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Quando acordamos

Rafael Vendetta

Acordamos e tocamos os nossos lábios. Depois passei a mão nos teus cabelos castanhos (sim, estavam castanhos) e você espreguiçou, deixando minha boca percorrer teu pescoço, enquanto os raios de sol entravam pela cortina.

A vizinha cantava ao lado e eu perguntei se era assim todos os dias. – Só quando ela está feliz. É isso ou o canário belga. Nos abraçamos por debaixo das cobertas e o tempo tinha parado. Eu não me importava com nenhum tipo de compromisso, meu compromisso era aquele abraço. Nossos olhos tinham se encontrado; tu com aqueles teus lindos olhos grandes e que me espreitavam até enxergando meus sonhos e que conseguiam me despir assim, de uma só vez e eu ali, costurando corações de papel imaginariamente. Recortando você devagar, enquanto encolhíamos nossos pés para dentro da coberta.

Tudo aquilo foi efêmero, mas preencheu de significado meus meses durante tempo o suficiente para eu saber que não era o budismo de banca de jornal, os combates de rua, a política internacional ou a teoria dos fractais que me davam sentido por aqueles dias, mas sim ruiva, te tocar, com a ponta dos meus dedos dançando pelas tuas costas, enquanto eu beijava teu corpo e segurava teus quadris com força. Tu colocava o café e eu esperava deitado, olhando para o teto, me escondendo do frio, mas pensando falsamente nas coisas que eu teria de fazer no dia. Era mentira. Eu fazia isso para acreditar que aquilo lá, aquele pedaço de mundo vermelho não era tão importante quanto eu achava, quando na verdade eu sabia que isso organizava muita coisa ao meu redor. Como uma núcleo de afeto que vai organizando as partidas de futebol, a ida na padaria, os sonhos, a vontade de sair e panfletar, os poemas escritos em algum banheiro ou aquela viagem no final do mês. Até o modo de fazer a mala, onde eu carregava como um estrangeiro meus afetos perdidos, voltava naquele dia.

Tu me perguntou se eu queria chá. Eu, embaixo do chuveiro, disse que não, só se fosse de hortelã. Tu voltava com a chícara nas mãos. Conversávamos sobre sobreviver, sobre qual era o melhor lugar para comprar hortelã, ríamos sobre alguma piada da noite anterior ou simplesmente fazíamos isso tudo ao mesmo tempo (embaralhados) enquanto eu mordiscava teu pescoço. Tu passava a mão na minha cabeça. Acordávamos para o mundo.

Era preciso golpear o cotidiano e a rotina cinza sem piedade. E fazíamos isso, exatamente quando esquecíamos da rotina e nos concentrávamos em nós. Era um segredo vermelho só nosso, que não era fácil de fazer, pois exigia dois espíritos livres. Isso era diferente de ter de acordar sozinho. Onde eu fazia café e só podia olhar para a chaleira, fumegando meus sonhos do dia anterior. Era aí que pensava na psicanálise. Que se dane a psicanálise.

Se eu tivesse um núcleo vermelho de afeto, não estaria ali, com dificuldades para decidir se tomava café ou hortelã, porque saberia de imediato que tu iria me perguntar isso e decidiríamos juntos.

Quando eu ia embora e era sempre no fim da manhã, eu fingia que as minhas urgências eram mais importantes que aquilo tudo: o toque das mãos, os beijos, os arranhões que deixavam pistas ou mesmo, aquele bilhete lindo, que escrevi para você e larguei em cima da cômoda: “o hortelã tem gosto dos teus beijos”. Mas não. Era preciso mudar tudo. Eu olhava aquele sofá cinza, minha velha estante de mogno e a sexta-feira dizia: hoje tem psicanálise. Os panfletos e textos deveriam cobrir os abismos, mas eles só grudavam na pele, enquanto o que eu desejava, era aquela rotina, cuidadosa, vermelha, precisa. Solta, efêmera, casual, mas linda nos detalhes.

Não era fácil acordar. Há um sonho vermelho que não me deixa dormir.

naomedeixadormir

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A espera sem esperança

Rafael Vendetta

Esperar, mas não com gosto.

