Novos Rumos

Postado em prosa poética, pílulas poéticas, silêncio, solidão com as tags , em 12/11/2009 por Mr. Durden Poulain

Procurando algum poema ou café sem açúcar

Para encher aquela solidão de sentido

A Altura do silêncio

Postado em contos, silêncio com as tags , , em 04/11/2009 por Mr. Durden Poulain

Foi de um dia para outro, pois de fato tudo muda de um dia para o outro e não o inverso, que as coisas precipitaram em silêncio.

Primeiro o volume baixou; a coisa já diminuíra sorrateiramente ao longo da vida, mas de uma hora para outra, alguém puxou o botão para baixo e tudo se calou em trevas.

Com o volume baixo, percebeu que a velocidade era definida pelo barulho, quanto mais alto, quanto mais vozes, mais frenético se comportava.

Calou uma voz atrás da outra, até que tudo chegara à um limite indispensável. As vozes eram agora sussuros, os gritos, conversas, e seguindo aquela lógica, alguém resolveu chamá-lo de monge, mas na verdade era um quase surdo. Não era religião nem fé, mas algum defeito congênito ou trauma natural: vontade implícita de comer destino.

Diagnosticá-lo era impossível, estava profundamente feliz com aquele acontecimento mágico e inesperado. Não precisava pedir por repetições de frase, escutava tudo de forma completa, mas apenas mais baixo, mais baixo, como se removessem o eco e os ruídos, toda vez que algo ou alguém falasse.

Da clareza de som brotou a clareza de espírito, e tudo permanecia tranquilo: era como caminhar todos os dias num jardim de inverno japonês.

As folhas, o ônibus, os caixas-eletrônicos moviam-se mais lentamente; ele, este pedaço de coisa rápida que parecia uma folha branca pré-desenho, passou de estrondo à ponto final: sem ruídos das latinhas, dos passos trôpegos, daquela tv de si mesmo que chamava espelho nos finais de semana; tudo assim, como um passarinho na mata.

Completo silêncio. Puxou o botão para baixo e calou-se em trevas, de um dia para outro, o barulho negado.

E aquilo tudo, aqueles lábios, os desencontros, pareciam chistes sonoros, exceções, de uma vida ruim, que jazia calada naquele peito silencioso, que alguns barulhentos chamavam de coração.

Mas era silêncio que corria naquelas veias, aquele sangue era silêncio, era aquela coisa muda e calada que chamava de vida, e um ou outro insistia em dizer que era uma pessoa “difícil, difícil, dificílima de se lidar…”.

Mas no fundo, não entendiam o silêncio, por que sempre fizeram barulho demais, e as coisas precisam se precipitar da altura do silêncio de vez em quando.

Quando a sinfonia transformou-se em rotina

Postado em microcontos em 03/11/2009 por Mr. Durden Poulain

E havia um ponto que a caneca verde encontrava a mesa de tampo de vidro, que encontrava as digitais daquela mão, que encontrava aquele ar denso, que encontrava o tapete da sala, pregado na parede, que o encontrava assim, encastelado no sofá com cara de perdedor, sem encontrar ninguém.

E ele que fingia forjar personagens, que nunca reconhecia ninguém, mesmo no espelho, pensava no reveillon, na cerveja, na puta que pariu, no fim do mundo.

E aquela sinfonia, aquela sinfonia irritante, e os tímpanos quase explodidos na mesa, era The Who, mas parecia Vivaldi ou algum barulho de apocalipse motorizado, de metrópole.

E aí, um dos dois gritou: – nunca mais, nunca mais. E tudo continou como se não precisasse mais daquele fundo discreto, daquele vaivém de rotina, daquela  cortina cinza que algum imbecil insistia em chamar de vida.

Acordo secreto

Postado em conversas que renderam prosas, este post não deu certo, prosa poética com as tags em 29/10/2009 por Mr. Durden Poulain

Na minha estante, muitos livros do neruda; mas me desfiz de todos, rapidamente.

É um acordo secreto: meu e do Neruda. Ele só me pertence de passagem, vira presente sempre. Pois não é justo pertencer algo que ficaria triste na minha biblioteca.

É melhor ele sair distribuindo felicidade pro mundo do que olhar alguém que não é feliz o suficiente para poder lê-lo.

Cinza após cinza

Postado em pílulas poéticas com as tags , , , , , em 26/10/2009 por Mr. Durden Poulain

E me sobra um infinito cinza
Cujas cores escasseam, mas gritam na rua
Gritam na rua
Com o arame farpado dos prédios
Nos dedos

Emoldurando
Minha solitude bêbada
Recortando-me cinza após cinza
Com o arame farpado dos prédios
Nos dedos

Aluguel

Postado em parcerias, pílulas poéticas em 26/10/2009 por Mr. Durden Poulain

Possui banheiro, geladeira
Fogão e fosso
Um fosso escuro e sem fundo
Um fim eterno
Que não paga condomínio

Feito em parceria com Felipe Liro, amigo e companheiro de angústias, abismos, poemas.

