “mas que gato lindo” e o que era tensão ou dramaticidade, se convertia na imagem de um gato de pelo rajado, interrompendo de maneira justa aquelas reuniões.

Lembrei o quanto aquele gato fazia sentido. Não era um gato comum. Quando comecei a chorar, como um pequeno-burguês qualquer, que às centenas, passavam naquela clínica, lembrei: era o gato do coletivo. Não estava só. Haviam centenas de ombros (muito mais proletários que eu) ali do meu lado. Mesmo se naquela sala só houvesse silêncio e cheiro de álcool isopropílico. 

Ricardo, um metalúrgico que costumava tomar café todo os dias no mesmo horário, como um relógio suíço e que sempre reclamava da falta do açúcar, ou que Pepe tinha deixado a água ferver além da conta, ou de como o transporte público estava insustentável, ainda que rangendo os canais do dente, dizia com sua voz grave tomando conta da cozinha: ONDE ESTÁ o estrangeiro?

– Está cuidando do gato, alguém gritou, com um parafuso e um copo de café marcado de graxa. Onde está o pão Pepe? 

– Em cima da mesa.

Enquanto eu deitado, no fundo de um dos cômodos, fingia dormir, o mundo girava.

– E porque ele cuida do gato, respondeu cuspindo açúcar e jogando a faca ao lado do pão? Mas e as assembleias, a greve? Não tinha reunião do núcleo hoje Pepe?

 – Não, é amanhã.

– Esse gato custa muito dinheiro, entra vaticinando um terceiro. Gatos custam muito dinheiro. Sou favorável que vivam soltos, na natureza selvagem.

– Porque gastam tanto com o gato? pergunta Ricardo. Não temos nem um bebedouro aqui e gastam tanto com o gato, essa é boa.

Porque o gato não come Ricardo, gritou uma companheira do fundo da cozinha. Está muito enfermo.

– Se está enfermo, encaminhou Pepe, com roquidão e a bengala de madeira batendo no piso sujo da cozinha: é porque está alienado. Todos riram.  Você está doido Pepe? Como o gato pode estar alienado?

– O gato não gosta de jaulas, nem prisões, falou Pepe. O lugar do gato é ao lado do povo. Eu entrei na sala e todos se calaram.

Ricardo com a dureza da metalurgia resmungou e olhou para Pepe fazendo um gesto com as mãos que dava a entender que o velho era um anarquista senil. Eu enchi meu copo de café e segui. Era hora de terminar o que deixei incompleto. 

No outro dia a reunião do comitê dos secundaristas. Um grupo de seis jovens carregavam uma mesa enquanto Pepe gritava: não arranhem o taco! Esse taco é mais antigo que Bakunin. Todos riram, mas levavam a sério a voz do velho. Eu os admirava por muitos motivos. Um deles era a paciência com que não faziam terra arrasada dos cabelos brancos de Pepe, cabelos brancos que acumulavam paixões perdidas, centenas de jornais operários e uma estranha mania de abrir a biblioteca sempre no mesmo horário. 

Depois de perguntarem a Pepe onde estava o felino, os secundaristas escreveram um manifesto de solidariedade ao gato e arrecadaram dinheiro no final da reunião do comitê, pois segundo diziam, a saúde pública era precária para os humanos, que dirá para os gatos. Me entregaram em mãos e disseram que temiam que o gato sofresse preconceito por ser anarquista. Melina, que dividia comigo a tarefa de preparar as comissões, dizia que o gato não constava nos inquéritos policiais e tudo seguiu.

Um companheiro pedira para colocar a foto do gato no jornal do centro comunitário, metade da assembleia protestou. A outra metade riu. Eu não tinha opinião formada. Substituir Domingos Passos? Você está de brincadeira, alguém disse! E abriu-se uma enxurrada de questões de ordem, vieram as defesas e a proposta derrotada, apesar de aguerrida, apenas constou em ata.

No terceiro dia, veio a cavalaria nas ruas. As prisões, os panfletos sendo distribuídos nas esquinas, os comitês de solidariedade. Mas eu não conseguia me envolver, deixei aos companheiros e companheiras as tarefas: já estou com o gato e a comissão de organização, já me basta!

E os comitês estavam envolvidos com todas as mobilizações. Eram tempos acelerados, tempos industriais mas o gato andava num outro ritmo, um ritmo artesanal. O gato parecia passado a todos, menos para Melina, que se revezou comigo na ida a clínica. Aquele ato modesto, evitou meu afastamento completo do comitê. E eu pude contribuir com o que tinha para dar. E o melhor que eu pude fazer, foi o suficiente. Por conta da piora do gato, mais ausências. Não conseguia chegar a tempo da reunião que definiria o próximo ato de greve. Vieram as críticas, principalmente dos setores de oposição.