Não tinha mais fé. Perdeu a esperança.

Era ela. A que se fora. Não havia mais jeito. Ela partiu. Não voltaria. Pegou o passaporte e partiu. Foi num dia de semana. Tudo estava bem, mas tudo mudou. Ela deixou uma flor sobre a mesa. A flor murchou e morreu.

Eu não acreditei. Achei que voltaria. Guardei a flor até o último momento.

Então comecei a andar sem propósito. Eu buscava a mim mesmo, eu me buscava ali, andando de um lado para outro sem propósito, sem o propósito de gente que busca as bibliotecas; enfileirado entre aqueles livros com códigos, eu sonhava em me encontrar na terceira estante, com algum livro, onde eu pudesse ler aquele meu manual de instruções. Mas sempre pensava que ser amado aos 30 anos era como ser um livro velho editado em 1972 numa biblioteca grande. Havia livros que nunca foram abertos, que nunca foram pegos, mas estavam na estante, esperando algum leitor chegar. E se ninguém os pegasse, o que aconteceria? Sempre saía da biblioteca com essa sensação. Que aquilo não fazia sentido. Guardar-se para algo que nunca chegaria.

Nunca tinha falado isso para nenhuma bibliotecária porque me sentiria ridículo, mas aquilo era o verdadeiro sentido da vida, ali, espremido nas coisas ordinárias. Um dia tomei coragem e questionei: há algum livro daqui, que alguém nunca leu? Ela disse, olhando de soslaio: sim, muitos. E o que fazem com eles? Não jogamos fora. Guardamos até alguém ler. E se ninguém ler?, aprofundei.

Ela tirou os óculos, olhou para os dois lados, como se fosse falar algo proibido e disse: jogamos a coleção fora, mas isso depende de um parecer e um relatório depois do outro. É tão complexo, tão complicado, que fazer isso requer muita vontade de se livrar de um livro. Então optamos por deixar ele lá, na esperança que alguém irá um dia, lê-lo. 

Mas isso é enganar o livro, refutei. Ela fingiu indignação, bateu no balcão de madeira e disse que eu deveria culpar os leitores que nunca o procuraram. Nós só os guardamos, afirmou, pegando uma caneta. A culpa na verdade não é só do livro, nem do leitor, pra mim é de ambos, finalizou.

Não quis insistir. Mas antes de sair emendei: você acha que há livros que não tem sorte? Ela respirou, guardou a caneta por sob o balcão e finalizou: são como pessoas, entenda como quiser, mas agora eu preciso trabalhar.

Depois disso passei semana como qualquer outro. Era outono. Comprei tabaco, peguei dois livros (os que tinham sorte), dormi. Comi. Trabalhei, mas isso não era digno de menção. Fiz café no fim da tarde (como nós ruiva, isso sim é digno de menção), peguei sol na soleira do prédio e deixei o jornal na água-furtada. Era hora de comprar pão e beijar o gato, depois tudo se ajeitaria.

Mas isso fazia todos os dias. O que não dizia, é que vez ou outra havia a espera. Uma espera sem esperança. Que chegava sempre com o olhar perdido. Podia ser na quinta ou na sexta, tanto fazia. Mas o sentimento era o mesmo. Ninguém ia chegar. O tempo passava. Eu lia mais um ou dois livros, mas em determinado momento pensava que podia estar me comportando como aquele livro da estante, o que nunca seria pego, o que nunca seria usado, o que nunca seria lido, o que nunca despertaria interesse. 

Foi aí, que para completar o paradigma da bibliotecária, pensei que o leitor poderia não gostar do livro, mas seria muito pior, o livro não gostar do leitor, o que me acontecia frequentemente. 

