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A dignidade é silenciosa

Rafael Vendetta

Baseado nos rascunhos de um exílio

A dignidade é silenciosa. Hoje eu a vi, num sorriso de uma criança, numa horta comunitária no fundo de um quintal. Numa rua com 20 cachorros sujos e maltrapilhos, num mate passado de mão em mão, na verdade sincera de quem vive nas franjas de uma máquina de moer gente.

Mas a dignidade, como eu disse, é silenciosa. Ela chega no sorriso de um igual, na piada pela manhã (em meio a escombros), nas mãos calejadas de quem amacia o pão que será dividido no amanhã, sem saber se haverá pão ou amanhã suficiente para todos os iguais.

Eu caminhei por entre ruas de barro, com a terra arrasada da América Latina (criando estrangeiros/as em ritmo industrial) enfeitando o fundo da minha memória e me pareceu que todo o meu pretenso e orgulhoso sofrimento era apenas um esporte entediante. Aquela coisa, aquele estranhamento que me parecia horrível, só funcionava nos labirintos da cidade, no conforto do umbigo industrial.

Quando eu fui mais ao fundo, mais além do que a superfície pode me levar, eu vi a dignidade nascer da pobreza, como uma rosa nasce nas fissuras do concreto.

Eu olhei para a dignidade e vi que não havia uma fissura no meu coração, que era preciso ir até o fundo para se buscar aquele feixe de luz que iria me levantar no outro dia, com um sol e a dignidade dos justos me dizendo para seguir.

Naquele breve momento, senti-me um igual e esqueci que por aqueles dias eu era um estrangeiro. Obriguei-me a seguir e entendi que sentir-se estrangeiro fazia-me caminhar e buscar meus iguais.

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Família fella-feelings

Rafael Vendetta

Deslocado e quem haveria de ser? O posto era meu e eu ocupei sem escândalo. Ninguém me colocou nessa posição pelas minhas crises de choro na festa do Tio Lauro, não, eu nunca chorei publicamente, isso é coisa dos filmes. Não, eu não quebrei pratos, não fui para a reabilitação (mas conheço gente que foi) e tampouco fugi com meia dúzia de mudas de roupa para a Alemanha oriental. Eu segui como de costume e meu maior atrevimento foi ser o que eu sou. De ir além do que era preciso, porque o que era preciso era ficar restrito ao que todo mundo achava que eu era. Depois disso, alguém percebeu e foi assim, que tudo começou, tudo, sem muito alarde.

É na segunda metade da vida que a gente aprende a negar, escolher, optar. Em algum momento eu resolvi escolher o que eu queria, mas dei o azar de ser o esquerdo da família. Todo mundo dá um azar no mundo, esse foi meu azar. De nascer esquerda ou esquerdo. E me lembro bem, pois bem, nunca se esquece quando se ganha a consciência de ser esquerdo. E foi numa nobre ocasião, onde a quadrilha de festa julina, feita por demagogas do jardim de infância, pretendia me cultivar como um cacto, até que resolvi estragar a expectativa feliz da tia Cláudia e resolvi não dançar. Não dançar tia Cláudia. Não dançar. Estraguei tudo tia Cláudia. E só tinha seis anos. E todos e todas dançando e bailando, enquanto a tia Cláudia quebrava um lápis com a força dos dedos e da tradição e as demagogas formadas no amor às flores que ainda não desabrocharam, me deixaram lá, assistindo tudo, impassível. Eu, heróico-esquerdo, jovem esquerdo, com apenas seis anos, sentado, de braços cruzados, olhando a festa da primavera, digo, a quadrilha, para lá e para cá, bailando como a Luftawaffe nos céus de Paris. Depois disso foi como se eu tivesse chamado o mundo para a briga.

1024px-August-Landmesser-Almanya-1936Eu esperava uma oposição irredutível. Esperava alguém gritar, apontar o dedo, me combater. Esperava ser deserdado, ter meu direito negado na divisão do pavê de final de ano, ou até mesmo, alguém fechar a cara quando eu entrasse com aquela blusa em homenagem aos pretos e pretas que derrotaram com armas na mão o regime colonial francês. Mas não.