Num piquete alguém comentou maliciosamente no fundo da assembleia: isso é coisa de pequeno-burgueses! Tantas greves! E cuida de um gato! Mas mesmo os companheiros e companheiras mais próximos, viram naquela ausência, um ato claro de indisciplina. Eram tempos difíceis. Precisavam de braços, de vozes, principalmente naquela assembleia, cheia de felinos velhos e novos, de todas as cores e tendências.

Ricardo, apesar da proximidade, pois sempre dividia angústias e pedia conselhos, perdeu toda a paciência e deixou um recado desaforado em letras garrafais. Escreveu com raiva e agia sob o sentimento de indignação coletiva do comitê: “a greve precisa de você estrangeiro, largue esse gato para lá!”

Fez questão de colocar três pontos de exclamação no final e prendeu o recado com uma foto de um revolucionário sandinista jogando um molotov. Era o suficiente. Eu entendi o recado.

Pepe que leu em voz alta o desaforo que Ricardo escrevera por cima da mesa de ferro, sem pensar, compartilhou da mesma revolta. Mas quando cheguei Pepe desarmara-se. O meu rosto transparecia uma melancolia revolucionária que Pepe já vira muitas e muitas vezes. A experiência do velho fez com que passasse ao meu lado. E a greve, acabaria no dia posterior. As prisões foram revogadas, a rua se acalmou, o ar de tensão na assembleia deu lugar a ponderação. Mas o gato continuava mal. E percebia, ainda que instintivamente que se aquele felino morresse, uma parte importante de mim e do coletivo morreria ali, junto de nós, sem pedir qualquer licença ao mundo.

Um comitê, formado por mim, Melina e Pepe, revezou-se no cuidado ao gato. O gato voltara ao centro comunitário.

Havia esperança. Havia utopia. O gato era parte daquele chão. Pepe estava certo. 

As adesões aumentaram.

No sétimo dia, um comitê de solidariedade ao gato se formou a contragosto do sentimento geral da oficina, ainda ressentida com as disputas da greve. Pepe fez o café, Melina fez uma comissão de solidariedade, composta por seis militantes e que se revezavam na aplicação dos remédios, na alimentação e na formação política do felino. Cartas chegaram de todo o país. Um comitê feminista organizou uma atividade de apoio ao gato. Os secundaristas confeccionaram uma bandeira para homenagear o retorno do felino. Os horários de visita alargaram-se. Até um botton foi feito em homenagem ao gato. Mesmo assim, o gato parecia que ia morrer. 

Não se mexia, o pelo opaco, os olhos fixos na parede e o movimento fixo do rabo causavam consternação geral. Eu, um estrangeiro que durante dias, meses, vivi melancólico, tal como minha chegada com as malas e a coragem nas mãos, passei a debater apenas consigo próprio meu frouxo agnosticismo. Mas resolvi aceitar o inevitável. Num ato de lucidez e coragem disparei: – companheiros, eu acho que o gato vai morrer.

Houve silêncio. E Ricardo que minutos antes, questionara as prioridades do comitê, foi até o gato e pôs se a chorar. O que me causou grande comoção, porque os nervos de Ricardo eram forjados no que havia de mais duro e ainda assim ele abraçava o gato como se fosse a última vez. Eu tive vontade de chorar e vi que Ricardo, tanto na metalurgia, quanto na luta de classes parecia negar na prática, a dureza de sua vida, de sua infância, de seus últimos dias, dedicando-se ao gato de maneira incomum. Eu, que semanas antes não conseguia nem fazer meu próprio café conseguia recomendar as tarefas e passei vinte minutos com Ricardo convencendo-lhe que o gato fora bem tratado e morreria dignamente. “A terra lhe será leve” companheiro. Ricardo foi aos prantos e enquanto passava a mão pela cabeça do gato, dizia com a voz rouca: “não se vá companheiro, não se vá. Você vai ficar bem”. No final, disse que eu me comportava bem. Que mesmo vindo de fora, eu era parte daquilo tudo e sempre seria.