Voltei para casa. A flor continuava lá. Ruiva, eu senti tanta dor ao olhar aquela flor. Foi como se eu me olhasse no fim da semana sem qualquer filtro. Tua mala sumiu. Minha mala estava vazia, o que me deu uma sensação de não poder me encher. Pensei naquele momento em encher minha mala de livros. Mas minha dor não passava. O gato se esfregava na minha mala vazia. Eu olhava para a mesa com aquela toalha de mesa branca e verdade com manchas do nosso melhor almoço. Aí me lembrei de tudo. Sentei e pensei em você, comendo maçã. Pensei em você jogando a tua roupa no abajour. Pensei em você se despindo daquele modo natural que só você sabia fazer, mas aí voltei a realidade. E começou a chover. E eu descobri que fiquei 6 horas sentado: no sofá, na mesa, no chão, no piso do banheiro, com a água quente me massageando.

Pensei em descer e conversar com Alonso. Mas ele só iria falar do evitável. Pensei em ligar para Anatole, mas ele iria me dar jogos de armar que eu não poderia suportar. Pensei em pegar meu passaporte e partir, mas eu não tinha uma estante pra ir. Eu não tinha teu paradeiro e mesmo que tivesse, não iria te procurar, pois entendi que você era minha espera sem esperança. Você não me queria, mas eu achava que era tudo uma fraude, que era apenas aguardar você mudar de ideia e que tudo iria se ajeitar: mas quanto? Talvez, essa fosse a mesma sensação que um livro que nunca foi pego sentira. Mas livros não se enganam, eu sim.

A flor morrera, mas eu tinha um gato para cuidar, muitos livros para ler e vez ou outra eu me despia, não de modo natural, mas era preciso seguir, mesmo assim, com uma espera sem esperança no peito. Era preciso seguir, com um sol me dando, o que nenhum sentido deu. Era preciso levantar, acordar, tomar café, ler outro livro, deitar e sonhar. Enfim, fazer tudo aquilo que não é digno de menção. Tudo aquilo que deixou de ter teu cheiro. Tudo aquilo que faz da espera e da esperança, coisas vermelhas que um dia a gente põe no peito e começa a achar que é só falta de sorte.

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Um Sonho Terrível

Rafael Vendetta

Que sonho terrível.

Eu andava por uma estrada cinza. Era outono. As folhas caíam. Folhas de várias cores, mas a cor que evidenciava meu coração era o amarelo. Eu andava pela estrada. A estrada estava vazia. Nenhum carro. Aquele asfalto negro, úmido e um vento frio (não tanto). Nada. O som: apenas dos pássaros, ao fundo, nada que me tirasse a concentração de andar.

Cheguei a ver um ou dois roedores. Lagartas, pedras com limo e um pardal, comendo alguma coisa, antes de perceber que eu estava ali, e então desapareceu. Foi então que eu percebi quanta energia eu apostei naquilo tudo. Em você ruiva, antes de você sumir. E mesmo assim, eu estava ali, querendo tomar café e sentar numa mesa de madeira confortável, esperando você entrar de repente naquele restaurante agradável de beira de estrada. Mas não.

Mentira. Alucinações e imaginação sempre acompanham a caminhada. Não era nada. Aquilo era só um desejo que virou pintura, que virou a descrição do que eu queria fazer, não do que era. Isso é uma tendência. O pardal só estava lá para comer e voar. 

Mas eu, eu, cheio de débitos com o futuro, já imaginava que o pássaro me mandou um recado. É assim ruiva. É assim que funciona. A gente quer encontrar sinais onde só há vida. E a vida é uma mó, é um moinho que esmaga o que passar adiante. A vida não manda recados. A vida é natureza. E a natureza não brinca de oráculo. Ela só se move, como um granito. Como eu, caminhando ali, naquela estrada, sem cigarros. 

Sentei pra descansar num banco de madeira velho, com algum mofo branco em um dos pés. Era um banco sem sentido, cheio de folhas mortas ao seu redor e que ficava perto de uma ponte. Quem iria querer sentar perto de uma ponte? Quem foi que construiu aquilo ruiva?