O funcionamento interno seguiu outro caminho. Eles sorriam e apertavam minhas mãos. Eles me serviam bolo de baunilha e até lembravam de mim quando aquela reportagem na Tv a Cabo mostrava meia dúzia de esquerdos no Egito ou no Paquistão.

No primeiro jantar ninguém ligou: menino das letras! No segundo, nenhuma reclamação, “ele tem  opiniões diferentes” e no terceiro ou quarto reveillon eu já era parte do teatro (esse garoto é muito inteligente sempre frisavam), junto com o alface e as piadas recalcadas no fundo da sala. A ovelha contrariada tem seu lugar no presépio de fim de ano, ao lado do Papai Noel. Alguém até fingia uma polêmica, apesar de tudo não durar mais do que cinco ou sete minutos. Eles me serviam e até davam aquele tapa nas costas ensaiado. Eu também tinha meu lugar na mesa e quando a polêmica surgia, depois de cinco minutos, as oposições pacificavam-se com guaraná e fotos familiares. E passava-se a conversação monocórdica, com as cortinas, o sorriso dos cunhados perfeitos e os genros que agiam como os genros deveriam agir. Pois os genros bons eram os genros que agiam como os genros deveriam ser: magnifique. Fella-Feelings rapaz.

Sim, tudo acabava bem. Encantador. Esplêndido. Perfeito. Tudo alinhado, junto com os astros e os aniversários de junho, julho e agosto. Sim, tudo no caminho: filhos, faculdade, cortinas e meninos de um lado, meninas de outro. Tragam o molho rosê e a aspirinas do tio Joel. Que menino inteligente frisavam! Nossa, como é inteligente! Tia Cláudia, eu ainda estou aqui, mas não há mais lápis quebrados. Você agora pode sorrir e fingir alívio quando eu entrar. Você quer dizer tia, mas não consegue, a música está tocando, eu posso sentir. Eu só escuto os ruídos do telefone e  os atos falhos do intervalo do guaraná.

Que violência.

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* A foto é de um comício nazista. August Landmesser em destaque é o nosso herói.

Uma revolução freudiana

Rafael Vendetta

Eu perdi Justine há dois anos. Ela era minha paciente. Cuidei de Justine durante doze meses. Hoje tomo 90 mg de fluoxetina, mas ainda sinto uma cefaléia crônica que ninguém nunca conseguiu curar. Sinto uma sensação de prazer ao subir no banespão. De lá eu sinto vontade de voar, voar, voar como São Jorge e o Dragão. Algumas pessoas me disseram: vai passar. E eu dizia: e o banespão? Outras me disseram: não, sua dor de cabeça, procure a igreja, pobreza não é de deus. E eu dizia: você tem plano de saúde? E aí ninguém dizia nada. Porque as pessoas sentiam culpa de ver as outras sem plano de saúde.

Mas eu segui, segui com a perda de Justine nos ombros, nos bolsos, onde dava para guardar. A psicóloga me dizia: “É preciso ficar atenta quando a melancolia é frequente ou tem grande impacto no cotidiano, criando dificuldades em fazer as atividades de vida diária, como se relacionar e trabalhar”. E eu dizia: você leu isso com o Goffman? Ela enrubecia e escondia o manual por debaixo da gaveta.

E eu continuava falando: Você quer que eu trabalhe? Eu também quero trabalhar. Mas a tv dizia que a miséria era do diabo e um dia, na Carta Capital eu li que meu pastor tinha 15 milhões guardados e nunca jesuscristou com ninguém seu parco salário de filho de deus. As pessoas abaixavam a cabeça e paravam de falar comigo.

Minha terapeuta, quando confrontada com esses fatos, respondia: você está racionalizando sua dor? O que significa essa sublimação pra você? Eu dizia: só quero saber se seu diploma vale alguma merda e se você se endividou como eu! Fora isso, tudo é teoria freudiana. Ela terminava a consulta e falava pra eu  anotar meus sonhos, mas eu sentia que ela tinha voado como uma borboleta e algum pedaço de mim, tinha grudado no seu pulmão de psicóloga e que ela nunca mais me atenderia do mesmo jeito.