Ana Cristina queimou Hélio Oiticica

Postado em contos em 18/10/2009 por Mr. Durden Poulain

- Depois de queimar as obras de Hélio Oiticica você desceu. Por onde você desceu?, inquiriu Nélio.

- Querido, eu não sei, pois no exato momento que eu olhei a chama crescer, eu tropecei na garrafa de abscinto, oitenta reais jogados fora, e aí minha memória se esvaiu com o líquido verde e os culhões do Hélio ali, largados na calçada.

- Quem te dava apoio? O motorista do carro que te pegou, fale sobre ele.

- Amor, eu estava com uma música incessante do Young Marble Giants na cabeça. A coisa se repetia, se repetia e batia forte nos tímpanos, e aí alguma voz me disse, queima tudo, queima aquela merda toda! Bota fogo nesse pós-modernismo de quinta! Era quase como uma rave.

Pausa. Olharam juntos a caneca vermelha, tudo naquela delegacia parecia arte-noveau. A latrina da 14 Dp então, virou Warhol sem vírgulas, sem línguas.

Soares,  sensível e compenetrado oferece água para Ana. Ela bebe de sopetão, no fundo dois ou três observadores, mas na cabeça havia dire straits, iogurte natural e aquele calor, aquele calor que crescia junto com a memória e com aquela vontade de voltar lá e repetir tudo novamente.

- No mínimo quinze anos se você não colaborar. Quinze. Facilita. Diz logo pra mim que a gente encerra tudo, falou Soares, ressaltando a voz com uma ênfase que agradaria seus professores de literatura brasileira.

- É bem provável que você consiga pagar fiança ainda hoje. Vai dormir em casa Aninha, pontua o major, infantilizando-se freudianamente.

- Não tenho dinheiro Soares. Sua farda de merda não me faria ter dignidade suficiente para me obrigar a te responder. Cansei disso tudo; se você quer respostas filho, procura um psicanalista, minto, psicoterapeuta jungiano ou faz prova pra PM de novo meu amor: ainda há tempo.

- Por enquanto, só posso dizer que queimei aquela merda toda por que alguma coisa me disse, Aninha, Aninha, queima aquela merda, queima logo, antes do Natal; mas eu não tinha como adivinhar que a coisa ia ser tão fácil assim, meu querido.

Com o corpo cabisbaixo, ela respira e levanta metade do corpo. Um sorriso estridente toma conta do lugar, ela pede o isqueiro, Soares permite, mesmo com o medo daquele símbolo da BIC que se avolumava diante da proporção dos fatos. Ela acende, traga, e decide falar, cuspindo a fumaça, e lembrando do vestido vermelho que esqueceu na corda, molhado.

- Se eu fosse organizada, te provaria, que Hélinho, dois anos antes de morrer deixou um documento escrito com sêmen e sangue de puta, me permitindo queimar a obra dele toda se o mundo virasse um parangolê gigante. Como sou uma filha da puta desorganizada, estou aqui dentro, jogando papo fora, papo torto e me punindo por não ter guardado aquela merda toda.

- Na verdade eu fumei o documento cinco meses depois.

O oficial colocou as mãos nos bolsos, estava desistindo, apesar da valentia.

- Você não quer colaborar, vou ter de te levar.

- Soares?

- Diga.

- Anota essa merda aí: queimei aquilo tudo, porque eu sempre odiei os patrões.

- Patrões?

- Sim porra. Os que moram no Jardim Botânico, teus patrões. Detesto aquele bairro maldito.

- Me dá agora mais um cigarro, e me diz que me ama seu puto, me chama de parangolesa. Me chama de Hélia Oiticica meu menino pirofágico – e começou a rir para o ócio daqueles policiais militares que nunca escutaram falar de Zélio Oititica na vida, como bem tinha relatado o escrivão.

A Festinha no Térreo

Postado em microcontos em 14/10/2009 por Mr. Durden Poulain

Para escrever é preciso desastres.

Mas eu que só tenho repetições de coisas pequenas, que calculadas de maneira miúda se concretizam, não sirvo para escrever, só sirvo para existir, como um saleiro com arroz integral.

Se tivesse algum terror pessoal guardado na gaveta ou uma tragédia na ponta da língua para contar diria: sou escritora.

Mas eu só tenho pequenas bobagens, pequenos desastres. Frágeis, inconsistentes e cíclicas inadaptações.