Eu sentei ali, estava úmido e eu não me importei. A mochila pesava, mas não tanto como você. Você pesava mais. Suas viagens, seus sorrisos, seu sumiço. Sim, isso pesava muito mais. Teu desprezo pesava mais do que a minha mochila e acredite, acredite, minha mochila pesa bastante. Foi nesse momento, de abrir e fechar a mochila, como se dali, fosse sair algo que me dissesse: “continue, acredite, você vai chegar lá”, que eu reivindiquei a minha dor do mundo. Eu reivindiquei toda dor e não adiantou muita coisa, para ninguém, pois não tinha ninguém ali. E só eu sei, só eu, ruiva, que aquilo fez todo sentido e eu tive de sentar e olhar para o céu. Eu larguei a mochila, catei uns pedaços de madeira (velhos), me agachei e não sei por que diabos, voltei, fechei a mochila e continuei a andar. No banco haviam nomes. Corações. Iniciais. Riscadas a canivete.

Que violência.

Eu me pus a andar. Segui, atravessei a ponte, como um granito. E andei, andei, andei. Andei demais, sem saber onde começava o ponto final. E no meio do caminho eu tropecei e caí. Foi uma queda feia. Eu ralei as mãos, os cotovelos e bati o joelho com força. Isso tudo por que tentei descer e encher meu cantil numa fonte. Fui pelo lugar errado.

Não tinha mais forças. Parei e desisti. Pensei em morrer ali, esquecido. Mas meu ferimento não era tão grave. 

Eu queria ficar ali. E os pássaros gritavam com mais força, mas pássaros não gritam. Eu estava deitado. Depois de uns 20 minutos (talvez mais, eu não sei bem), um som na estada. Era um carro. Eu escutei algo parar. Escutei som das portas. E eu lá, deitado, olhando para o céu. Que lindo céu. Escutei e levantei. Meus joelhos doíam. Escutei o carro acelerar novamente. Eu corri, mas não vi nada.

Continuei a seguir pela estrada. Foi ali que comecei a chorar. Amarrei meus cadarços. Peguei um pedaço de madeira e me apoiei. Os joelhos doíam. Eu segui. Caminhei sem olhar para cima.

Um carro deu ré. Eu parei. Era um carro azul, velho, mas inteiro. O carro atravessou a pista de ré. A porta do carona se abriu. Era você. Você disse: entra aqui. vem logo.

Palavras carinhosas. Era você. Eu te achava linda, mas ali só tive tempo para sentir dor no joelho e te achar pálida. Teu cabelo estava mais liso e foi assim, que eu caminhei até ti.

Você falou mais alguma coisa. Disse que eu teria de seguir. Disse que eu teria de seguir sozinho. Eu disse que entendi, mas era mentira. Eu dizia aquilo, pois não queria que você perdesse tempo comigo.

Nos despedimos e eu continuei a andar. E achei que ia chorar.

Mas meus joelhos não doíam mais. Eu segui, como a natureza, como um granito, um mó, rumo ao destino. Eu me pus a andar.

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naohaestrada

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Teu jeito de lidar com o mundo

Rafael Vendetta

Você foi uma idiota, eu fui um idiota. Mas somos idiotas diferentes e com motivos distintos. Eu devia ter te falado que te amava, mas nunca disse. Sempre insinuei é verdade. Traduzi meu amor com meu corpo, minhas cartas (sim eu ainda enviava cartas), meus beijos e minha ilusão. Achei que você se comunicava da mesma forma que eu, mas eu estava errado.

Você tinha seu jeito próprio de lidar com a coisa. Eu me movia e pensei em comprar os livros do Neruda. Eu te dei os livros do Neruda. Confesso que não soou espontâneo, mas eu nunca fui tão espontâneo. Na hora me pareceu a melhor coisa a fazer . Achei bonitinho (e o fiz de novo, em menor grau, achando que funcionaria). Eu sempre reagia assim, falando o pouco, o necessário. Nunca fui tão longe. Mas minha ansiedade te amava. Você não percebeu? Eu te liguei tantas vezes. Eram tantos emails. Quando você ia tomar café longe de mim, eu me controlava e fingia-me liberto, mas eu estava lá, esperando você chegar. Dê-me um desconto. Eu não te vi mais. E na época nem falei tanto assim. Não sou do time dos obsessivos, pois você transpirava a tranquilidade dos amores justos.

Pense bem. Eu precisava fazer daquele jeito. Você não me viu mais. Não me ligou. Não me explicou. Não mandou nenhuma carta. Você também não tentou, diga a verdade.