No final do dia alguém dizia na fila do ônibus: revise sua medicação. Eu sussurava: peça para o governo baixar os preços! Mas uma voz na minha cabeça, uma voz gritava: sua cabeça não boa Justine, não tá boa… E eu dizia ao som da internacional: que a fluoxetina seja dada de graça aos pobres. Viva a revolução.

Depois desses dias turvos eu desisti, e fui caminhando por entre os escombros de um maio de 68 qualquer. Segui os jargões. Escrevi em todas as paredes do hospital com giz: “há dias que são cinzentos”.  Um dia um mulher me olhou com ar de reprovação. Era uma enfermeira. Ela questionou: essa frase é do che guevara?

Eu disse, não é do Camus. Ela se calou, deixou cair um termômetro, visivelmente nervosa e disse olhando os cacos: tome sua medicação.

Eu falei: vai ler o Estrangeiro.

Ela emudeceu e começou a chorar.

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Vidas ordinárias

Leandro cheirava cocaína e fazia análises demográficas no final de semana.

Isabele comia cheetos e transava spinning.

Luís lia Nietzsche e bebia cervejas.

Alice colecionava manifestações. Durante semana não fazia mais nada.

Hagiografia de Pecadores

Rafael Vendetta

Júlia queria viajar para o Uruguai e levar a vida junto. O país recortado por fronteiras imaginárias  que nunca existiram esperou.

Renato, com uma ansiedade menor que o preço da passagem, aguardava um ônibus sujo, numa madrugada imunda do dia dezessete de um mês ruim.

Alessandra queria terminar uma poesia e só precisava de uma idéia ou de uma caneta, mas só tinha o número da conta do banco no bolso.

Miguel transbordava emoção no centro da cidade, e seguia evitando as linhas de uma calçada no cruzamento da rua Ouvidor.

O sorriso de Augusto falava por ele; quando encontrava Luisa, seus dentes não acertavam o compasso.

Nicolai esperava alguma coisa acontecer, mas só lhe chegavam desejos impossíveis e balas de mascar nos ônibus mais desconfortáveis.

O coração de Joana guardava Felipe em um de seus cômodos mais aconchegantes, mas Enrico ainda tinha um esperança que o inquilino atrasaria o aluguel.

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Manifestação Legítima

Há pouquíssimo tempo, uma novidade atrai a curiosidade dos frequentadores do centro do Rio de Janeiro. Vestindo uniformes e portando megafones, pequenos grupos de trabalhadores interferem na rotina frenética da cidade. Espalhados em diferentes locais, esses guerrilheiros da propaganda atuam diretamente no cotidiano dos transeuntes, disseminando energicamente seus discursos inflamados. “Da primeira vez que vi, confesso que achei que era um grupo de esquerda, até porque ouvi a palavra liberdade umas duas vezes, durante o pronunciamento público da moça que portava o megafone”, revelou um amigo.

Os “manifestantes” na verdade são trabalhadores mal-remunerados, assalariados. São contratados pelas empresas de telefonia para venderem, aos berros, os chips de suas operadoras aos transeuntes dia após dia. “Curiosa manifestação.” Pensei alto. “E veja, esta liberdade não é proibida.”

Esta pequena prosa poética de minha autoria foi publicada na seção Flagrantes delitos, do site Passapalavra.

http://passapalavra.info/?p=38875

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Ana Cristina, a resiliente

Fui naquela exposição, mas não consegui olhar nada minha querida. Por que? Pelas pessoas muito perfeitinhas. Corte de cabelo quadrado, roupinhas, brinquinhos, xadrez, e aquela coisa toda. Gente que não tem problema. Como assim? Está surpresa?

Escolher sanduíche é problema? Perder a vaga no curso de alemão é problema? Sujar o vestido de bolinhas é problema?

Não pudia olhar para os quadros, nem para as telas, nem para aquele parangolê gigante feito de silício, por que para apreciar a arte e a burrice alheia filhinha, é preciso se despir de tudo. De tudo minha filha.

Da dor no pescoço. Da ordem de despejo. De dormir num colchão inflável sobre os tacos de madeira. Do processo de seis laudas. De não ter toalha para se enxugar.

Sobreviver sem analgésicos e alargadores filha, não é para amadores.