Uma vizinha trouxe um remédio homeopático ao gato. Pepe, varria nervosamente a calçada. Melina, no intervalo da reunião do comitê de vizinhas, trocava a água do gato, lhe dava comida e fazia carinho. Eu passei a aceitar que o gato iria partir, para sempre. Era a nossa sina. Alguém teria de escrever o necrológio. O gato morreria com coragem.

Durante toda a semana, entre as reuniões do comitê, as assembleias e as tarefas cotidianas, não havia dia que alguém não visitasse ou perguntasse do gato. Ricardo, mais exaltado, dizia que o gato morria por conta da origem pequeno-burguesa do veterinário que o cuidou. Sugeriu ir lá e tirar satisfação. Mas eu lhe convenci de que ele fez o que pode: o companheiro é sincero, respondi. Confiemos. O importante é onde ele está, não de onde veio.

A mobilização em torno do felino acalmou a dureza da greve. As prisões separaram as companheiras e companheiros. As barricadas, os enfrentamentos na rua, a aspereza das assembleias, tudo aquilo esgarçara o que havia de essencial. Eu distante de tudo e ainda acossado pela dureza do mundo, o atrito dos meus últimos dias, comecei a viver em torno do gato. O gato, mesmo sem planejar, gerou apoio mútuo. Não era suficiente para cobrir meus abismos (ninguém cobre abismos com panfletos), mas já melhorava bastante. Voltei a fazer meu café e anotar meus sonhos.

Pepe improvisou um porta-retrato com a foto de Kropotkin e colocou no cômodo que o gato dormia. Uma das vizinhas disse que ia trazer a foto de São Francisco de Assis para pôr ao lado e Melina, vendo que tudo ia longe demais, pediu a Pepe que deixasse o gato em paz. Eu comecei a rir. Pela primeira vez em semanas. A epidemia do hoje convertia os ouvintes em cacos espalhados pelo mundo. Os que falavam não ouviam, os que ouviam não falavam. Mas ali, ali, entre o gato e as companheiras/os havia alguém que escutasse, pelo menos, o gato. Para mim não importava que o gato só ouvisse e não falasse, pois muitos falavam e nada diziam. E naquele tempo cheio de terra arrasada e pedras voando por sobre as calçadas, me sentia confortável em ficar ao lado de alguém que não pedia nada em troca.

A atitude do gato, justa, honesta, começou a contagiar o coletivo. A solidariedade, que nos tempos duros, passou a ser apenas palavra escrita, extrapolou as linhas, extrapolou o gato e virou regra. O apoio mútuo não era uma frase num adesivo. Precisariam ouvir. Precisariam fortalecer-se. Precisariam fazer o que era preciso fazer: mas juntos.

Ninguém ligava mais para os gastos com o felino. A vida andava. Companheiras distantes se viam mais vezes. Companheiros duros passaram a chorar. Os mais novos tinham contato com os mais velhos. Os mais velhos aprendiam com os mais novos. As vizinhas e vizinhos contavam histórias dos seus próprios gatos e gatas.

Na segunda ou terceira semana, mas podia ser a quarta, o gato inesperadamente voltou a comer. Pepe avisou, mas foi Ricardo que dera a notícia, oficialmente. Depois do terceiro, do quarto, do sexto e do décimo e quinto dia, o gato saiu da letargia. Andou de um lado para o outro. Esnobou a assembleia mais uma vez. Parecia irracional, mas alguém propôs uma salva de palmas ao gato enquanto o gato dormia se espreguiçava perto de uma caixa de papelão. A esperança voltara. O centro comunitário voltou a se comportar como um relógio, mas o essencial permaneceu lá. No intervalo do café, Ricardo recuperando-se de uma agressão policial na última manifestação, mancando, pôs café no meu copo e me disse com firmeza:

Estrangeiro. Isso é muito triste.

O que é triste?, perguntei.

– Gente que olha um felino e só vê um gato.

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1994

Rafael Vendetta

Eu queria ver o Nirvana em 1994. Eu tinha 11 anos e gostava de Ramones e por osmose, Led Zepellin. Aí o (ex) marido da minha irmã entrou em casa e disse que o Kurt morreu.

Aquilo soou como se um amigo de infância tivesse morrido. Foi duro. E eu tinha apenas 11 anos e me lembrava daquele dia como me lembro hoje. Já fui a enterros antes de 1994, mas de 1982 para 1994 só me lembro dessa morte.

Foi terrível.