E no meio de tudo, alguém passou de bicicleta, uma bicicleta cinza; eu não tinha cigarros no bolso, mas pensei em fumar. O café estava frio e eu segui, segui com os paralelepípedos emoldurando os corações inscritos no granito. Mas eu só tinha areia nas mãos e uma tarefa imprescindível a cumprir: mudar o mundo.

Então, o que eu tinha, o que eu tive? Eu tive um ou dois momentos de amar e eu joguei as fichas lá (não me julgue). Você tinha a certeza de si mesma. Tuas dúvidas não eram como as minhas. Minhas dúvidas eram profundas; eu tinha uma raiz que ligava meu coração com o compasso da vida.

E depois? O que aconteceu? Eu não sabia o que fazer com o que sobrou. Nunca fui bom em lidar com cacos. Meu problema é com o que sobrou. Não sei fazer mosaicos. Sei que não dá mais para existir ou voltar com a mandala, os livros do Neruda, com aquele encontro casual na fila do jantar. Sei que tudo passou e desmoronou. Desmoronou a ponto de sim, e aí tenho certeza, de que mesmo dando certo, algo terrível aconteceria (mentira, podíamos ter tentado, de verdade). Você se enjoaria. Talvez eu (duvido). Um de nós ia desistir (ia ser você, como sempre). Alguém ia viajar (ia ser você). Alguém ia falar que não daria certo pelo telefone ou pessoalmente (foi você). E no final você encontraria alguém, alguém para lhe suprir e eu viraria memória. Uma justa memória. Bonitinha e na embalagem mas inútil. Não serviria mais. Não serve mais. Mas foi bom para ti. Estou aí, nesse pedaço de mundo. Mesmo sem querer.

E como eu faria?

Eu buscaria outra coisa, mas não, eu só tive uma oportunidade. Desperdicei, desperdiçamos.

Eu fui um idiota. Não tentei tanto, mas esse era o meu jeito. Se eu tentasse demais ia dizer aos quatro ventos que tudo terminou por conta da minha insistência. Como eu não tentei, digo agora, que poderia ter tentado mais. É um paradoxo. No fundo, acho que tudo deu errado, pois era você, era você que tinha de decidir. E você, no momento decisivo fraquejou. Você tinha seu jeito de lidar com o mundo.

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desperdiçou

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Morra com mais dignidade

Rafael Vendetta

Uma coisa que não dá, uma coisa que eu não aceito mais, digo, não aceito, pois meu corpo não aceita, e ele sabe que não aceita com a insônia, com aquela sensação de impotência, com aquela vontade de dormir, é essa coisa do capitalismo impor a você ser uma pessoa integralmente dedicada a alguma coisa o tempo todo.

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E se você se rebela de verdade, contra essa coisa de se dedicar integralmente a alguma coisa inteira e monstruosa, resta a você essa outra coisa sempre muito inteira e integral, de derrubar o capitalismo, cotidianamente, o tempo todo, integralmente. O tempo todo, todo tempo, integralmente. Dia após dia.

Não são lados iguais. Não, não são a mesma coisa. Esqueçam-me sofistas. Voltem ao jardim de infância da vida. Não é igual. Nunca foi, nunca será. São apenas lados da mesma moeda, mas são lados diferentes. São ladrilhos  coloridos que quebram da mesma forma, em contato com o chão. Moem. Moem sim. Quem diz que não mente.

Você só vai morrer com mais dignidade.

Família fella-feelings

Rafael Vendetta

Deslocado e quem haveria de ser? O posto era meu e eu ocupei sem escândalo. Ninguém me colocou nessa posição pelas minhas crises de choro na festa do Tio Lauro, não, eu nunca chorei publicamente, isso é coisa dos filmes. Não, eu não quebrei pratos, não fui para a reabilitação (mas conheço gente que foi) e tampouco fugi com meia dúzia de mudas de roupa para a Alemanha oriental. Eu segui como de costume e meu maior atrevimento foi ser o que eu sou. De ir além do que era preciso, porque o que era preciso era ficar restrito ao que todo mundo achava que eu era. Depois disso, alguém percebeu e foi assim, que tudo começou, tudo, sem muito alarde.