Meu terapeuta que não era crítico literário já me avisara: Ana Cristina, isso aí não faz um defunto, no máximo um medíocre e olhe lá!

E eu, com aqueles meus textos soltos na mão, não chorava, e olhava para ele com cara de pena ou de raiva, dependendo do dia do mês.

Quando as minhas forças já estavam exauridas, eu não conseguia me matar, pois toda vez que eu me jogava do apartamento eu voava de volta como uma gaivota.

No térreo dançavam os meus joelhos esfolados e minha compulsão por bandaid.

E em alguns dias, em uma morte cotidiana que chamam de festas, alguém dizia com pressa: Ana Cristina, sua idade, o que você faz, onde você estuda?

Que importa o clube dos imbecis? Que importa os delinquenteszinhos de apartamento, se o que verdadeiramente vale é olhar com fé para aquela janela grande e cretina de frente para aquela baía suja e que emudecia aquele mundinho térreo, que subia e descia, subia e descia, sem surpresas?

E era assim, quando a cabeça girava, as luzes cresciam, tudo ficava meio inaudível, e alguém no fundo de mim existia com aquela raiva sangrando nos dentes e eu costumava dizer bem alto para aquelas festas e pessoas melancólicas:

Sou mais velha que você e não sou escritora!  Eu sou alcoólatra!

Caminho do metrô

Postado em microcontos em 12/10/2009 por Mr. Durden Poulain

Acordar de manhã. Escovar os dentes, beber café, passar a manteiga no pão, cortá-lo da esquerda para direita, mastigar, engolir, jogar o papel toalha na lixeira branca, tomar o caminho do metrô.

Pagar o bilhete, ouvir o barulho do vagão, entrar, ser empurrado, encostar na porta, ler aquele livro, esperar o fim da viagem.

Trabalhar, aguardar o horário de almoço. Beber café.

Ler o texto, sentar, assistir a aula; assistir as pessoas assistirem umas as outras.

Vagão ou ônibus, paralelepípedos, cerveja, banho, engolir alguma comida, cerveja, computador, cama.

Prioridades.  Aguardar o sono, às vezes alguma insônia, algum sonho: dormir, beber café, flutuar, assistir e entrar numa televisão.

Acorda-se. E aí escova-se o dente, bebe-se café, passa-se a manteiga no pão cortando-o da esquerda para a direita.

Lixeira branca, metrô, pausas para o café.

E às vezes, assim sem motivo, alguém morre.

Corpos sem Medo

Postado em amor, prosa poética em 26/09/2009 por Mr. Durden Poulain

Daquele modo, o mesmo que nunca combinávamos de antemão ou que de nenhuma maneira treinávamos, conseguiámos funcionar maravilhosamente bem, à despeito de em nosso ceticismo cotidiano não acreditarmos bem, como uma coisa que nunca foi treinada ou planejada pode funcionar de forma tão perfeita, tão harmoniosa e tão honesta quanto nossos corpos funcionavam quando encontravam-se.

Mas se algo funciona, funciona normalmente por um objetivo, e nós, iconoclastas natos, não tínhamos nenhum: acariciávamo-nos, beijávamos nossas frontes e empoleirávamos nossas pernas e braços, e dedos, e desejos, e íamos montando toque sobre toque, derme sobre derme, aquele castelinho de cartas que caía como um assoprão à cada orgasmo mais forte. E eram seis ou sete ou onze por noite(acreditem os céticos), mas retornavam com aquela fome mútua que nos permitia esquecer as roupas e as ansiedades no chão; e então voltávamos a buscar mais orgasmos de maneira perfeita e harmônica  e nossos corpos se encontravam novamente naquela penumbra, quando a coisa toda, então deixava de ser uma promessa para virar uma orquestra.

E sim, era aí roja, era aí roja, que a música dos corpos misturava-se à melodia do coração, era aí que o mundo dobrava-se naquele cômodo como uma coisa assim, tão fácil de ser guardada ao lado do coração.

Nos juntávamos como as cartas, e havia um ponto que o cômodo e o baralho de coisas cotidianas que faziam-nos distintamente diferentes traçavam a estrada que apontavam para as distâncias, para os quilômetros de geografias implacáveis, para aquilo tudo que chamavam nos intervalos do metrô de realidade.

E aí advinha aquela lembrança, só nossa, aquele suspiro, aquele olhar, aquele universo inteiro delineado naquele pedaço de mundo que nós chamamos de paixão; mas escute, escute, antes que mais alguma fé resolva calar nossos corpos, aquilo tudo, aquilo tudo era paixão, era uma paixão sem medo, pois paixão com medo a gente chamava na distância, era de rotina.