Mas foi pior, pois foi o primeiro contato com o suicídio, logo cedo. Eu tinha motivos para acreditar que isso seria ruim; para mim…

Anos depois (quatro ou cinco) eu segui e um dia o mesmo cara que me deu a notícia da morte do kurt me deu uma bermuda (usada) muito foda. Ele não sabe mas essa bermuda foi importante. E depois ele vivia me dizendo e me sacaneando: “essa bermuda viu nirvana”. E eu ficava metade revoltado, metade satisfeito. Pois nada vem por acaso. Mesmo as decepções ou as ausências.

Meu tio, que viu quase tudo que existe de roquenrou dizia: “eu vi e achei uma merda!, ele tava doidão demais, não conseguia cantar!”. Eu acreditava, mas achava que meu tio estava exagerando. Depois que eu vi o show, uns dez anos depois – em vídeo – , achei que meu tio tinha razão e eu não, mas era por isso que eu gostava de nirvana: porque eu não tinha razão nenhuma naquela época. Ainda bem.

A outra memória desse período, é que um amigo do meu tio foi para o show do nirvana com uma bola dente de leite cortada ao meio na cabeça. Foi foda ouvir isso, porque eu queria ter visto aquele show, mas ninguém nasce na época que quer e acho que esse é o truque.

Eu tinha 11 anos. Depois cresci, sem o nirvana. Isso me fudeu. Mas o nirvana nunca saiu de mim, mesmo depois.

Mas eu comecei a sentir com isso e por isso. Foi por isso que eu comecei a escrever. Julguei importante dizer, porque tem gente que não dá valor ao ordinário. Eu dou.

Eu dou valor aquela bermuda verde e ao nirvana. Nada vem ao acaso.

https://pseudocontos.wordpress.com

avidacomumabermudaenirvana

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Meu compasso é o mundo

De segunda a quinta eu finjo ser eu.

Mas fingir ser alguma coisa que sempre se foi é das tarefa mais difíceis.

Por isso prefiro não ser nada. Prefiro seguir, seguir com a manhã, a espera do fim da tarde e a frente fria que nunca chega.

Cansei de ser a mesma coisa. Mas um dia a gente aprende e vai seguindo, apenas desviando do sol, olhando para as nuvens e sentindo o cheiro da chuva quando o dia acabou.

Depois de um crise de pânico no fim de semana do ano retrasado, fui a Yoga, Krav Magá, Homeopatia, Combates de rua e Terapia, tudo funcionou. Porque nesse mundo de frente fria que não chega, as coisas funcionam sempre, menos a frente fria, e ser o que não se quer, sempre derrotados pelo sol.

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No intervalo das estações e dos dias, os amigos e o mundo me enchem de tarefas. E num dia a revelação: o que muda minha cabeça não são as pessoas, tampouco o funcionamento cotidiano do mundo; o que muda minha cabeça é o frio, o calor, a chuva, o sol, aquela nuvem invencível que fecha os problemas na sua cabeça. O nublado é meu ponteiro. Esqueça essa coisa de indivíduo e sociedade, de cognitivo-comportamental, de abraço entre os derrotados, o que muda mesmo é o tempo. Meu compasso é o mundo. Mas aquele mundo que não se pode pegar, apenas sentir. Minha ampulheta é o frio, o calor, o nublado e a expectativa que a chuva lave o estranhamento preso no pulmão. E assim, possamos nos molhar e existir, do jeito que sempre foi, até que tudo recomece novamente, até a próxima estação.

Um setor do mundo que não se entende

A vida é mais gentil com os cínicos.

Uma revolução freudiana

Rafael Vendetta

Eu perdi Justine há dois anos. Ela era minha paciente. Cuidei de Justine durante doze meses. Hoje tomo 90 mg de fluoxetina, mas ainda sinto uma cefaléia crônica que ninguém nunca conseguiu curar. Sinto uma sensação de prazer ao subir no banespão. De lá eu sinto vontade de voar, voar, voar como São Jorge e o Dragão. Algumas pessoas me disseram: vai passar. E eu dizia: e o banespão? Outras me disseram: não, sua dor de cabeça, procure a igreja, pobreza não é de deus. E eu dizia: você tem plano de saúde? E aí ninguém dizia nada. Porque as pessoas sentiam culpa de ver as outras sem plano de saúde.

Mas eu segui, segui com a perda de Justine nos ombros, nos bolsos, onde dava para guardar. A psicóloga me dizia: “É preciso ficar atenta quando a melancolia é frequente ou tem grande impacto no cotidiano, criando dificuldades em fazer as atividades de vida diária, como se relacionar e trabalhar”. E eu dizia: você leu isso com o Goffman? Ela enrubecia e escondia o manual por debaixo da gaveta.