É na segunda metade da vida que a gente aprende a negar, escolher, optar. Em algum momento eu resolvi escolher o que eu queria, mas dei o azar de ser o esquerdo da família. Todo mundo dá um azar no mundo, esse foi meu azar. De nascer esquerda ou esquerdo. E me lembro bem, pois bem, nunca se esquece quando se ganha a consciência de ser esquerdo. E foi numa nobre ocasião, onde a quadrilha de festa julina, feita por demagogas do jardim de infância, pretendia me cultivar como um cacto, até que resolvi estragar a expectativa feliz da tia Cláudia e resolvi não dançar. Não dançar tia Cláudia. Não dançar. Estraguei tudo tia Cláudia. E só tinha seis anos. E todos e todas dançando e bailando, enquanto a tia Cláudia quebrava um lápis com a força dos dedos e da tradição e as demagogas formadas no amor às flores que ainda não desabrocharam, me deixaram lá, assistindo tudo, impassível. Eu, heróico-esquerdo, jovem esquerdo, com apenas seis anos, sentado, de braços cruzados, olhando a festa da primavera, digo, a quadrilha, para lá e para cá, bailando como a Luftawaffe nos céus de Paris. Depois disso foi como se eu tivesse chamado o mundo para a briga.

1024px-August-Landmesser-Almanya-1936Eu esperava uma oposição irredutível. Esperava alguém gritar, apontar o dedo, me combater. Esperava ser deserdado, ter meu direito negado na divisão do pavê de final de ano, ou até mesmo, alguém fechar a cara quando eu entrasse com aquela blusa em homenagem aos pretos e pretas que derrotaram com armas na mão o regime colonial francês. Mas não.

O funcionamento interno seguiu outro caminho. Eles sorriam e apertavam minhas mãos. Eles me serviam bolo de baunilha e até lembravam de mim quando aquela reportagem na Tv a Cabo mostrava meia dúzia de esquerdos no Egito ou no Paquistão.

No primeiro jantar ninguém ligou: menino das letras! No segundo, nenhuma reclamação, “ele tem  opiniões diferentes” e no terceiro ou quarto reveillon eu já era parte do teatro (esse garoto é muito inteligente sempre frisavam), junto com o alface e as piadas recalcadas no fundo da sala. A ovelha contrariada tem seu lugar no presépio de fim de ano, ao lado do Papai Noel. Alguém até fingia uma polêmica, apesar de tudo não durar mais do que cinco ou sete minutos. Eles me serviam e até davam aquele tapa nas costas ensaiado. Eu também tinha meu lugar na mesa e quando a polêmica surgia, depois de cinco minutos, as oposições pacificavam-se com guaraná e fotos familiares. E passava-se a conversação monocórdica, com as cortinas, o sorriso dos cunhados perfeitos e os genros que agiam como os genros deveriam agir. Pois os genros bons eram os genros que agiam como os genros deveriam ser: magnifique. Fella-Feelings rapaz.

Sim, tudo acabava bem. Encantador. Esplêndido. Perfeito. Tudo alinhado, junto com os astros e os aniversários de junho, julho e agosto. Sim, tudo no caminho: filhos, faculdade, cortinas e meninos de um lado, meninas de outro. Tragam o molho rosê e a aspirinas do tio Joel. Que menino inteligente frisavam! Nossa, como é inteligente! Tia Cláudia, eu ainda estou aqui, mas não há mais lápis quebrados. Você agora pode sorrir e fingir alívio quando eu entrar. Você quer dizer tia, mas não consegue, a música está tocando, eu posso sentir. Eu só escuto os ruídos do telefone e  os atos falhos do intervalo do guaraná.

Que violência.

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* A foto é de um comício nazista. August Landmesser em destaque é o nosso herói.

Uma resposta a uma cantada na noite – Ana Cristina

Rafael Vendetta

Há meninos lindos, que desfilam pela calçada-faculdade-passarela como anjos que descem do céu com batom glacê, que por uma noite ou outra, lhe tocam bem no meio dos rins dizendo: você quer ***** comigo?