E eu continuava falando: Você quer que eu trabalhe? Eu também quero trabalhar. Mas a tv dizia que a miséria era do diabo e um dia, na Carta Capital eu li que meu pastor tinha 15 milhões guardados e nunca jesuscristou com ninguém seu parco salário de filho de deus. As pessoas abaixavam a cabeça e paravam de falar comigo.

Minha terapeuta, quando confrontada com esses fatos, respondia: você está racionalizando sua dor? O que significa essa sublimação pra você? Eu dizia: só quero saber se seu diploma vale alguma merda e se você se endividou como eu! Fora isso, tudo é teoria freudiana. Ela terminava a consulta e falava pra eu  anotar meus sonhos, mas eu sentia que ela tinha voado como uma borboleta e algum pedaço de mim, tinha grudado no seu pulmão de psicóloga e que ela nunca mais me atenderia do mesmo jeito.

No final do dia alguém dizia na fila do ônibus: revise sua medicação. Eu sussurava: peça para o governo baixar os preços! Mas uma voz na minha cabeça, uma voz gritava: sua cabeça não boa Justine, não tá boa… E eu dizia ao som da internacional: que a fluoxetina seja dada de graça aos pobres. Viva a revolução.

Depois desses dias turvos eu desisti, e fui caminhando por entre os escombros de um maio de 68 qualquer. Segui os jargões. Escrevi em todas as paredes do hospital com giz: “há dias que são cinzentos”.  Um dia um mulher me olhou com ar de reprovação. Era uma enfermeira. Ela questionou: essa frase é do che guevara?

Eu disse, não é do Camus. Ela se calou, deixou cair um termômetro, visivelmente nervosa e disse olhando os cacos: tome sua medicação.

Eu falei: vai ler o Estrangeiro.

Ela emudeceu e começou a chorar.

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Uma resposta a uma cantada na noite – Ana Cristina

Rafael Vendetta

Há meninos lindos, que desfilam pela calçada-faculdade-passarela como anjos que descem do céu com batom glacê, que por uma noite ou outra, lhe tocam bem no meio dos rins dizendo: você quer ***** comigo?

As palavras impublicáveis antecedem o estupro. Daqueles machos coroados com carros instantâneos, que atingem de zero a cem como um gozo precoce, que vem com uma arma, um energético e um advogado da Avenida Paulista que transforma um homícidio culposo numa lesão corporal leve no porta-mala.

Esses meninos lindos, que mamãe premiara com uma morning-star e uma armadura de oitocentos reais para caçar princesas com um gládio na pélvis costumam dizer na noite: gata, você é gos-to-za. Goxxx-tosa, com aquele filme pornô nas mãos.

Meu amigo, quem não gosta de *****? Mas e a relação de poder onde fica?

Presta atenção, quando você quebrar meu braço dentro de uma boate, eu não vou poder segundo as tábuas de Moisés reunir vinte mulheres e lhe dar, os hematomas e a correção justa que você merece. Eu terei de ir aos homens da lei. O delegado fão de redbull, o juiz machista e malhado, o promotor que luta jiu-jiutsu com seus colegas de barbárie. Entendeu? Eu vou perder muito tempo.

Pense bem meu amigo. Eu não vou entrar como uma ação e muito menos poderei ir a um jornal da Tv, editado por um aliado seu.

Olhe, pense novamente. Calcule com atenção. Porque da próxima vez que você fizer isso, eu terei de comprar uma arma. E aí você ja viu né? Mamãe vai chorar e nem botox vai salvar o seu enterro de caixão-fechado.

Ana Cristina, a resiliente

Fui naquela exposição, mas não consegui olhar nada minha querida. Por que? Pelas pessoas muito perfeitinhas. Corte de cabelo quadrado, roupinhas, brinquinhos, xadrez, e aquela coisa toda. Gente que não tem problema. Como assim? Está surpresa?

Escolher sanduíche é problema? Perder a vaga no curso de alemão é problema? Sujar o vestido de bolinhas é problema?

Não pudia olhar para os quadros, nem para as telas, nem para aquele parangolê gigante feito de silício, por que para apreciar a arte e a burrice alheia filhinha, é preciso se despir de tudo. De tudo minha filha.

Da dor no pescoço. Da ordem de despejo. De dormir num colchão inflável sobre os tacos de madeira. Do processo de seis laudas. De não ter toalha para se enxugar.

Sobreviver sem analgésicos e alargadores filha, não é para amadores.