As palavras impublicáveis antecedem o estupro. Daqueles machos coroados com carros instantâneos, que atingem de zero a cem como um gozo precoce, que vem com uma arma, um energético e um advogado da Avenida Paulista que transforma um homícidio culposo numa lesão corporal leve no porta-mala.

Esses meninos lindos, que mamãe premiara com uma morning-star e uma armadura de oitocentos reais para caçar princesas com um gládio na pélvis costumam dizer na noite: gata, você é gos-to-za. Goxxx-tosa, com aquele filme pornô nas mãos.

Meu amigo, quem não gosta de *****? Mas e a relação de poder onde fica?

Presta atenção, quando você quebrar meu braço dentro de uma boate, eu não vou poder segundo as tábuas de Moisés reunir vinte mulheres e lhe dar, os hematomas e a correção justa que você merece. Eu terei de ir aos homens da lei. O delegado fão de redbull, o juiz machista e malhado, o promotor que luta jiu-jiutsu com seus colegas de barbárie. Entendeu? Eu vou perder muito tempo.

Pense bem meu amigo. Eu não vou entrar como uma ação e muito menos poderei ir a um jornal da Tv, editado por um aliado seu.

Olhe, pense novamente. Calcule com atenção. Porque da próxima vez que você fizer isso, eu terei de comprar uma arma. E aí você ja viu né? Mamãe vai chorar e nem botox vai salvar o seu enterro de caixão-fechado.

Da violência simbólica

Rafael Vendetta

Acabou. O horror sem a praia. A folha de papel está vazia e o café quente na mesa. Quando acordo não consigo dormir. Quando durmo não consigo acordar. O  desafio dos passos cotidianos. Sair de casa sob sonhos esmagadores sem caneta, pegar um ônibus, cumprir as tarefas, mastigar.

E aquele passado invencível na mesa, junto do pão e do café, esperando alguém abrir a janela, fumar cigarro e voar por entre os prédios desse bairro cinza. Não queria virar escritor? Mudar o mundo? Viajar ao redor do globo? E agora, nem consegue abotoar os botões sem olhar para o nublado do céu? O tempo está passando. Amanhã são trinta, quarenta, cinqüenta anos. E tem gente na fila, esperando o seu lugar adulto vagar.

Me responde agora: essa poesia consegue fazer a ferrugem falar? Todo mundo é escritor.  E se isso aqui está sem sentido é por que a tradução do estranhamento não é uma coisa que se possa resenhar com o livro do Bourdieu nas mãos minha querida. O que você esperava de mim? Eu sou como você. Só vim aqui para cumprir tarefas e esperar o tempo passar para morrer/viver. Não seja tão exigente.

Não posso ser maior do que sou. Olha a folha de papel vazia. Vou voar por aí amanhã, hoje eu espero que o mundo abra uma janela sem me perguntar porque diabos o tempo passou e eu ainda estou com esses sonhos recorrentes nos olhos. Me deixa em paz. Cuida da sua própria ferrugem.

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Contemplação

A organização das casas, o formato dos portões, a velocidade e forma dos carros, as pessoas indo de um lado ao outro, dia após dia; os botões, as tartarugas da indochina, os livros de pós-estruturalismo, os livros que negam o pós-estruturalismo, a gramática, alguém que resolve não pensar nisso tudo, o planeta terra, as geleiras glaciais, o deus cristão, a organização da poesia, pensar sobre o caos. É você.

No café da manhã aquela decisão: querosene! Querosene! Preciso de quarenta litros de querosene!

Queimou os livros e assou batata-doce a tarde inteira.

Angústias de um estudante

Ninguém começa nada do zero. Apenas os covardes ou os vaidosos. Todo mundo se apóia em alguma coisa ou em alguém, diziam.

Mas ele resolvia seguir fazendo sozinho o que outros setenta nomes espalhados na cidade também faziam, sem se dar conta que neste mundo, nem as lágrimas e as pedradas podiam ser lançadas sem as malditas notas de referências bibliográficas.